O ensaio sobre ditadura versus democracia de Galactic Heroes

O que um dos maiores clássicos da animação japonesa pode nos ensinar sobre política?

Legend of the Galactic Heroes é uma das melhores obras que o Japão já produziu. É um space opera recheada de reflexões políticas e batalhas militares com táticas tiradas diretamente de conflitos reais. É uma obra tão grandiosa que quando encarei o desafio de escrever sobre ela, eu não sabia por onde começar. Logo, a solução foi a seguinte: falar de aspectos. E o aspecto mais proeminente provavelmente é a dicotomia que rege toda a trama, ditadura vs democracia. Além de ser a base de tudo, a forma como LOGH trata do assunto pode ser uma lição importante para a análise de sistemas políticos e questões em geral.

Obs: fiquei inspirado para escrever isso enquanto eu assistia o remake, mas este post tem como base o anime clássico de cento e poucos episódio. O remake está muito bom, mas por enquanto ele está incompleto e no geral há menos detalhes.


O contexto é o seguinte, nesse mundo há duas colisões interplanetárias: a Aliança dos Planetas Livres, um governo democrático, e o Império Galático, um governo autoritário. A premissa é nos apresentar um protagonista de cada lado. Yang a favor da democracia e Reinhard a favor da ditadura, o que é importante, pois LOGH nunca é uma história com ponto de vista unilateral. Esse é um problema que vemos muito no discurso político atual ("A oposição está errada porque sim!"), o que é um problema sério, pois se ela está errada você precisa mostrar onde está o erro, e sem diálogo isso não é possível, o mundo não é preto e branco, e esse é o caráter que toda a obra adota, mostrando sempre uma grande reflexão e profundidade acerca dos temas abordados.


Tendo em vista esse contexto, LOGH pode ser entendido como um ensaio político sobre os prós e contras de cada sistema de governo. Vamos começar pela democracia, pois é o sistema de governo familiar para nós. Seu defensor na série é Yang Wen-li, um cara que só queria viver a sua vida tranquilo. Ele sempre gostou muito de ler e por conta disso acabou virando um intelectual que se interessa principalmente por história. Quando mais velho, ele entrou na faculdade de história para virar um professor ou historiador, porém ele não tinha dinheiro, logo usou a política assistencialista do exército da Aliança, que pagava a faculdade de todos os soldados para incentivar o alistamento e possivelmente conseguir mão de obra mais qualificada.

Yang não queria estar no exército, mas a situação pediu que um pacifista fosse para a guerra contra sua vontade. Ele tem uma visão muito pragmática sobre conflitos e acha que a melhor conquista é a paz. Yang não luta por valores heroicos, ele não acredita que o mundo pode ser unificado em prol de um único ideal, diferente de seus colegas, pois seus estudos sobre milhares de anos da história da humanidade (ele vive num futuro distante) mostraram que isso é impossível. A conclusão geral dele é que sempre haverá conflitos, mas o objetivo mais importante é tentar controlar os danos que eles causam e acabar com eles o mais rápido o possível.


Durante todo o anime, tudo que aconteceu de errado com a Aliança o Yang havia previsto. Essa contínua impotência do Yang a frente de problemas evitáveis é a crítica do anime à democracia. Ele é a pessoa mais qualificada que previu todas as crises e todos os problemas, porém é enterrado sob  hierarquia e burocracia. Sempre existe alguém acima dele, que foi eleito democraticamente ou chegou ali de forma "justa", mas que toma decisões horríveis e acaba por sacrificar a vida das pessoas em prol dos seus objetivos. Vale lembrar, por exemplo, que o filme de 88 abre com o superior do Yang fazendo merda, o obrigando a agir rapidamente contra a hierarquia para executar a estratégia que salvaria a vida da população da nave.


Esse contexto lembra Sócrates, que era um grande crítico da democracia. Sua famosa metáfora resume a situação. Se tivéssemos que viajar em um barco, quem você queria que comandasse o navio? Marinheiros experientes ou qualquer pessoa eleita? Em Galactic Heroes, a maior falha da Aliança é ter em posições cruciais de liderança pessoas que não tem como interesse a preservação da nação e o bem estar do povo.

Por exemplo, vejamos a campanha que culminou na Batalha de Amritsar e foi um completo desastre para a Aliança. O pior de tudo foi o motivo dessa campanha militar, que foi realizada como propaganda política e nada mais. Após a Aliança conseguir vantagem eles poderiam ter negociado a paz, porém os políticos que estavam há tempos no poder, e eram pró-guerra, estavam perdendo popularidade, pois o movimento anti-guerra estava crescendo e novos políticos provavelmente seriam eleitos, principalmente por conta da figura de Julia, amiga de Yang e a mais famosa ativista anti-guerra. Eles basicamente fizeram a mesma coisa que o imperador romano Claudius fez, afinal o motivo de Roma ter conquistado parte das ilhas britânicas foi propaganda política, realizada para consolidar o apoio ao imperador após voltar com as glórias de uma campanha bem sucedida, pois Claudius era impopular e essa campanha ajudou-o a ganhar aceitação. Voltando a LOGH, para manter o poder, o conselho vota para que uma campanha militar em larga escala seja realizada, e após sua vitória hipotética, que eles presumiam que seria fácil, os políticos atuais se manteriam na mesma posição.

"O colapso de um governo é o pecado de seus governantes e líderes" 
- Almirante Bewcock

Há só um problema aí, quem decidiu essa campanha não sabia nada de tática militar e os líderes da campanha tomaram todas as decisões erradas, guiados por ingenuidade e fanatismo ideológico. Sócrates entraria em pânico se soubesse dessa história. A ideologia teve um papel enorme, diferente de Yang, que sabe que é impossível todo mundo estar unido pelo mesmo ideal, os políticos e outros militares ingênuos justificavam suas ações dizendo que era pelo bem da humanidade, que eles estavam lutando para libertar da tirania os povos do império! Coisa que Yang sempre achou ridícula, vejamos alguns pensamentos do protagonista sobre isso.

"A ditadura em si não é o mal absoluto, é só outra forma de governo, o importante é como você governa pelo bem da sociedade"


"Qual é o ato mais covarde e vergonhoso da humanidade? É quando pessoas com poder, e pessoas que agradam essas, escondem-se em locais seguros enquanto enaltecem a guerra, forçam o patriotismo e o auto-sacrífico nos outros e os mandam para morrer no campo de batalha. Pelo bem da paz no universo, antes de continuar essa guerra inútil com o Império, não deveríamos primeiro começar por exterminar esses parasitas malignos?"

Apesar de tudo, Yang ainda defende a democracia, apesar de toda vez ele saber que os líderes acima dele assinam o destino ruim da sua nação, ele ainda acredita nesse sistema porque ele tem ressalvas em relação a ditadura. Ele gosta de dizer que se uma sociedade democrática falha, é culpa de todo o povo; se uma ditadura falha, é culpa do ditador, porque ninguém tinha escolha e é muito fácil fugir dos problemas tendo um bode expiatório. Para explicar a visão do Yang sobre ditadura, primeiro, é importante falarmos do Reinhard.


Reinhard von Lohengramm nasceu numa casa nobre pobre, as dividas de seu pai chegaram a um nível em que ele praticamente vendeu sua filha, Annerose, a irmã de Reinhard, para o kaiser, o imperador. Esse acontecimento marcou Reinhard e traçou o caminho que ele iria seguir para a vida. O mostrou que ele vive em um império fútil que não trata as pessoas como seres humanos, na mente dele a única coisa que importa é poder, porque ele não conhece outro meio de lidar com o mundo. Na vida dele não havia liberdade de expressão, não havia eleições, o que importa é poder, e é assim que o Reinhard começa sua ascensão para destruir esse sistema e se vingar pelo que fizeram com sua irmã.


"Esses idiotas, o que eles acham que as pessoas são? Eles acham que nasceram com o direito de governar, eles acham que têm o direito de machucar os outros. Essas pessoas são malignas e o Império é corrupto demais"
 - Reinhard sobre os nobres

Reinhard dedica sua vida inteira a esse objetivo, desde sua infância. Ao longo de sua vida ele encontra oficiais jovens que compartilham de seus ideais e todos respeitam ele, pois Reinhard é um gênio, ele nunca perde, nunca erra. Ele é visto como uma figura messiânica pelos seus aliados, porque ele faz jus a essa alcunha, mesmo que ele seja obcecado com o poder.

"O que eu preciso é poder se eu quiser resgatar minha irmã. Antes de tudo eu preciso conseguir um poder que faria aqueles idiotas se curvarem ao meu comando. Se meus inimigos serão aristocratas, eu preciso de um poder maior que o deles. Se o imperador será meu inimigo, preciso ser mais poderoso até do que ele!"


O Reinhard não é um ditador comum, ele é o ditador "perfeito". Há até um momento bastante irônico em que nobres a favor da liberdade da expressão vão falar com ele pedindo que ele dê mais liberdade ao povo, e ele diz  "tranquilo, pode fazer". Eles até comentam algo como "estranhamente ganhamos direitos de um sistema democrático por meio de um ditador".

Ele odeia o culto a personalidade e não quer ser endeusado, isso faz ele parecer humilde aos seus súditos. Seus soldados e aliados o veem como um Messias, porque na visão deles o Reinhard é quase um enviado dos céus que está ali para ajudar a todos e viver entre eles, e ressalto esse viver entre eles, porque todos sabem da origem dele e de como ele valoriza habilidade acima de tudo, desprezando a nobreza soberba e gananciosa, atitude que reflete em seu círculo mais próximo de almirante, o qual é composto por muitos que não vieram de uma família nobre ou algo do tipo, pois só a capacidade interessa para ele. Reinhard chegou até a proibir que façam estátuas dele, no máximo uma estátua em tamanho real 15 anos após sua morte. Ele tomou essa decisão porque ao redor do império há estátuas de Rudolf, o primeiro imperador, que também era um genocida, e o culto a Rudolf irritava ele profundamente, pois o primeiro imperador representa tudo que ele via de errado nesse sistema. Uma das coisas que ele fez após virar kaiser foi remover essas estátuas de espaços públicos. 

Rudolf von Goldenbaum.

O Reinhard é tão amado pelo seu povo porque ele usa as vantagens da ditadura para melhorar o sistema de forma que ninguém nunca havia visto. Vantagens? Bem, deixe o Yang explicar:

"Na verdade, é a ditadura e não a democracia que drasticamente executa as reformas governamentais"

Porém, o Yang faz as famosas ressalvas dele:

"Mas eu não acho que humanidade deve ser unida sob uma ditadura. Por exemplo, é verdade que o Duque Lohengramm possui talento, mas e seus descendentes? Seu sucessor? Governantes não são necessariamente sábios através das gerações... E eu não acho que toda a raça deve ser governada por um sistema que depende do caráter de uma pessoa"

Ou seja, apesar de na história a ditadura ser o sistema eficiente, porque temos um ditador que faz as coisas funcionarem, que não é corrupto, que defende reformas que melhoram a vida do povo; nada garante que as coisas continuarão assim, é por isso que o Yang defende a democracia, porque apesar de lenta, ela tem mecanismos que impedem que certos tipos de tragédias aconteçam. Por exemplo, o Império era uma ditadura sanguinária da mais típica que você possa imaginar, Rudolf aprovou políticas de genocídio contra pessoas com doenças hereditárias, para assim criar pessoas "puras" ou alguma merda do tipo. Por exemplo, digamos que você tenha nascido cego, no futuro de Galatic Heroes você pode trocar seus olhos por olhos mecânicos - não pra Rudolf, se nasceu com algum problema é vala para ele. Além de que as famílias nobres acabaram sendo as pessoas mais próximas de Rudolf, ou seja, ele dava poder arbitrariamente. O Império no qual Reinhard vive antes de ascender ao poder é um pouco melhor, mas sofre com consequências das ações de Rudolf, pois os nobres acham que podem fazer o que quiserem enquanto o povo sofre em silêncio, porque ai de quem ousar desafiar o Império publicamente, repressão e execuções arbitrárias eram realidade antes de Reinhard e ele destrói essas injustiças... Impondo a sua própria ditadura, que apesar de ser muito diferente em comparação ao que veio antes, ainda é um governo no qual Reinhard é o kaiser e tem poder demais centralizado nele.


Por que nosso ditador perfeito é assim? Por que, apesar de instituir um governo em muitas instâncias justo e eficiente, ele ainda não abre mão do poder? É por que ele não confia na democracia, pois ele a vê como algo semelhante a nobreza que ele já destruiu, afinal para ele democracia é um sistema onde pessoas corruptas se aproveitam das massas em prol de seus objetivos. O próprio Yang diz que se ele houvesse nascido no Império ele seria um apoiador do Reinhard, porque na cultura deles uma pessoa como ele é realmente divina, um líder forte que faz as coisas funcionarem e se preocupa com a população.

Mas há outros problemas, afinal a crítica de Yang é justamente sobre o caráter do ditador, que pode fazer o que quiser. Afinal de contas, mesmo o Reinhard sendo extremamente popular, ele tem um defeito enorme, ele é megalomaníaco. Em certos momentos da história ele atingiu um nível de poder tão grande que ele poderia negociar a paz e ainda conseguir influência econômica sobre seus inimigos, mas não,  Reinhard quer conquistar tudo, porque é isso que mantém ele vivo. Ele dedicou toda sua vida a um objetivo, e quando ele conseguiu mais poder que todos, ele não soube parar. Ninguém no Império vê isso como ruim, porque a cultura bélica deles está tão bem estabelecida que é simplesmente normal, sem falar que geralmente o Reinhard vence as guerras, logo as pessoas acham que é só mais uma conquista do Messias deles. O problema é a falta de justificativa, ele continua conquistando pelo ato de conquistar, porque ele gosta de guerrear, fora do campo de batalha ele é até descrito como uma pessoa vazia, que tenta preencher seu tempo com arte e outras coisas que ele consome de forma robótica, porque nunca, em sua vida, ele havia parado para apreciar algo, já que sua vida foi totalmente dedicada a conquista dos seus objetivos, e após conquistá-los ele fica vazio.


"Meu objetivo é ser o governante supremo... e para atingir essa meta eu tenho minha própria política, que é lutar minhas próprias batalhas. Essa é a diferença entre mim e a nobreza que eu enfrentei e derrotei. Essa também é a razão pela qual os soldados me seguem"

Entretanto, assim como Reinhard, é possível argumentar que Yang também tem um defeito sério, a falta de ambição. Ele tem convicções muito fortes e nunca quebra seu comprometimento com a democracia, o que muitas vezes tende a ser um desastre, porque o sistema que ele defende é o mesmo que o prejudica continuamente. A história cria situações em que até eu, grande defensor da liberdade em todos os níveis éticos, me vi pensando "porra Yang, ignora o governo e faça o que é melhor pra nação". Uma atitude extremamente anti-democrática, e é por isso que Yang nunca toma essa postura. Esse contexto é reforçado pelo fato de que em conflito direto o Reinhard nunca foi capaz de derrotar o Yang, indiretamente fica claro que em um ponto de vista estratégico o Yang é superior, porém sempre há uma parede democrática que por alguma razão insiste em sabotá-lo . Pode parecer muito doido, mas vale lembrar que em situações de crise a Republica Romana elegia um ditador, porque eles entendiam que o poder centralizado agilizava a tomada de decisões políticas. Foi isso que aconteceu durante as Guerras Púnicas, provavelmente a maior guerra do mundo antigo, na qual essa decisão provavelmente salvou Roma. O ditador eleito tinha poder total por uma razão, por que os romanos entendiam o valor desse tipo de governo quando necessário. O problema é, como aplicar esse tipo de coisa sem desencadear uma ditadura militar permanente?


Quem está certo nessa história? Depende, você valoriza liberdade ou eficiência? Estabilidade ou mudanças drásticas? Você acha que os fins justificam os meios? Vale a pena sacrificar tudo pela vitória? Essas são perguntas propostas pelo anime, mas que ele não responde, os personagens têm visões opostas e argumentam constantemente a favor de seus pontos de vista. No final, nós é que precisamos tirar nossa conclusão dessa história.

Vale a pena um sistema democrático que não representa os interesses da população ou um ditador messiânico que consegue as mudanças que precisamos? Mas e se esse ditador não for um Messias, mas um demônio? Isso explica por exemplo como certas pessoas acabam sendo atraídas para qualquer lado do espectro político, porque no final depende da sua prioridade como individuo e isso explica também como certos ditadores conseguem ser populares, porque nos olhos da população o sistema anterior estava tão ruim que um "herói" ditador é a solução.

No final das contas não há resposta fácil, e é por isso que Legend of the Galactic Heroes é genial. Ele é um dos maiores exemplos de qualidade e excelência quando o assunto é narrativa. Todo mundo que gosta de história e de política deveria assistir esse anime, pois ele pega emprestado tantos conceitos reais para realizar a sua reflexão que chega a ser impressionante. É um prato cheio que é competente em quase tudo o que faz. Uma prova de que os animes como mídia não devem ser menosprezados.

Only darkness will remain.

Fontes
Overview: Roman Britain, 43 - 410 AD
Dictator, Roman Official
Why Socrates Hated Democracy (Texto)
Why Socrates Hated Democracy (Video) 

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