A importância do sexo em Sense8 [NSFW]


Muito além dos estereótipos e fanservice

"A sexualidade talvez seja uma das coisas mais importantes e enigmáticas da vida humana", eu cheguei a conclusão ao assistir o último episódio de Sense8. Imediatamente, na minha mente vieram as diversas vezes que a série optou por mostrar o sexo explícito, a putaria rolando em sua forma mais pura. Foi então que em uma pesquisa rápida, para a minha surpresa, notei como essa característica era tratada apenas como uma escolha visual própria fruto de uma perspectiva libertária, progressista, gayzista, ou qualquer nome que você queira dar, dos idealizadores, as irmãs Wachowski. Okay, não podemos negar que há uma influência típica de uma mensagem LGBT, mas Sense8 nunca se mostrou panfletário e nem teve essa intenção, por isso, me parece redutivo olhar o sexo da série como um jeito de chamar público, ter identificação com um nicho ou um modo apenas bonito (para alguns sujo) de mostrar as relações das personagens.

Não. Não é só isso. Há muito mais nessa escolha além da ideia de simplesmente ser uma obra libertária com teor de representatividade de minorias. Se fosse só isso, Sense8 não seria tão incrível. Há muito mais por trás desse simples aspecto sexual e devemos começar a entendê-lo não olhando para o agora, mas para lá atrás, nos primórdios da nossa construção social.

A  IMPORTÂNCIA DO SEXO EM SENSE8

O que é sexo?
Bom, o sexo na biologia é visto apenas como forma de reprodução. Um ato de transação que resulta em um bebê, o que por sua vez perpetua a espécie. Entretanto, nós humanos somos seres racionais e por isso, o sexo tem outro valor além da simples reprodução: prazer. Ao ter consciência do ato em si, o ser humano transforma isso em um mecanismo recreativo de intimidade.
Essa percepção, ainda que não encarada exatamente deste jeito, existe desde os primórdios da nossa construção social. O sexo é o pilar do que nos conecta.

Conhece os termos matriarcado e patriarcado? São termos que, respectivamente, se tratam da construção social envolta da figura feminina ou da masculina. As sociedades antigamente adotavam um dos dois tipos, uma forma de essencialmente entender e organizar, olha só, o sexo. Claro, temos mil e um conceitos e termos envolvidos nisso tudo, mas basicamente, se analisarmos com cuidado, o ato sexual sempre foi o objeto de curiosidade para nós e a partir disso, com a noção da importância dele, se formavam relações sociais importantes.


Veja a Grécia Antiga: a homossexualidade era vista como algo comum, porém, não era a homossexualidade que conhecemos. Os gregos diferenciavam o sexo em dois tipos (aliás, os tipos adotados por este artigo): para reprodução e para prazer. Se um homem quisesse gerar herdeiros, obviamente ele se relacionaria com uma mulher - mas muitas vezes, essa era uma relação para somente isso: reproduzir. Por sua vez, se um homem quisesse ter prazer, a concepção vigente na época dizia que ele só teria com outro homem. A justificativa? Só um homem poderia entender profundamente o que o outro sentia (de novo, intimidade). Sem contar nas relações de poder para afirmar a identidade: ser penetrado, ou passivo, significava uma escala social inferior - um homem mais velho e da alta sociedade que se colocasse como passivo estaria se colocando numa situação vergonhosa. Entretanto, o oposto, penetrar, ou ser ativo, significava certo status de poder - olha aí o que eu disse: o sexo construindo a sociedade.
(para mais informações, esse artigo fala detalhadamente sobre: https://hav120151.wordpress.com/2016/07/03/a-homossexualidade-na-grecia-antiga-e-suas-representacoes-na-arte/amp/)

Nesse sentido, sobre construção social, podemos também citar as duas formas de relacionamento predominantes no mundo: monogamia e poligamia. Não vivemos em um país poligâmico, só posso citar como no passado isso estava relacionado ao poder e status patriarcal, por isso vou falar sobre monogamia: consegue perceber como tudo ao seu redor, desde a religião à propagandas, gira envolta do dois? O casal é que forma o número certo e perfeito. Existe apenas uma alma que pode completar o seu todo.
Essa noção parece enraizada nas nossas mentes mais do que imaginamos. E tudo advém de onde? Do sexo.

Tá, mas o que tudo isso tem a ver com Sense8?

Bem, vamos lá:
O sexo em si é um ato primitivo, que nos iguala em algum ponto aos outros animais. Transar é aderir aos seus instintos mais naturais em prol do prazer - nesse sentido, como podemos ver, ao longo do tempo tentaram encontrar muitas definições e perspectivas de como lidar com isso - como uma fórmula mágica para se alcançar a felicidade. Pois oras, somos seres racionais, muito além dos animais, então, não podemos nos dar ao luxo de nos render aos instintos, não é mesmo? Isso pode parecer uma perspectiva lógica racional, mas não, é religiosa mesmo. Pois a religião, ainda que seja emotiva, é racional em sua construção por conta de seus propósitos.

Essencialmente, a busca pelo comedimento em prol da pureza é uma visão que trata o ser humano como o centro do universo e por isso, ele não pode se igualar aos animais. Os animais estão ligados, obviamente, a um sentido bestial - demônios. Daí vem a dualidade: alma e corpo, racional e emocional.
Só que ao longo do tempo, fomos dando valor para somente um lado disso tudo: apenas para o racional. Não a toa, olha só, essa é justamente a fala de Amanita durante o seu casamento com Nomi.























Quando Amanita faz esse discurso, ela está falando de tudo o que eu abordei. Em suma, ao longo do tempo fomos criando conceitos e mais conceitos para tentarmos evoluir, mas esses conceitos acabam por nos colocar em caixas, já que estão atrelados ao seu tempo. Vejam a concepção dos gregos de prazer: faz total sentido, assim como você me dizer que existe uma alma gêmea única que será o seu amor pleno. Ou seja, não há como definir todos de uma única forma, mas o ser humano continua a fazer isso, já que o sexo é a base da sociedade em si. E aí vem uma pergunta essencial: por que o sexo é tão importante?

Essa pergunta é filosófica e sociológica sem respostas exatas, mas que mesmo assim eu vou arriscar dar o meu parecer. Ainda que analítico, é um parecer pessoal - então, não há uma verdade aqui. É apenas uma observação minha, com base em tudo o que já vivi e estudei, mas ainda minha.


Antes, quero lembrar que o sexo já tem sua importância, biológica e sociológica, como forma de reprodução. Inconscientemente o ser humano sabe da importância disso, do valor que tem para o mundo o gerar vida. Mas, se fosse só isso, bastaria coletar o esperma do homem e injetar no útero da mulher e pronto, teríamos uma criança pronta para nascer. A questão continua: qual a importância do sexo? Veja o Corão: é um manual de conduta humano detalhado, que diz até exatamente como você deve transar. Por que para nós é relevante saber ou ter definido como realizar esse ato?


Em minha concepção, a resposta é simples, mas gera uma análise complexa: o sexo é a relação de amor mais profunda e sincera que temos.
Obviamente, quando falo de sexo não estou falando meramente do "entra e sai", a penetração ou o contato das genitálias. Estou falando de todo esse ritual estranhamente contrário às noções racionais do nosso ego.

Primeiramente, comumente nos despimos. Claro, sempre vão ter exceções, gente que prefere usar roupas ou um adereço aqui e outro ali, mas a relação direta do sexo envolve o autodescobrimento e o descobrimento do corpo do outro. Um toque e entendemos onde a pessoa é mais sensível e vice-versa. Faz parte de um jogo sensual de carícias - uma transa.


Sendo assim, o despir não se trata apenas das roupas. Nos despimos também de nossas versões sociais; aquela versão toda bonitinha onde o parecer ou o ter importa mais. Pois o sexo não é bonito; o sexo é a liberdade mais pura, pode ser considerado lindo ao seu próprio modo, mas em síntese é animalesco, estranho; imagine como um alienígena racional observaria esse ato? Não entenderia nada. Talvez julgasse até como desnecessário.

Sexo é confuso por abrir também uma porta do nosso subconsciente a respeito dos nossos desejos. E, portanto, no momento do ato, só importam as pessoas envolvidas e a troca realizadas por elas. Nada mais, nada menos.


O momento do gozo é só uma resposta à uma série de equações emocionais que fizeram o ser chegar ali. A cereja do bolo. Então, estando diante do outro (ou outros), a transa é de uma sinceridade imensa. Você está se colocando ali, vulnerável. Por isso, transas memoráveis, com aquela pessoa que você nunca vai esquecer, estão ligadas à noção de liberdade plena do indivíduo. Se o outro, por qualquer que seja o motivo, não estiver gostando, isso será perceptível. Daí vem a sinceridade.


De novo, há outro aspecto que podemos problematizar ou achar "exceções". Temos mulheres que fingem o orgasmo ou homens que apenas se satisfazem com o próprio prazer. Mas isso é outro tipo de transa; uma transa protocolar, parecida um pouco com a intenção reprodutiva, focada no prazer rápido. Não, a transa verdadeira e intensa de que falo não é isso - é uma troca. E uma troca vai além do corpo. Há a junção da alma, do emocional com o racional. O ser por inteiro.
É disso que Sense8 está falando. 

Ou seja, se o sexo, visto tantas formas de comunicação que temos, é a mais vulnerável e sincera, como representar a ligação mais profunda de oito pessoas que desenvolveram esse tipo de "superpoder"? Justamente por ele. Por isso a sexualidade é tão importante na série, pois está atrelada às tramas individuais de cada personagem, o que por sua vez significa autodescobrimento. Quando todos se encontram em uma suruba maluca, não é apenas uma putaria generalizada, é uma simbologia para a ligação mais profunda que todos podem ter. Eles não só conhecem um ao outro por meio de informações, mas sentem os corpos. Eu diria que isso está relacionado diretamente com a cena final da série, uma grande cena de sexo.

Sinceramente achei que esse momento foi mal construído por conta do curto tempo, mas há uma importância imensa de evolução: os sensates estão compartilhando essa transação toda não só entre eles, mas com outras pessoas, que participam ativamente. Todos são um só. Amor.

Logo, surgem tantos outros conceitos - como a percepção de que desejos reprimidos e não aceitos geram uma sociedade de ódio. Ao "fazer amor" na tela, todas as personagens estão se aceitando, não importa como, nem por que. Sense8 é uma "carta" contra o racionalismo exagerado que coloca as emoções em segundo plano, reprimindo nossos desejos; quem somos. Essa é a importância do sexo na série: não meramente uma panfletagem LGBT. Sense8 está falando de algo maior. Está falando de todas as estruturas que controlam nós seres humanos, que nos colocam em caixas, gerando preconceito e divisão na mesma espécie.

El Psy Congroo.

-------
Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais, pois isso ajuda o site a crescer!
Nos siga no Facebook e no Twitter

Postagens Relacionadas

Comentários

Postagens mais visitadas