O que Megaman X2 me ensinou sobre dificuldade

Uma reflexão sobre dificuldade nos jogos

O primeiro Megaman que joguei foi o X2. Eu era muito novo, tanto que mal conseguia matar alguns inimigos sem morrer. Desde que me conheço por gente eu tinha um controle na mão, mas esse jogo parecia um titã impossível de ser derrotado. Entretanto, o jogo era tão bonito, tinha uma trilha sonora tão boa, tudo era tão estilizado e cool, fazendo-me sempre voltar para sofrer mais um pouco.


Com o tempo, sem entender inglês, nem ler nada sobre, na base da pura insistência, eu consegui entender como jogar o jogo, matei todos os oito chefes e cheguei feliz nas últimas fases, até perceber que havia algo errado. Eu simplesmente não conseguia enfrentar o resto do jogo, foi aí que eu percebi que era melhor parar e refletir, qual o problema? O problema era, eu havia derrotado todos os oito chefes sem pegar nenhum upgrade ou power up. Eu estava jogando no modo super very hard sem perceber, pois a ideia é explorar muito até encontrar os corações que aumentam vida de X e os pedaços de sua armadura. Sem usar as fraquezas dos chefes, sem ficar mais forte, eu havia progredido num jogo difícil até chegar um momento que a falta dessas coisas fez toda a diferença.


Megaman tem alguns problemas de design, porque a exploração dele geralmente não é muito orgânica, é mais baseada na insistência e tentativa e erro. Você vê uma parede estranha? Atire com todas as armas possíveis até ela quebrar. Você precisa achar um item? Tem uma parede igual a todas as outras, mas que na verdade é uma passagem secreta. Esse tipo de coisa não é uma exploração bem trabalhada. Na mesma época, compare com Zelda, por exemplo, que estabelecia regras bem claras acerca desse tipo de coisa. No entanto, o jogo ainda era muito bom em todo o resto, por isso eu ficava encantado, então continuei jogando para achar as coisas sozinho, pois eu também não sabia usar a internet, então essa era minha única opção. Após muitas horas de tentativa e erro, encontrei todos os itens, procurei tudo cegamente e repeti as mesmas fases inúmeras vezes, foi uma experiência tão boa que nunca mais tentei fazer isso com outro jogo da saga Megaman.


Perdoem a ironia, mas ainda mantenho minha posição de que procurar as coisas não foi algo muito legal. Se fosse comparar a algo, diria que foi como tentar entender um sistema complexo sem instrução nenhuma do que está acontecendo, como, por exemplo, uma máquina. Quando você entende como a máquina funciona você se sente extremamente satisfeito, porém, entender como uma máquina funciona sem saber nada sobre ela, só desmontando ela e analisando horas a fio, é uma tarefa muito complicada e cansativa.

No entanto, preciso dizer que, apesar desse processo frustrante, eu continuava jogando Megaman X2, porque o jogo é muito bom. Joguei tanto que finalmente, após longas horas, consegui finalizar um jogo que parecia impossível para mim. Essa experiência me ensinou algumas coisas: que um jogo difícil não é impossível, ele é um jogo que demanda prática, e a única forma de praticar é jogando. Com o tempo eu passei a decorar os padrões de todos os bosses e a ter reflexos rápidos para reagir a qualquer coisa. Outra lição foi que, as vezes a dificuldade está na sua ignorância, e não no jogo, jogar sem ter informações chave dificulta as coisas muito mais do que o necessário, abordar as situações de forma inteligente é a melhor escolha, sempre.


Após X2, comprei a versão pirata da Megaman X Collection para o PS2, um dos jogos que até hoje considero um dos melhores da plataforma, e dali em diante parti para zerar toda a série X. Antes eu tinha uma certa ansiedade ao enfrentar jogos como Megaman, mas não mais, pois eu sabia que eles poderiam ser vencidos, eu só precisava de conhecimento, paciência e prática.

Algo que ainda não mencionei é o seguinte, porque eu continuava jogando algo tão difícil? Porque jogos difíceis apresentam uma experiência que só pode ser produzida pela dificuldade. Não vou dar o discurso clichê de "ah, quando você conquista algo difícil, é muito gratificante", isso, apesar de ser verdade, é uma visão muito simplista. Pouco se fala que, um jogo difícil, um bom jogo difícil, usa a dificuldade como ferramenta em detrimento de outra coisa, a dificuldade tem um propósito, que é geralmente oferecer uma experiência mais complexa. Eu gosto de pensar que dificuldade por dificuldade é lixo, algo vazio, mas dificuldade para chegar em algo complexo, isso é maestria. Simplesmente ser difícil não torna um jogo bom, porém, geralmente os jogos difíceis bons tendem a ser os melhores jogos, ou no mínimo, os mais mecanicamente profundos, justamente porque a inserção de sistemas mais complexos quase sempre torna o jogo mais difícil. Eu sei que estou falando em termos simples demais, afinal de contas há jogos mecanicamente simples que conseguem ser muito difíceis, Super Mario é um exemplo, mas para realizar essa análise estou descartando jogos fáceis a primeira vista, mas difíceis de se masterizar, estou falando coisas que desde o começo são pura erupção vulcânica.  


Fiz todo esse discurso prolixo para dizer que jogos difíceis valem a pena, não adianta ficar com medo ou achar que você não consegue. É tudo uma questão de estar disposto a tentar. Continuando minha história pessoal, eu não parei em Megaman, mais tarde o jogo que foi uma parede para mim foi Dark Souls, que foi superado, afinal hoje eu já platinei 3 jogos da franquia Souls e planejo platinar o resto no futuro.Outro tipo de jogo que conquistei foram jogos de estratégia, de vários tipos diferentes, estes eram um desafio para uma criança que não queria ler nada, mas se viu interessado em um mundo fantasioso que exigia paciência e estratégia.Vale ressaltar, porém, que não quero pagar de "gamer" hardcore, esse tipo de atitude geralmente é muito idiota, você pode sim fazer análises sobre os hábitos das pessoas em relação a jogos, mas de forma razoável, pois o que geralmente fazem é espernear e gritar "eu jogo jogos difíceis hurr durr". Não, no momento nem quero discutir essa questão, pois nem tenho muita coisa a dizer além de: essa atitude é idiota.


Não vire refém desse receio em relação a jogos difíceis. É claro, eu não vou defender certos jogos, como I wanna be the guy, que são jogos feitas para masoquistas mesmo, o tipo de jogo ruim que é difícil para irritar. Porém, sou um ávido defensor da ideia de que ser exigente com o jogador é uma coisa boa, porque quanto mais complexo é seu jogo mais difícil ele tende a ser também, e saber balancear essa complexidade com a dificuldade é o que faz um bom jogo difícil. Quantas obras excelentes eu teria perdido se, desde muito cedo, eu não tivesse conhecido Megaman X2 e outros jogos do tipo? Algum dia, vou escrever um livro de autoajuda fajuto falando sobre como jogos difíceis ajudam você a superar obstáculos.

Only Darkness Will Remain

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