10 filmes para se pensar a política

Conheça longa-metragens para refletir e entender como funciona a nossa política 

Muito além de uma forma de entretenimento, os filmes são essenciais para pensarmos a nossa realidade. Inicialmente criado apenas como uma reprodução do mundo, o cinema se alterou e revolucionou a sociedade como um todo ao longo do último século. Por isso, pela aquela que é considerada a sétima arte, é possível conhecer grandes obras que servem de reflexão sobre a democracia e a situação política do nosso país e do mundo. A Divisão Paralela separou 10 filmes essenciais para se pensar a política e ao final de cada explicação, há a sugestão de um livro ou material acadêmico relacionado ao tema:

1- Mera coincidência (Wag The Dog, 1997)

A poucos dias da eleição, o presidente do EUA se vê envolvido em um escândalo sexual que afetará diretamente a sua chance de se reeleger. Sendo assim, o assessor do presidente (Robert De Niro) entra em contato com um produtor  de Hollywood, interpretado pelo ótimo Dustin Hoffman, para elaborar uma guerra na Albânia. Sim, uma guerra! A ideia é mudar a opinião pública a respeito do presidente, e assim criar uma taxa de aprovação para que ele seja eleito.
O filme em um primeiro momento parece uma comédia satírica absurda sobre o cotidiano de uma eleição, mas na verdade se transforma em uma representação criticamente mordaz sobre a manipulação política. Cada empecilho, cada problema, cada pequeno detalhe que aparece durante a campanha é adaptado genialmente para se encaixar nos interesses de outros. E claro, o presidente em si é apenas um boneco que se não fossem seus assessores, nem seria eleito. Eu diria que Mera Coincidência é a primeira adaptação americana de House of Cards, mas com uma personalidade muito única e própria, que consegue não entendiar nos momentos mais chatos sobre política.

Leitura acadêmica recomendada: Opinião Pública, de Walter Lippman (entenda o conceito aqui)

2- A Montanha dos Sete Abutres (Ace In The Hole, 1951)

Quando falamos sobre política, isso envolve não apenas políticos ou biografias de figuras históricas, mas também o papel da mídia. A Montanha dos Sete Abutres é um clássico que ajuda a nos mostrar como o jornalismo, preocupado em machetes escandalosas para vender, influencia toda a nossa percepção acerca da realidade, construindo-a de modo que muitas vezes nos passa imperceptível. Na trama, Charles Tatum (Kirk Douglas) é um repórter em busca de reconhecimento profissional. Ao se deparar com Leo Minosa preso em uma caverna, sente que aquele é o seu momento para brilhar com finalmente uma grande reportagem. Assim, Tatum transforma um acontecimento comum que poderia facilmente ser resolvido em poucas horas, em um grande espetáculo, com milhões de pessoas acompanhando por dias o resgate do sujeito.
O filme demonstra como a informação usada de determinadas maneiras, constrói toda a nossa organização social e como a opinião pública é influenciável. A percepção daquilo que é bom ou mal passa pelo crivo jornalístico e portanto, o entendimento político se estabelece nas noções apresentadas nesta obra.

Leitura acadêmica recomendada: A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord (entenda o conceito aqui)

3- A Onda (Die Welle, 2009)

Impossível fazer uma lista sobre filmes políticos sem citar A Onda. O longa-metragem alemão conta a história de Rainer (Jürgen Vogel), um professor que tem por tarefa lecionar o curso extracurricular sobre Estado autocrático. O problema é que Rainer não simpatiza nenhum pouco com o conteúdo, tendo preferência por lecionar sobre anarquia. Agora cabe a ele arrumar um jeito de ensinar autocracia de um modo que não seja entediante para uma geração alemã que cresceu ouvindo à exaustão que o nazismo foi um regime horrível e que jamais deve ser repetido. A solução? Rainer decide ele mesmo implantar as regras de um regime autocrático na sala de aula, para os alunos experimentarem realmente como é se envolver em um movimento do tipo. O resultado é uma história sensacional que nos mostra de forma didática e simples como regimes totalitários surgem, mesclando a alienação das massas e o egocentrismo de um líder persuasivo.

Leitura acadêmica recomendada: Crítica à sociedade de comunicação de massa

4- Entreatos (2004)

Entreatos é um documentário muito interessante sobre a campanha de Lula para a eleição, em 2002. Não é uma ficção, mas a total realidade dos bastidores da campanha política daquele que foi considerado durante muito tempo o "maior líder político" do país. O diretor, João Moreira Salles, usa do estilo observativo. Observativo é um estilo de documentário sem narração e com a mínima intervenção do diretor. A equipe apenas registra os acontecimentos de forma nua e crua - e é o que vemos no filme de Salles, que capta todos os aspectos da campanha de Lula e trâmites políticos. É um filme para não só entender a política de eleição de um presidente, mas também um momento singular do Brasil.

Leitura acadêmica recomendada: Política, Aristóteles (entenda o conceito aqui)

5- Todos os Homens do Presidente (All the President's Men, 1976)

Watergate é conhecido como um dos maiores escândalos político da história americana que resultou na renúncia do presidente Richard Nixon. Enquanto A Montanha dos Sete Abutres fala sobre a corrupção da mídia, esse filme mostra justamente o contrário: a importância da mídia como fiscalizadora do poder público. A obra retrata a história real no qual dois repórteres de um jornal se depararam com uma rede de espionagem e de lavagem de dinheiro que começou a ser descoberta a partir da invasão da sede do partido Democrata, Watergate. A invasão provavelmente ganharia apenas algumas páginas dos jornais policiais se não fossem esses dois repórteres, que descobriram muito mais naquele simples acontecimento. O filme mistura a ficção com imagens reais e assim, reconstitui a mais importante matéria jornalística do século 20 e todos os agentes envolvidos nesse processo.

Leitura recomendada: Todos os Homens do Presidente (o livro original, escrito pelos repórteres Carl Berstein e Bob Woodward)

6- Trabalho Interno (Inside Job, 2010)

Com narração de Matt Damon, Inside Job (Trabalho Interno) é um documentário que conta e analisa o que aconteceu na crise de 2008. Por ele, vemos a importância que os bancos têm para um país, se tornando maiores até mesmo que qualquer presidente ou partido político. O interessante é que além de compreendermos os problemas que levaram à crise, também entendemos como os bancos são essenciais para a estrutura de nação americana, com questões que perduram e influenciam as decisões políticas americanas até hoje. 
O documentário é dividido em cinco partes, servindo também como uma reportagem investigativa que aponta diretamente pessoas e instituições responsáveis pela crise - pessoas que inclusive continuam no poder.

Leitura acadêmica recomendada: O Capital, Karl Marx (entenda sobre o conceito aqui)

7 e 8- Fahrenheit 9/11 (2004) e Sicko (2008)

Michael Moore é um documentarista polêmico. Em um país com aversão extrema à qualquer influência do comunismo, o diretor vai sempre na contramão apresentando uma versão mais direcionada à esquerda, mas ao mesmo tempo participando das investigações e a todo momento colocando a frente o seu caráter irônico e sarcástico sobre problemáticas importantes. No caso, separei dois filmes importantíssimos dele: Fahrenheit 9/11 explora a fundo os motivos que levaram o Estados Unidos a invadir o Afeganistão e o Iraque, assim como a relação desses motivos com o atentado ao World Trade Center. Moore tem como modo de condução explorar as hipocrisias do governo, desmistificando os mitos ditos por políticos, como George W. Bush, e encarando de frente o país como próprio agente causador dos atentados que lhe ocorreram.


Utilizando-se do mesmo método combativo irônico, Sicko é um filme sobre a saúde americana e seus problemas. Em um país profundamente capitalista, Moore explora os problemas que a privatização da saúde causa para as pessoas que não têm como pagar um plano médico, ou pior, para aqueles que pagam, mas também são vítimas de uma extorsão sistematicamente descontrolável. O diretor, inclusive, em contraponto às histórias verídicas que reúne e conta, visita outros países para entender qual a diferença da saúde deles e por que qualquer tentativa de criar uma saúde pública no EUA é encarada com profundo desespero alarmante pelas autoridades, pela mídia e consequentemente, pela população americana.

Leitura recomendada: Fahrenheit 451

9- Ele Está de Volta (Er ist wieder da, 2015)

Na mesma linha de A Onda, na ideia de debater o nazismo na atualidade, Ele Está de Volta usa da ficção para refletir como demonizamos atitudes e momentos históricos sem perceber que facilmente elas podem se repetir na atualidade. Na trama, Adolf Hitler (Oliver Masucci), sim ele mesmo, de repente acorda em 2015. Diante de uma sociedade radicalmente transformada, Hitler encara o seu acordar como uma nova chance de mudar a Alemanha. Deste modo, aos poucos ele passa de ser encarado como um simples comediante para realmente tornar-se uma figura de relevância nacional, com muitos seguidores. O filme mostra, de forma jocosa, que não importa a época: enquanto existir insatisfação popular e alienação, haverá espaço para fascistas.
A obra vale a pena tanto como reflexão, quanto como comédia acidamente mordaz e estudo da banalidade do mal.

Leitura recomendada: A Banalidade do Mal, Hannah Arendt (entenda o conceito aqui)

10- Winter on Fire (2015)

Em março de 2014, a Crimeia, região da Ucrânia, foi anexada à Rússia. O acontecimento em si parece uma atitude isolada, mas na verdade por trás há uma trama política maior envolvendo muitos protestos e, infelizmente, mortes. Winter on Fire mostra, do ponto de vista dos manifestantes, as agitações contra o governo autoritário da Ucrânia, um país teoricamente independente mas na verdade, sempre vítima dos interesses da grande Rússia. Acompanhamos de perto a união da população na Maidan, a principal praça da capital Kiev, que passa de uma sociedade pacata, para combatentes dispostos a arriscarem suas vidas - e aliás, arriscaram. Nos 93 dias de protesto, cerca de 1890 pessoas ficaram feridas, 125 morreram e 65 continuam desaparecidas. O objetivo dos manifestantes? Tentar derrubar ou pelo menos negociar com o governo de Yanukovych, um presidente corrupto e autoritário.
Winter on Fire é um filme para entender como a população pode se unir em tempos difíceis e como a política impacta diretamente o povo. Uma demonstração sobre o que é uma tênue democracia.

Leitura Recomendada: Crianças de Grozni, Åsne Seierstad

Menção honrosa: 
Chicken Little (1943)

Este é um curta-metragem lançado em 1943, pela Disney, para fazer uma crítica ao nazismo. É interessante que o filme lembra bastante A Revolução dos Bichos e se aplica a outros regimes autoritários, como a União Soviética. Claro, antes de tudo também é preciso notar o viés que exalta o capitalismo. Mesmo assim, é uma aula  notavelmente boba, porém crível, de como a manipulação política acontece. São apenas oito minutos e vale pena assistir.

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