Sunmi e a vida como palco

"O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram, saem de cena e cada um no seu tempo representa diversos papéis"

A famosa frase poderia ter sido facilmente dita por algum famoso ou escritor contemporâneo a respeito das redes sociais, mas foi proferida há centenas de anos por William Shakespeare, antes que qualquer meio internético social pudesse ser imaginado. E incrivelmente, é justamente tema do MV Noir, da Sunmi.



Quanto tempo você gasta na internet? E especificamente no Facebook, Twitter e Instagram? Falar sobre alienação contemporânea não é algo novo no ocidente nem no oriente, muito menos no próprio kpop. Dean, por exemplo, tem uma música dedicada à famosa rede social de fotos. Então, o que difere a produção da Sunmi? Eu diria que nada e tudo.

Obviamente estamos falando de kpop, um estilo que existe em essência para reciclar e recriar novas sonoridades. Portanto, a sonoridade e visual de Noir remontam ao pop indie - é identificável algo similar a Sunwoo, Wednesdey Campanella, Mondo Grosso, Heize e uma gama enorme de artistas asiáticos que ostentam a alcunha de alternativos, assim como Dua Lipa, Sevdaliza, Lorde, Years & Years e etc. Sunmi sabe bem como escolher as referências com que trabalha e esse talvez seja o seu maior acerto. Ela sabe bem aonde quer chegar e como quer chegar.


Em Gashina, a música que a catapultou ao sucesso após o fim das Wonder Girls, o EDM junto da crítica jocosa à figura da idol feminina coreana (estilo muito bem representado por Hyunah, diga-se de passagem) levaram à sua reapresentação aos holofotes. Ainda que clichê, a produção coloca Sunmi como a própria originalidade em si. É a sua presença, a sua voz, em suma, a sua interpretação, que diferenciam tudo. Sem ela, a música não seria a mesma.

Heroine apostou na mesma carta, porém mais voltada ao lado pop massivo. Está ali o objeto de estudo de Sunmi: a questão da figura feminina sob o sucesso. Não só ela mesma, mas todas as que a rodeiam, porém, de forma diminuta: as cores, os visuais, falam mais alto. As paredes facilmente mutáveis, as fantasias, a tiração de sarro, em síntese, a vida como teatro, se faz presente enquanto noção estética. Gashina vai direto na problemática talvez feminista sobre relacionamentos e Heroine ostenta já o lado popstar, com menos crítica e mais ação.


Siren continua a debater a figura feminina dentro de um relacionamento conturbado, mas dessa vez sob a perspectiva interna. Perceba: para falar dessa perspectiva, Sunmi precisa ser mais introspectiva. É aí que começa o desenvolvimento de seu lado mais alternativo, mas sem perder o pop clichê como fonte. Danças, maquiagem, batidas, tudo se junta em prol de representar teatralmente a mente da artista. Ou melhor, não apenas representar, mas quase nos fazer experienciar. Nisso vem o acréscimo da tal bizarrice, que parece aleatória, porém é uma forma de demonstrar emoções tão complexas. A crítica em si se esvai um pouco, e o lado emocional, misterioso, fala mais alto. Um lado sempre presente em seus singles anteriores, mas não de forma tão focada.


Eis então que finalmente chegamos em Noir - para mim, uma mescla perfeita do lado emocional e crítico de Sunmi. O seu lado performático e introspectivo, mas claro, dentro da proposta de música alternativa no Kpop.

No videoclipe, uma mulher olha para o seu bolo de aniversário. Na sua cara, a expressão é nula. Nem dor. Nem felicidade. Apenas o vazio. Ela olha atentamente aquele bolo, que de repente começa a explodir em fagulhas. Sutilmente muda a posição, coloca o celular a frente e logo surge o sorriso.


É atuando que Sunmi usa da crítica, da ironia, para criar em Noir. O vazio facial, o tédio, expresso por todo o clipe, é proposital. Quantas vezes você mandou um "kkkkk" e na realidade estava bem sério diante da tela? Esse é o tema abordado pela artista, mas de forma massiva; como aplicamos a indiferença em nossas existências. As redes sociais facilmente passam a ditar quando e como sentir. É só diante da câmera, da performance, que existimos.

O curioso é que essa existência é, obviamente, uma ilusão. Uma mentira. E como essa ilusão nos é apresentada? No aspecto de jogo.
Há trabalhos relevantes por aí sobre a gamificação da vida e seria muito extenso eu explicar em profundidade, mas em síntese esse conceito se trata de como aspectos de jogos inundam as nossas vidas e criam uma simulação. Ao entrar no Tinder, o sujeito é um jogador em busca de uma parceira.


Sunmi exemplifica tudo isso muito bem. A sua persona no videoclipe é basicamente o estereótipo de uma "jogadora" viciada. O problema é que esse jogo tem consequências, pois gradualmente pede mais. Não basta ter só um bolo de aniversário, ele tem que ser "explosivo". Não basta fazer um desafio, ele tem de ser mortal e consequentemente aos poucos mais perigoso. Até que... corta-se um dedo. Um tiro atinge a têmpora, regado ao doce vinho da depressão.

Em outras palavras, Sunmi faz de si uma personagem para abordar o teatro que nos rodeia. Se Shakespeare chegou a tamanha perspectiva há centenas de anos atrás, o que diria se vivesse nos tempos atuais? Mais do que nunca vivemos um período de simulação, de máscaras e atuação excessiva. Ironicamente, a cantora apresenta isso sem muita expressão, enquanto a todo momento, quando diante das câmeras, se transmuta no oposto. Assim, temos em tela os sentimentos conturbados, as vezes coloridos, as vezes sombrios, de quem vive nesse mar informacional. A letra da música pode parecer até um pouco abstrata, mas quando colocada nessa perspectiva, entendemos que quem fala é alguém embebecida pela falsa realidade, ao mesmo tempo que está presa a ela. Presa a esse macabro jogo. Presa a essa infinita peça de teatro.


E se ainda restam dúvidas, Sunmi faz questão de lembrar que ela mesma é uma personagem e o que você está assistindo faz parte também de toda essa mentira. O clipe termina com os cenários bem expostos e a cantora indo embora para queimar um carro. O carro são os seus sentimentos expostos em demasia, talvez acabando de vez com qualquer relacionamento, e os cenários uma forma metalinguística de dizer: ainda que tudo isso seja uma crítica, essa crítica também está presa àquilo que critica. Noir vai ser comentada, debatida, retuitada, compartilhada e depois de algum tempo, esquecida até que surja o próximo ato da mesma cantora.


El Psy Congroo.

- este post é uma dissertação, portanto um conteúdo opinativo. Para análises embasadas e artigos jornalísticos acesse as colunas: Análise e Explicado.

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