A importância da imperfeição em Os Incríveis

Ou também talvez, Os Incríveis e o paralelo com a indústria dos quadrinhos

Os Incríveis, em minha humilde opinião, é uma das melhores animações da Pixar. Fico fascinado com a capacidade que os dois filmes têm de conversar tanto com adultos quanto com crianças sobre assuntos realmente profundos, enquanto mantém uma diversão boba. Claro, estamos falando da Pixar e é comum essa característica nas produções do estúdio, mas eu diria que em Os Incríveis o diferencial está na concepção de família e como a imperfeição se faz importante em um tipo de filme que deveria dar imenso valor aos poderes. Os poderes valorizados em Os Incríveis são outros, muito além da super força ou elasticidade. E é sobre esses poderes, que eu e você podemos ter, que o primeiro longa e sua continuação falam, usando o surreal, o colorido, o heroístico para subverter a normalidade dando valor justamente para o comum.

Mas, para entendermos exatamente essa mensagem, é preciso compreender antes de tudo os contextos de cada produção e as transformações que as unem e ao mesmo tempo as diferenciam.

1. O maravilhoso mundo dos quadrinhos

Quando o primeiro filme dos Incríveis foi lançado, os super-heróis estavam se recuperando de uma decadência. O que é retratado na história, mostrando o passado glorioso dos heróis e posteriormente suas vidas monótonas, é algo real sobre a indústria em si.

As comics (como conhecemos hoje) surgiram durante a segunda guerra mundial como uma forma de revitalizar a moral americana. O marco inaugural dos super-heróis como gênero foi um alienígena com aparência humana e poderes inimagináveis, conhecido como Superman. Essa época, onde surgiram personagens como Capitão América, Mulher Maravilha, Shazam e Batman, foi conhecida como Era de Ouro. Na Era de Ouro os heróis tinham como função levar alguma lição de moral, soando como seres perfeitos que combatiam a vilania. Rapidamente, logo que a guerra acabou, essa era viu-se findada ao fracasso com o despencamento do número de vendas.


Em paralelo, outros gêneros começaram a ganhar notoriedade, como as histórias policiais, de terror e mistério. De olho nisso, as editoras de quadrinhos de heróis começaram a adotar esses gêneros em suas histórias - o resultado foi uma mudança no teor dos enredos, o que ocasionou mais vendas, porém também em reação popular. A sociedade americana, na época muito conservadora, atribuiu aos quadrinhos no geral e em especial os de heróis, a culpa da subversão da moral juvenil, acusando-os de contribuir para a delinquência.

Diante disso, os quadrinistas precisaram se organizar antes que a própria sociedade os obrigasse. Assim surgiu o Comis Code Authority, uma forma da editoras se autocensurarem. Paralelo a esse cenário, começou-se uma reformulação na forma da representação dos heróis - a era de ouro já havia acabado e não havia mais interesse naqueles heróis em suas formas perfeitas nacionalistas. O caminho contrário, usando de um conteúdo sugestivo, causou toda essa balbúrdia, então a solução foi... A humanização.


Assim foram criados e reformulados grandes heróis como Homem-AranhaFlash, Quarteto Fantástico Lanterna Verde. Pode-se dizer que a Marvel em si basicamente surgiu a partir disto, o que constituiu a segunda era da glória dos heróis, conhecida como Era de Prata. DC e Marvel se estabeleceram como as duas grandes concorrentes, enraizando de vez os heróis na cultura popular americana. Muitas das melhores sagas/arcos, que dialogavam e acompanhavam as mudanças sociais, surgiram nessa fase.

Em todas essas transformações, é possível traçar ainda uma terceira era, conhecida como Era de Bronze. Se a era de prata estabeleceu os heróis e seus criadores, DC e Marvel, a era de bronze tratou de humanizá-los mais ainda. Não é consenso exatamente a época em que se iniciou, e dizem que cada editora e cada quadrinho vivenciou de formas diferentes, mas a era de bronze pode já ser percebida nas obras dos anos 70. Atribui-se essa nova era pelas perspectivas que surgiam - o código dos quadrinistas era alterado, abrindo alas para mais histórias pesadas. Heróis sem poderes ou anti-heróis começaram a se tornar populares. E os autores antigos deram lugar a novas mentes criativas, ávidas por reformular as suas próprias referências.

Alan Moore, conhecido como o mago dos quadrinhos, autor de histórias como Watchmen, V de Vingança e A Piada Mortal

Nos anos 80 duas publicações marcaram significativamente e demonstram as transformações de perspectiva cada vez mais sombrias, tanto do interesse do público, tanto da criação dos quadrinistas: Batman: O Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Entre os anos 80 e 90 houve uma nova explosão de criatividade, com histórias marcantes que alçaram os quadrinhos ao patamar da literatura, sendo este considerado a nona arte. Entretanto, a popularidade não era mais a mesma. As revistas vendiam cada vez menos, seja por continuações extensas ou pela competição com outras mídias. A solução das editoras foi apostar cada vez mais em publicações especiais, as famosas Graphic Novels, que vendiam bastante. Mas o grande alicerce para manter as editoras acabou sendo o licenciamento de brinquedos - daí a importância de desenhos animados. Não que eles não fossem antes, mas tornaram-se a base de vendas e da popularidade dos heróis.
Ainda que tenha acontecido outro boom na venda de quadrinhos, já na metade da década de 90 o cenário muda outra vez. A popularidade das revistas volta a decair.

Eis que então surge uma nova estratégia; uma estratégia de revitalização de marca, principalmente da Marvel que estava em apuros - Filmes. Na virada do milênio a Marvel  já havia vendido os direitos de grandes heróis, como o Homem-Aranha e os X-Men, e toma a dianteira na produção cinematográfica (não exatamente ela mesma fazendo os filmes, mas seus heróis ficam mais famosos ainda). A estratégia é um sucesso, os heróis vivem uma nova era. Ainda que essa era seja longe do que as outras foram um dia, é uma salvação e revitalização do mercado. Porém.... Será que duraria?

É sob essa perspectiva que surge o primeiro Os Incríveis.

2. As referências em Os Incríveis

Qualquer fã de quadrinhos bate o olho nos Incríveis e identifica na hora de onde vem a sua principal influência: Quarteto Fantástico. O Quarteto foi a primeira família de heróis dos quadrinhos e basta bater o olho na família Pera para vê-los ali, de certo modo, representados. Até certos poderes são iguais, como elasticidade e campos de força/invisibilidade. Sem contar no egocentrismo do patriarca da família em chamar-se Sr. Incrível - assim como Reed Richards, o Sr. Fantástico.

Entretanto, se o Quarteto Fantástico é a base, logo é perceptível outras influências. A principal delas é uma das obra-primas de Alan Moore, que eu citei no tópico anterior: Watchmen.


Em Watchmen acompanhamos a investigação de Rorscharch, um vigilante mascarado que começa a suspeitar de algo quando um antigo super-herói é subitamente assassinado. O interessante de Watchmen, além do tom extremamente realista, é que Alan Moore constrói um mundo baseado justamente no universo dos quadrinhos. As histórias das personagens estão ligadas a todas essas fases que os quadrinhos passaram, como era de ouro, de prata, bronze e etc. Sendo assim, o foco não é só nos heróis, mas no modo como a sociedade responde: e se surgisse um vigilante mascarado no nosso mundo que se coloca acima da população comum? É sob essa perspectiva que Watchmen trabalha, homenageando e satirizando as histórias clássicas (até por que, inicialmente o quadrinho seria escrito com heróis da DC. Como não foi permitido, Moore decidiu então criar os seus).

Os Incríveis bebe dessa fonte. A representação dos tempos áureos de combate ao crime é obviamente uma referência à era de ouro e prata dos quadrinhos. Está ali a semelhança em tudo, tanto nos vilões quanto no visual. As coisas começam a se complicar quando a sociedade passa a não mais ser mera espectadora, mas detentora  da permissão das atividades desses vigilantes. E é aí que surge a genialidade de Os Incríveis, pois Watchmen é um quadrinho adulto excessivamente sujo e pessimista - o realismo resulta em um tom político. Enquanto Os Incríveis é um filme para crianças - um filme para crianças não pode ser pessimista. Portanto, a alternativa é pegar o realismo e transformar em comédia; uma sátira bem bolada de pessoas como eu e você, só que com poderes.


O charme de Os Incríveis, ironicamente, não está exatamente nos poderes ou nas cenas de ações, mas na mensagem; nos diálogos; na apresentação diferenciada. Pois ainda que haja a comédia,o filme continua a ter aspectos sérios. Superman, em uma definição clássica, é o herói que salva com um sorriso. Em Watchmen, personificado pelo Dr. Manhattan (ele está mais próximo do Super do que do Capitão Átomo), é o herói que não entende as pessoas, não se importando com sorrisos.  Em Os Incríveis, o Sr. Incrível é o herói que tem de lidar com "grandes conflitos", como as discussões de seus filhos, um chefe mandão, o fato de não servir mais em sua roupa antiga e, ao mesmo tempo, um vilão que REALMENTE pode matar.
Deste modo, diante da uma base referencial tão diferente e um desenvolvimento único que só uma animação poderia dar, valoriza-se um aspecto importante: a imperfeição.

3. A importância da imperfeição

A imperfeição antes de tudo é algo essencialmente humano. Ser humano é ser imperfeito. E por isso, para criar heróis que se aproximam de seu público, é necessário torná-los humanos. Porém, a tarefa não é tão simples: heróis têm poderes e esses poderes lhes atribuem capacidades não humanas. Pois oras, não temos um corpo elástico para fazer duas coisas ao mesmo tempo em dois cômodos da casa, ou invisibilidade para nos afastarmos dos problemas. Então eis por que é tão refrescante quando encontramos uma obra que faz justamente um equilíbrio dessas capacidades e da vida normal - Os Incríveis é essa obra.

Beto valoriza o lado herói,  a tal era de ouro. O problema é que essa era é um lugar utópico que realmente nunca existiu, a não ser na sua cabeça. Sabe quando o seu pai ou seu tio relembra a época áurea de sua adolescência? Provavelmente ela não foi tão áurea assim, mas pelo fato de estar no passado, ou seja, registrado apenas na mente, fazem parecer melhor do que de fato foi. É o que vemos posteriormente no segundo filme, que mostra que o Sr. Incrível não era um herói tão... Incrível assim.


Helena, por sua vez, valoriza a família e a segurança. Ela tem consciência dos perigos que a vida de herói atribui. Ela tem consciência de que é uma utopia. Ter poderes não conserta todos os seus problemas, muito menos os dos outros - aliás, pode trazer mais problemas. Entretanto, ela desconsidera o fato de que ela, seu marido e seus filhos nasceram assim - ter poderes faz parte de quem eles são. Você precisa lidar com quem você é para uma vida saudável e portanto, ignorar não é a melhor das escolhas.

Assim, esses dois polos opostos, essas duas visões diferentes do que é ser um herói, são o núcleo dessa família. As perspectivas e as imperfeições é que formam a história. O que nos atrai não são os poderes, mas como eles lidam com esses dons - pois isso faz com que nos coloquemos em seus lugares. Cada um vê a sua família ali na tela. E famílias são perfeitas? Não. Famílias são uma bagunça.

Em suma, Helena quer uma família harmoniosa em uma família totalmente explosiva. Beto quer ser herói e vangloriado por isso em um mundo que não vê pessoas com poderes da mesma forma.


A imperfeição é o núcleo dessa história. É o núcleo da história de Violetta, uma adolescente na puberdade que não consegue conversar com o cara que tanto gosta e tem de ser a irmã mais velha. O núcleo da história de Flecha, um garoto... Garoto! Ele só quer se divertir e oras, ele tem super velocidade. E por fim, o núcleo do Zezé. O que são bebês? Do ponto de vista frio e calculista, a pura imperfeição. Por não "pensarem", não têm capacidade para se organizarem, para cuidarem de si, respondem apenas a estímulos. E bom, amplie as capacidades de um bebê normal para uma bebê com poderes. O resultado é o caos.

Essa noção - de família superpoderosa imperfeita - é seguida no segundo filme, mas com umas diferenças. Calma, é melhor entendermos o que essa família imperfeita representa.


No primeiro filme temos a representação de uma típica família nuclear americana como de fato ela é, e não como a idealização das animações para crianças diz como deveria ser. Se você notar, os pais em animações antigas são vistos como figuras sábias - veja O Rei Leão. A poderosa voz de Mufasa guia o pequeno Simba. E ainda que haja transformações das figuras paternas e maternas, como por exemplo o pai de Mulan passar a aceitá-la como ela é, eles continuam em um posto superior ao de seus filhos.

Em Os Incríveis, os pais são tão crianças e sujeitos a erros quanto os seus filhos - aliás, as vezes até mais. Violetta e Flecha em certos momentos são quem notam o erro que o Sr. e Sra. Incrível, presos em suas concepções adultas, não notaram. E claro, pais falam besteiras - gritam, agem de modo errado.

"Eu não acho que esse tipo de ideia (sobre o gênero super-herói em si) permanece interessante por muito tempo. Para mim, o interessante nunca foi a parte de super-herói, foi mais a dinâmica da família, e como as coisas de super-herói funcionam nessa relação." - Brad Bird, roteirista e diretor de Os Incríveis

Eis a importância desse primeiro filme. Ele coincide com toda a mentalidade Pixar que surgia na época, mas não só isso: é o primeiro filme sobre humanos da produtora. É uma mudança enorme na forma de tratar o entretenimento infantil. É a prova de que filmes infantis podem ser profundos, com temas sombrios e representações reais do que as crianças vivem. Pois, mesmo que na tela tivéssemos um Sr. Incrível todo sábio e a jornada fosse de seus filhos e não da família como um todo, na vida real o que uma criança vê é um pai imperfeito, que as vezes é atencioso, as vezes acerta em seus gostos, as vezes grita em demasia, as vezes se sobrecarrega - é humano.

Percebe? Ainda que seja um filme que funciona longe de sua época, a importância de Os Incríveis 1 tem certa relevância no contexto de produção. É uma resposta, como qualquer obra de arte, à época em que foi concebida. A representação de uma família nuclear tão imperfeita foi o charme e a novidade na época.

Mas então, o que muda no segundo filme?

4. Um abismo que se conecta

A pergunta não é o que muda no segundo filme, a pergunta é: o que mudou entre o primeiro e o segundo filme?
Eu diria muita coisa.

Nos anos 2000 os filmes de heróis davam os primeiros passos, sofrendo um "revival" que ninguém sabia ao certo onde iria parar. Nos anos 2000 não se debatia massivamente sobre representatividade nas obras de arte. Nos anos 2000 a noção de família estava atrelada a um homem, uma mulher e dois filhos.

Em 2018 os filmes de heróis são a sensação do momento. Em 2018 se debate a todo tempo (até demais) sobre a representatividade nas obras de arte, principalmente nos quadrinhos (a Marvel virou um reduto das minorias). Em 2018 a noção de família é muito maior do que o antigo papai e mamãe, uma noção que a própria Pixar abordou diversas vezes de lá pra cá.

Os Incríveis ajudou a estabelecer um gênero. Desde o lançamento do primeiro filme, diversas animações com o mesmo tom vieram, a Pixar se fundiu com a Disney (a Marvel também) e os heróis viraram definitivamente senhores de bilheteria. Obviamente, consequentemente a tudo isso, qualquer coisa que Os Incríveis 2 fizesse sendo apenas como o primeiro filme, não soaria como Os Incríveis, mas outro filme no meio de tudo aquilo que ele ajudou a estabelecer. Era preciso se atualizar.




Portanto, a continuação exata não é tão exata assim - e é o que a torna tão boa. Pois existe um abismo de mudanças sociais, culturais e mercadológicas entre os dois filmes. Um abismo que é refletido nesta continuação, entretanto ela continua a ser concisa com tudo o que sempre propôs. A sacada está no que os quadrinhos vêm fazendo há tempos: a troca de papéis.

Claro, uma troca de papéis por troca de papéis apenas acarreta em um enredo vazio. Mas, por exemplo, qual o segredo do sucesso de Miles Morales, o "Homem-Aranha latino" que foi duramente criticado antes mesmo de estrear? O desenvolvimento da história de Peter Parker sob uma nova perspectiva. Uma perspectiva mais atual e que resolve focar em outro macro, tão heroico quanto um garoto nerd padrão que perde o tio.

Assim, em Os Incríveis 2 Brad Bird usa deste recurso não só para trazer frescor, mas para realmente mostrar outras nuances das personalidades estabelecidas sob a típica família nuclear. Como eu já disse, em 2004 a representação dessa família de forma tão humana nas animações era algo novo; agora, passados 14 anos, é necessário dar mais um "bagunçada" nisso.


Mulher-Elástica surge como a heroína da vez. Quase toda a estrutura da trama do primeiro filme é repetida, mas sob a perspectiva dela como "a trabalhadora" e o Sr. Incrível como "o homem do lar". De imediato, muitos apontariam a influência do feminismo - e não estão de todo errados, realmente o filme reflete essas mudanças e debate - mas, ao invés de simplesmente fazer disso um meio para propagar uma mensagem panfletária, Os Incríveis faz dessa ideia um aprendizado e consequente união das personagens. Pois sim, a estrutura é a mesma, mas não, não é igual. Estrutura igual não significa mesmo conteúdo. Mulher-Elástica pensa diferente e age diferente nas mesmas situações pelas quais o Sr. Incrível passou - o Sr. Incrível também pensa diferente e age diferente nas mesmas situações pelas quais a Mulher-Elástica passou.

Eu diria até que a maturidade está mais profunda. No momento que surgem outros heróis, vemos uma diversidade de uniformes, de etnias, de idades - é o reflexo de um geração que tenta abarcar todas as minorias. Voyd, uma simpática moça de cabelo azul, abraça a Mulher-Elástica e enfatiza o quanto ela foi importante para a sua vida e aceitação enquanto heroína. É o antigo dialogando com o novo.


Nesse sentido, é bom também percebermos como as vezes estamos sempre batendo na mesma tecla, vangloriando certas condutas que já foram adotadas. Violetta tem uma mini jornada para se aceitar e assim, conseguir falar com o garoto que tanto gosta. Reflete toda a discussão que ganha os holofotes massivos, de que a mulher pode tomar a frente tanto quanto os homens - Violetta não precisa ficar sugerindo coisas para Toninho; ela mesma pode falar com ele e convidá-lo para sair. Entretanto, o curioso disso tudo é que essa jornada também foi construída no primeiro filme, há 14 anos. O tom "feminista" não é uma adição, mas uma continuação do que já existia.

Porém, ainda falando desse tom feminista, o feminismo atual não é o mesmo de antigamente, não é mesmo? Não vou entrar em detalhes sobre o feminismo em si, mas saiba que existem diversas ondas do feminismo, cada qual com suas necessidades. Atualmente estamos no que estudiosos chamam de terceira onda, um movimento um tanto quanto confuso que não é unânime naquilo que acredita. Pois veja bem: a arte massiva passou de renegar essa coisa toda do "girlpower", para flertar com isso, depois adotá-lo e agora, em alguns momentos, tentar inseri-lo de forma forçada. Os Incríveis surgiu ainda na era do flerte, não acompanhou a adoção e extrapolação. Então o que essa continuação faz? Debate.


Sendo sincero, foi um momento curto, até por que é um filme para crianças, mas esse momento impactou a todos e deixou até adultos estupefatos. Mulher-Elástica e Evelyn Deavor sentam-se e começam a conversar. Do que falam? Sobre a figura feminina. Sobre como a Mulher-Elástica é ofuscada pelo marido e também como a própria Evelyn trabalha para ajudar o irmão. Basicamente, estão discutindo todas as mudanças - não apenas sociais, mas que aconteceram no mundo dos quadrinhos. Estão discutindo feminismo. Estão discutindo o papel da representatividade. Estão discutindo o mercado. A conclusão? Não existe. Estamos vivendo esse debate agora.

5. A masculinidade frágil

Por fim, mas não menos importante, eu quero falar sobre a masculinidade frágil do senhor Incrível. Aqui quero enfatizar de novo: o tema dos Incríveis nunca foi os poderes em si, mas a exploração das imperfeições de uma família. E é justamente invertendo os papéis que temos novas nuances da personalidade de cada um.

No primeiro filme, ficou claro que apesar de uma boa mãe, Helena sempre foi muito controladora - ela não confiava. No segundo longa, essa confiança é colocada a prova, enquanto ela experimenta algo que não vivia há muitos anos - fazer o que ama.

O Sr. Incrível ainda que tenha também suas imperfeições demonstradas no primeiro longa (ele, assim como sua esposa, abdica de sua vida como herói para ter um simples emprego num escritório), nunca havia sido colocado em um ambiente tão... Diferente. Pois, Helena sempre esteve acostumada com lidar com o trabalho de casa, enquanto também teve anteriormente uma bela vida de heroína. Ela com toda a certeza é melhor que o Sr. Incrível em todos os aspectos.


Entretanto, mesmo Helena sendo melhor em casa e no trabalho, inclusive com números que atestam isso, por que Beto se coloca tanto a frente, se sentindo "ameaçado"? Por conta da sua masculinidade frágil. Essa é a grande imperfeição dele, além da negligência. Pois o problema da negligência foi resolvido no primeiro filme. Beto passou a confiar em sua família - porém, a jornada de maior aceitação foi da Mulher-Elástica, que passa a aceitar que não só ela, mas toda a sua família são heróis. E essa aceitação, o Sr. Incrível sempre teve dentro de si; é justamente o que ele sempre quis. O que ele nunca aceitou foi a importância do lado comum da família - a importância do "simples" trabalho de casa.

Sendo assim, Os Incríveis 2 é uma jornada de entendimento do personagem sobre quem ele é e o que ele pode fazer enquanto pai. Aos poucos, percebe que a esposa é tão boa quanto ele (melhor até) e que cuidar da família não é fácil. Aliás, pode ser mais difícil do que bater em vilões. E mesmo assim, mesmo diante de algo diferente, a qual ele não está acostumado, o Sr. Incrível descobre o prazer. E olha só, a Mulher-Elástica também tem seus próprios preconceitos quebrados ao perceber que o marido consegue cuidar de casa.


Qual seria a mensagem por trás disso? 
Não é algo exato, já que Os Incríveis não diz, mas mostra (como uma boa obra deve fazer), porém, eu diria que é a seguinte: habilidades são aprendidas. O Sr. Incrível não seria capaz de cuidar das crianças e da casa? Por que? Só por que ele é homem? Provavelmente ele levaria um tempo para aprender, como vimos no filme, e teria métodos diferentes, mas cada qual têm capacidades para isso. O mesmo vale para a Mulher-Elástica como heroína. Os dois são iguais.

Então, com toda essa questão em mente, eu digo que os super poderes não são o que os fazem ganhar a luta, mas sim a união, a compreensão, a harmonia, o entendimento do outro diante dos problemas. Coisas que eu e você passamos em nossas atribuladas vidas. Poderes a serem desenvolvidos por todos nós.

6. O que tiramos disso tudo

Fica claro que Os Incríveis 1 e 2 não são apenas animações para crianças, mas obras que refletem o seu próprio meio. Você poderia dizer que elas refletem apenas o lado social, mas eu discordo. Elas refletem a indústria dos quadrinhos (americanos), que é mais conhecida como a indústria dos heróis. Pois esse é o plot inicial: falar de forma satírica sobre os super-heróis. Porém, o que impactava antigamente, não é o que impacta atualmente - a sátira, como uma referência à um meio, precisa estar alicerçada em algo real. E essa realidade como referência, para Os Incríveis, é o mundo dos quadrinhos.

No final, diante disso, de uma subversão do que comumente estamos acostumados a assistir, surgem tantas outras pequenas coisas que tornam a obra mais genial: a fragilidade do Sr. Incrível, por exemplo, está baseada nas mudanças das comics que agora abraçam as minorias e toda uma discussão social maior - não a toa, essa discussão é muito intensa no segundo filme. Pois, em 2004 o que se esperava ver em um filme de uma família de heróis? Justamente heroísmo. E é exatamente o que o filme foge (pelo menos da forma como estávamos acostumados a ver). Agora, em 2018, depois de zilhões de obras que falam da fragilidade do herói, o que não se espera ver em uma animação infantil? Um debate e representação quase metalinguística, que até critica o lado social, estabelecendo... O heroísmo.

Não menos importante, toda essa diferença, toda essa transformação, toda essa dualidade entre os dois filmes acontecem imediatamente. Os Incríveis 1 e 2 é uma história que pode ser assistida como tal e ainda assim, mesmo com mudanças tão grandes, mesmo sendo reflexos de épocas diferentes, faz total sentido e coesão. A imperfeição é o problema dos heróis, também a cola que os une, sendo justamente o que torna tudo tão especial - e bom, esse poder eu e você também temos.

El Psy Congroo.

Referências
Os Segredos dos Super Heróis
Uma breve história da Marvel
História da DC
O mundo das histórias em quadrinhos
a masculinidade tóxica em Os Incríveis 2

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