O reflexo dos arquétipos de super-heróis em Vidro

imagem com os três personagens de Vidro, filme de M. Night Shyamalan
Quando o sobrenatural e a realidade se encontram 

M. Night Shyamalan é um diretor por vezes incompreendido. Ainda que de fato haja críticas compreensivas aos seus famosos plot twists, Shyamalan acima de tudo é um diretor de mensagens e para entendê-lo, é preciso ter em mente que ele oferece não apenas um entretenimento, mas uma experiência de questionamentos. A respeito do que? Bom, a sua temática preferida é o embate entre a racionalidade e o sobrenatural. O embate entre aquilo que podemos explicar e aquilo que foge a nossa compreensão. Vidro é parte dessa perspectiva, mas tem um acréscimo óbvio: o mundo dos heróis. É por meio dos arquétipos que o diretor constrói o seu mundo fantástico, a todo momento dialogando com o real e assim, por consequência, gerando reviravoltas.

Para entender a influência dos arquétipos e a relação com a experiência oferecida, é preciso olharmos para cada um dos filmes individualmente, terminando, obviamente, no encontro decisivo de todas as peças em Vidro.

Atenção: este post tem spoilers. Não são spoilers importantes, mas se você for uma pessoa sensível já está avisada.

O reflexo dos arquétipos de super-heróis em Vidro

1. David Dunn, quando o homem comum se descobre herói

Corpo Fechado é o nome do primeiro filme dessa série. O nome em português, infelizmente, não faz jus ao que seria o original. Unbreakable, em tradução livre, seria inquebrável, e é exatamente essa dualidade retratada no longa. David Dunn (Bruce Willis) é um segurança que depois de sobreviver a um acidente de trem, passa a questionar a constituição do seu próprio corpo. Seria Dunn "inquebrável"? Perceba: o ponto principal não é a afirmação "Dunn é inquebrável", mas os questionamentos que surgem antes e depois da constatação. A fantasia é só um artifício para desenvolver o psicológico do personagem em uma situação singular.

Para esse desenvolvimento Shyamalan usa de dois conceitos bastante conhecidos: o arquétipo jungiano de herói e o famoso conceito criado por Joseph Campbell de Jornada do Herói. Sobre arquétipos, abordei o tema em outro artigo (para lê-lo, clique aqui) e por isso vou replicar trechos.

O que são arquétipos?

"Arquétipos são modelos, geralmente de personagens, que resumem mais ou menos determinadas características. Sua criação vem do teatro da Grécia antiga, se tornando relevante no estudo da psicologia e da narratologia. Em suma, são "tipos" de pessoas. Os arquétipos permeiam diversas historias e os mais conhecidos estão por aí há séculos."
(...)
"Para Carl Jung, os arquétipos a respeito do ser humano, não se restringiriam a apenas um tipo; nós carregamos dentro de nós várias facetas, porém, sempre com um lado mais proeminente."

Um ponto interessante a se acrescentar é que Carl Jung aborda bastante o inconsciente coletivo. Esses arquétipos estariam presentes em uma espécie de memória compartilhada que permeia a nossa existência.

"ele (Carl Jung) acreditava que arquétipos de míticos personagens universais residiam no interior do inconsciente coletivo das pessoas em todo o mundo, arquétipos representam motivos humanos fundamentais de nossa experiência, como nós evoluímos consequentemente eles evocam emoções profundas." 

Isso te lembra alguma coisa?

Caso você tenha assistido Corpo Fechado, sabe que essa noção de arquétipos é parte do discurso do Mr. Price, vulgo, Sr. Vidro (Samuel L. Jackson). Jung categorizou doze arquétipos na humanidade e dentre eles está o do herói, foco de Glass.


Não preciso falar muito sobre o arquétipo de herói, ele é o mais conhecido de todos. Basta pensar no Steve Rogers ou no Superman, são exemplos perfeitos. Sendo assim, podemos sintetizar o arquétipo do herói como uma pessoa de alta moral que se sacrifica pelos outros. O modo como demonstra seu valor é por meio das ações e portanto, acaba por temer qualquer vulnerabilidade, pois além disso poder causar o perigo das pessoas aos seu redor, é um ataque ao seu ego, demonstrando a sua falha.

Quando nos deparamos com David Dunn não estamos diante do arquétipo de herói, mas do arquétipo de homem comum. O homem comum, em muitos sentidos, é o oposto do herói: busca não se destacar, quer fazer parte de algo e tem como maior medo perder a si mesmo na incerteza ou naquilo que é incerto. Esse é Dunn no início e acompanhamos a sua jornada para se transformar justamente no estereótipo de herói.


O arquétipo de vilão ostentado por Glass não é típico da psicologia, mas da narratologia. E tem diferença? Bom, a psicologia não separa os arquétipos entre bons e ruins; todos têm suas qualidades e defeitos. Já no estudo dos arquétipos em torno do roteiro, é possível identificar o vilão enquanto recurso narrativo (fato citado em Vidro, quando dois adolescentes debatem sobre o verdadeiro grande vilão de uma história ser o "mastermind", aquele que parece frágil mas vence tudo com a sua mente). Isso fica claro ao final de Corpo Fechado, na revelação e definição da relação de Glass com Dunn: um é o oposto do outro e nada mais natural que um ser o vilão e o outro o herói. Deus não existe sem o diabo, e o diabo não existe sem Deus ("Deus é o poeta. A música é de Satanás"). Entrementes, se para o espectador mais leigo fica a noção de que foi estabelecido um mundo fantástico de mocinho versus malvadão, para o espectador mais atento fica a dúvida: Glass estaria louco?

Pois no mundo real não existem essas definições. Como é bem dito, os dois personagens eram amigos e poderiam continuar assim. A obrigatoriedade de um roteiro não perpassa a vida humana, esse sentido é dado posteriormente ao relembrarmos o fragmentado passado de forma cronologicamente contínua. Glass aplica um padrão exagerado da realidade, e portanto, o debate de sua sanidade não está apenas no terceiro filme, mas desde o primeiro.


Sendo assim, a jornada do herói e o uso de arquétipos tanto para criar o vilão quanto o mocinho não é apenas a constituição da própria história, mas objeto consciente de debate, quiçá metalinguagem. O intuito de Shyamalan é, como já dito, colocar o real e o sobrenatural em embate, porém em torno de arquétipos que estão profundamente enraizados em nossa construção social. Ao mesmo tempo que o diretor evoca clichês seja nos temas, na estrutura do roteiro ou no desenvolvimento das personagens, ele quebra cada uma das perspectivas adicionando as regras da nossa realidade. O único ponto de fantasia em si são os poderes e fraquezas: Dunn é simplesmente inquebrável. Ele não tem super força, não pula alto, solta raios lasers ou qualquer coisa do tipo. Ele apenas não quebra. O que vier além disso, é fruto de sua perseverança. Mesmo assim, é o suficiente para ser classificado como "anormal", ainda que como eu e você ele esteja sujeito a tantas outras regras, como as leis da física.

A fantasia existe enquanto realidade. Há ali o sonho, o sobrenatural que nos atiça, mas ele sempre é questionável. Ele tanto pode ser um milagre quanto uma ilusão. Esse é o cuidado que Shyamalan tem para não entregar de bandeja respostas, aliás, a sua proposta é ocasionar questionamentos. O que é ser herói? O que é ser vilão?

2. Fragmentado e o estudo da identidade humana

Muitas pessoas se perguntam qual diabos é a relação de Fragmentado e Corpo Fechado além da conexão realizada pela aparição de David Dunn? Eu respondo: o estudo dos arquétipos. Como bem pudemos ver, os arquétipos existem enquanto recursos narrativos, mas também meios de entender a mente humana. A continuação da exploração entre esses dois pontos, que olha só formam a fantasia e a realidade, se dá de forma profunda em Fragmentado.

Inicialmente estamos diante de apenas um suspense psicológico sem elementos fantasiosos. Shyamalan de novo foca na realidade, dando apenas um passinho a mais para o desconhecido. Personalidades múltiplas é algo comum, que já foi noticiado e estudado na ciência, mas Kevin Crumb (James McAvoy) não tem uma, duas ou três personalidades; ele tem 24, incluindo um estranho ser chamado de A Besta. Se em Corpo Fechado Shyamalan brinca com a dualidade que forma um vilão e um herói, em Fragmentado ele decide se embrenhar pelo caos que é a mente humana e nesse caso, não há dualidade exata. A complexidade é maior que qualquer mocinho ou vilão.


Em Corpo Fechado o foco são os arquétipos narrativos, em Fragmentado o foco são os arquétipos psicológicos. Cada uma das personalidades de Kevin têm trejeitos únicos, modos de lidar com o mundo, de pensarem, enfim, de existirem. Mas mesmo que haja essa "fantasia", isso ainda está no espectro explicável do mundo. Não a toa, a psiquiatra de Crumb é personagem relevante como o ponto racional que lhe conecta com o mundo e o próprio filme tem uma estética e atmosfera dura, real, cirúrgica, pacata.

Veja bem: grande parte de Corpo Fechado o foco é o debate sobre a formação de um herói, mas sempre com a realidade, o diáfano, o comum, levando a experiência a frente. Não vemos como Dunn sobreviveu, a intenção é deixar a dúvida no ar. Aos poucos, o fantástico cresce, até nos depararmos ao final com uma perfeita história que não mais é um drama familiar, mas um suspense heroico, totalmente clichê nos moldes da Jornada do Herói.

Fragmentado também é assim. O cerne do longa é simplesmente o desenvolvimento dessas estranhas personalidades. Porém, algo iminente está por vir, a tal Besta a todo momento é anunciada, temida, esperada. Não é só A Besta que virá, mas, se olharmos Fragmentado enquanto narrativa, o elemento fantástico. A descambada de vez para o surreal, o inexplicável que questiona a natureza humana.

E como isso é construído? De novo por meio dos arquétipos. Já dizia Nietzsche:

"O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar"
- Leia mais aqui


O Super-homem representa o ego em demasia, a parte racional que está no consciente. O animal é a nossa natureza que renegamos para vivermos em sociedade. Crumb, por conta dos seus traumas, não sabe como se equilibrar nessa corda. Portanto, temos diversas personalidades com o intuito de proteger o rapaz de qualquer violência. Em contraparte a essa proteção, A Besta cresce mais e mais, se tornando uma libertação iminente da natureza selvagem do homem. Essa natureza se apresenta como o desconhecido místico. Não só é um ser violento que está por vir, mas um ser que teoricamente ultrapassa as capacidades humanas. O fantástico.

Dunn, um homem aparentemente comum, faz o caminho para se tornar um herói. Crumb faz o caminho para levar aos limites a mente humana, resultando em uma volta bestial para os seus instintos. Kevin, em essência, é definido pelo arquétipo do ser inocente, enquanto recebe dentro de si uma força descomunal que não consegue controlar. É a bondade sendo corrompida pelo tortuoso caminho da vida.


Ao final de Fragmentado, quando nos deparamos com David a assistir a repercussão dos acontecimentos, a atitude natural é pensar na Besta como o vilão. O filme seria um grande desenvolvimento do mal que deverá ser enfrentado por nosso herói. Se essa fosse a concepção, a trilogia criada por Shyamalan descambaria para o comum; se tornaria apenas o embate entre seres poderosos. Mas como dito lá no começo, o diretor tem uma perspectiva maior, levando acima de tudo a ideia de criar uma experiência única em torno de sua mensagem.

A Besta não é o vilão, apenas a ferramenta usada para ocasionar o caos; a bomba atômica, não quem a lançou. Isso fica claro no diálogo entre os dois amigos na loja de quadrinhos sobre o verdadeiro vilão, o mastermind. Enquanto muitos encaram o ser de igual força ao herói como o vilão, na realidade ele é apenas uma distração dos reais planos de um terceiro ser. Isso é estrutura básica de roteiro, anunciada sem rodeios. Essa colocação às claras da estrutura serve para criar a imagem de Glass como o tal mastermind e portanto, como as histórias caminham sempre entre o clichê assumido e a quebra desses clichês, serve também para indicar o que está por vir. Todavia, como bem sabemos, o diretor preza pelas reviravoltas e assim, essa indicação metalinguística é uma pista falsa; um direcionamento inteligente de acordo com as expectativas do público.

Quem assiste já deduz imediatamente que o Sr. Vidro é o grande vilão e A Besta sua arma. No entanto, vemos ao longo do terceiro filme que a coisa é bem mais complexa.

3. Vidro, quando o ceticismo quebra o surreal (ou seria o contrário?)

Ao início de Vidro, Dunn e Crumb são enfatizados. Esse enfoque serve tanto para relembrarmos quem são e assim, o espectador mais desatento consegue se situar na história, como também para estabelecer suas rotinas. Mesmo aqui, no terceiro filme, Shyamalan tem extremo cuidado meticuloso em construir a sua abordagem entre o sobrenatural e o real. Dunn já se identifica totalmente como herói, tendo até mesmo seu filho como sidekick. Crumb continua a sua jornada ritualística de purificação do mundo.

O espectador espera de vez que finalmente o lado heroico, marvete, ou o que seja, tome conta de tudo e portanto, a primeira parte seria uma curta investigação policial para fomentar um embate maior. A expectativa é que o longa se transforme numa perseguição, até que exploda na demonstração dos poderes de todos. Porém, o que acontece é justamente o contrário: logo no começo Dunn encontra Crumb e já temos a tal demonstração de poderes. Não é bonito. Não é heroico. Não é performático. Só é. Eu diria que talvez até seja bizarro.

Mesmo assim, com a antecipação do embate, fica o sentimento de que isso irá crescer; de que a freneticidade do mundo dos heróis ou em suma, a tal jornada do herói, finalmente irá se fazer presente. Ledo engano. Shyamalan pega nas mãos do espectador para relembrar que isso não é apenas mais uma história, mas a desconstrução dos arquétipos que conhecemos. Dunn e Crumb são trancafiados em um hospital psiquiátrico e lá terão todas as suas certezas questionadas.


A Dra. Staple (Sarah Paulson) olha diretamente para os seus três pacientes, com uma firmeza intrincada de alguém com um objetivo em mente. Ao falar, esse objetivo se apresenta como tentar curar essas estranhas mentes, que saíram do espectro comum da realidade. Tudo o que foi construído anteriormente é colocado para dissecação: todo aquele cuidado parcimonioso de Shyamalan em retratar os poderes de forma dúbia, se faz extremamente relevante. Quando a doutora analisa cada um dos presentes, por mais que saibamos que ela está errada, não deixamos de considerar todas as palavras ditas. Elas fazem sentido. Assim como impactam os pacientes impactam o espectador. Entendemos exatamente o que Dunn vive em tela: lembramos de cada cena, dos poderes usados, reafirmamos a existência dos heróis, questionamos a sanidade de todos, avaliamos os argumentos da doutora, etc, etc, etc. A dissonância cognitiva aflige não só as personagens principais, mas quem assiste.

Caso você até aqui não tenha entendido o tamanho do conflito e qual a problemática que Shyamalan quer abordar, calma que irei explicar: existimos sem saber o porquê. O ser humano em seus primórdios de consciência se viu frente ao mundo sem ter quem lhe guiasse. A realidade em si lhe era fantástica e portanto, a sua explicação foi fantástica. Daí surgiram as religiões, as mitologias, os arquétipos e consequentemente a nossa união enquanto sociedade. Conforme caminhamos percebemos que muitas das explicações que dávamos para o mundo eram errôneas. O trovão que era ouvido todo imponente no céu, não era a voz de Deus.


Foi a passos lentos que os questionamentos quebraram parte dos mitos e assim, muitas das crenças que formavam a base para a nossa existência. Como explicado, o psicólogo Carl Jung acreditava que tudo isso formava um inconsciente coletivo que está presente na nossa evolução.

Se o século 20 deixou alguma herança, foi o racionalismo exacerbado. O ser humano não precisava mais de Deus para explicar as coisas, ele mesmo conseguia entender o mundo. O positivismo, por exemplo, foi uma corrente filosófica que influenciou a ciência como um todo, acreditando que tudo no universo era mensurável; tudo poderia ser explicado e logo, resolvido. A ciência iria salvar o mundo de seus males.

Porém, o ser humano se enganou. Se os mitos eram uma ilusão que resultava em ignorância, a humanidade percebeu que havia um número gigante de coisas que não conseguia explicar e para piorar, o racionalismo não conseguiu resolver todos os problemas; aliás, trouxe tantos outros. Deste modo, poderíamos caracterizar o século 21 como a era da completa dúvida. O pós-modernismo se trata basicamente da quebra das grandes narrativas - o fluxo informacional aumentou grandemente ao longo das décadas e assim, o impacto entre as antigas explicações de mundo e a brecha ainda presente no tal racionalismo que deveria dar todas as respostas, levou à incerteza. Relativismo.

É nessa incerteza que entra a narrativa criada por Shyamalan: e se aquelas histórias fantásticas não fossem de todo mentiras? E se aquelas histórias tivessem algum pontinho de verdade?

Voltamos então para o famigerado discurso do Sr. Price sobre as histórias em quadrinhos e sua relação com a história humana. Não são apenas mitos e arquétipos, são representações da realidade. Entretanto, o nosso mundo racional, por algum motivo, rejeita essa noção. Rejeita tanto que seres como David Dunn permanecem escondidos, não por opção, mas por desconhecimento. No passado Dunn seria o equivalente a um Hércules, imediatamente identificado como herói. No presente, por grande parte de sua vida ele se quer nota os seus poderes. O mesmo vale para a capacidade de nossas mentes - a loucura de Crumb o levou a um novo patamar; patamar que teoricamente qualquer um poderia atingir. Corpo Fechado e Fragmentando, então, são como histórias pontes entre o nosso passado fantástico e a incerteza de nosso futuro.


Recapitulando: Corpo Fechado é um filme sobre a jornada do herói de um ser comum e a descoberta de seus poderes. Fragmentado é um filme sobre a extrapolação da capacidades humanas, resultando na bestialização caótica do indivíduo. Ao final de ambas as películas somos convencidos, aliás experienciamos, a existência de seres sobre-humanos. Por isso se o foco da terceira obra, Vidro, fosse somente o embate de poderes, descambaria para o comum - mas não, o intuito de grande parte dela é justamente questionar o que acreditamos.

Nesse questionamento, Shyamalan coloca na mesa tudo o que forma a sua obra, todas as ferramentas narrativas, arquétipos, arcos, planos mirabolantes. Tudo é colocada à mesa e debatido. Então claro, quem entrou para acompanhar a tal luta fantástica simplesmente se decepciona, pois talvez não esteja imerso na proposta do diretor. Não que isso leve a produção ser isenta de defeitos, mas sendo redundante: é uma experiência. Se o espectador não estiver disposto a fazer certos questionamentos, tudo passa a ser estranho; chato.

Vidro, portanto, se apresenta como uma trama de conflitos. Assim como A Besta é sempre anunciada em Fragmentado, esperamos que o grande embate, aquele igual das revistas em quadrinhos, irá acontecer como um grande espetáculo. Pura enganação. Como dito por Price, essa é uma história de origem. Origem do que? Do sobrenatural. Do fantástico perante a sociedade.

Mais uma vez Shyamalan usa dos clichês, dos arquétipos anunciados ou não, para construir a sua história, mas sempre nos lembra de dar aquele puxão; de implicitamente dizer "opa, isso aqui ainda é o mundo real". Por isso a tal luta magnífica nunca acontece. Pois no mundo real planos espetaculares não se concretizam; lutas não são bonitas. Assim, mesmo diante do extraordinário, o tal embate é... Feio. Ainda que Vidro tenha previsto tudo, para o espectador fica uma confusão de expectativas; automaticamente julgamos o tal combate como uma preparação de algo maior. Demora um tempo até nos darmos conta de que não existe preparação, esse já é o embate final e não vai haver outro.

O conflito, comparado com o padrão de lutas heroicas, é curto, pois não é o foco. Como vemos, a luta em si é uma ferramenta de um plano maior de Price e também uma ferramenta para completar o ciclo narrativo.

O que surge? É revelado ao final que a Dra. Staple faz parte de uma organização secreta focada em esconder o fantástico do mundo.


De novo, estamos entrando no campo dos arquétipos. De um lado há seres que fogem da nossa compreensão. Do outro pessoas empenhadas em combater esses seres. Nos rpg's, por exemplo, essa problemática é desenvolvida há muito tempo. Em Mago: A Ascensão, os antagonistas são os tecnocratas, uma ordem que preza pela razão focada em ocultar o fantástico do mundo. Pois, a partir do momento que algo sobrenatural vem a tona, a tendência é que isso dê asas para outros seres se revelarem e tornarem a nossa realidade um caos. Como as pessoas normais iriam conviver com sujeitos usando seus poderes a bel-prazer?

O embate entre Dunn e Crumb, portanto, ganha maior relevância. Se revelado ao público, a tendência é a situação intensificar-se, por que a existência de Dunn se faz necessária por conta de Crumb e ambos foram criados por Vidro. Quanto mais heróis, mais vilões. Quanto mais vilões, mais heróis. A racionalidade, ao final, é a verdadeira mentira. A tentativa de colocar ordem no mundo se sobrepõe a qualquer sobrenatural.

Assim, surge um vilão maior e as reviravoltas de Shyamalan atingem outro nível. O embate subitamente se transforma explicitamente naquilo que vem sendo debatido desde o começo: fé versus razão. Os dois personagens que se enfrentam, após suas mortes estão unidos. Unidos por fazerem parte do espectro inexplicável do mundo que "deve" ser exterminado. E Vidro, então, que seria o tal vilão mastermind, se transmuta numa espécie de súbito herói. Outra reviravolta - e totalmente coerente com tudo o que foi construído. A realidade é bem mais cinza que qualquer história em quadrinhos. Os arquétipos, os mitos, talvez sejam reais, mas eles se mesclam; se unem e desunem na caótica realidade. O certo e o errado são bem mais problemáticos.

Pois veja bem: se analisarmos com calma, a ordem secreta tem sua razão. Eles sacrificam poucos pelo bem de muitos, pelo bem daqueles que são "normais", que de outra forma não poderiam se defender. Nesse caso, Dunn, independentemente da tentativa de proteger vidas, está preso a uma estrutura maior que inevitavelmente levará ao seu fracasso; de certa forma, ao atuar como herói, ele sempre esteve contribuindo para o lado dos seres sobrenaturais, o mesmo lado de Vidro e Crumb.

Mas também se analisarmos sob outro aspecto, as pessoas deveriam ser livres para decidirem se querem ou não ter esses seres em suas vidas. A informação deveria ser pública. Quem está certo?

Desta forma, Shyamalan usa dos arquétipos fantásticos para debater a fé versus a razão em torno dos super-heróis. Ele fala de estruturas maiores do que personagens individuais, inclusive presentes em nossas vidas. Formas diferentes de explicar o mundo, mas totalmente válidas.


Ao final, a grande arma usada por Vidro não é produtos químicos, pistolas, A Besta, Dunn ou trens danificados - a grande arma, que dá sentido a todo o seu plano, são câmeras. Em tempos de internet, de superexposição da nossa existência tecnológica, a validação do real se dá pela prova; a foto, o áudio, a filmagem. Assim, os companheiros de todas as personagens principais, mãe, filho e amiga, se unem mesmo que seus entes tenham sido inimigos, pois ali está em jogo a existência de quem amam. É o ato tornado público que dará validação ao que Dunn, Crumb e Vidro fizeram. É o ato tornado público que os fará existir - e dessa vez para a eternidade. Alguns acreditarão no que viram. Muitos duvidarão. Surgirão fãs. Surgirão haters. Mas seja o que for, agora o sobrenatural é de conhecimento de todos e a fé, de algum jeito, tem validação. Aceitar o desconhecido não é mais uma loucura, apenas uma escolha.

Os arquétipos continuam presentes na humanidade. Os arquétipos formam o filme, que os desconstrói de forma maestral para ironicamente criar uma produção comercial. E assim, depois de toda essa experiência proporcionada, trazemos da realidade de Shyamalan a dúvida: até que ponto o sobrenatural pode ser real?

El Psy Congroo.

Leitura mais do que recomendada:
O cinema de M. Night Shyamalan

Fontes:
Os doze arquétipos
O que é arquétipo
Doze arquétipos Carl Jung
Arquétipos de vilões
Super homem para Nietzsche
O que foi o positivismo
O que é a pós-modernidade
O que é o relativismo

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