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A Mulher Entre Nós, um livro para se pensar relacionamentos abusivos

Uma história que é mais real do que imaginamos

Atenção: este post NÃO tem spoilers, mas A Mulher Entre Nós é um livro que fala por si só. Não tem como falar do livro sem revelar parte do que ele é, então quem for sensível demais, esteja avisado

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, em dados publicados na Folha de S. Paulo, só o Estado de São Paulo registra um caso de feminicídio a cada quatro dias. De janeiro de 2015 a junho de 2017, foram registrados 417 casos de feminicídio entre tentativas e de fato a realização do crime. No Brasil inteiro os dados são mais alarmantes: de acordo com o Mapa da Violência 2015 sobre homicídio de mulheres no Brasil, em 2014 foram mortas 4757 mulheres - um número 48 vezes maior que o Reino Unido.

O feminicídio resulta do que é chamado de violência de gênero. A violência de gênero decorre de uma relação de poder de dominação do homem sob a mulher, dos papéis impostos pela sociedade e geralmente de uma relação afetivo-conjugal (BIACHINI, 2016). Obviamente nem toda violência cometida contra as mulheres é de gênero e para compreender isso, basta inverter os papéis: determinada violência, quando colocada em uma lupa geral, teria o mesmo efeito se o sexo oposto fosse vítima? Se a resposta é não, isso é violência de gênero.
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Em um primeiro momento, A Mulher Entre Nós parece apenas um livro comum feito para mulheres maduras, ao melhor estilo Cinquenta Tons de Cinza. Não que o sexo seja fator principal do enredo, mas desde o começo somos inseridos em uma trama de romance com seus toques de fantasia. Nellie é uma professora que está prestes a se casar com Richard, um empresário mais velho e rico, o estereótipo do homem perfeito em busca de uma donzela para salvar. Sendo assim, aqui, neste lado, tudo pode parece meio vazio; Nellie é feliz ao lado do amado e prepara um futuro promissor. Entretanto, temos inserções na trama que causam estranheza – telefonemas suspeitos e paranoias da própria personagem em meio a cidade grande.

Em paralelo conhecemos Vanessa, a ex-mulher de Richard, uma pessoa que parece ser o oposto de Nellie, demonstrando tristeza e amargura. Fica explícito logo de cara que há uma brincadeira de linguagem: enquanto a visão de Nellie é em terceira pessoa, com um afastamento para entendermos ações de certas personagens referentes a ela, como sua melhor amiga Samantha, a visão de Vanessa é em primeira pessoa. Portanto, em Nellie há uma aparente alegria de alguém prestes a entrar para uma vida plena e feliz casada ao lado do homem que ama, e em Vanessa há uma obscuridade profunda acerca desse mesmo homem. Fica a questão: quem é Richard? Pois se de um lado há este ser perfeito, para Vanessa ele parece exatamente o oposto.

Em síntese, a história inteira é sobre essas duas personagens, Nellie e Vanessa, que de algum jeito dialogam entre si a respeito do tal Richard. A escrita é lenta e detalhista como um livro policial, com pinceladas de problemáticas obscuras que prometem se desenvolver. Em determinado momento quase desisti de A Mulher Entre Nós, parecia um grande detalhamento de um cotidiano de um casal com ações insignificantes. Referente ao próprio Richard, acredito que há duas respostas para a descrição e fascínio de Nellie para com o personagem: deslumbramento ou ânsia. Por que um dos dois? Pois é possível que muitas mulheres se identifiquem com a visão do homem que procuram. Mas também é possível que pessoas como eu, calejadas pela vida, se deparem com este ser e além de concluírem que Nellie está apaixonada e portanto, com a visão deturpada, o cara é enjoativamente regrado. Enjoativamente perfeito.

Esses sentimentos, enquanto eu subestimava o livro, me pareceram uma construção de uma história de amor. Claro, até quase a metade eu já tinha sacado que era um livro muito bem escrito com aspectos policiais, diferente de tantos outros no mesmo “gênero”. Entretanto, perdurava a visão de uma literatura feita para mulheres casadas ou que querem se casar, construindo uma fantasia conivente para esse tipo de pessoa – eu estava, felizmente, errado.

A Mulher Entre Nós não é uma construção emotiva fantasiosa de amor, mas um livro que debate de forma profunda e crível relacionamentos abusivos. Tudo na história faz sentido, desde os telefonemas estranhos à essa visão deslumbrada e enjoativa de Richard: a construção do sujeito é proposital. Sendo assim, as autoras, Greer Hendricks e Sarah Pekkanen, brincam com os nossos sentimentos – elas sabem o que as leitoras supostamente sentiram e jogam a todo tempo com essa noção, mostrando da metade para o final as faces plenas da literatura policial. O livro é uma subversão de gênero, uma subversão de linguagem e uma subversão de narrativa. Entrar em detalhes é dar spoilers, mas eu posso dizer que é uma chocante história que te coloca na pele da vítima.


Não é essa a importância da literatura? Te mostrar o mundo de um modo que nenhuma outra mídia poderia ser capaz. Você não está vendo ou ouvindo, você está sentindo com as personagens todos os problemas; problemas contemporâneos que muitos tacham como besteiras. É incrível como o pequeno, o pouco, aquilo que não damos atenção cresce até tornar-se um monstro incontrolável que devora tudo.

Quando nos deparamos com algum caso de feminicídio nos linhas diretas da tv, a primeira reação é questionar: por que essa mulher deixou isso chegar a esse ponto? O que não refletimos é que estamos vendo apenas o resultado, não a equação. É justamente isso que esse livro faz: ele nos mostra cada elemento, cada fato, cada pequena coisa que leva a chegar até ali. Não é do nada que uma pessoa se submete à outra: existe uma história. É essa história que não vemos, que o jornalismo falha em nos retratar, e que nesse caso, a ficção está fazendo muito bem, indo além do simples abuso físico – a relação entre abusador e abusado é mais complexa do que imaginamos.

Há dependência emocional envolvida, no qual o criminoso exerce um poder sobre a vítima. A vítima não é pura e isenta de defeitos; ao contrário disso, mas ela continua vítima por "n" motivos – os defensores da “família de bem contra o mimimi” provavelmente devem questionar: que tipo de poder é esse? E talvez o problema esteja aqui: não tem como EU explicar. É algo que você tem de ver por conta própria ou estar perto de alguém que sofreu com isso. Não sou adepto da generalização do recurso do lugar de fala, nem toda situação é explicitamente para um tipo de pessoa, mas nesse caso, para uma sociedade mais empática, é necessário ouvirmos as vítimas. Porém, se quem vive num mundo de maravilhas onde qualquer coisa é reclamação desnecessária não busca esse tipo de história, como conscientizar as pessoas? Está aí o grande valor do livro: usar a arte, a ficção, para enquanto entretém, dar uma dimensão da realidade.

Não é panfletagem, é uma história com sentido lógico com suas intenções sociais, mas que é boa por conta própria sem perder de vista a mensagem que quer passar. Não lhe é contado o que as personagens sofrem, você sente. Sente tanto que quando chega a primeira ação, o primeiro momento de confronto físico, é quase como um baque em nosso psicológico.

Para completar, além de ter um tom completamente cinza acerca de suas personagens, não só Vanessa e Nellie, há uma dualidade interessante no antagonista que surge. Não necessariamente é um personagem vilão, nada na vida é estritamente bem ou mal – ao contrário disso, esses dois lados se misturam a todo momento. É justamente essa perspectiva dual que temos no antagonista e que é possível perceber em tantas pessoas em nossas vidas. Pena essa dualidade derrapar.

O Final

Criei esse tópico pois acho importante debater as conclusões do livro. Calma, não vou dar nenhum spoiler, pode ler tranquila, mas o final de A Mulher Entre Nós é problemático em vários sentidos. Para entender esse problema, vamos por partes:

Primeiro temos uma história comum sobre o cotidiano de duas mulheres. Aos poucos, o tom policial vai crescendo até que estamos imersos em um mistério.
Depois temos uma reviravolta de linguagem que impacta o desenvolvimento dessas duas personagens. Isso faz com que certas questões fiquem mais nítidas.
Em seguida temos o plano para resolver o problema, a falha desse plano e a resolução inesperada. Aí vem o final, que é as consequências.

O final, que traz essas consequências, é confuso e rápido. Tem a premissa de não demonizar os antagonistas, mas acaba por voltar, olha só, para o tom fantasioso do inicio. É um tanto quanto bizarro após passarmos por tantas coisas termos um tom romântico sobre saúde mental. Fácil demais ir por esse caminho, quando bem sabemos que a realidade é outra. Eis o problema: o livro é bastante crível, com uma conexão imensa com relações abusivas verdadeiras, entretanto, a relação abusiva aqui, por fim, vira uma representação absurda e convenientemente encerrada com perdão. A vida real não é assim; a história desenvolvida até aqui aplicada no mesmo contexto realista criado não terminaria desse jeito. Talvez haja um corte? Não sei. Fica a ideia de um livro incompleto, corrido para não terminar com mais páginas do que é recomendado para ser vendável.

Porém, isso não denigre tudo o que foi construído. A Mulher Entre Nós tem seu mérito muito além do próprio final. Mas é um pouco triste um encerramento não ruim ou péssimo, apenas morno e apressado.

Conclusão

De longe considero como um dos melhores livros que li nos últimos anos, ainda que o final deixe a desejar e tenha lá seus momentos clichês. A escrita é simples e complexa, cheia de detalhes, levando consigo um tom noir. Greer Hendricks e Sarah Pekkanen conseguem unir seus dois estilos diferentes e desenvolvem de forma coerente duas personagens fantásticas, em uma história que fala mais do que sobre um mistério qualquer: fala sobre a nossa realidade. O que elas vivem é real, palpável e continua acontecendo por aí. Este livro não é só recomendado para mulheres, mas para homens - para pelo menos, nem que seja 1%, possam se sentir na pele de uma pessoa em uma situação dessas, gerando compreensão e empatia.

Não que homens não possam estar do outro lado da mesa como abusados, sim, isso acontece, mas as estatísticas e a nossa realidade falam de algo maior e mais complexo. A Mulher Entre Nós está falando dessa complexidade da violência de gênero sem precisar dizer - está tudo ali nos sonhos de boneca de Nellie e na postura que as pessoas ao redor assumem. Resta saber quem vai conseguir refletir além da ficção.

El Psy Congroo.

Ps: gostaria de agradecer a Companhia das Letras (selo Paralela também) que confiou neste humilde blog para mandar uma edição. Deixamos claro que não recebemos nada para falar bem (ou mal) do livro, mas também agradecemos a confiança e que venham muitas reviews de livros pela frente :)

Ps²: as poucas imagens desse post foram tiradas do trailer ótimo que a editora original fez

Ficha Técnica
Nome: A Mulher Entre Nós
Páginas: 347
Ano: 2018
Autoras: Greer Hendrick e Sarah Pekkanen
Gênero: policial, drama, suspense
Editora: Companhia das Letras (selo Paralela)

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