IO: aquilo que nos torna humanos

A ficção científica no combate à ciência

O que nos torna humanos? Esse é um debate frequente neste maravilhoso site. Em diversos artigos abordei várias facetas da filosofia, da ciência, da religião, da narratologia, abordagens proporcionadas por diversas obras de arte. IO é uma obra de arte e suscita uma reflexão sobre um dos meus temas preferidos, que já dissertei sobre, mas que aqui ganha um dimensionamento cultural interessantíssimo, servindo para colocar em perspectiva o direcionamento que damos para o nosso futuro. Se IO é bom ou ruim isso é outro assunto, pois o debate aqui vai além da sua qualidade.

Mas que assunto é esse?
O que diabos é essa coisa tão importante que é parte essencial da humanidade?

A resposta é uma palavra: Memória

IO: aquilo que nos torna humanos

Sob uma estufa cheias de espécies de plantas, ou nem tantas quanto deveria, está Sam (Margaret Qualley), uma garota, ou melhor, uma mulher, fascinada por aquilo que a rodeia. O que a rodeia tanto? Simplesmente a Terra. Autoabandonada para entender o abandono de seus iguais, ela vive para buscar uma cura, ou algo minimamente parecido, que consiga criar um ambiente saudável. Num futuro desconhecido, a humanidade foi afligida por uma súbita mudança de ares - literalmente. De uma hora para outra o oxigênio que tanto respiramos por milênios passou a ser tóxico. A solução? Ir embora. Quando a coisa ficou feia, os humanos correram para os seus satélites artificiais para deixar a mãe Gaia perecer. Alguns poderiam dizer, "ela que nos expulsou", mas, como vemos ao longo do filme, a fuga foi algo certo quase que de imediato. Nada importava mais, a partir do momento que a Terra deixou de ser produtiva, o ser humano matou mais um de seus deuses para ele mesmo se tornar um. Enfim, quase todos se foram - menos Sam e seu pai.

Atenção para o quase: a humanidade foi sendo evacuada, até que a última nave irá decolar em pouco tempo. Talvez, só talvez, ainda tenham outras pessoas escondidas por aí, sobrevivendo ao tóxico. Sam é uma dessas pessoas, mas não tem contato com outros - por isso o talvez. Talvez esses humanos estejam vivos, mas a perspectiva que nos é apresentada é de solidão. Solidão e curiosidade. A moça não conheceu a Terra antes, já nasceu em meio à fuga desenfreada. Sendo assim, ela de fato não conhece, apenas imagina. Imagina como seria aquela vida, para que serviam exatamente cada um dos objetos, como as pessoas interagiam e se relacionavam. No pacato destruído, ela vê o passado e se fascina. Na morte, Sam vê a vida.

Do que é constituído a vida?

De muitas coisas, seria quase impossível enumerar todas elas, mas a memória está presente em cada um de nós. Memória em si tem muitas definições, porém, aqui usarei uma definição pessoal que acredito que faça sentido: a existência do passado está no pretérito simulado. Ou seja, ele não existe a não ser em nossas mentes. Ele influencia o presente e é material essencial de sua constituição, mas não tem como ser revivido - ou melhor, ele pode ser revivido parcialmente. É a prova, o registro, o documento, os traços, que proporcionam uma reconstituição. Sam reconstitui e recria todos os dias um passado que não viveu. Cada espécie de planta, cada carro, cada cenário, lhe é o vestígio daqueles que foram embora e de tudo o que deixaram.

Esses vestígios formam nada mais nada menos do que a cultura. Quando falamos sobre civilizações antigas como a egípcia, maia e chinesa , lembramos automaticamente de grandes obras de arte, de conhecimentos culturais incríveis. Entretanto, para quem vivia naquela época não era bem assim: os objetos e lugares, em suma, tudo o que usavam ou que lhes rodeava, era a constituição de seu cotidiano. É exatamente essa relação que temos com o nosso presente e também que Sam tem com o que foi deixado: para quem fugiu, os vestígios deixados são apenas coisas abandonadas, para ela é o mesmo que encontrar o sarcófago de um Faraó.


Por isso a todo momento é enfatizado o ao redor de Sam, livros históricos e claro, o seu objetivo: alcançar o museu de arte moderna. Porém, muito mais do que o interesse de Sam pelo passado, e também uma forma de metaforicamente mostrar o seu apego aos seus traumas pessoais, é também um lembrete. Para quem? Para nós espectadores. Do que? De tudo o que está sendo deixado. O ser humano ao alcançar as estrelas, está deixando para trás toda a sua identidade, tudo aquilo que lhe constitui; a sua vida. Será que vale a pena? Essa é a problemática de Sam. Ela acha que não, ela acha que ainda há esperança no passado, enquanto o progresso olha com pessimismo o antigo.

Micah (Anthony Mackie) surge para bagunçar mais ainda essa questão. A garota passou tempo demais sozinha ou apenas com o pai, e por isso perdeu a noção do que é ter outro consigo. A humanidade corre para salvar a si mesma; todas as suas relações. Sam não tem esse peso, já que a única pessoa que lhe era importante foi embora. Portanto, Micah é quem lhe mostra o que a humanidade está considerando; incute peso no lado que Sam nem imaginou que teria.
Facilmente podemos fazer o paralelo de Adão e Eva, mas vai além disso: estamos falando de amor; o conhecimento do coração do outro. Micah já passou por isso e então, sabe bem o que é. Não coincidentemente ele foi professor de história, uma forma de claramente demonstrar o amor de Sam pelo passado. Até o amado que vem para lhe completar, representa o seu fascínio pelo antigo.


Micah, ao contrário da moça, não tem essa visão tão deslumbrada sobre a Terra, pois ele a conheceu quando era "viva". Sendo assim, mesmo sendo professor e fascinado pelo passado, ele não consegue ver toda essa importância, já que ele é objeto do meio. É consenso entre historiadores que quanto mais longe estamos de um fato, melhor é para analisá-lo, já que não há tantas problemáticas parciais de quem vive naquele momento. Assim, ocorre uma troca: Sam passa a entender o que é a humanidade e o que ela quer para o futuro, e Micah redescobre a importância do passado. Uma verdadeira transa.

Deste modo fica perceptível que o defeito de Sam é olhar demais para o passado, sem ter em perspectiva o futuro; ela não se arrisca. A sua trajetória para encontrar uma cura não é pautada exatamente na esperança do amanhã, mas naquilo que foi acostumada a fazer; em continuar na sua zona de conforto. Micah muda isso e agora, mais do que nunca a garota não quer apenas observar a história, mas ela mesma fazê-la.


Ao final, finalmente uma decisão é tomada: a mulher pula de vez para o desconhecido em busca do novo. Ela não quer salvar a Terra simplesmente por estar acomodada, mas por querer ter um verdadeiro lar. Ela reconhece o valor do passado, enquanto olha para o futuro. As crianças representam a mais pura esperança, alcançada não quando Sam se fechou dentro dos muros da ciência, mas quando decidiu abrir as portas para o desconhecido e assim, talvez por milagre, sobreviveu. Claro, a ciência foi essencial para a sua conquista, mas muito mais do que analisar fatos, lembranças são a base para um futuro melhor; a memória pode ser vida. E viver, seja relembrando ou criando novos enredos, é o que nos torna humanos. Do contrário, o leve caminhar cotidiano se torna apenas sobrevivência; nada diferente do que qualquer outro animal.

El Psy Congroo.

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