O Vazio - o que falta nos desenhos infantis atuais?

Nova animação da Netflix surpreende, mas parece sofrer do mesmo problema de toda uma geração

Imediatamente eu fui fisgado por O Vazio (ou em inglês, The Hollow), nova animação original da Netflix focada no público infantil. O título misterioso, a sinopse, o visual semelhante a um dos desenhos atuais mais sombrios, O Segredo Além do Jardim, misturado com ficção científica; tudo me convidava a embarcar nessa estranha proposta. Resolvi conferir o primeiro episódio.

Me surpreendi. O aspecto principal que eu notei era de série. Parecia uma série que resolveu usar os recursos da animação - e muito bem usados. O traço das personagens se assemelham a cartoons famosos (como Ilha dos Desafios, Johnny Test, Meninas Superpoderosas), mas com composição, sombras, cores fortes de acordo com o ambiente e perspectiva. E para completar, em um roteiro cheio de questões aparentemente inteligente. O problema é ficar só no aparente.


O Vazio responde as questões implantadas desde o inicio - o que pode ser considerado algo bom -, porém, não da forma que deveria. Na trama, acompanhamos três garotos presos em um quarto sem janelas: Kai, Mira e Adam. Os três não se conhecem e não têm memórias de qualquer coisa antes de chegarem ali. Rapidamente avistam uma máquina de escrever e logo nós, espectadores, percebemos que se trata de uma história focada em enigmas envolta de um mundo com todos os outros mundos possíveis: ficção científica, magia, thriller, survivor e etc, tudo está lá. Se você for um tio que talvez não seja o público desta obra (eu), na hora vai se lembrar de outras obras, tais como: Maze Runner (distopias adolescentes no geral), Percy Jackson, Fallout, Skyrim, Resident Evil e Harry Potter (para citar algumas que lembrei de cabeça agora).


Diante disso, vamos analisar com cuidado: temos esse visual lindo, com cada detalhe muito bem trabalhado, mas sem perder a ideia de ser um desenho. Isso já chama a atenção pela questão narrativa simbólica de como contar essa história - se o tom adotado é de uma série estilo, por exemplo, Supernatural ou The Walking Dead, você já imagina algo um tanto diferente do que estamos habituados a ver em desenhos infantis. Depois, temos diversas questões: o que é esse mundo? Como as crianças foram parar ali? O que elas devem fazer? De onde vem suas habilidades e poderes?
E não só isso, há questões do próprio lugar em que elas estão, como quem são os inimigos e qual a função deles. Para completar, há o arco individual de cada um dos três e enigmas a serem resolvidos - pois, tudo bem enfrentar o monstro do dia, mas enquanto o monstro é só um monstro comum, não há importância. O diferencial se dá na forma de enfrentar esse monstro e daí, a importância de problemáticas inteligentes se faz necessário. Nos primeiros episódios, parece ser isso que teremos.

Consegue perceber onde quero chegar? Até aqui foi gerado uma enorme expectativa - e não foi algo criado meramente pelo espectador, mas pela própria série. Há tantas referências e conceitos interessantes, que a primeira coisa a se pensar é: como vão resolver tudo isso? Para um potencial ótimo, deve-se ter uma resolução a altura.


Sendo assim, a todo tempo ficamos nessa promessa. Na promessa da resolução verdadeira que vai explicar tudo. Não vou mentir, me diverti muito assistindo The Hollow - ainda que as personagens principais sejam extremamente clichês, a aventura em si é empolgante e as referências são bem usadas. Há toda a jornada do herói e o ponto alto são as lutas, junto da descoberta dos poderes. O problema é a parte inteligente, o enigma, ser completamente esquecido em prol de uma trama mais frenética e o psicológico das personagens acabar por se resumir em anedotas. Parece que houve uma intenção de história que no meio do caminho foi barrada - pois em suma, há dois desenhos: um soturno e sombrio, cheio de mistérios feito Scooby-Doo, com as personagens em atrito de forma crível se questionando a todo momento o que estão fazendo; e um visualmente mais chamativo, cheio de ação, lutas mirabolantes e piadas para aliviar a tensão. O segundo tipo se sobrepõe ao primeiro, desmerecendo a parte mais madura, pois é no segundo tipo que, infelizmente, estão as resoluções do enredo. É quase como se houvesse uma crise de identidade sobre o que agradará o público infantil.

O que falta nos desenhos atuais?

Não vou chegar aqui e dizer que estou ciente de todos os desenhos que existem atualmente - não, eu não estou. Mas posso dizer que conheço a maioria, tanto pelo fato de gostar de assistir (seja casualmente ou acompanhando de forma episódica) quanto por ter um irmão de 10 anos que me mantém antenado das tendências atuais. Sendo assim, acredito que temos algumas produções que se sobressaem: O Incrível Mundo de Gumball, Apenas um Show, Hora de Aventura, o já citado O Segredo Além do Jardim, Star vs As Forças do Mal e Steven Universo.
Não vou dar uma de tiozão saudosista e dizer que nada bom está sendo feito atualmente: muito pelo contrário. Há produções ótimas que continuam o imenso legado da antiga Cartoon Network, mas não sei se você percebeu, o número é deveras menor. Entretanto, não é exatamente isso que eu quero falar. Eu quero falar do "emburrecimento" para desesperadamente agradar; a distorção do eu em prol da jornada excessivamente frenética.

Gumball, por exemplo, é um desenho ótimo, com um visual estupendo (e muito original), com umas sacadas geniais. Mas ele precisa preservar um aspecto estúpido e frenético. No caso, os roteiristas do desenho tentam sempre que possível usar esse aspecto para subverter em uma crítica, que as vezes nem os pequenos entendem. Porém, no geral ele NECESSITA ter isso. Sem esse aspecto, Gumball possivelmente não teria tanta popularidade.
E ok, na minha época também tinham desenhos com teor "estúpido": Du, Dudu e Edu era um desenho maluco com piadocas bobocas. Mas atualmente, parece que esse tom "bobo" é injetado com esteroides - quase como se os produtores vissem o público infantil atual como versões crackudas das crianças dos anos 80.


Hora de Aventura, por sua vez, parece perder o apelo infantil em prol de uma perspectiva filosófica bizarra madura demais para ser entendida até por adultos. Como marca todos conhecem, mas eu não sei se as crianças acompanham devidamente - tirando, claro, pelo aspecto, olha só, alucinógeno.

Apenas um Show é um grande exemplo do que eu estou abordando aqui: era um desenho politicamente incorreto, cheio de sacadas incríveis e referências a torto e a direita, até que... Se engessou em uma fórmula. Tínhamos antes até continuidade de problemáticas de temporadas anteriores. Agora virou um autoplágio de si mesmo, todo colorido e cheio de ação.


Os três últimos desenhos eu vejo como exceções: Star talvez seja o mais maluco, mas mesmo assim preza por uma história mais mundana e crível, assim como O Segredo Além do Jardim. Steven Universo, para mim, é a grande singularidade: é um desenho muito bem humorado, mas bastante sério, enquanto é extremamente simples, com grandes mensagens importantes, aos moldes talvez do que foi As Meninas Superpoderosas para a minha geração.

Algo como Samurai Jack, totalmente focado na construção de um personagem, eu nem imagino como seria se fosse lançado atualmente.


E esses, são os desenhos que eu considero a exceção no meio. Se formos falar no âmbito geral, iremos cair em produções feito Titio Avô - um dos troços mais estúpidos que já tive o desprazer de assistir. E adivinha? É um sucesso enorme tanto aqui quanto lá fora.
(isso por que eu nem citei o famoso caso Ben 10, que daria uma bela de uma dissertação de como um desenho maduro passou a ser um troço bobinho sem história)

Antigamente, parecia que os desenhos tinham a obrigação de levar alguma moral para as crianças. Essa moral as vezes soava forçada, as vezes soava natural, mas enfim, quando falamos de moral, falamos de alguma mensagem que conclui a jornada das personagens. E então chegamos no ponto que eu queria chegar: personagens. É isso que parece faltar na atualidade: desenvolvimento crível de personagens. Ao invés do foco, como antigamente, ser os anseios e problemas, agora as histórias se voltam menos para a transformação interna, ou amadurecimento, para focar na ação em si. Pois em tempos de videogame e youtube, o que mais os pequenos "querem" ver é uma representação de si pulando, dançando e brincando.


Mas será que as crianças querem mesmo ver esse tipo de conteúdo ou é o que os produtores supõem o que elas querem ver? Meu irmão, por exemplo, passou a se interessar pouco pelos desenhos do Cartoon. Ele não sabe por que, mas a sua atenção foi tomada para os benditos animes. Por que será? Será que é por que os animes tem uma variedade de gêneros maior que levam suas personagens a sério e não meramente focam na ação? Existe história.

É aqui que entra o erro de O Vazio. Em um primeiro momento, o desenho parece ir na contramão dessas tendências frenéticas, soando também, olha só, como um anime. Mas é tudo enganação. É uma maturidade fajuta para focar, enfim, nos poderes, na ação, no jogo. A inteligência, os enigmas, a parcimônia, o silêncio, são deixados de lado - e ao deixar de lado tudo isso, você está subestimando o seu público. Esse é o maior perigo. Eu não acho que as crianças da nova geração são burras. Eu acho que os adultos pensam que elas são burras. E em qualquer produção, seja para bebês ou velhos, subestimar aquele a qual você conversa é o maior perigo.


Se tem algum roteirista ou animador lendo isso aqui, eu gostaria de dizer: não tenham medo de criar! Ainda que as crianças não entendam agora, se é bom de algum jeito elas vão gostar. E depois vão rever. E rever. E rever. E assim, o que era para ser algo de momento, se tornará uma verdadeira obra de arte. Veja Avatar A Lenda de Aang: um dos melhores desenhos de todos os tempos, com uma animação estupenda, roteiro incrível e que em sua época teve grandes audiências. Avatar continua vivo e vai continuar por que ele foi algo pensado como uma história, não apenas para ser consumido.

O Vazio pode resolver parte de seus problemas na sua segunda temporada, mas duvido muito que consiga. Infelizmente é apenas outro produto para ser consumido pelas crianças, não admirado por sua qualidade. E o pior, ele cria expectativas de algo bom. Pois é como eu frequentemente digo: pior do que uma obra ruim, é uma que tem potencial para ser incrível, mas se autocensura para focar em público x e termina mediano.
O Vazio, por fim, é vazio.

El Psy Congroo.

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