Destaques

Do Amor ao Ódio - Square Enix Parte 3: O que diabos aconteceu com Final Fantasy XIII?

A série que ninguém pediu, mas voltou mesmo assim 

A Square desenvolveu alguns dos meus jogos preferidos, porém o que me admira é a capacidade da empresa de fazer merda com ótimas ideias, jogos e franquias. É um fenômeno tão sensacional que eu senti a necessidade de fazer uma série de textos sobre isso. Após três anos sem nada, lhes apresento mais um episódio dessa saga que provavelmente não vai acabar tão cedo.

Disclaimer: joguei alguns jogos mencionados há anos, então alguns erros podem aparecer. Se notados, peço que por favor enviem-me a correção


Final Fantasy XIII foi um jogo polêmico por várias razões. A Square já estava tentando experimentar com novos tipos de estilos há algum tempo e o décimo segundo jogo da franquia foi um enorme sucesso mesmo mudando totalmente a fórmula.  Então, a empresa achou que mudar era o caminho correto, porém nem sempre as pessoas gostam de mudanças, e isso gerou problemas, pois apesar das ótimas vendas, o jogo sofreu com várias críticas dos fãs. Veja bem, XIII vendeu extremamente bem, cerca de mais de 6 milhões de cópias é um número impressionante. Vale lembrar que o jogo por muitos anos foi exclusivo dos consoles, ou seja, esse número provavelmente exclui o lançamento posterior para PC. No entanto, olhar unicamente os números pode ser um problema, afinal em uma análise econômica é preciso levar em conta o fator humano, coisa que a Square não fez, ela olhou os números e presumiu uma demanda que não condizia com a realidade e decidiu transformar FFXIII em uma série, e é aí que começa a bagunça. É importante notar que com o tempo os números ficaram contra a Square, pois se a demanda realmente era real, por que a cada novo jogo a trilogia vendia cada vez menos? XIII-2 atingiu 3,5 milhões de cópias vendidas e Lightning Returns chegou a quase 1,5 milhões. Não me leve a mal, esses dois números são ótimos em padrões genéricos, mas para uma franquia que começou com 6 milhões, é um declínio considerável.

P.S: os números mencionados não levam em consideração o PC e posso dar a desculpa de que quando começaram a lançar os jogos para a plataforma a trilogia já estava completa, a cagada já estava consumada.



Vamos aos jogos em si: qual o problema com o primeiro XIII? O mais mencionado é a linearidade que afeta muito a primeira parte do jogo, conhecido como no mínimo "sofrível". Nas suas primeiras 25 ou 30 horas o jogo é extremamente linear, já não bastasse isso, essas primeiras horas também não mostram todo o potencial do sistema de combate, constituindo talvez o maior tutorial da história, afinal demoram vários capítulos para você conseguir utilizar todas as funções do sistema de batalha, que é sim excelente, porém no começo ele deixa um gosto horrível na boca por causa das suas limitações. A frase "o jogo se joga sozinho" não veio do nada, durante algum tempo o jogo realmente se joga sozinho, não deixando o jogador tomar o volante e usufruir das possibilidades desse sistema, mas não são 30 horas de combate ruim, após cada capítulo ele melhora após a introdução de cada função nova.


A linearidade em si não é um problema, o problema é a forma como o jogo aplicou o conceito, desagradando os fãs da série que estão acostumados com uma liberdade maior. Digo isso, pois um dos FF mais amados é na verdade um jogo bastante linear, estou falando de FFX. Quem conhece o jogo pode pensar "esse cara ta xarope" ao me ouvir dizer isso, mas não é loucura minha, como visto na imagem abaixo a jornada do X era na maior parte do tempo um jornada em uma direção só, é uma peregrinação né, a diferença era a densidade de cada região e a quantidade de liberdade. No XIII você passa por várias áreas uma única vez, e por conta disso essas áreas não tem muita coisa para você fazer ou ver, NPC para conversar nem nada do tipo, o objetivo dessas áreas é fazer você seguir com a história, e elas geralmente funcionam assim: entre na área, veja as cutscenes numerosas, mate os monstros, pegue os poucos baús e siga para a próxima área. Agora no X cada área é recheada de coisas, de vida, de pessoas, de histórias, de caminhos além de que você não precisa seguir a história e abandonar aquela área para sempre, a qualquer momento você pode voltar para encontrar mais coisas ali ou parar para explorar. Enquanto as áreas inicias de XIII são corredores, eu diria que as do X são como casas, possuindo caminhos para quartos, banheiros e cozinhas.


Essa primeira parte do XIII eu ainda achei agradável por conta da história, agora se você não tiver nenhum interesse nela, o início vai ser bastante tortuoso. No entanto, a história também causou polêmica, porque ela também é bem diferente do que se espera de um FF tradicional, e muitas pessoas falaram que ela era simplesmente horrível. Eu não diria isso, na verdade diria que ela tem muitos pontos positivos, mas que sofre com consistência na hora da aplicação, pois a primeira metade do jogo é um corredor carregado de história, enquanto a segunda é um mundo aberto enorme com uma carga de enredo incrivelmente menor em comparação. Essa segunda metade começa logo após o jogador passar pelo corredor simulator e descer para um mapa enorme cheio de coisas para explorar, porém vazio de enredo, ali o gameplay melhora muito, pois o jogador já está no controle de todas as funções do sistema, e quando isso acontece o sistema fica muito mais complexo e divertido do que o simples spam de X do início, mas o mapa ainda continua vazio de vida, além dos monstros, é claro. Por que não tentaram fazer as duas coisas? Um mapa enorme desde o começo e cheio de história ao mesmo tempo? Parece um oportunidade perdida. Por último, é importante ressaltar que a qualidade gráfica e a trilha sonora eram algumas das melhores na época. Dust to dust é uma das melhores trilhas de toda a franquia.


Informação aleatória que não sei onde colocar no texto: Apesar de toda a polêmica, a Lightning foi eleita pelos fãs japoneses a personagem feminina mais popular da franquia. Achei muito justa a colocação. Uma das melhores coisas do jogo pra mim foram os personagens, e gostei bastante da jornada da Lightning, se eu fizer um post falando sobre Mary Sue algum dia vou usar ela de exemplo de personagem feminina boa, porque diferente da Rey de Star Wars, mesmo em uma obra tão criticada, ela prevaleceu como uma personagem amada.

No final eu ainda diria que XIII é um jogo muito bom após passar por seus problemas iniciais, a história é no mínimo boa e o combate é sensacional quando todas as ferramentas estão na mesa. Até onde puder ver as pessoas se deixam levar demais pelo emocional quando falam desse jogo, pois quando você acha alguém que odeia o jogo a pessoa odeia mesmo e provavelmente vai te dizer que esse jogo é um sinal do declínio de toda a franquia. Prefiro uma posição ponderada, reconhecendo os problemas e as qualidades. No entanto, como atestei anteriormente, 6 milhões de vendas pra Square é um sinal de que estava tudo certo, e foi aí que começou a bagunça dessa trilogia.


A coisa mais irritante é: XIII não precisava de continuação, a história tinha começo, meio e fim. Era um enredo sobre a luta do ser humano para ser dono do seu próprio destino e para atingir esse objetivo eles enfrentavam as criaturas que eram os deuses desse mundo. Como continuar a partir daí? Bem, o negócio é que FFXIII na verdade tem uma história escondida do jogador que fica em textos que quase ninguém lê. Esses deuses do primeiro jogo, os Fal'cie, na verdade são entidades menores, existem deuses de verdade, um deles até chega a ser mencionado, o Deus da criação, e esses deuses genuínos são a base pro resto do enredo da série, porém eles eram insignificantes no primeiro jogo, eles haviam ido embora há séculos, acreditava-se que eles haviam deixado este plano de realidade e ido para o próximo, porém agora eles viraram o centro das atenções, e tem viagem no tempo por alguma razão, pronto, resumi FFXIII-2 praticamente.


Se isso parece confuso, é porque é mesmo. Eu não usei a palavra bagunça por coincidência, a história começou a ficar muito mais bizarra, idiota e confusa no XIII-2. Por exemplo, o final feliz do XIII agora foi reescrito, porque houve uma quebra na realidade e a Lightning desapareceu, então a irmã dela, a Serah, tem que viajar no tempo com um boy magia desconhecido, que caiu do céu falando que a Lightning mandou ele da dimensão da deusa Etro para impedir um vilão clichê aleatório de fazer alguma putaria que vai acabar com o mundo(????). Ainda estou por ver alguém que defenda o enredo deste jogo. No geral, o consenso é que a história é ruim, eu iria além, diria que ela é fruto de alguma insanidade desconhecida.

As ideias separadamente são interessantes, viagem no tempo e fim do mundo, mas a aplicação delas foi muito desleixada, por exemplo, há um momento em que a Serah e o boy magia tem que viajar para o futuro para alterar o passado!! como levar a sério uma coisa dessas? A ideia da viagem no tempo parece que veio do nada, e veio mesmo, não tem nada a ver com os conceitos estabelecidos anteriormente. O Maeister provavelmente poderia explicar melhor o que vou dizer: viagem no tempo é um tema difícil. Não é qualquer um que faz coisas boas usando esse tema, afinal existe o problema do paradoxo e das regras do sistema de viagem temporal, agora imagina quando a viagem do tempo não é o tema, mas uma ferramenta de roteiro, porque a história mesmo é sobre a deusa Etro e o fim do mundo. Isso me lembra Chrono Trigger, por exemplo, que era um jogo em que você tinha um mundo no qual você vivenciava cada mudança que você gerava, e não tive nenhuma sensação parecida nas viagens do XIII-2, parecia que as áreas eram isoladas, apesar de não serem. Meu ponto é, eu não consigo nem lembrar da maioria das consequências dos atos da Serah e do boy magia nesse jogo, enquanto eu ainda lembro das consequências das ações dos personagens de Chrono Trigger, e eu joguei FFXIII-2 há uns 2 anos, Chrono Trigger faz mais de 5. Outra coisa que fica clara por exemplo, é que Chrono Trigger usa ao máximo sua temática, final no jogo você viaja por períodos realmente distintos, desde a era medieval até um futuro pós-apolíptico cibernético, em comparação pode-se dizer que a maioria dos períodos de XIII-2 parecem acontecer na mesma época, não há o mesmo nível de detalhe na construção de cada período como em Chrono Trigger. Essa é a diferença entre tema central e ferramenta de roteiro mal utilizada.


Outra coisa irritante foi a troca de foco, pois antes os personagens eram relativamente pessoas normais com problemas normais, esse era um dos charmes do primeiro jogo, eles tinham problemas familiares e não queriam estar ali. Bancar o herói não é fácil e ninguém ali queria ser um, menos o Snow, e todo o enredo dele é construído em volta dessa aspiração vista como irreal. Eram personagens cheios de conflitos com o mundo e entre eles mesmo, isso cria situações novas para o estilo narrativo da série, mas XIII-2 é totalmente diferente, virou uma história clichê de vamos salvar o mundo! Ganhei um poder aleatório e agora viajaremos no tempo! Yay!

Pra exemplificar melhor é só analisar a Lightning nos dois jogos. No primeiro ela era uma mulher temperamental que se fechava para o mundo, os pais dela e da Serah morreram muito cedo, então ela achava que tinha que ser muito forte e responsável para cuidar da irmã, por isso ela entrou pro exército e essa é a mesma razão dela não aprovar o Snow, achando que ele é ruim para a Serah e que ela tem que proteger a irmã dela mesma. Durante o primeiro jogo inteiro ela se culpa pelo que aconteceu com a irmã e desconta no Snow, porém, após muitos problemas, ela percebe que estava errada, que se tivesse se aberto para a irmã muita coisa poderia ter sido diferente, que a culpa não era do Snow, ela que afastou a irmã. Ao final da jornada ela amadurece e tenta dar uma chance pros dois e acaba entendendo que é melhor viver perto das pessoas, não afastando elas.

Agora, quem é a Lightning do XIII-2? Bem, pode-se dizer que a deusa Etro escolheu ela para a representar numa luta doida aí contra o caos e o vilão genérico. Acabou. Isso mesmo, essa é a participação da Lightning no jogo, ela fica na dimensão da Etro lutando contra as forças do caos, enquanto a Serah procura a irmã. Eu não sei qual é a brisa dos japoneses de descartar quase tudo que foi construído anteriormente na continuação de uma obra de sucesso, pois não é só a Lightning que vira plano de fundo, o foco é total na Serah e no boy magia, enquanto a maioria dos personagens do primeiro jogo viram coadjuvantes sem muito desenvolvimento.


É interessante comparar a Serah com a irmã dela, por que esta não tem nem metade da popularidade daquela. O que tem de interessante na Serah? Quem é a Serah além da irmã da Lightning? Sinto em lhe dizer que ela não é ninguém. É isso que acontece quando você transforma uma ferramenta de roteiro na protagonista, afinal no jogo anterior ela era algo que motivava o Snow e a Lightning, previamente não conseguimos ver muito sobre quem ela é, e quando ela ganha os holofotes entra em cena o desafio de desenvolvê-la do zero, mas parece que nem tentaram, pois ela não tem conflitos, ela não tem uma relação interessante com o Noel, o boy magia, ela não tem nada a dizer sobre o mundo, ela não faz poses carismáticas e dá soco nas pessoas igual a irmã, ela é um prato refinado sem tempero. Comparemos ela com a irmã, novamente, pois a base da Lightning era similar, a ideia de "Eu quero salvar a Serah", no entanto, a Lightning ficava remoendo acontecimentos anteriores aos eventos do jogo, e vemos os flashbacks disso, ela ficava brigando com o Snow, ela não era simpática com os outros e questionava eles, e mesmo assim ela começou a tratar o Hope como uma espécie de irmão mais novo, sendo que até aquele momento ela não mostrou nada além de indiferença para todos os membros do grupo, e apesar de toda a fachada casca grossa o Hope se apega a ela, afinal a Lightning está acostumada a ser a irmã mais velha. No final ela faz as pazes consigo mesma e com o Snow, na verdade ela passa até a admirar ele. Ao fazer essa análise o que é possível notar são duas personagens partindo da mesma ideia, mas com desenvolvimentos completamente diferentes, afinal a Lightning tem substância, enquanto a Serah é um pacote vazio.


Um caminho que provavelmente seria muito mais interessante seria se o parceiro de aventuras da Serah fosse o Snow, o noivo dela, e não o boy magia. As únicas características relevantes da Serah são ela ser irmã da Lightning e noiva do Snow, então por que não tentaram aproveitar isso para desenvolver ela melhor? Afinal de contas eu ainda não sei porque eles se gostam, como é o relacionamento deles ou algo do tipo. Relacionamentos são ótimos ganchos para desenvolver personagens, por que descartar os relacionamentos dela? Aliás, no jogo o Snow vai embora a procura da Lightning, mas muda de missão no meio do caminho e fica andando pelas linhas temporais fazendo não sei o que a pedido dela, essa é a contribuição dele pro enredo, mais um desperdício.
 
E o Snow não ser o parceiro é decepcionante porque assim como a Serah, o boy magia não tem substância. O que mais chama a atenção nele é a devoção pela mulher que ele ama, o personagem começa e termina aí praticamente. É por isso que eu chamo ele de boy magia, não consigo lembrar de nenhuma característica notável nele além de "eu amo a Yeul". Cheguei a ler na wiki do jogo que ele é uma pessoa arrogante, mas protetor. Tudo bem, mas que efeito isso tem nas ações dele? Eu não consigo lembrar de nenhum momento onde isso é relevante, além dos momentos "eu amo a Yeul!". Acontece uma coisa interessante quando a base de um personagem é o relacionamento dele com outra pessoa, pois aí sobra a tarefa de convencer a audiência de que esses relacionamentos importam e impactaram o personagem.

Comparemos o Noel com o Tidus, protagonista de FFX. O Tidus também tem duas relações base que praticamente definem o personagem, a relação com o pai e com a Yuna, a diferença é que vemos as consequências disso em todo o enredo, afinal a Yuna é companheira dele durante toda a jornada, logo vemos em primeira mão o desenvolvimento conjunto dos dois, enquanto o pai dele é como um fantasma, sempre pairando sobre os complexos e problemas emocionais dele, com cenas inteiras que são praticamente eles brisando enquanto pensa no pai, ou pessoas falando que o pai dele era foda, o que irrita ele. Infelizmente, o Noel não possui esse mesmo tratamento, afinal a Yeul mal aparece, logo durante grande parte do enredo eu até esquecia porque ele estava ali, não há um reforço da faceta emocional que caracteriza o personagem, pelo menos não um que convença, porque simplesmente colocar ele gritando "Yeul!" em momentos de tensão é drama forçado, não é desenvolvimento de personagem.


O mais triste de tudo é que o gameplay do XIII-2 é excelente. Ele manteve toda a complexidade do XIII e a introduziu no início, não há o famoso tutorial alongado, logo de cara você pode usar todos os recursos, e talvez eu deva falar de como funciona esse sistema. O jogo não é bem de turno, ele usa um sistema velho da franquia, o ATB, active time battle, mas atualizado, agora em vez de mandar um comando que consome sua barra de ação você pode mandar vários. Minha memória está ruim para explicar com melhor clareza, mas posso salientar, por exemplo, que em certas lutas do XIII é preciso ter total controle dos buffs e debuffs na luta, manter o olho na vida das pessoas e dar ordens em sequência cuidadosamente para reagir ao que o inimigo está fazendo. Há várias adições novas à franquia, como a barra de combo (esqueci o nome exato), a qual enche rapidamente conforme você usa magias, e enche muito devagar com outros tipos de ataques. Boss fights, por exemplo, viram uma luta para tentar estourar a barra do boss, porque após isso ele fica vulnerável e toma uma quantidade considerável de dano. Talvez seja melhor mostrar um vídeo. Infelizmente não achei um vídeo em PT tão educativo quanto este do canal Wing Damage.



Até onde eu lembro, o XIII-2 manteve tudo que havia de bom no sistema de combate e ainda adicionou a capacidade de capturar os monstros estilo Pokemon mesmo, mandando eles pro meio da luta depois. Também há a adição de um sistema de build que lembra muito o grid sphere do X, porém extremamente simplificado, ainda bem, porque aquele grid era uma loucura.

Enquanto XIII era um jogo sério e melancólico, XIII-2 é o carnaval de Pernambuco, essa é a impressão que eu fiquei. Eu não consegui levar o jogo a sério em quase nenhum momento, a história não é mais sobre os temas do primeiro jogo, que geralmente eram a complexidade de relações familiares e se o ser humano tem controle do seu próprio destino. XIII-2 em comparação é uma bananada maluca de deuses mencionados previamente em textos que ninguém leu, mas que agora, por alguma razão, são relevantes. Pra vocês terem uma ideia da loucura que é esse enredo, o boy magia é um habitante de um futuro destruído no qual ele vive com uma sacerdotisa que morre e renasce infinitamente, ela tem um protetor imortal que acompanha todas as suas encarnações. Essa situação tem alguma coisa a ver com os deuses que causam isso. Após milênios vendo a menina morrer o guardião dela virou full emo e decidiu que queria destruir tudo, ele mete o louco da maneira mais insana e no final do jogo o tempo é interrompido para sempre! Sim, esse é o final do jogo, o tempo para.

De onde veio tudo isso? Eu não tenho certeza. A impressão que passa é que isso é um universo expandido da Marvel, no qual do nada surgem novas forças do além para alterar as leis do mundo. Mas tirando essa parte, que posso não ter explicado muito bem, uma coisa que posso dizer é, o foco do primeiro jogo eram pessoas, no segundo são esses conceitos mágicos e deuses. É uma mudança muito brusca em comparação ao que foi estabelecido antes. Se fosse minha responsabilidade eu tentaria abordar como a humanidade tenta viver em um mundo no qual os Fal'cie "benevolentes" morreram, porém ainda é um mundo no qual os Fal'cie indiferentes ainda persistem. O que as pessoas vão fazer? Começar a guerrear entre si ou viver em harmonia agora que nenhum ser superior dita as ordens? Aliás, vale ressaltar que XIII-2 e Lightning Returns esqueceram quase que totalmente da existência dos Fal'cie indiferentes, afinal nem todos morreram durante a história do primeiro jogo, e esse é um grande furo de roteiro.


Apesar de tudo, XIII-2 ainda vendeu bem, menos do que o primeiro jogo, mas bem, porém a Square já havia planejado não uma, mas duas continuações, porque depois do tempo parar, aparece depois dos créditos "continua". Agora vamos para o final dessa bagunça, Lightning Returns, que parece mais um teste pro estilo do FF XV do que um jogo feito com amor e carinho. Eu não tenho provas concretas, só circunstanciais. Entenda o contexto, Versus XIII passou muitos anos em desenvolvimento até virar outro jogo conhecido como FFXV, durante esse tempo toda a trilogia XIII foi desenvolvida e seu último jogo virou um sandbox com uma filosofia de design mais próxima de jogos ocidentais do que de RPG japoneses, assim como FFXV, porém Lightning Returns era cru demais, parecia que estava testando conceitos em vez de polir eles, por isso eu penso em Lightning Returns, ou XIII-3, como a Square tacando o foda-se e fazendo um teste pro XV. Uma característica desse tipo de design ocidental, por exemplo, é a imensa liberdade, você pode fazer tudo na ordem e no momento que você quiser, o que geralmente destoa da filosofia japonesa de tentar manter algum nível de linearidade na hora de montar a história de seus jogos. É só comparar Skyrim com Persona para entender do que eu estou falando.

Voltando ao assunto, falta de polimento é o apelido de Lightning Returns, o jogo agora está lotado de side-quests espalhadas em um mapa completamente livre no qual você pode ir para qualquer lugar, mas parece um jogo incompleto justamente porque essas quests são todas bastante superficiais. Pergunte a um fã de The Witcher o que faz do jogo especial, e ele provavelmente vai mencionar algumas side-quest, em FF XIII não é bem assim, pois a história principal recebeu mais cuidado, enquanto as quests secundárias foram feitas de forma industrial, afinal ninguém nelas é um NPC memorável e animado com qualidade. Eu não estou brincando, veja essa cena emocionante na qual um homem monologa e chora em um cemitério enquanto seu rosto se recusa a se mexer. Além de que vários outros NPC no jogo possuem o mesmo rosto desse homem, sensacional, não conseguiram nem fazer uma quantidade boa de NPC únicos, basicamente reutilizaram alguns modelos de NPC várias vezes seguidas. Isso não me parece um jogo completo, mas um teste genérico. Eu sei que é possível achar assets repetidos em um jogo como Skyrim, mas tem que procurar bastante, em Lightning Returns não, os modelos são tão repetidos que só de fazer as quests você vai encontrar pessoas com o mesmo rosto.



O ROSTO DELES NÃO SE MEXE. Acho isso engraçado até hoje. O pior de tudo é o potencial, porque como sempre o visual das coisas geralmente é muito bom, os modelos dos personagens principais são ótimos e as áreas são lindas, cheias de detalhes e coisas pra ver, o problema é que as pessoas que habitam esses lugares são pessoas que fizeram acidente com botox e não conseguem mover a cara. Isso porque essa quest que eu mostrei tinha algo de interessante ainda, era uma história de perda, havia alguma substância, pois existem outras quests bem idiotas em comparação, como checar os relógios da cidade porque uma mulher acha que se os relógios pararem o mundo vai acabar, e olha lá, o mundo ta acabando de novo e dessa vez é inevitável, só que agora a Lightning virou Jesus e seu objetivo no jogo é trazer a salvação aos fiéis.


Isso não foi uma piada, a Lightning é a salvadora, a agente de Bhunivelze, o Deus da criação, e fazendo as quests você restaura a esperança nas pessoas ou alguma putaria do tipo, e aí sai uma luz do peito desse povo, luz essa que deveria ser a alma ou algo assim, e a Lightning absorve essa alma porque ela é Jesus e está levando o povo pro céu. Tipo, sensacional isso, você consertar os relógios de uma cidade e PUM, a mulher vai pro céu. Não preciso dizer que eu passei o jogo todo sorrindo, porque tudo isso é muito engraçado. Ah, e o tempo parou, esqueci dessa parte, o tempo está parado há uns 500 anos, ou seja, todo mundo ali são anciões, até as crianças. Essa é uma ideia extremamente interessante, mas a história não me passa a ideia de que as pessoas vivem há tanto tempo, pois tudo parece tão normal, as pessoas vivem como viviam antigamente, raramente você encontra uma quest interessante na qual uma criança comenta algo sobre como é difícil viver nesse mundo com o corpo de criança e mente de adulto, mas é só até aí que a profundidade vai. Outras premissas similares tentam lidar com as consequências de uma vida prolongada, mostram a humanidade se tornando apática em relação ao tempo vivido, ou desenvolvendo problemas psicológicos novos, porque a mente não foi feita para durar tanto tempo. Não em Lightning Returns, as pessoas tem memórias vívidas de coisas que aconteceram há 500 anos e mantém uma sanidade admirável, além de algumas passarem séculos fazendo as mesmas coisas, se não me engano há NPCs que trabalham no mesmo lugar há tanto tempo que eles nem se lembram a data exata.


O combate que sempre foi um dos pontos fortes também sofreu, dessa vez a Square meteu o louco de vez e quis criar um sistema totalmente novo até pros padrões da franquia, porque agora a Lightning é Jesus, mas não tem apóstolos, então tiveram que adaptar um sistema em que ela luta sozinha e desempenha todas as funções do jogo. Parece interessante, mas na prática achei um porre. Toda a complexidade anterior parece que foi pro saco, durante a maior parte do jogo tudo foi muito fácil e virou quase um spam de X mesmo, tirando alguns bosses que davam lutas muito boas. Meu problema era a repetição, você nem ganha mais XP lutando e as lutas tendem a ser todas a mesma coisa, porque você anda muitas e muitas vezes pelos mesmos locais fazendo quests encontrando os mesmos inimigos diversas vezes, pra ser mais especifico, há quatro grandes mapas no jogo, e ali os inimigos não variam tanto, além das lutas serem um pouco demoradas. É mais fácil sair correndo e ignorar a maioria das lutas para terminar as quests mais rápido, porque você PRECISA fazer quests ou a Lightning ficará muito fraca, afinal você ganha status coletando as almas das pessoas, não lutando. Também vale ressaltar que por alguma razão o jogo roda num timer, em 13 dias o mundo vai acabar e você tem que salvar o maior número de almas até lá. Enquanto o primeiro jogo tinha uma história boa, e o segundo tinha um combate excelente, Lightning Returns é medíocre em quase tudo.


O primeiro jogo era sério, um RPG "normal", o segundo virou Doctor Who e o terceiro Majora's Mask. Nunca vi uma continuidade tão inconsistente na hora de transformar algo em série como a que só a Square é capaz de fazer. Perdoem a hipérbole, mas a Square merece depois do que fez com FFX. Eu imagino que o fetiche sexual da Square seja desapontar as pessoas, se ela fosse uma pessoa seria alguém que chegaria em casa e se excitaria pensando "como eu vou ferrar com algo que as pessoas gostam?" e começaria a se masturbar pensando nisso.

Falando sério, o que diabos levou a Square a criar a trilogia XIII de forma tão confusa e inconsistente? Eu não consigo entender, imagina uma reunião de negócios "então, pessoal, vamos aos poucos mexendo nas coisas que todo mundo gostava a cada novo jogo, ao ponto de ninguém reconhecer o que fez as pessoas gostaram desses jogos" e o resultado foi Lightning Returns. Admito que posso ter errado em relação a qualidade do jogos, afinal faz tanto tempo que joguei, logo confiei na memória, no entanto, em relação a inconsistência da Square, preciso de um argumento muito bem elaborado pra me mostrar que essa não é uma empresa especialista em bagunças. E eu digo isso como alguém que realmente gosta dos jogos que ela fez. Então, por que você faz essas coisas, Square?

Only Darkness Will Remain.

Fontes:
http://www.novacrystallis.com/2013/01/japan-ranks-their-favorite-female-characters-from-the-final-fantasy-series/

http://www.vgchartz.com/gamedb/games.php?name=final+fantasy+XIII

https://www.youtube.com/watch?v=Bt3BjFb-vfQ

Leia as outras partes desta coluna:

Postagens Relacionadas
Nos siga nas redes sociais! Facebook, Twitter e Instagram

Comentários

Postagens mais visitadas