"A arte salvou a minha vida" #SetembroAmarelo

Depoimentos sobre a importância da arte para a saúde mental

Considerada o mal do século, até 2020 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o Brasil já conta com 5,8% da população com o problema, sendo o país com a maior predominância de depressão na América Latina e o segundo maior das Américas. Com o intuito de debater e prevenir o suicídio, em setembro de 2015 foi criada a campanha Setembro Amarelo pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Assim, considerando o diálogo aberto e a busca por métodos científicos que nos esclareçam cada vez mais nuances desconhecidas sobre o tema, nós da Divisão consideramos outro aspecto importante nessa luta, um aspecto as vezes negligenciado pela sociedade, porém influente em nossas vidas: a arte.

A arte, muito além de uma mera brincadeira de consumo ou criação, é uma forma de se expressar para o mundo sobre tudo o que passa dentro do ser - em suma, dialogar. Este site, antes de tudo, foi criado como um espaço de expressão acerca daquilo tudo o que eu queria conversar; talvez um escape da solidão. Introvertido, tímido, inseguro, a arte sempre foi a forma como eu consegui me conectar ao mundo em meio a tantos problemas e então, quem sabe escrever ajudasse a me entender, a talvez calar toda a tristeza. Com o tempo o site cresceu, outras pessoas vieram, outras pessoas foram, e hoje me sinto feliz em saber que isso significa algo mais não só para mim, mas para outros. Pessoas que veem a arte além de um simples entretenimento, vivendo para e a partir dela. Pois em uma era onde qualquer conteúdo está a um clique de distância, os filmes, as séries, os livros, a música, se tornam mais do que apenas momentos quaisquer de desfruto ocasional: se tornam parte de nossas vidas. As personagens que tanto acompanhamos em suas aventuras, os artistas que tanto admiramos, em algum nível são reais; reais em suas mensagens profundas e de tudo o que querem nos contar.

Pensando nisso, em como consumir, debater e fazer arte é algo profundamente relevante; em como podemos evoluir, crescer, ser abraçados e felizes por conta de tantas obras que amamos, convidei três pessoas talentosíssimas que eu admiro muito para contarem suas experiências, seja criando ou consumindo. De imediato as agradeço, pois sei como é difícil se abrir e contar para o outro sobre si - não uma faceta ou máscara social, mas o verdadeiro eu. Todos nós temos nossos fantasmas, todos temos nossas dores, cada um sabe o que passa, mas acima de tudo, acima de qualquer dor, estamos todos unidos pelo amor à arte, o amor ao saber, o amor por mundos diferentes muito além da nossa vã existência.

Sem mais delongas, fiquem com os relatos de Carlos Dalla Corte, Ashira e Yueh Fernandes.
- Atenciosamente,
Mateus Vieira (Maeister), criador da Divisão Paralela

Ohana
Arte por: SilviarteTexto por Carlos Dalla Corte

"
Numa tocante cena de Lilo & Stitch, a experiência 626, ao atestar sua metamorfose comportamental, parafraseia a uma desolada Nani algo que ouvira de Lilo, anteriormente:

“Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer”

Reflexão honesta instituída nos princípios da Disney em embutir suas obras de significados para adentrar o inconsciente dos pequeninos que compõem seu público-alvo e, de certo modo, interligar seus filmes em uma rede familiar mágica que fidelizou incontáveis pessoas desde que Walt Disney idealizou Mickey Mouse, tornando a empresa referência na animação. Apesar do direcionamento infantil, o comprometimento com o encanto costuma marcar tanto as gerações que, frequentemente, se torna um refúgio para a vida toda, acima de somente lembranças doces.

Eu fui uma criança muito impactada por essas animações. Muito antes de me declarar um cinéfilo, assistia longas quase que diariamente, apaixonado não necessariamente por cinema, mas incutindo este sentimento que mais tarde floriria. O Rei Leão, Tarzan, Mogli, Procurando Nemo, Mulan, Toy Story, Monstros SA. Vi e revi todos incontáveis vezes, sem jamais cansar, e mesmo que conferisse outros, era uma pequena seleta que me cativava mais, a ponto de saber suas canções e diálogos. Eu cresci exposto e envolvido nestas tramas.

O eu daquela época, cheio de amigos, ainda inocente e alegre, naturalmente subestimava a importância que as narrativas de Simba, dos homens criados por animais e da salvadora da China teriam no futuro, em mim ainda hoje. De um modo fortuito, mas também triste.

Pois eu, e é este o motivo deste texto, sofro de depressão já há alguns anos, com muitas de suas repercussões, causas e consequências revirando em minha mente no dia a dia. Mesmo convivendo com a condição há muitos anos, a depressão não nos acostuma. Não é como uma mancha na pele, alguma limitação motora ou usar óculos, respeitadas todas as dores destes problemas. Não se trata de uma comparação da severidade, mas sim as nuances. Pois a depressão, num caráter particular, é extremamente traiçoeira. Por vezes, elas desaparece por semanas, até meses, e nos faz ver livres de seus tormentos. Inexplicavelmente. Esquecemos seu peso, e quando tudo parece passado, ela retorna, sadia e cheia de energia, para nos sugar até o último suspiro de esperança. Assim como um Dementador, nos faz sentir como se nunca mais fôssemos ser felizes.

De uns meses pra cá, tenho enfrentado a pior fase de minha doença. Ela não cede, como se fosse um parasita habitando meu interior, me consumindo e devorando impiedosamente, aos poucos. Dá vontade de desistir, um aperto no peito e um nó na garganta que angustia indescritivelmente. Quando se chega neste estágio de severidade, somente medicação ajuda. Mas ela nem sempre está disponível, e nem sempre é suficiente.

É nessas horas que entra o conceito estabelecido na introdução: a Ohana, o cinema e a animação. Acometido pelos piores pensamentos trazidos pela depressão, como uma nuvem carregada de desgraça e escuridão, nada parece interessante e tudo que queremos é desaparecer. Nem mesmo o cinema me alivia nestas horas. Ou não todo ele. Uma parte entretanto, serve para me distrair e, durante algum tempo, me dar alguma luz: quando eu coloco aquelas animações que enriqueceram minha infância, as lembranças do passado, de um tempo melhor, mesmo que em fagulhas, me aquecem o suficiente para as lágrimas serem de nostalgia e não desespero. Em última instância, são estas animações que me servem de escapismo final e paliativo, quando nada mais anestesia o sofrimento.

Não há o lado crítico, analítico, cético ou sínico. É como se fosse transportado a outro tempo. Por um lado isto evidencia o desolador fato de que meu presente apenas me esgota. Mas é o que tenho.

Quando assim, rever o Ciclo da Vida, Stitch e o grupo surfando ao som do ritmo havaiano e Nemo encontrando seu pai, são minha família e que não me abandonaram quando mais me sinto sozinho."

- Carlos Dalla Corte é crítico e escreve, dentre muitas coisas, sobre cinema no site Devaneios Cinéfilos. Você pode também acompanhá-lo pelo Twitter
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Solidão pode se tornar solitude
Texto por Ashira

"Eu sempre gostei muito de música e de arte em geral, por que a possibilidade de criar sempre me atraiu, mas eu só descobri a música como uma amiga em uma fase mais recente da minha vida. De repente, eu me vi passando por uma período bem obscuro, em que eu estava fechada para o mundo, com a autoestima baixa, com traços de depressão e crise de ansiedade. Eu me sentia muito sozinha.

Por estar sempre triste, eu não conseguia fazer nada da forma que eu queria pois não havia no meu cotidiano vivências boas. Acabei ficando frustrada com a minha arte e tive que me redescobrir dentro da música. A solução foi construir uma nova perspectiva. Eu não precisava criar só coisas boas, só músicas de felicidade ou me projetar como uma pessoa que estava forte - comecei a escrever o que eu realmente sentia, como eu estava me sentindo frágil, comecei a me abrir mesmo, e a trabalhar em cima disso, sem medo de assumir a fase ruim que eu estava passando.

Então, eu pude perceber que as coisas que eu escrevia me refletiam e assim pude entender o meu eu. Muitas vezes quando eu precisava de alguma resposta e escrevia ou criava música, era como se fosse uma terapia; uma jornada de compreensão que se fazia visível depois desse processo de criação.

A música foi, e aliás ela é, a minha terapeuta. Me ajudou muito a me entender como pessoa, pois a partir do momento que eu comecei a colocar para fora, a ter que me olhar e falar, "olha eu tô me sentindo assim vou transcrever isso", identifiquei as minhas necessidades. A minha mente começou a conseguir a trabalhar a favor das minhas prioridades e hoje que eu estou em uma fase melhor, eu aprendi que a solidão pode se tornar solitude. Eu aprendi a converter toda essa energia negativa que estava na minha arte e usei a favor de me entender. A arte salvou a minha vida.

Por isso, sempre que eu me encontro com um sentimento desconhecido, ou algum sentido aflorado, que eu não sei o por que, uma raiva, uma tristeza, um remorso, eu procuro entender escrevendo sobre isso, cantando, colocando para fora, as vezes até falando. Eu tenho a mania de fazer freestyle, como se eu estivesse contando histórias, e aí quando eu projeto isso para fora, eu entendo o que eu estou sentindo e por que. A música fez eu me encontrar como pessoa. Fez eu entender que eu não precisava me apoiar em outras coisas para poder me sentir completa, que eu só precisava buscar dentro de mim; estava tudo dentro de mim o que eu sempre precisei e preciso. É como uma endorfina, como se fosse um remédio: quando eu estou muito triste eu não converso com ninguém, a primeira coisa que eu faço é escutar uma música ou cantar, e aquilo me é um sentimento de paz, de alívio muito grande que eu não sei explicar, que supera qualquer outra coisa do mundo. Uma sensação de cura."

  Ashira no projeto de poesia Rimanessencia

- Ashira é cantora e produtora musical independente. Você pode acompanhar o seu trabalho por meio das redes sociais: Facebook e Instagram 
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Escrever é a linha tênue que me separa de um lugar vazio
Texto por Yueh Fernandes

"Comecei a escrever muito cedo, porque estava insatisfeita, e escrever se tornou a válvula de escape, o meio que encontrei de viver a minha vida do jeito que eu queria. A vida com a qual sonhava. Dos seis aos doze, eu registrava minhas aventuras de faz-de-conta à caneta e lápis, gastando cadernos e maços inteiros de papel A4, garranchos horrorosos acompanhados de desenhos infantis e desproporcionais a ilustrar dragões, bruxas, monstros terríveis, cidades fantásticas e uma bela garotinha ruiva com o rosto cheio de sardas. Ela foi Samantha, e depois foi Angel, ela teve vários nomes, nunca o que me foi dado ao nascer, sua aparência tão diferente da minha, embora fôssemos a mesma pessoa. E quando me perguntavam “quem é essa?”, eu prontamente respondia: “minha amiga imaginária”.
Que nada, era eu.

Quando cheguei à adolescência, minha bolha de faz-de-contas estourou, e percebi que não era uma garota (e muito menos ruiva), quando minhas amiguinhas do colégio começaram a ganhar curvas e eu, fui ficando para trás. Fui me tornando cada vez mais fechada, cada vez mais distante das pessoas que amava, sempre na defensiva, sempre amarga, sempre alerta. Curta e grossa, ranzinza, mau humorada. Revoltada. Indignada. Cada vez mais insatisfeita com a minha realidade, com meu corpo, com a minha aparência, com o nome que me deram sem me consultar, com a vida que escolheram para mim, sem me perguntar. E o que fiz? Escrevi. Continuei escrevendo, abandonei completamente os desenhos e escrevi mais e mais, foquei na escrita a partir de então, pouco me importava o mundo real. A mim, era permitido viver a vida que quisesse nas folhas do caderno, na tela do computador. E assim, aos 14, escrevi o meu primeiro livro, o primeiro de muitos, sobre uma divertida família de bruxas, habitante de uma mansão mágica em um país fictício. Países fictícios em mundos fictícios sempre foram a minha marca, sempre foi difícil para mim escrever sobre o que já existia. Preferia criar coisas novas.

Escrever me ajudou a sair viva de uma infância e adolescência onde não me foi permitido ser eu mesma, onde minha verdadeira identidade foi forçada a ser vivida clandestinamente, nas páginas dos meus cadernos, devido a um tabu social.

Aos 19 anos, comecei a me hormonizar escondida, no mesmo ano, tive uma conversa franca com meu pai e minha mãe a respeito do que estava acontecendo, antes que eles notassem as mudanças em meu corpo, que ficaram muito claras com o tempo. Meu pai reagiu surpreendentemente bem, se mostrou empolgado, chegou a me presentear com um buquê de flores no meu aniversário do ano seguinte, o primeiro e único buquê de flores que ganhei de um homem na vida. Minha mãe mostrou-se aversa à ideia a princípio, passou os dois ou três anos seguintes receosa, tentando, para a minha segurança, me podar. Hoje, ela me chama de filha por respeito, pelo zelo à minha saúde mental e bem-estar psicológico, mas ambas temos consciência de que ela não me vê dessa forma. Não tocamos no assunto, somos felizes assim, permito que ela aprecie em paz e viva as memórias de um filho que ela perdeu, por respeito e zelo à saúde mental e bem-estar psicológico dela.

O mundo mudou para mim depois disso, e isso refletiu imediatamente em minha produção literária no início da vida adulta. O modo como as pessoas passaram a tratar-me fez com que eu criasse princesas alienígenas, policiais ciborgues e androides adolescentes. Mulheres abjetas, deslocadas de sua realidade, existências marginais, fora do padrão, rejeitadas pelo contexto em que foram inseridas, vistas como sub-humanas por suas respectivas sociedades, ou mesmo sobre-humanas, em suas respectivas narrativas. O fazer literário atua na minha vida como um modo de expurgar meus demônios, de ver a mim mesma de outro ângulo, uma maneira de mostrar a mim mesma que não estou sozinha, que sou mais forte do que mensuro, de que ainda sou minha melhor amiga. Na tela do computador, enquanto escrevo, re-imagino a mim mesma, recrio minha experiência, metaforizo minhas dores e as transformo em grandes epopeias vividas por mulheres fortes, maltratadas, porém resolutas, destemidas. E me inspiro nelas.

Escrever é a linha tênue que me separa de um lugar vazio e escuro para o qual eu jamais quero voltar."

- Yueh Fernandes é jornalista e escritora independente. Seu primeiro livro, Asas Escuras, foi lançado em 2018 e você pode comprá-lo pela Amazon. Você pode conferir tambén no site oficial ou entrar em contato com a autora pelas redes sociais: Twitter, FacebookYoutube e Wattpad
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Caso você queira se abrir e conversar, recomendamos primeiramente que entre em contato com o Centro de Valorização da Vida - pode ir sem medo, eles são profissionais e vão te ajudar no que for preciso :) . Mas também, caso tenha algum relato que envolva a arte ou simplesmente queira falar qualquer coisa sobre, pode nos enviar um email (contatodivisaoparalela@gmail.com), inbox no Facebook, DM no Twitter, no Instagram ou comente aí embaixo. Lembre-se, você nunca está sozinho.

Obs: o conteúdo dos textos foi inteiramente criado pelos convidados, mas os títulos foram dados por mim, Maeister.

Já que está aqui, leia:
Referências

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