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Como funciona o humor de Deadpool

5 pontos importantes para entender o humor do mercenário tagarela

O humor é uma linguagem subjetiva. Para entender uma piada você precisa no mínimo entender o contexto, captar o tom do que foi dito e conhecer a referência usada para comparar e assim, apreender a subversão do comediante. Claro, a linguagem em si pode ser caracterizada como um meio subjetivo, é necessário mil e um fatores para entender exatamente o que o outro está dizendo e mesmo assim, ainda ficam ruídos. Porém, quando falamos de comédia, essa subjetividade é mais forte, de um modo que se o comediante não souber compreender quem é o seu público, é provável que falhe, pois, obviamente, ele estará falando apenas para si.
Sendo assim, quando falamos de Deadpool é importante ter em mente que estamos falando não só de um filme de anti-herói, ação ou drama - estamos falando de uma comédia. E visto toda essa subjetividade, logo surge a pergunta: como Deadpool consegue fazer tantas pessoas rirem?
Para responder a essa pergunta, nós separamos 5 pontos importantes entender a comédia "estranha" desse personagem nada convencional.

Como funciona o humor de Deadpool

1- Setup e punchline

Nós já falamos em alguns posts sobre a estrutura presente em  algumas obras, mas é importante trazê-la a tona de novo para explicar dentro do contexto de Deadpool.
A piada funciona basicamente em duas partes: o setup, que é a preparação ou a história que vai trazer o interesse e identificação do ouvinte, e o punchline, que é o que subverte tudo o que foi dito antes. Não vou entrar em detalhes extensos, mas segue a estrutura de uma das piadas mais antigas:
Setup - "Por que a galinha atravessou a rua?"
Punchline - "Para chegar do outro lado"

Portanto, pelo fato de Deadpool ser uma obra baseada no humor, nós vemos essa estrutura em cada minuto. Cada cena se baseia em setup e punchline para ocasionar divertimento. E sendo o punchline basicamente uma surpresa, não é a toa que Deadpool impacta tanto as pessoas.

Ainda neste tópico, é importante ressaltar o valor do drama. Muitos devem se perguntar: por que em um filme como Deadpool tem algum drama ou uma história séria? Pois é preciso algum parâmetro de realidade para o personagem subvertê-la. Não digo que o drama do próprio herói é necessário, mas um mundo com pessoas em um polo oposto ao dele (ou seja, normais), pois se tudo é piada, a piada perde seu impacto. Se tudo é punchline, não tem setup para ser subvertido e assim, o público simplesmente não se importa. Em suma, as pessoas não querem ouvir Deadpool falando um palavrão em uma situação aleatória - as pessoas querem ouvir Deadpool falando esse palavrão em uma situação onde teoricamente ele deveria agir de forma séria, ou as pessoas ao seu redor estão agindo assim.

2- Metalinguagem

O que é metalinguagem? Caso você não saiba, basicamente é o autoreferenciar consciente. Um livro sobre como fazer livros. Uma música sobre como fazer músicas. Um filme de herói que fala sobre outros heróis. É a quebra da quarta parede, quando o personagem vira para a câmera e começa a conversar com o público.  Teoricamente, existe uma barreira que divide o público do que está ali na tela em três dimensões - Deadpool quebra essa barreira a todo momento, se unindo ao espectador durante suas divagações.

Se você captou bem o tópico anterior, vai perceber que isso é um grande punchline: os filmes do tagarela vermelho brincam com a própria estrutura a qual ele faz parte. Por isso, nós temos um personagem ideal para fazer comédia - ele tem carta branca para ir e voltar entre os dois mundos, tanto do espectador quanto das personagens. Ele sabe o que está se passando ali e o que se passa aqui no nosso mundo, o que esperamos e o que pensamos daquele filme. Assim, isso nos leva para o próximo tópico.

3- Referências

É a partir das referências que Deadpool cria uma identificação com o espectador. Já que ele pode transitar entre os mundos, é a partir da referência que ele vai mostrar que sabe o que se passa aqui e vai usar isso para brincar com as outras personagens. Nos quadrinhos, fica claro que Wade Wilson é visto como louco - enquanto ele está falando com a gente, para quem está ao seu redor ele está falando coisa com coisa para ninguém.
Apesar de parecer simples, é a junção disso com o tópico anterior que faz surgir grande parte das punchlines. A referência é a ferramenta principal de Deadpool, sem ela o personagem não teria tanto atrativo. Pense nas constantes zoações com X-Men Wolverine Origens: o que é engraçado é Deadpool dizer justamente aquilo que pensamos sobre o filme, só que em um contexto onde ele não deveria dizer isso.
Quer outro exemplo? Na abertura do segundo filme, Deadpool faz piada com o fato de Logan o ter copiado na ideia de usar a classificação R para fazer um filme de herói adulto. Quem espera que um anti-herói vá falar sobre o próprio sucesso e como isso influenciou outras produções?

O problema aqui talvez seja quando se lida com o grande público. Referência implica em entendimento de ambas as partes: tanto do comediante que a usa quanto do público que irá dar risada. Se a referência for muito específica, apenas uma parcela do público vai entender. E aí, como fazer tantas pessoas rirem?

O método usado por Deadpool é o da variação: a todo momento os filmes variam entre referências que até a pessoa mais desligada vai entender e referências extremamente específicas que apenas quem acompanha esse mundo dos heróis vai captar. Tecer uma narrativa que abarque tudo isso é um trabalho exaustivo de tentar prever como o público vai reagir - um comediante de stand-up está ao vivo, vendo e interagindo com as pessoas, mas e um filme?
Pois é, isso é muito complicado e pode gerar problemas de timing (que provavelmente é o principal problema do segundo filme). Entretanto, no geral, Deadpool até aqui conseguiu sempre equilibrar bem os dois lados entregando aquilo que se propõe.

4- Visual

Não podemos esquecer do visual! Quando eu falo visual não estou apenas falando da roupa das personagens ou da ação, mas também de gestos e características que falam por si só ou complementam a piada. Não basta Wade Wilson matar, ele tem que agir de acordo com aquilo que fala: assim surgem cenas emblemáticas, como a abertura do primeiro filme. Essa cena sintetiza esse tópico: temos uma ação absurda e violenta que impacta, enquanto Deadpool de algum jeito glamuriza isso com o humor, agindo de forma banal. Simultaneamente, temos momentos incomuns, como a pélvis na cara do bandido. Em um filme sério, situações como essa dificilmente aconteceriam, pois demonstram "fraqueza", algo que não é belo de se ver. Deadpool, por outro lado, mira justamente no desconfortável, muitas vezes escatológico, que ninguém espera ver nesse contexto.

No final, em meio a todo o caos mostrando a morte de bandidos, a ação é colocada em câmera lenta e durante isso, o anti-herói olha para o espectador e se pergunta "será que esqueci o gás ligado?".
É aquilo que eu disse: o banal adentra o sério, complementando-o, e sendo assim, não só o roteiro importa: tudo aquilo que você está vendo em tela te impacta de alguma forma. A risada vem.


5- Tudo junto e misturado

Por fim, como você já deve percebido, esses tópicos não se desenvolvem de forma isolada - tudo acontece junto e misturado, criando uma aleatoriedade essencial para a comédia; você nunca sabe o que esperar. Em síntese, a todo momento temos a estrutura do setup e punchline, que caracteriza a piada, em meio a um personagem metalinguístico que usa e abusa dessa característica por meio das referências em um visual impactante. Deadpool é um personagem criado com todos os cheats possíveis para ser o comediante master do universo marvel, e é exatamente isso o que ele faz nos quadrinhos e possivelmente irá fazer no universo cinematográfico. Seu humor se baseia no tão famoso estilo stand-up de comédia americana, mas com os artifícios que só a ficção pode proporcionar.

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