A religião, a indústria cultural e a introversão na arte sul-coreana [Especial]

Do cinema ao kpop. Do budismo ao cristianismo. Um dorama pode dizer mais do que imaginamos

Eu fui um dos ingenuamente capturados pelo kpop. Em mais uma das ondas excursionarias do estilo musical no ocidente, eu me deslumbrei não só com a música, mas com o visual e as coreografias. Consequente a isso, à absorvição de um meio que está inserido em toda uma sociedade diferente da nossa, vem o interesse pela cultura. Logo, quando mal pude perceber, eu estava acompanhando shows de variedade, programas de tv, filmes e até quadrinhos. Entretanto, nunca tinha me deparado com um estilo de narrativa muito famoso: o dorama. Será que seria tão diferente do que eu estava acostumado a ver no ocidente ou no próprio Japão? O que surgiria a partir disso?

Decidi começar com Black, um dorama lançado em 2017, atualmente disponível na Netflix, que tem por temática um estilo fantasioso sobre a morte. O resultado foi uma explosão de reflexões que me impulsionaram a pesquisar mais ainda sobre a Coreia do Sul e assim, pude entender a complexidade do que estava ali na minha frente. Para muitos, Black pode parecer apenas uma simples história bobinha, mas ela nos diz mais do que imaginamos. Entretanto para compreender tudo isso, é preciso falar de temas um pouco "estranhos" e voltar lá atrás, bem lá atrás...

 Capítulo 1: A Influência Americana


Como bom otaco, sempre me interessei pela excentricidade asiática, mas quando me deparei com a cultura coreana me vi frente a um caso particular. A Coreia do Sul tem consciência da importância do soft power e por isso, a partir dos anos 90, houve uma abertura a explosão americana que causou a indústria que conhecemos hoje. O soft power é um conceito elaborado por Joseph Nye em 1980 para definir o poder relacionado às influências culturais: poder não está atrelado somente à força (esse seria o hard power), mas também a forma como se influencia outro meio. Pense no Estados Unidos e toda a sua força cultural - enorme não é o mesmo? Ao longo do tempo foi visto que o soft power é um ótimo meio para se dominar, sem grandes estragos, uma outra população.

"O conceito básico de poder é a capacidade de influenciar os outros para que façam o que você quer. Basicamente, há três maneiras de se fazer isto: uma delas é ameaçá-los com porretes; a segunda é recompensá-los com cenouras; e a terceira é atraí-los ou cooptá-los para que queiram o mesmo que você. Se você conseguir atrair os outros, de modo que queiram o que você quer, vai ter que gastar muito menos em cenouras e porretes."

O EUA não precisa invadir fisicamente o Brasil, nós já nos colocamos aos seus pés diante dos produtos culturais que recebemos. Ao invés de bombardear uma cidade ou oferecer algo em troca pela influência, somos continuamente expostos a propagandas e mais propagandas que nos ensinam, em um nível praticamente inconsciente, sobre a importância daquele país. O que o McDonald's, por exemplo, vende não é um hambúrguer, mas um estilo de vida.

Sendo assim, essa nossa relação com o EUA obviamente não começou agora. Lá na época da segunda guerra mundial, em 1942, tivemos o saudoso filme Alô, amigos, com personagens da Disney no Brasil (e a apresentação do icônico Zé Carioca). Esse filme não foi uma mera diversão, mas o atestado do inicio de uma relação baseada na dominação cultural americana, que acentuou-se significativamente com a ditadura militar.


Estou dando o exemplo do Brasil para uma comparação e entendimento maior, pois esse processo de aproximação e logo dominação não aconteceu somente conosco, mas com inúmeros outros países - a Coreia do Sul inclusa.

Em síntese, percebendo como as ideologias importavam, indo muito além da força bruta, o EUA estabeleceu com inúmeros países uma relação de soft power e hard power - no caso, ajudou a Coreia do Sul na guerra das Coreias, de 1950 a 1953, enquanto exercia influência primordial no mercado. A ideia era estabelecer uma dependência base, seja pela ajuda militar ou financeira.

Não vou entrar aqui em detalhes, pois isso demandaria um artigo a parte, mas devo dizer que há um diferencial importante no caso da Coreia na relação com o EUA: o território do país não tem recursos naturais. Isso fez com que a zona fosse considerada apenas um ponto estratégico contra o comunismo, no caso, a Coreia do Norte - não havia um interesse americano maior em qualquer outra perspectiva se não obliterar os demônios vermelhos e por isso, acabou-se oferecendo maiores liberdades às ditaduras que se seguiram (entretanto, é importante deixar claro que ainda que a Coreia tivesse maior liberdade para se desenvolver, contando com grande ajuda financeira americana, há um histórico extenso de perseguições e assassinatos, que tinham como principal função "proteger" o país dos comunistas).


O que podemos observar até aqui? 
Primeiramente, que a relação do EUA com a Coreia do Sul é mais extensa do que a maioria imagina. O soft power surgiu depois de um histórico de dominação, que resultou de certo modo em fracasso. Quando observamos a história das ditaduras coreanas, fica claro como a Coreia em si, ainda que necessitasse do apoio americano, preservou a sua integridade nacionalista. O governo Syngman Rhee, uma ditadura claramente americana, estabeleceu de vez a presença norte-americana, mas ao mesmo tempo foi rejeitado pela população, o que levou em 1961 ao golpe de Estado do general Park Chung Hee. Chung Hee prezou por uma forte industrialização, que já vinha acontecendo, porém focado em uma produção nacional.  Em suma: os estrangeiros, do ponto de vista político, nessa época eram mal vistos; a Coreia tem um jeito próprio de tomar decisões. Entretanto, ainda era necessário a ajuda financeira estrangeira, o que por sua vez estava ligado a relações diplomáticas muito próximas.

Em nível cultural, o mercado coreano não é aberto até os anos 80 (justamente pelo fato dos coreanos prezarem por um desenvolvimento de si), mas, curiosamente, cria algo próprio em vista ou comparação aos produtos de fora. Isso acontece em todos os setores, até mesmo (e principalmente) na indústria tecnológica e explica as bases da Hallyu: a Coreia posteriormente às ditaduras, continua a preservar uma cultura muito própria, mas ao mesmo tempo é influenciada pelo estrangeiro. Essa influencia nunca vem pura: sempre é adaptada aos gostos com bases, obviamente, nas repressões das ditaduras, assim como na herança das dominações por outros países.

 Capitulo 2: A influência japonesa, a influência chinesa e as religiões coreanas


Um leigo na cultura oriental facilmente pode pensar, por exemplo, que Japão, China e Coreia são muito parecidos. Entretanto, esse estereótipo, de que "oriental é tudo igual", não é de todo errado. Claro, o erro está na generalização, mas existe uma longa relação entre Japão, China e Coreia - uma relação péssima para a Coreia, diga-se de passagem.

Falar exatamente o inicio do contato coreano com o Japão e a China é falar das origens do país, e isso entraria em um assunto extenso. Mas para esse artigo, é importante saber que grande parte da cultura tradicional coreana tem raízes na japonesa e na chinesa. Claro, a Coreia tem características próprias, mas durante a sua história é possível entendê-la como um meio a ser dominado - o histórico de dominação pelo Japão e pela China é extenso, o que inclusive influenciou até o seu alfabeto. Não a toa, duas religiões são a base não só para a espiritualidade, mas para a construção do pensamento coreano: o budismo e o confucionismo chinês.

"(...) o Budismo e o Confucionismo têm sido mais influentes do que quaisquer outras na vida do povo coreano, e mais da metade do patrimônio cultural registrado do país está relacionado com as duas religiões¹"

É importante entender que o budismo e o confucionismo não foram meramente formas de adoração ou filosofias, mas também perspectivas sociais e políticas. É interessante notar o intercâmbio cultural: o budismo, por exemplo, chega na Coreia em 372 d.c., quando embaixadores chineses visitaram o reino de Koguryo. Posteriormente, o Japão viria a tomar contato com o budismo no século 6, justamente por monges coreanos. O budismo acabou por tornar-se a religião oficial do Japão por muito tempo, influenciando e mesclando-se ao xintoísmo. Ironicamente, o xintoísmo, durante a ocupação japonesa na Coreia (1905-1945), foi imposto aos coreanos. Por que ironicamente? Pois como podemos ver, foi a Coreia que também influenciou a cultura japonesa, tanto que ao ser submetida a um estado de colônia japonesa em 1910, foi como uma grande baque de vergonha - os coreanos sempre se consideraram como mentores da cultura japonesa²


"Tá, mas o que tudo isso tem a ver com a noção de morte e a indústria cultural?"

Primeiro é importante entender o caráter das duas religiões influenciadoras, o budismo e o confucionismo. Ambas não são dogmáticas, pautadas na ideia do eu. "Como assim?"
Pense nas religiões abraâmicas: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. Todas têm em comum a figura de um ser superior que controla tudo e por isso, levam consigo respectivos livros de regras para a conduta. As regras são diretas e explícitas, pautadas em uma salvação da humanidade, com cenários bem desenhados, seja do paraíso ou do inferno. 

Ainda que o Confucionismo, por exemplo, seja baseado nos escritos de Confúcio, esses escritos são mais como direcionamentos; ideias pessoais de como levar a vida. O budismo é ainda mais esotérico: as ideias de Sidarta Gautama foram repassadas por discípulos, resultando em diversas vertentes. Se as religiões abraâmicas têm Deus, no caso, o externo, como ponto de salvação - você deve se submeter a uma força maior - as religiões orientais têm o eu como ponto de partida para o entendimento do universo. Essa diferença é tão clara que indubitavelmente o cristianismo, o islamismo e o judaísmo são religiões, enquanto o confucionismo e o budismo podem ser levados apenas como filosofias - tanto que continuam culturalmente presentes na vida coreana, ainda que grande parte da população seja vista como ateia.


Por fim, mas não menos importante, outro aspecto a se considerar é o fervor independente: como bem podemos ver, existe um histórico de dominação japonesa, chinesa e depois japonesa de novo. Esse último, o mais recente e doloroso de todos. Imagine se o Brasil nunca tivesse sido colônia e de repente, em pleno anos 10 do século XX, na decadência do sistema colonial, fosse submetido a isso? Logo após, ao invés de finalmente surgir a independência, ocorre outra dominação, dessa vez ocidental em prol de uma guerra que não lhe beneficiará de jeito nenhum (a guerra fria). É uma enorme vergonha moral.

Sendo assim, a espiritualidade coreana passa a ter um teor revolucionário: cada país asiático tem a sua relação com a honra e a Coreia, visto a sua história, se apega à ideia de nação justamente por conta dos momentos repressivos que passou.


E muito mais que isso, além de querer ser legitimado, o país também quer ser visto em pé de igualdade - com fervor, os ideais neo-confucionistas foram adotados no período ditatorial em prol do progresso da nação.

A Coreia do Sul é um caso singular de capitalismo estatal e portanto, a história recente mostra que, para sair de um estado de pobreza em um período extremamente rápido, o país transformou o ideal introvertido, baseado, novamente, no budismo e no confucionismo, em uma exploração da mão-de-obra. Em prol de um bem maior, os coreanos se sacrificam. Claro, nada disso é generalizado, houveram mudanças sociais importantes e revoltas; porém, o nacionalismo prevalece sempre e se não fosse a intervenção soviética e americana, provavelmente teríamos hoje uma unidade.

 Capítulo 3: Introversão x Extroversão


Talvez você tenha se perguntado a respeito do parágrafo acima, "ideal introvertido? O que é isso?". Primeiramente, é importante entender o conceito de extroversão e introversão. O conceito vem do filosofo Carl Jung e é importantíssimo para entendermos as nossas personalidades individuais:

"Carl Gustav Jung, psiquiátrico suíço conhecedor dos estudos de Freud e fundador da Psicologia Analítica, caracteriza introversão como o tipo de personalidade que torna a pessoa mais observadora, que prefere manter-se sozinha com suas ideias a se expor. Ao contrário de extroversão, que caracteriza como o tipo de personalidade que torna a pessoa mais ativa, de forma a se satisfazer quando está entre pessoas, utilizando o mundo como fuga irracional"³

Susan Cain, no livro O Poder dos Quietos, investiga mais a fundo essas noções, conseguindo criar um paralelo entre a biologia e o contexto social. É aqui que entra o conceito de ideal.

Ideal seria tudo aquilo que é parâmetro para algo ou alguém. Muitas vezes esse parâmetro é totalmente irreal. No caso, na maioria dos países ocidentais há uma noção de que um sujeito eloquente, que fala bem e se relaciona com muitas pessoas, provavelmente é mais preparado para alguma função, enquanto em muitos países asiáticos a noção é justamente inversa: um sujeito reservado, que fala moderadamente e se relaciona de forma profunda com quem é importante, provavelmente é mais preparado para uma função. Não sei dizer a raiz dessa diferença, mas acredito que de novo, a religião tenha grande papel nisso.


O cristianismo, a principal influência para o ocidente, é baseado na conversão; na luta para alcançar o paraíso. Como já mencionei, essa é uma luta que parte do externo para o eu, e do eu para o externo. Já o Confucionismo, é uma filosofia que preza sempre pela moderação. Equilíbrio é a palavra-chave para todos os aspectos da vida do adepto, com o indivíduo tendo papel dominante e relevante na sua própria felicidade - se algo dá errado, o fardo recai sobre a pessoa, não puramente em demônios ou planos divinos. Essa concepção se faz presente na educação: "Em muitas salas de aula do Leste Asiático, o currículo tradicional enfatiza a escuta, a escrita, a leitura e a memorização. Falar simplesmente não é o foco, e chega a ser desencorajado", aponta Cain em seu livro (página 146).

Em sua obra, Susan mostra também como muitas culturas asiáticas são voltadas para a equipe. Os indivíduos se veem como parte de um grande todo, seja a corporação, a comunidade, a família, a nação - justamente tudo o que vimos na história da Coreia do Sul -, enquanto no ocidente a cultura é organizada em torno do indivíduo. Segue um trecho do livro que acho extremamente relevante para este artigo:

"(...) Por exemplo, um estudo comparando crianças entre oito e dez anos em Xangai e no sul de Ontário, no Canadá, descobriu que crianças tímidas e sensíveis eram renegadas por seus colegas no Canadá, mas tinham muitos colegas na China, onde também tendiam mais que outras crianças a serem consideradas líderes. As crianças chinesas que são sensíveis e reticentes também são chamadas de dongshi (compreensivas), um elogio comum.

Da mesma maneira, estudantes chineses de ensino médio disseram aos pesquisadores que preferem amigos que sejam “humildes” e “altruístas”, “honestos” e “trabalhadores”, enquanto os estudantes norte-americanos procuram os “alegres”, “entusiasmados” e “sociáveis”. “O contraste é impressionante”, escreve Michael Harris Bond, psicólogo especializado em cruzamentos culturais cujo foco é a China. “Os norte-americanos enfatizam a sociabilidade e valorizam os atributos que fazem uma associação fácil e animada. Os chineses enfatizam atributos mais profundos, focando em virtudes morais e nas conquistas.” (Susan Cain, página 148)

Claro, peço para que não generalize. Um coreano é significativamente diferente de um chines e em cada nação existem diferentes tipos de pessoas, mas aqui estamos falando de estrutural social; o massivo que representa um inconsciente coletivo. Nós, brasileiros, não somos iguais aos argentinos ou mexicanos, mas é inegável que existe uma personalidade e construção social em torno dos países que são chamados de latino-americanos.

 Capítulo 4: Indústria Cultural 


O conceito de indústria cultural é um conceito elaborado pela Escola de Frankfurt, movimento filosófico da década de 20 do século XX, que entende a cultura como produto. Com a industrialização do mundo, a própria cultura passa a ser um produto a ser vendido, seja para influenciar (como falamos lá no começo sobre soft power) ou apenas lucrar. A cultura, ainda que imaterial, passa a ter um preço.

Embarcando nessa ideia, existe um outro conceito, cunhado por Walter Benjamin (filósofo da Escola de Frankfurt) que exemplifica bem o que quero explicar: a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

De acordo com Benjamin, a obra de arte em si tem uma aura, que é perdida ao longo de sua reprodução. "Como assim?" Bom, pense na Mona Lisa. O quadro em si tem uma aura: ao ir no Louvre, você pode ver as pinceladas de Da Vinci e experienciar de perto o que ele queria passar com o enigmático sorriso de La Gioconda. Essa experiência sua com a obra não existe quando você apenas observa uma imagem no computador - seus olhos não cuidadosamente olham cada pincelada, ângulo e conceito; você está diante de uma reprodução, que ainda que seja muito fiel, não é o original.


Quer um exemplo mais atual? Pense no fenômeno do kpop, BTS. Você  pode ver mil vídeos dos ao vivos do grupo, mas nada se compara a estar no show. A experiência de ouvi-los cantando e vê-los dançando junto da emoção de outras pessoas é, por enquanto, impossível de ser reproduzida.

Sendo assim, se a indústria cultural é sobre a cultura como produto, e se o mundo é um lugar industrializado e capitalista, não é difícil prever uma troca intensa de influências culturais que modificam significativamente as pessoas e os lugares.

Em 1988 ocorreu a primeira eleição democrática na Coreia do Sul, colocando um fim no período ditatorial. Como bem sabemos, mudar para uma democracia não significa simplesmente eleger um novo representante, mas também significa afrouxamento em setores antigamente rígidos, principalmente no âmbito social. Lembrando que a essa altura a Coreia já era significativamente relevante no mercado internacional, sendo um país bastante industrializado com uma população majoritariamente metropolitana. Entretanto, o controle finalmente foi dado nas mãos da maioria; as rédeas culturais soltaram-se.

A mudança foi tamanha, que em 1992 surgiu um grupo de jovens rapazes polêmicos, com roupas excêntricas e músicas que criticavam a sociedade, falando das aflições da juventude. O nome? Seo Taiji and Boys.


Seo Taiji é um marco para a indústria do kpop e portanto, para a história coreana. Perceba: em pouco tempo, de uma cultura com músicas que só exaltavam a nação, o país passou a admirar a cultura hip-hop. Obviamente, como tudo dito até aqui, do próprio jeito.

Interessante notar como existe um paralelo com o próprio Brasil: ao fim da ditadura militar, o hip-hop surge como um meio de expressão do povo que antes não tinha voz, denunciando as mazelas sociais. Só que, para fins de comparação, o hip-hop no Brasil só atingiu representação no mainstreim apenas nos anos 2000, enquanto conseguiu finalmente algum status relevante recentemente.

Ironicamente, sempre consumimos a cultura americana a rodo, com o R&B dominando as paradas musicais por muito tempo; porém, a produção nacional só ganhou notoriedade nos dias atuais e isso se aplica também ao pop (obviamente temos um longo histórico de grupos importantes de rap, principalmente se pensarmos em Racionais MC's. Mas estes quase sempre foram renegados a uma cultura alternativa, com suas exceções e picos de aceitação). Na Coreia do Sul não aconteceu isso: Seo Taiji impactou o país por inteiro, se tornando um marco, gerando toda uma indústria.

O governo, de olho no soft power e em como isso poderia ser importante, destinou parte da verba nacional para a cultura (o que perdura até hoje). Deste modo surgiu não só o kpop, mas também uma proeminente indústria cinematográfica. Por muito tempo, o governo obrigava que a cada filme estrangeiro exibido houvesse uma produção nacional.

Gráfico mostrando o aumento da exportação cultural da Coreia

Basta assistir qualquer programa de variedades que tenha como tema algo relacionado a filmes - lembro de assistir um Weekly Idol com algum boygroup em que eles tinham de adivinhar frases icônicas e assim, conforme adivinhavam, a edição do programa colocava as cenas dos filmes. Para a minha surpresa, eu não conhecia nenhum dos filmes e doramas - alguns pareciam óbvios e clássicos, de acordo com a reação dos participantes. Foi aí que eu descobri que existe uma indústria cinematográfica enorme, com inúmeros gêneros de filmes e séries. Um mundo criativo semelhante e muito diferente do nosso.

Obs: para entender mais sobre o kpop, recomendo fortemente o documentário da Netflix. São apenas 20 minutos, mas explica muitas coisas e é interessante perceber como tudo o que eu falei aqui se encaixa perfeitamente.

Obs²: este artigo brevemente relaciona a cultura coreana e a influencia na indústria do kpop. Recomendo também a leitura.


Neste sentido, de indústria cultural, podemos encarar a religião também como produto. Antigamente a religião estava atrelada aos costumes locais, mas com a industrialização temos meios midiáticos efetivos e uma relação com outras culturas. O budismo foi a religião majoritária na Coreia por muito tempo - nos anos 50 apenas 8% da população era cristã. Na virada dos anos 2010, o cristianismo superou o budismo, com 29% da população adepta, contra 23% ainda budistas. Algumas pesquisas chegam a mensurar 39% de cristãos.

Percebe a importância disso? Não? Então pense no nosso contexto: imagine se as transformações no Brasil fossem tamanhas, que ao chegar no novo século o budismo ultrapassasse o cristianismo. Isso seria bastante significativo pois o cristianismo está atrelado a nossa concepção de nação. Então quer dizer que os coreanos deixaram o ideal da introversão de lado e ficaram mais ocidentais?
Sim e não.

Sim, a influência estrangeira obviamente aumentou muito, mas a Coreia continua a ter a sua própria identidade. Para fins de comparação, o ateísmo é relevante, mas não exatamente da forma que conhecemos. A filosofia confucionista e o budismo se apresentam como vertentes filosóficas - ou seja, o coreano moderno não se dedica a essas duas religiões enquanto religião, mas elas ainda continuam presentes na vida cotidiana, nas crenças pessoais. E como não há nenhuma figura divina, ou melhor, Deus, passa-se a acreditar que a Coreia do Sul é um país ateu. Mas não é bem assim - de um lado há a modernidade, muitos coreanos simplesmente não se importam ou não têm tempo para a religião, mas do outro há uma crescente relevante de cristãos, principalmente católicos.

Esse mix todo resulta em um país com uma pluralidade imensa de crenças. Templos confucionistas, budistas, protestantes, católicos e xamanistas convivem lado a lado. Consequentemente, a noção de morte é bem mais complexa do que o simples céu e inferno.

 Capítulo 5: Black, a representação coreana da morte (Análise)



Finalmente chegamos no ponto principal deste artigo: a aplicação de tudo o que aprendemos em uma obra de arte. Black é só o dorama que mais me chamou a atenção e que me ocasionou diversos questionamentos, mas você pode usar a percepção deste artigo em tantas outras obras coreanas. Aviso desde já que NÃO há spoilers, pode ler sem problema e depois se houver interesse, assistir a série.

Comecemos pela sinopse: "Black conta a história de um detetive (Moo-gang) possuído por um ceifador com uma missão no mundo dos humanos e que conhece Ha-Ram, uma garota que pode ver as sombras da morte. Os dois lutam para salvar a vida de pessoas, quebrando as regras do céu e desvendando mistérios do passado de ambos que estão mais ligados do que eles imaginam." (Fonte)

A noção de ceifador do plot do dorama já é um tanto quanto diferente - a Coreia não tem uma mistura tão relevante de religiões, como por exemplo o xintoísmo japonês, e por isso é comum a ideia do homem em si ter nas mãos o rumo do próprio caminho. Sendo assim, podemos atribuir aqui duas influências: a da cultura japonesa e a da cultura americana. Na cultura japonesa temos os famosos shinigamis, relevantes em livros, filmes e principalmente animes.


Por muito tempo a Coreia foi rígida sobre a importação de produtos japoneses, e até hoje há restrições para certas coisas, mas atualmente é inegável que a Coreia é um dos maiores consumidores e produtores de animes (muitas produções japonesas são animadas na Coreia). Portanto, a noção de ceifador tem essa influência, onde eu apontaria em especial duas obras: Death Note e Bleach.

Bleach surge como influência muito pela noção lógica militar colocada sobre a figura do ceifador. No caso, 444, o ceifador que possui o detetive Moo-gang, é um capitão frio e calculista. Logo, somos apresentados a uma noção importante de hierarquia - hierarquias são importantes nos países asiáticos, justamente pelo nacionalismo e a noção "corporativista" da vida. A família, o Estado, tudo está acima do ser; o coreano ideal é aquele que se sacrifica pelo bem maior. Sendo assim, existem conflitos advindos das hierarquias - isso é representado na jornada de 444, que se considera acima dos humanos.

No universo ficcional da série existem dois tipos de ceifadores: os que já nasceram ceifadores e os que viraram, sendo anteriormente humanos. A visão da importância da hierarquia, enquanto o indivíduo (e não Deus) é responsável por tudo que lhe acontece, é uma ideia confucionista. Entretanto, se por muito tempo a noção confucionista perdurou, com as influências estrangeiras ela passa a ser questionada. Essa é justamente a jornada de 444, que começa como um capitão supremo, longe da "classe baixa", passando aos poucos a entender o que é realmente a humanidade.


Eis que então, nessa noção corporativista do mundo da morte, entra uma mistura muito interessante de cristianismo com budismo. Os ceifadores que anteriormente foram humanos são pessoas que tentaram o suicídio. Ser um ceifador não é algo bom para os humanos. É uma punição por tirar a própria vida.

Essa ideia, de punição para o suicídio, é típica do cristianismo. Muitos se perguntam por que o índice de suicídio dos países asiáticos é tão alto, a resposta é que o suicídio culturalmente não é algo ruim, podendo ser considerado até mesmo um ato de coragem e honra. Claro, não estou considerando fatores sociais e econômicos (como a pressão a respeito do cumprimento dos papéis individuais no todo), mas matar-se é visto simplesmente como uma escolha de encurtamento de caminho. O anime Death Parade é um exemplo disso: na obra, um suicida não vai automaticamente para o inferno, mas sob o conceito de karma, ele é avaliado diante de toda a sua vida.

Falando sobre karma, é esse conceito que se une com o cristianismo. Se o suicídio é algo ruim punido pelo sobrenatural, essa punição surge em um aspecto do karma budista. Em termos simples e diretos, o karma é a noção de que toda ação gera uma reação igual - boas intenções geram bons frutos. Portanto, em Black, ao se matar a pessoa não vai automaticamente para o inferno, mas vai pagar por isso acompanhando os momentos finais de outras pessoas. Não a toa, é comum os ceifeiros suicidas tentarem voltar a vida possuindo corpos mortos, pois percebem o erro que cometeram. Por incrível que pareça, eu denominaria toda essa fantasia como a junção de karma com purgatório.


Sobre as personagens, é interessante notar como o ideal da introversão se faz presente, mesmo em personagens considerados extrovertidos. Os conflitos são mais pessoais e internos - Ha-Ram tem toda uma jornada individual a respeito do seu medo de encarar a morte. E mais uma vez vemos uma ideia diferente: a morte é algo extremamente ruim. Para nós ocidentais essa noção sempre existiu, mas para os coreanos, a morte antes era mais como um ciclo natural. Ao colocar uma personificação baseada em influências estrangeiras, em Black a morte se torna algo sombriamente punitivo ou triste.

Ha-Ram, por sua vez, representa a típica personagem feminina coreana. Veja bem: existem arquétipos de personagens muito usados por aí - no ocidente, é comum o arquétipo do sujeito que de algum jeito vai mudar o seu meio. Obras orientais muitas vezes não estão interessadas no que o sujeito fará para o seu meio, mas em seus conflitos internos.

O tweet acima obviamente é uma zueira, mas representa bem o que eu quero dizer. Entretanto, o curioso de Black é mais uma vez a junção com o ocidente - boa parte da história é sobre os conflitos internos da protagonista, mas que resultam em uma ação no seu meio. Essa ação acaba construindo um enredo policial complexo que lembra muito clássicos americanos, como O Silêncio dos Inocentes e Seven.

Nisso surge a semelhança com Death Note no lado humano: a obra da Shonen Jump claramente se baseia também nos enredos policiais do Estados Unidos, mas com a perspectiva única japonesa. Em Black, os humanos são corruptíveis e servem como engrenagem para um enredo lógico, muito maior que o individual.


Ainda nessa questão sobre introversão, vemos também como muitas vezes as ações servem para unir as personagens de forma que a vida comum não uniria, nos dando uma noção de companheirismo relevante e de como ele pode salvar o mundo. A proximidade pode ser estranha na Coreia, pelo menos do jeito que nós brasileiros conhecemos, por isso momentos banais, como o diálogo com um amigo, ganham mais relevância. O sobrenatural pode unir, mas o desenvolvimento ocorre em coisas simples como um jantar.

O companheirismo, por sua vez, está ligado diretamente ao romance. Se em termos de amizade há um certo distanciamento, esse distanciamento fica maior no amor: Ha-Ram e o detetive Moo-Gang claramente têm uma química, mas é preciso toda uma história complexa sobre o passado desconhecido dos dois para uni-los. Do contrário, não existiria proximidade. O enredo precisa a todo momento ficar validando a atração dos dois ao invés de efetivamente mostrá-la, pois se a Coreia do Sul é uma sociedade mais cerebral, a representação do amor por certo será assim também. Por isso a paixão ganha um aspecto mais platônico, apenas insinuando o que pode acontecer de forma MUITO sutil. Essas sutilezas, mais uma vez, acabam por dar maior valor a cenas banais. Quando Ha-Ram e Moo-Gang se olham diretamente nos olhos por longos segundos, o efeito é quase o mesmo que de um beijo apaixonante de uma novela da globo.


Acredito que tudo o que eu estou falando se faz ainda mais impactante na união do Ceifador 444 com seus "colegas" ceifadores que surgem para tentar ajudá-lo em sua missão. 444, como eu disse, representa uma hierarquia alta que não entende a humanidade. Ele tem um olhar frio e alienígena sobre o que é o humano - ele vê como desnecessário todas as emoções. Ao seu lado, há um ceifador milenar, tão antigo quanto a própria Coreia, que apresenta um estilo Confucionista até no modo de se vestir - e portanto, também nas ideias. Os conselhos dele sempre são os mais sábios.

O último colega é um humano que se matou e virou ceifador. Esse humano é um jovem que adora rap, justamente o retrato da nova geração moderna! Ele é todo espontâneo e alegre, com roupas e até falas "ocidentais" - é comum ele recitar raps e no meio, falar coisas em inglês. Inclusive, o ceifador milenar não entende muitas dessas coisas e se sente insultado pelo modo que é tratado, enquanto o rapper não vê sentido em muitas atitudes dos dois ceifadores originais. No final, mesmo com as diferenças, todos se entendem e se ajudam. É a Coreia antiga e a nova unida em um mesmo contexto
Por último, mas não menos importante, temos a estética. Há uma valorização da ação e do sobrenatural, enquanto existe um acompanhamento complementar ao roteiro do individual. Se não fossem os atores coreanos, visualmente facilmente Black poderia ser vista como uma obra americana. Entretanto, mesmo se tratando sobre a morte, há o tão citado teor romântico platônico que também se apresenta em cenas muito bonitas. Os diálogos e conflitos se estendem por vários minutos - algo que pode soar até cansativo, mas é comum no formato dorama. Não sei se é por conta da duração enorme, uma hora e meia por episódio, ou por aspectos culturais, talvez seja os dois, mas é frequente termos como foco cenas sobre o cotidiano e a reflexão disso, mesmo esta sendo uma obra com forte teor sobrenatural.

 Capítulo 6: Conclusão


Por meio de Black eu pude notar o resultado de tamanha influência americana. Obviamente é uma ficção, mas na retratação do real, podemos perceber coisas interessantes: como a sociedade é moderna, com as mesmas noções ocidentais que nós temos, mas ao mesmo tempo não deixa de lado as suas peculiaridades, fruto de um ideal de personalidade introvertida e uma perspectiva corporativista de nação.

A morte aqui, enquanto ficção, é uma mistura interessante de diversas culturas e religiões que historicamente tem relação com a Coreia do Sul e influenciam o dia-a-dia. Essa mistura se dá principalmente pela indústria cultural - a representação "ocidente oriental" não é a toa. O mercado global se faz cada vez mais presente na ásia e por isso, as narrativas, seja no cinema ou até mesmo na música, misturam estruturas tipicamente asiáticas enquanto propõem uma abertura para soar palatável aos estrangeiros. É sim um reflexo social, comparado com a China e o Japão, a Coreia é um país bem mais aberto, mas também é um escolha mercadológica para se vender para mais pessoas, tornando as histórias mais atrativas - no caso, vender a própria cultura.

E por fim, isso tudo não seria relevante se Black, assim como tantas outras obras de seu país, não insistisse em ser único. O ser único aqui é de ser independente. É notável a influência de obras americanas e japonesas, porém a conexão com o seu próprio meio de forma a transformar isso pensando primeiramente no público coreano, torna esse mix em singular. Essa busca de singularidade, como vimos, é uma busca histórica, que vem tanto como concepção política diante de tantas invasões (ser único é uma necessidade), quanto como posteriormente cultural. Para se ter ideia, nas décadas passadas o governo sul-coreano exigia que os cinemas exibissem filmes nacionais no mínimo por 146 dias por ano e que a indústria cinematográfica produzisse um filme sul-coreano para cada filme estrangeiro exibido (4). Isso acabou por formar uma identidade única, nos proporcionando tipos de obras de arte nunca antes vistas e que impactam de forma impressionante. Muito além da "bizarrice" e da introversão não entendida, a Coreia do Sul tem seu próprio mundo de criatividade artística. Resta a você desvendar.

El Psy Congroo.

Fontes:
A Coreia do Sul não se desenvolveu com o livre mercado
Religião e Confucionismo
Filosofia Confucionismo
A Coreia após a ocupação japonesa
A ocupação da Coreia pelo Japão
¹Religião, Brazil Korea
Introdução ao budismo
²Os três reinos da Coreia do Sul
História da Coreia do Sul
Conheça a história da Coreia
Introversão e Extroversão
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