Para Todos os Garotos que Já Amei e o arquétipo da Donzela

Como uma comédia romântica nos mostra o que é o arquétipo da donzela e sua relação antiga com o cinema

Obviamente não sou o público de Para Todos Os Garotos que Já Amei, filme lançado pela Netflix no dia de 18 agosto, baseado no livro de Jenny Han. Entretanto, sou da ideia de que qualquer obra que seja, se ela é boa conversará com todas as pessoas em algum nível, já que problemáticas bem construídas sabem como envolver diferentes personalidades. Sendo assim, lá estava eu em uma tarde tediosa com o filme a minha frente pronto para ser assistido. Sem expectativas, a não ser o de uma obra adolescente que me fizesse rir pela tosquice ou me identificar por lembrar questões amorosas bobas da minha vida. Enfim, basicamente um "tirar o cérebro" por alguns minutos.

Mas, como essa tarefa de "tirar o cérebro" é quase impossível para mim, desisti logo nos primeiros minutos, passando a notar coisas interessantes que se relacionam com a construção social feminina que permeia tantas outras obras - o famoso arquétipo da Donzela. Sob essa perspectiva, de como o arquétipo da Donzela influencia o filme, consegui analisar o longa-metragem como um todo indo além do romance superficial.
Vem comigo entender por que esse tipo de filme faz tanto sucesso e como ele lida com os desejos femininos:

1. O que é o arquétipo da donzela?

Bom, para entender o que é o arquétipo da donzela, precisamos primeiro entender o que é um arquétipo. Arquétipos são modelos, geralmente de personagens, que resumem mais ou menos determinadas características. Sua criação vem do teatro da Grécia antiga, se tornando relevante no estudo da psicologia e da narratologia. Em suma, são "tipos" de pessoas.
Os arquétipos permeiam diversas historias e os mais conhecidos estão por aí há seculos. O da donzela é um deles.

Não vou entrar aqui em detalhes sobre a concepção profunda de arquétipo para Carl Jung, se não sairia do foco dessa análise (e seria pseudointelectual demais começar em Para Todos os Garotos que Já Amei e parar no conceito de inconsciência coletiva), mas é relevante falar sobre algumas definições dadas pelo psicólogo: os arquétipos, a respeito do ser humano, não se restringiriam a apenas um tipo; nós carregamos dentro de nós várias facetas, porém, sempre com um lado mais proeminente. Para esse texto, é importante falarmos do Inocente:

O Inocente seria a pessoa que visa sempre ideias positivas, esperançosas, sendo muito presa a nostalgia e preferindo a previsibilidade em sua vida. Tem muito medo da punição por fazer algo ruim, ou seja da rejeição. No cinema e na publicidade, esse lado irá se manifestar no arquétipo da Donzela.

Na história da propaganda, é possível perceber uma divisão em dois tipos: a donzela em si é o objeto de desejo dos homens e por isso, reflete não só a inocência mas também o período social. No caso, antes da década de setenta, os anúncios se focavam mais no lado pueril envolta da figura da mulher enquanto dona do lar. Depois da década de setenta, surge um outro lado do arquétipo da donzela - o lado tentador, com ares de prostituta (pg. 8). Em síntese: antes há a noção da mulher na inocência em sua plenitude, porém depois essa inocência se transforma em sedução. É a clássica ideia machista de querer uma puta na cama e uma recatada perante a sociedade.

“(A donzela) é tão inexperiente e necessitada de ajuda que até mesmo o mais meigo dos pastores de ovelha se transforma num arrojado raptor de 3 mulheres. [...] Esta oportunidade de poder ser uma vez na vida um grande espertalhão não ocorre todos os dias, representando para ele um forte incentivo.”
- Carl Jung (pg. 3)

É interessante notar que o arquétipo clássico da donzela começa a decair de popularidade, perdendo relevância nos anos 80. Por que isso é interessante? Pois estamos falando desse arquétipo enquanto produto para os homens, mas... E enquanto produtos para as mulheres? É aí que eu observo um retorno ao passado em Para Todos Os Garotos Que Já Amei.

No cinema, veremos a donzela representada diretamente no conceito de "princesa em perigo", mesmo quando é protagonista de sua história. Quer um exemplo? A animação da Branca de Neve. Branca é uma jovem inocente e bela, que muda o mundo ao seu redor por conta da sua positividade. A protagonista não é capaz de agir sobre o seu destino e por isso, seu grande salvador é o príncipe. O príncipe surge como agente que lhe moldará o destino para uma vida melhor e sutilmente, como objeto de desejo. É importante notar que Branca de Neve aparenta ter um desejo puro, fruto do mais puro respeito e admiração - nada de paixão ardente.


Agora vamos pular algumas décadas, para ser mais exato para 1991. A Bela e a Fera é outra animação que reproduz o arquétipo da donzela, mas dessa vez com alterações (os arquétipos na cultura se adéquam de acordo com a sociedade). Bela não só é a protagonista de sua história, mas tem poder sobre o próprio destino. Ela compartilha da inocência de Branca, mas é uma inocência menos ignorante, focada mais na benevolência. Bela é inteligente e não aceita um príncipe encantado qualquer - ela quer escolher o seu.
Quando a garota se apaixona pela Fera, vemos uma paixão ardente de fato. A moça tem desejos. O foco da história então se dá não em como o príncipe irá salvar Bela, mas como Bela irá transformar um monstro em um príncipe. No caso, perfurar em suas amarras emocionais e libertá-lo para amá-la.


Eu diria que Branca de Neve é uma representação tipicamente masculina (da década de 30) sobre o que é ou como uma mulher deveria ser. Já A Bela e a Fera é uma representação tipicamente feminina sobre os desejos de uma mulher. A semelhança de ambas se dá na inocência da donzela e da procura por um príncipe e como esse príncipe pode mudar suas vidas. Não existe a mulher solo.
Entretanto, enquanto em um filme o príncipe é uma OBRIGAÇÃO, no outro é uma legítima construção de escolha da protagonista. Não é difícil entender por que um deles foi recentemente adaptado para live-action e o outro continua renegado apenas como um clássico antigo.

Se analisarmos bem, veremos que os dois filmes falam das mesmas coisas mas para públicos diferentes. Branca de Neve é a mulher da década de 30 idealizada para os homens e A Bela e a Fera é a mulher da década de 90 idealizada para outras mulheres. Ambas são visões utópicas e distorcidas de como funciona um relacionamento amoroso e do que é o desejo feminino. Ambas entendem a mulher como uma figura passiva do amor. Ambas enxergam o homem como ser complementar, e necessário, para a felicidade. Para Todos os Garotos que Já Amei não é diferente.

2. O arquétipo da donzela na prática (Análise)

Lara Jean é uma garota do segundo ano do ensino médio bastante tímida que aparentemente não tem nada de especial. Lara tem o costume de para cada paixão dela, mas aquela paixão avassaladora mesmo, escrever uma carta contando todos os seus sentimentos, como se conversasse com a pessoa. Ou seja, Lara ao invés de expor seus sentimentos, os guarda numa caixinha bem escondida no seu quarto e, sabe-se lá por que, endereça todas as cartas. Acontece que num dia qualquer, quando a garota menos esperava, todas as suas cartas são mandadas para os garotos os quais ela escreveu. E agora o que será de sua vida?


Primeiramente é interessante notar logo de cara a protagonista. Lara é ingênua e benevolente em toda sua timidez, com uma perspectiva de mundo utópica. Fica claro que estamos diante do arquétipo da donzela, porém adaptado para a nova geração: Lara gosta de escrever, tem um ar intelectual e adora filmes antigos "cults", entretanto, não consegue se relacionar de forma amorosa com o sexo oposto; a garota vive em uma bolha. Essa questão de viver numa bolha, claramente é um retrato contemporâneo acerca das redes sociais. Pois se Bela fosse colocada nos dias atuais, ficaria aflita acerca sobre likes e rejeição social.

Sendo assim, muito além do arquétipo, o filme se comunica diretamente com a jovem adolescente que também não tem coragem de falar diretamente com o crush. Cria-se uma relação de identificação na base da timidez e bolha social. E bom, quem vai comprar uma série de livros e consequentemente assistir o filme é a garota que adora ler sobre "como fazer as coisas", mas não coloca em prática. Nesse sentido há até um exercício de metalinguagem. Lara é fissurada por filmes romântico antigos e por livros do tipo, claramente melosos - essa retratação não é ao acaso, é uma busca de criar um espelho da jovem leitora. Em determinado momento, na transição de atitude frente a diversos acontecimentos, a garota joga todos os seus livros de romance no lixo. A metalinguagem (e cômica ironia) está no fato da própria Lara ser personagem de um livro e agora, de uma vindoura franquia de filmes adolescente românticos que apresentam exatamente aquilo que a espectadora quer ver.


Bom, também é importante notar como Lara é vazia. Em nenhum momento sabemos suas opiniões sobre o mundo, a sociedade, até mesmo a vida. Toda a sua jornada se restringe a família e namoro. somente esse dois temas. Claro, essa é a temática do filme, porém, enquanto personagem há uma menina bidimensional que vive numa bolha. Isso como estratégia para refletir a leitora é ótimo; criar personagens complexos para uma história do tipo pode causar antipatia e afastamento, o melhor é ter alguém simples para conduzir o enredo. Entretanto, se analisarmos com calma, fica um gosto de desenvolvimento suprimido em prol da massificação; em prol de abraçar todas as garotas do mundo. Pois Lara não é de todo desinteressante, filha de uma coreana com um americano, ela é mestiça e, portanto, essa relação de seu pai com sua mãe parece moldar toda a sua vida, tanto que os melhores momentos do filme é quando o passado, os traumas, vêm a tona. Só que Lara sempre é suprimida, sempre essas problemáticas são reduzidas para caberem única e exclusivamente no romance e assim, a menina fica desinteressante. Pois ela TEM de ser desinteressante, para que o seu mundo tedioso seja quebrado pelo príncipe encantado.

Para Todos os Garotos que Já Amei me incomoda em algum nível não por ser inocentemente antiquado, mas por ter uma base de história boa que poderia ser subvertida, mas que é calcada no arquétipo da donzela até o fim. Quer uma comparação? Não preciso ir longe, Lady Bird foi lançado no ano passado e tem a MESMA temática que esse longa (relações amorosas adolescente), mas com uma condução COMPLETAMENTE diferente.
Enfim, estou divagando, continuemos.


Como bem dito, as cartas são entregues aos crushes e assim, a vida da menina vira de pernas pro ar. A problemática que se segue é a seguinte: Josh, recente ex-namorado da irmã mais velha da protagonista, recebe uma das cartas! Lara escreveu para ele há muito tempo, já que antes dele ser namorado da sua irmã ele era seu melhor amigo. Sendo assim, para evitar o contato com Josh, Lara entra em uma farsa infantil junto de Peter Kavinsky: Peter também recebeu uma das cartas e ao entrar em contato com Lara ficou sabendo da confusão que esta passava. O rapaz está em fase de término com a sua primeira namorada e assim, por algum motivo desconhecido, surge com a ideia dele e Lara fingirem um namoro. Aparentemente parece até uma ideia boa: ele quer fazer ciúmes para a sua namorada problemática e Lara quer fugir do confronto com Josh. Porém, diga-se de passagem, o motivo de Lara é muito mais furado que o de Kavinsky, soando mais como uma desculpa para a garota "conhecer coisas novas".


Portanto, o filme parte do uso dos desejos femininos para a idealização em dois pontos: Lara não tem nada de interessante, como já dito ela é a reprodução do arquétipo da donzela, assim como Bella Swan e Ana Stelle. Mas, ainda que Josh não esteja de fato interessado na menina, existe uma brincadeira com a ideia de ser desejada - o de repente aparecer. Esse é o primeiro ponto. Lara ao revelar suas emoções, experimenta o mundo como seria se ela se arriscasse mais, em suma, ter não só uma pessoa que goste dela, mas várias.

O segundo ponto é a ideia da mudança do outro apenas com a postura donzelística passiva. Em suma, aqui entra a noção "Bela e a Fera" - o objeto de desejo, Peter, por fora é tudo o que uma garota quer: popular, musculoso, do time de Lacrosse, bem de vida e claro, "bonito" (ao melhor estilo padrão rosto quadrado corpo bombadinho). Lara é de outro universo, basta olhar sua melhor amiga, uma hipster tagarela (seriam os hipsters a substituição dos nerds nas histórias?). Lara é intelectual. Peter é o "monstro", a fera que o seu universo odeia.

Entretanto, é como dizem: o ódio e a paixão são duas faces da mesma moeda. A verdade é que Lara sente desejo por Peter, mas isso nunca é colocado de forma explícita na tela. Do mesmo jeito que Branca de Neve, a protagonista não pode se apaixonar puramente pelos atributos físicos de seu parceiro - isso seria fútil demais.

Em resumo: do mesmo jeito que existe o desejo masculino de ter "uma puta na cama e uma donzela perante a sociedade", existe o desejo feminino de ter "um bruto gostoso na cama e um sensível amigo que lhe entende". Mas calma, você talvez se pergunte, de acordo com o que eu descrevi, Peter é apenas um rapaz popular bombadinho, em que momento ele atende a esse desejo de Lara e consequentemente, o desejo da jovem leitora?


É aí que entra a questão da Bela e a Fera. O princípio é que lá no fundo, bem lá no fundo, este sujeito tão "animalesco", o completo oposto da protagonista, tem uma alma sensível. Sendo assim, Lara é a única capaz de resgatar e mostrar para Peter esses sentimentos tão valiosos. Em contraparte, o rapaz que nunca deu atenção para a garota, descobre como ela lhe faz bem - em suma, que diferente da moça fútil que é a sua ex-namorada (o arquétipo de Bruxa de Carl Jung), Lara é o tipo de mulher que lhe trará paz.

Peter, por sua vez, atua como além de um objeto de desejo sexual, também como catalisador de mudanças. Lara nunca faz nada por si só. A questão amorosa, de ter um namorado, é o empurrão que lhe faz despencar no abismo da indecisão. Indecisão, nesse sentido, é de conhecer coisas novas. É Peter que lhe mostra a bela garota que ela pode ser, que lhe leva para passeios e festas, que começa a lhe buscar de carro (um simbolismo sutil, mas relevante sobre a transferência de poder. Lara é uma péssima motorista e assim, para o alívio de sua irmã que insiste que um namorado lhe trará uma vida melhor, Peter se torna o choffer das garotas), que enfim lhe traz felicidade. Inclusive ficamos sabendo a exaustão como o rapaz faz bem para a garota, coisa enfatizada inclusive pelo seu pai. O pai de Lara surge como sujeito para dar valor à família e ao relacionamento; a importância de ter um macho, um outro alguém, um companheiro, para tornar sua vida plena.


A respeito de família e relacionamento, ainda que Para Todos os Garotos que Já Amei seja um romance cheio de estereótipos, ele presta atenção em uma questão importante para uma boa história: os traumas do passado. Nesse aspecto temos os melhores momentos do filme, quando Lara e Peter parecem destoar de seus arquétipos e conversam livremente sobre suas vidas, sobre seus problemas. Claro, nada é profundo, é até uma trama clichê (a menina que perdeu a mãe e o menino que perdeu o pai), mas a história fica interessante quando se esquece o romance e os dois adentram em uma conversa densa toda emotiva, ao melhor estilo As Vantagens de ser Invisível.

Porém, ainda que isso tenha lá seu valor, esses momentos são usados apenas para dar base ao idealizado romance. É a garota tentando na prática resgatar o lado sensível do rapaz e o conhecendo além da aparência de bruto. E ele, em contraparte, se apaixonando pela sensibilidade da menina. Outro uso dos desejos: há também na leitora o anseio de não só ser vista, mas ficar acima da tal gostosona e popular do colégio. O que o filme oferece? A perspectiva dessa troca. Quando a inocência se sobressai diante da luxúria.

3. Um fanservice satisfatório (Conclusão)

É interessante ver como funciona o fanservice para uma mulher "padrão". Eu digo padrão, pois imagino que o público massivo feminino consome esse tipo de história. O arquétipo da donzela colocado em primeira pessoa e não como fator externo de desejo para homens, ironicamente remete à uma concepção clássica. Pois veja bem, para os homens esse arquétipo "branca de neve" sozinho não funciona mais, alterando-se com o tempo para uma noção mais sexual. Mas, na perspectiva feminina parece haver um retorno à essas origens, com o exterior (homens, amigos, escola) lhe servindo para satisfazer os desejos, ainda que a protagonista não seja catalisadora das próprias mudanças em sua vida.

No geral, o filme foi além das minhas expectativas. Eu já imaginava uma produção cheia de estereótipos que usaria e abusaria do arquétipo da donzela, só que eu pensava em algo tosco. Para Todos os Garotos que Já Amei tem lá seus momentos cafonas, mas consegue inserir uma aura intelectual/hipster que torna essa nova versão da donzela clássica atraente (pelo menos enquanto diversão). Ele oferece algo e cumpre muito bem o que propõe. Desde o título, a proposta é ser uma produção que usará da jornada do herói para satisfazer os desejos femininos (de uma adolescente. Ainda que eu imagine que uma mulher mais velha consiga apreciar também). Tudo é muito bem executado dentro das regrinhas de roteiro básicas.
Assim, até mesmo eu, um homem que passa longe desse tipo de história, comecei a me lembrar das minhas idealizações românticas lá nos meus treze anos de idade (sim, pasmem! Homens também têm idealizações românticas), mesmo que paralelamente me fizesse sentir raiva ao recordar em como as garotas ficavam apaixonadas por Peters Kavinskys... Enfim, tema para outro artigo.

Em resumo, consegui me divertir e ainda extrai conhecimento a respeito do arquétipo da donzela e como ele se transmuta na nova geração ao conversar diretamente com as espectadoras. A obra não está ali para questionar, apenas para oferecer um mundo utópico onde alguma vez, quem sabe, a "nerd" saia por cima.

El Psy Congroo.

Ps: para não fugir demais da temática da análise, eu nem toquei na questão sobre esse filme abordar a introversão como algo a ser superado. Se você tiver interesse sobre o tema, leia o meu post sobre a clássica animação, Atlantis.

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Fontes
A representação arquetípica das bond girls
Arquétipos na publicidade
Os arquétipos nas propagandas de Revistas Femininas
Arquétipo de Inocente
Carl Jung e os doze arquétipos comuns
Arquétipo no cinema

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