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Fire Emblem Heroes e um potencial pouco reconhecido

O empreendimento da Nintendo mais bem sucedido nos smartphones. Conheça Fire Emblem Heroes, jogo que prevaleceu onde Pokemon Go e Super Mario Run falharam

Está na hora de perder meu "selo gamer", pois acabei de render-me a geração Android. Falando sério agora, apesar de eu torcer o nariz ao ver resultados de pesquisas que colocam jogos mobile como o maior fator para entender o público "gamer", isso não quer dizer que o celular não é um bom lugar para jogar. O problema tende a ser mais sobre a forma como os pesquisadores definem esse público.


Vou dizer uma coisa, eu não gosto de usar a palavra "gamer", porque eu não gosto de rótulos, principalmente quando eles tendem a ser usados por pessoas que eu não gosto e de forma que eu não concordo. Não quero que me julguem mal por meio de uma falácia de culpa por associação. No entanto, por falta de uma palavra melhor, e pra não ter que ficar falando toda hora "entusiasta de jogos", vou usar a palavra "gamer" mesmo. Por que isso é relevante? Bem, é porque nesse blog eu já questionei várias vezes pesquisas e portais jornalísticos que espalhavam noções erradas sobre o público "gamer", dizendo basicamente que qualquer um que já baixou um jogo gratuito em um celular é "gamer" para certas pesquisas, e a partir daí certas pessoas conseguem distorcer a realidade para servir qualquer objetivo ideológico. Há um vídeo muito bom do nerdologia sobre como é fácil fazer magia com estatísticas, que você pode conferir clicando aqui. Tendo em vista esse contexto, darei a minha visão sobre o que é ser "gamer": eu vejo como uma postura, uma pessoa que ocasionalmente joga alguma coisa no celular não é a mesma coisa que alguém que se dedica a videogame ao ponto de gastar muito tempo ou dinheiro com isso. Colocar esses dois tipos de consumidores no mesmo pote parece a mesma coisa que alguém tentar fazer uma pesquisa sobre gastronomia e entrevistar muita gente que só sabe fazer miojo, o que contamina essa amostra de forma absurda, a menos que o interesse sejam pessoas que só sabem fazer miojo, nesse caso faz sentido.

Eu já analisei tudo isso no meu post abaixo sobre a pesquisa em questão:
Machismo nos Games:A Desonestidade Intelectual da BBC.


Tudo isso é relevante para minha afirmação seguinte: o celular é uma plataforma válida para "gamers", depende do uso. Vale lembrar por exemplo que vários jogos da Steam também possuem versão mobile, ou começaram no celular e depois foram para a Steam, como é o caso de Horizon Chase que acabou de receber versão para PS4 e PC. No entanto, o motivo de eu estar falando disso tudo é Fire Emblem Heroes, jogo de celular que me mostrou o potencial imenso dessa plataforma pouco reconhecida pelo público "gamer" como uma plataforma legítima.


Para ilustrar o que eu estou querendo dizer, vou contar uma história. Na minha sala da faculdade, há uma colega minha que não tem muito contato com jogos, mas que até gosta de uns joguinhos de culinária gratuitos aqui e ali. Eu mostrei para ela como funciona Fire Emblem Heroes, quando eu comecei a explicar os sistemas iniciais ela me disse o seguinte "nossa, os jogos hoje em dia estão complicados demais pra mim". Nesse momento eu pensei algo: nessas pesquisas minha colega seria tão "gamer"quanto eu. É importante deixar claro também que eu não vou denegri-la porque ela não gosta das mesmas coisas que eu e com a mesma intensidade, "gamer" é só uma postura em relação a um hobby, ficar falando "VOCÊ NÃO É GAMER 11!!1!!!!!" fazendo chilique é coisa de criança.


"Fala do jogo logo seu filho da puta, para de enrolar!"

Beleza. Mas antes disso é preciso falar um pouco sobre a franquia Fire Emblem. É uma franquia clássica que data desde os primórdios do NES, conhecida por sua complexidade, dificuldade, combate estratégico no qual é necessário você posicionar bem as unidades no mapa e mais recentemente por ter virado um waifu/husbando simulator. Mas fato é, a franquia nunca foi o que chamaríamos de "produto mainstream", na verdade esse foi um dos grandes problemas que a série enfrentou por muito tempo, conquistar novos fãs. Jogos de estratégia trabalham com público nicho, afinal eles são jogos impiedosos que exigem muito de quem os joga, sem falar que o marketing da franquia nunca foi muito bom, tornando-a uma espécie de produto cult no ocidente. No entanto, nos últimos anos, após o lançamento de Fire Emblem:Awakening, a franquia finalmente entrou no mapa de uma forma inesperada, tornando-se um dos nomes de maior porte da Nintendo ao lado de gigantes como Mario e Zelda, além de finalmente conseguir sucesso impressionante e conquistar muitos fãs novos. Geralmente o próximo passo de toda franquia assim é fazer spin-offs, foi nesse contexto que nasceu Fire Emblem Heroes, um jogo que é uma espécie de crossover entre toda a franquia, postura típica desse tipo de jogo. Fate Grand Order também é um crossover gigantesco.


Logo de cara eu achei muito estranho, como diabos transformar algo tão complexo quanto Fire Emblem em um jogo de celular? A resposta rápida que eu posso dar é, entendendo quem são seus fãs, do que eles gostam, e adaptando os conceitos da franquia ao modelo de celular. Eles não poderiam descartar em nenhuma hipótese essa característica de ser um jogo complexo e estratégico, o fanservice ajudou muito a popularizar a franquia, então não poderia descartar waifus e husbandos também, além de que entenderam que o jogo não poderia ser igual aos Fire Emblems tradicionais, pois nos celulares as coisas funcionam de forma diferente.

O mapa é do tamanho da tela.

Podemos até dizer que o jogo é bom porque é fiel aos conceitos clássicos da série na medida do possível. Comparemos FEH com Pokemon Go, por exemplo, que foi lançado com vários Pokemons, porém sem um sistema de batalha, que é o forte dos jogos tradicionais da série. PokeGo foi um enorme sucesso em seu lançamento, porém após algum tempo perdeu a maior parte dos jogadores quando o hype acabou, e após vários escândalos envolvendo problemas no serviço prestado e uma lentidão nas atualizações perdeu ainda mais jogadores, tornando-se hoje um fantasma do que poderia ter sido. FEH, por outro lado, não cometeu esse erro, principalmente porque a empresa por trás do jogo é a própria Intelligent Systems, o estúdio por trás de toda a franquia, enquanto PokeGo foi feito pela Niantic, uma empresa americana que não tinha muito a ver com a Nintendo.


O maior desafio provavelmente foi adaptar o sistema de combate, o qual fizeram com maestria. Nos Fire Emblems comuns as batalhas as vezes chegam a ter 14 unidades controladas pelo jogador contra 30 controladas pela máquina, e o mapa poderia ser enorme. Isso não funciona tão bem na relativamente minúscula tela do celular. Para resolver isso tiveram que diminuir o escopo das lutas, estipulando um máximo de quatro unidades pro jogador, sem falar que os mapas também tiveram que ser menores para caber na tela de um celular. Além disso, Fire Emblem é conhecido por seu sistema de fraquezas e vantagens, que muitas vezes pode ser relacionado a um jokenpô, em que espada tem bônus contra machado, machaco tem bônus contra lança e lança tem bônus contra espada. Essa é a base do sistema, porém existem outras peculiaridades, lanças que são mais fortes contra cavalos, espadas que são mais forte contra unidades pesadas, armas que são mais fortes contra dragões, unidades que estão fora desse sistema e têm seu dano calculado de outra forma, e por aí vai. Esse foi o primeiro passo, adaptar a maioria dos conceitos da série, e a IS conseguiu, implementando quase  todos os elementos pelos quais a série é conhecida de uma forma simplificada. A simplificação não feriu a complexidade, só melhorou o feedback visual, por exemplo,  nos jogos de GBA existe um triângulo de magia que funciona independente do triângulo das armas. Em Fire Emblem Heroes só há um triângulo que foi dividido em cores, e essas representam as desvantagens dos jogos clássicos e estão ali justamente para facilitar as coisas para o jogador. Repare que o triângulo das armas está sempre no canto inferior direito da tela, para que ele sempre saiba o que deve fazer. Na verdade, a adição das cores pode introduzir estratégias novas, pois agora os magos possuem vantagens e desvantagens novas. A maga Nino, por exemplo, é verde, logo ela dá mais dano na Effie, que é uma unidade azul de armadura pesada, mas toma mais toma do Ares, que é um cavaleiro vermelho que usa espada. Vale ressaltar que nesse jogo não existe miss, as unidades sempre acertam os ataques, logo se um Ares chegar na Nino ela morre com um ataque.


Mas o sistema de combate não termina aí, por um lado um jogo de celular adaptado a um formato específico, digamos, free to play, tem suas limitações, porém também tem certas vantagens. Há um novo fator estratégico em FEH que não existe na franquia tradicional, as builds. Há uma série de skills em cada personagem e todas elas podem ser substituídas por skills de outros personagens para criar builds que servem a propósitos específicos, fazendo isso você elimina um personagem para obter suas skills que serão transferidas para outro. É importante ressaltar que nenhum personagem vem com todos os slots de skills preenchidos, te forçando a fazer uso desse sistema. A primeira skill sempre é a arma que define a posição do personagem em relação aos triângulos de vantagem e desvatangem, depois vem uma skill de suporte, que pode mover uma unidade pelo mapa, conceito criado por FEH que permite estratégias como mandar uma unidade atacar e depois puxá-la para fora de perigo, mas skills de suporte também englobam buffs e curas. Depois delas vem três skills divididas em A, B e C. Posso dizer que a skill C geralmente também é uma skill de suporte, ela ou dá um debuff nos inimigos ou buff seus aliados, já as skills A e B possuem usos muitos mais variados, logo são mais difíceis de definir. Uma simplificação bem tosca seria dizer que as skills A geralmente afetam status da sua unidade, como a skill Deathblow que adiciona mais ataque se você inicia o combate, e as skills B adicionam efeitos durante o combate, como Vantage que permite que a unidade quando atacada realize um contra-ataque antes de receber o ataque inimigo se estiver com o HP abaixo de certo nível.


Por causa do Vantage, apesar do Shiro atacar primeiro, a Nowi recebe prioridade e mata ele antes que ele possa tocar nela.

Eu só estou arranhando a superfície da complexidade desse sistema. Eu não mencionei por exemplo que existe um modo semi-PVP, a Arena, no qual você cria um time para enfrentar times de outros jogadores controlados pela IA, disputando rank. Dá pra fazer muita coisa nesse jogo, ter muita criatividade e esse sistema de builds acaba por criar um meta game. Para quem nunca ouviu falar, vou dar uma definição bem tosca, meta são os recursos mais poderosos em um jogo, isso pode ser uma arma, um personagem, uma mecânica, uma classe, varia demais. Esse termo aparece mais em jogos competitivos, como League of Legends e Dota, e me impressiona que um fucking jogo de celular consiga ter personagens e skills meta, pois sua complexidade e variedade permite isso. E como existe meta existem também counters para o meta, builds feitas especificamente para enfrentar os personagens fortes, colocando certos personagens no meta não porque eles possuem um desempenho individual excelente, mas porque o objetivo deles ali é justamente vencer os personagens que possuem esse desempenho e são mais difíceis de se lidar. Vale ressaltar que há muita flexibilidade, certos jogos sofrem muito com meta game porque a maioria dos recursos do jogo ficam obsoletos em prol dos mais poderosos, e apesar de FEH sofrer um pouco com isso, não chega ao nível de tudo fora do meta ser inútil, muito pleo contrário, há muita variedade de builds e caminhos a se seguir, tudo depende da sua criatividade e investimento, pois é possível fazer muitas coisas diferentes funcionarem.
O jogo acaba diferenciando-se de tudo que a franquia fez até então pelo seu caráter precatório das lutas, no qual você precisa levar em consideração elementos novos e mecanicamente profundos para estabelecer uma sinergia entre o seu time, porque montar um time bom requer que você pense em formas de lidar com as fraquezas das suas unidades, escolhendo unidades que fortaleçam umas as outras fazendo as builds de acordo, ou não, da pra jogar como você quiser, a pergunta é, você consegue jogar como quiser? Tem um cara no youtube que joga com 4 healers por exemplo, o investimento dele foi absurdo, mas a estratégia funciona. Apesar de não ser um Fire Emblem comum, não se pode dizer que o jogo não tem o suficiente para agradar um fã de jogos estratégicos.


Vamos a carne e o osso desse sistema com informações mais específicas. 
A build raventome+triangle adept é uma das builds de counters mais populares. Ela funciona da seguinte maneira, as armas raven adicionam uma vantagem contra unidades sem cor, e a skill A triangle adept intensifica sua vantagem em 20%. Geralmente a ideia é fazer isso com um mago verde, porque eles tem vantagem contra a cor azul, logo alguém com essa build acaba virando um counter de Reinhardt, o mago azul mais popular do jogo, e a Brave Lyn, a arqueira mais popular do jogo. Para avaliar a eficiência dessa build é possível fazer uma série de contas e testes, como visto na imagem abaixo.

Vídeo original aqui

Não sei se consegui explicar com fidelidade, mas espero que a quantidade de termos que usei possa demonstrar o quão complexo um jogo de celular pode ser e o porquê de FEH ser a prova do potencial dessa plataforma. Pra entender bem esse sistema é preciso dedicação e pesquisa sobre o sistema do jogo, porque chegar a uma build raven+tome sozinho pode demorar demais para alguém jogando sem consultar nada, porque o jogo não te ensina a fazer builds. Um jogador "não gamer" da pesquisa mencionada anteriormente não está disposto a ter o nível de dedicação necessário para ser bem-sucedido em FEH. Esses cálculos importam muito e é importante ter noção dos números - por exemplo, sempre que a spd for maior que 5 em relação ao seu oponente você irá atacar duas vezes, a menos que ele possua uma skill breaker no slot B. Se você ainda não faz ideia do que eu estou falando até agora, vou piorar mais ainda a situação deixando a transcrição de uma luta entre uma personagem minha e um Reinhardt.

Attacker


38 → 0

Defender


53 → 32
  • Reinhardt, Thunder's Fist gains 6 attack by initiating combat [Death Blow 3].
  • Nowi, Eternal Youth gains 4 resistance by getting attacked [Warding Breath].
  • Nowi, Eternal Youth's Quick Riposte 3 activated, increasing their own ability to follow-up!
  • Reinhardt, Thunder's Fist attacks. 14 damage dealt. Nowi, Eternal Youth gained an additional special cooldown charge [Warding Breath]!
    Nowi, Eternal Youth HP: 53 → 39
  • Reinhardt, Thunder's Fist attacks again immediately [Dire Thunder]. 14 damage dealt. Nowi, Eternal Youth gained an additional special cooldown charge [Warding Breath]!
    Nowi, Eternal Youth HP: 39 → 25
  • Nowi, Eternal Youth counterattacks, ignoring distance [Lightning Breath+]. Nowi, Eternal Youth's Lightning Breath+ changed the target of the attack to Resistance. 23 damage dealt. Nowi, Eternal Youth gained an additional special cooldown charge [Warding Breath]!
    Reinhardt, Thunder's Fist HP: 38 → 15
  • Nowi, Eternal Youth counterattacks again. Nowi, Eternal Youth's Lightning Breath+ changed the target of the attack to Resistance. Combat is resolved as if opponent suffered a 50% defense/resistance reduction [Aether]. 35 damage dealt. Healed by 50% of actual damage dealt [Aether]. 7 HP restored.
    Reinhardt, Thunder's Fist HP: 15 → 0 | Nowi, Eternal Youth HP: 25 → 32
Isso é uma única luta, e todas essas informações são relevantes para o sucesso. E vale ressaltar que minha Nowi venceu essa luta porque esse Reinhard não era +atk, não recebeu nenhum buff do time, não estava equipado com o selo Quickened Pulse e nem possuía algum merge. Merge é quando você recebe cópias do mesmo heróis e as funde, o fortalecendo, a cada merge um +1 é adicionado. Um Reinhardt +10 mataria ela fácil. +atk é um bane, cada personagem recebe um bane e um boon aleatório, isso é chamado de Individual Value, ou IV, é um elemento muito importante do jogo, pois define o rumo da sua build. Minha Nowi, por exemplo, é +def -spd. Pra simular a batalha usei esse site aqui.


Essa é minha nowi. A quantidade de elementos nessa tela pode sobrecarregar um novo jogador, mas ler isso é muito fácil para veteranos.

E agora vamos a um aspecto controverso do jogo, a forma como os personagem são obtidos, um sistema conhecido como gatcha. Veja bem, Gatcha geralmente são máquinas japonesas, as quais você coloca um pouco de dinheiro e sai alguma coisa, aqui não tem máquinas assim que dão chicletes e bolinhas por 1 real? No Japão gatchas podem dar vários tipos de coisas, até onde eu vi, a mais interessante sendo bonecos que não vou nomear pra não errar a terminologia. Aconteceu o seguinte, no Japão perceberam que gatcha, algo tão comum na cultura deles, poderia ser aplicado para jogos. Logo você aleatoriamente recebe recursos, porém em jogos as coisas são um pouco diferentes, a empresa pode por exemplo controlar a raridade do que o jogador recebe ao seu bel prazer, pois são recursos digitais que saem do gatcha. Esse sistema pode até ser relacionado às infames lootboxes que causaram tanta controvérsia recentemente. Posso dizer com certeza que o aspecto gatcha é a coisa que menos gosto no jogo, as vezes sai um personagem novo com uma skill única, mas para consegui-lo você precisa passar por um processo aleatório, e no final a chance de não receber o que você queria é enorme.

Porém, dos jogos gatcha parece que Fire Emblem é um dos mais "justos", é sim possível jogar totalmente free to play, claro que quem gasta muito dinheiro no jogo vai ter uma certa vantagem, porém essa vantagem influencia mais no conteúdo da Arena, que é uma parte importante do jogo, mas que também pode ser enfrentada de forma totalmente free to play. Já vi jogadores usando de estratégias que não levam em consideração dinheiro nenhum para chegarem ao nível mais alto da Arena, mas que necessitaram de muito tempo para compensar o estilo de jogo F2P. Eu mesmo não gastei nem um centavo com o jogo e cheguei no tier 19, sendo que o tier máximo é o 20. E vale ressaltar que existe muito conteúdo PVE, a maior parte do conteúdo é assim na verdade, pois o jogo possui uma campanha, desafios e vários eventos. Não é o ideal ter que lidar com um sistema de aleatoriedade, mas tendo em conta o tanto de coisas que o jogo me oferece de graça, acho que relevar é o caminho certo, apesar de não gostar.

Vale ressaltar também que a interface desse jogo é confusa em certos aspectos. Rating é um número que o jogo te mostra, mas que não serve pra mais nada, após uma atualização os cálculos do jogo mudaram totalmente, mas se você pedir pra ver o rating ele te mostra de acordo com o cálculo antigo, te dando um número totalmente inútil. Sem falar que pra descobrir os IV dos personagens é preciso usar calculadoras. Um jogo tão bem-sucedido tendo um design de usuário tão capenga é triste. Incontáveis foram as vezes que eu abri a calculadora de IV pra ver uma informação que o jogo poderia ressaltar.
Exemplo de tentativa de conseguir personagens bons. Essa pessoa deu sorte, geralmente vem só personagens de quatro a três estrelas

O gameplay importa, mas também é preciso comentar o fanservice, porque ele ajuda muito a vender e continua a servir a franquia até hoje. É preciso deixar claro que fanservice não é só sensualidade, fanservice é algo feito para agradar os fãs, e esse jogo possui fanservice em vários níveis diferentes, mas é claro, dando um aspecto muito importante a questão waifu/husbando, por conta disso a arte dos personagens são muito bonitas e ajudam a reforçar essa ideia, tornando alguns personagens ainda mais bonitos do que eram em seus jogos originais, ou colocando-os em situações inesperadas, mas que agradam os fãs, como as versões alternativas de natal. É preciso deixar claro que esse trabalho visual do jogo não é perfeito, algumas artes conceituais não tem muito a ver com o personagem original, ou são simplesmente feias, afinal são vários artistas que as fizeram, porém a maioria esmagadora possui muita qualidade. Também é necessário ressaltar que um jogo com personagem de toda a franquia tende a agradar todos os públicos, porque as vezes a pessoa odeia os jogos novos, mas os personagens dos antigos estão lá para ela.

 Não é à toa que a Camilla é tão popular e continua recebendo versões alternativas

Outro fator muito importante para o sucesso desse jogo é a comunidade, não mencionei, mas FE possui uma comunidade muito tóxica que não para de brigar, no entanto FEH parece ser o produto que agrada a todos, unindo uma quantidade absurda de fãs que não para de fazer piadas. Há até canais do youtube totalmente dedicados ao jogo, fazendo análise de conteúdo, guia de build, tutoriais para iniciante e jogadores free to play. Dedicação é uma palavra que eu usei várias vezes e de propósito, porque é o que você vai achar quando entrar em contato com os jogadores de FEH. Eu acompanho dois canais, o PhoenixMaster1 e o SacredSpear, dois canais muito bons para iniciantes e veteranos, aprendi muita coisa lá, pois como eu disse anteriormente, é muito difícil entender o sistema logo de cara sem consultar material externo, é capaz que você faça várias builds erradas dessa forma e gaste recursos preciosos.


E por último é importante notar a postura da IS com o jogo. Deixei para o final, mas é importante ressaltar que FEH é um sucesso gigantesco, é o jogo da Nintendo mais bem-sucedido nos celulares, ultrapassando de longe franquias muito mais conhecidas, como Mario, e conquistando um publico muito mais fiel que PokeGo. Isso aconteceu porque o jogo não foi lançado como um esqueleto e desde então FEH continua sendo atualizado, recebendo novos eventos, mecânicas e personagens. Apesar do jogo ter alguns problemas com balanceamento, personagens que simplesmente não serviam para nada, a IS ouviu os fãs e começou a implementar sistemas que tornassem esses personagens mais únicos, para diminuir o power creep e tornar o jogo mais interessante. Há pessoas que gastam milhares de dólares nesse jogo, para termos uma noção do quanto ele cativa certo fãs com uma carteira gorda, e ele também conquistou aqueles que não querem gastar muito dinheiro ou dinheiro nenhum, mas que querem consumir conteúdo da franquia.

Além do aspecto gatcha, outra reclamação válida seria o enredo, ele geralmente é bem genérico e pouco interessante, porém desde o começo eu achava que o gameplay compensava isso, além de que nos últimos meses a história começou a ficar mais interessante. O enredo ainda não acabou e todo mês recebe um novo capítulo.


Fire Emblem Heroes é um objeto de análise extremamente interessante para quem gosta de jogo. É uma obra que mostra que apesar da enxurrada de produtos de baixa qualidade, clones de runners, jogos feitos em um dia que angariam muito dinheiro através da publicidade, mesmo com esse contexto que possa dar a impressão de que os celulares não possuem jogos bons, jogos complexos, FEH é um exemplo de que não é o caso. Tudo depende do uso, da sua visão da coisa, da sua dedicação, e apesar de eu até curtir uns subway surfers da vida, são jogos que me cansam e que ocasionalmente desinstalo, enquanto Fire Emblem Heroes é um jogo que joguei por meses, um jogo que algumas pessoas jogam há mais de um ano todos os dias. A facilidade de pegar o celular e jogar o jogo com uma mão no ônibus todos os dias me agrada demais. É muito fácil lançar um jogo na Play Store, por isso tantos jogos ruins, um sendo cópia do outro praticamente, estão presentes lá de forma gratuita, vivendo de propaganda no aplicativo. Mas, as coisas não precisam ser assim, Fire Emblem Heros é a prova do potencial dos jogos de celulares. Veja bem, não defendo o fim dos jogos super casuais para celular, nem nada do tipo, mas como um consumidor que leva a sério seu hobby, defendo a presença de mais obras com qualidade e profundidade. Isso não é o mesmo que dizer "morte aos jogos super casuais". Por mim eles podem ficar lá, afinal até eu ocasionalmente jogo eles.

Only Darkness Will Remain.

Eu deixei os links em vários locais do post, mas se você não percebeu ou só quer uma lista, está aqui:
- O maior sucesso da Nintendo nos smartphones: https://www.androidauthority.com/fire-emblem-heroes-revenue-nintendo-super-mario-run-839331/

- Meu texto sobre a forma como a mídia trata o publico: http://www.divisaoparalela.com.br/2017/03/machismo-nos-games-a-desonestidade-intelectual-da-BBC.html

- Nerdologia sobre estatística: https://www.youtube.com/watch?v=VIMjvEWPwlI

- Simulador de combate: https://kagerochart.com/
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