O maior problema de Vingadores Guerra Infinita




Apesar de acertar em muitos aspectos, filme dos Vingadores erra em um problema crucial de roteiro

atenção: este post tem spoilers

Acredito que muitos críticos podem se deparar com Guerra Infinita e perceber alguns defeitos, mesmo o filme sendo no geral uma produção boa. Talvez digam que há problema no característico humor da Marvel, que o final é um cliffhanger que não tem peso nenhum ou que as perdas são apenas para impactar sem nenhum valor emocional.

Sim, existe muito a se falar, porém, a meu ver, grande parte dessas coisas podem ser consertadas ou ganharão real sentido na continuação, enquanto o que eu pretendo abordar neste post parece ser um problema de longa data do universo Marvel, intensificado agora que tantos personagens se uniram: o balanceamento.
Mas calma aí, o que é balanceamento de personagens em um roteiro?

Balanceamento de personagens: o que é?

Antes de tudo, temos que começar pela definição da palavra em si, "balanceamento". Balanceamento vem da palavra balancear, que por sua vez está ligada diretamente à palavra balançar. Balançar, no sentido mais comum, é mexer algo; oscilar. Entretanto, ao mesmo tempo, pode ter um sentido oposto, não muito usado no cotidiano, que é "equilibrar". Então se comumente não usamos balançar para nos referirmos ao ato de equilibrar, o que usamos? Justamente balancear.

Ao virar verbo, balançar ganha o sentido de mexer para tornar igual, e daí vem o processo de balanceamento. Balanceamento é não só nivelar duas partes, mas todas as possíveis.

É aí que entramos no conceito de personagens do filme? Não! Calma lá, pois essa ideia aplicada à personagens vem de outro lugar, muito conhecido por muitos que acompanham este maravilhoso site - o mundo dos games.


Nos games é essencial ter um sistema balanceado de acordo com a proposta de jogabilidade. Não vou entrar em detalhes, pois não tenho conhecimento para tanto, apenas deixo aqui esse post ótimo para quem se interessar sobre o assunto.

Pois bem, em um jogo é essencial que os poderes dos personagens estejam de acordo, pois ora, um desnivelamento qualquer pode abrir alas para que um jogador espertinho explore isso, formando um ambiente desigual. Podemos dizer que em algum nível até mesmo xadrez, o famoso jogo de estratégia, tem algum desbalanceamento pelo fato de que uma pessoa começa o jogo e isso pode ser visto como vantagem ou desvantagem (na prática não é um desbalanceamento relevante, pois não afeta o jogo ao ponto de se tornar um problema, mas vocês entenderam o conceito). Agora, imagine isso em um nível dezena de vezes maior em jogos online?

O resultado de um balanceamento mal feito é um game repleto de problemas, onde facilmente os jogadores podem usar truques para conseguir vantagens.

Tá, como isso se aplica a Guerra Infinita?

Bom, obviamente Guerra Infinita não é um jogo, mas um filme. Então o conceito de balanceamento se altera um pouco, apesar de ainda ter semelhanças: o universo Marvel é uma criação e toda criação necessita de uma estrutura. Essa estrutura deve ser seguida, pois delimita o quão "real" aquelas personagens são - do contrário, ficará tudo uma bagunça sem nexo ao bel prazer dos roteiristas (cof cof Death Note). Não faz sentido, por exemplo, você delimitar que o poder do Homem Aranha é super força e teias, e de repente ele soltar um raio da mão. Isso quebra as regras estabelecidas. Esse mundo tem que ser crível.

É aí que começa o grande problema da Marvel: existe uma enorme preparação e expectativas para um vilão (Thanos) que desafia todos os poderes dos heróis. Só que até chegar em Thanos, vemos produções grandiosas, que necessitam também mostrar fortes ameaças para impactar o público. Sendo assim, temos vilões que a cada filme estão em um nível maior e consequentemente, os heróis também. Todos eles passam por alguma jornada e ao final dessa jornada, de algum jeito ou de outro devem evoluir. Os Vingadores do primeiro filme não são os mesmos na Era de Ultron e muito menos em Guerra Civil.


Sendo assim, nós temos alguns personagens que, seja por necessidades de roteiro de filmes anteriores ou pela própria definição do personagem, são extremamente fortes. Em síntese, são esses quatro: Wanda, Visão, Hulk e Dr. Estranho.

É aqui que o problema se desenvolve: Thanos deveria ser a maior ameaça, de acordo com a expectativa construída ao longo dos filmes, porém, esses personagens afrontam esse poder. Paralelamente, se Thanos for apenas um ser todo poderoso, ele não terá tridimensionalidade (se quiser saber mais sobre tridimensionalidade de personagens, leia esse post sobre Star Wars). Não o veremos como alguém, apenas como uma coisa, e isso é horrível para qualquer história, ainda mais com tantos heróis. Para todo bom protagonista é necessário ter um antagonista melhor ainda.

Então, qual a solução?
Eu vou lhes dizer a escolhida pelos roteiristas do filme: desbalancear os personagens para nivelar a maioria abaixo de Thanos. O engraçado é que isso é uma tentativa de balanceamento (você criou personagens muito fortes para um vilão que deveria ser o mais forte), que por sua vez acaba indo contra a estrutura do próprio mundo.
Confuso? Calma, que agora darei exemplos.

Comecemos com Wanda, A Feiticeira Escarlate.

Quais são as suas habilidades? De acordo com a Wikipédia, elas são:
- Magia do Caos
- Manipulação das Probabilidades
- Manipulação da Realidade
- Feitiçaria
- Telecinese
- Teleporte
- Clarividência

Claro, a Wanda dos quadrinhos não é a mesma dos filmes, tendo sido os seus poderes  drasticamente reduzidos. Entretanto, ainda tem alguns atributos que se mantem na personagem, como podemos ver em Era de Ultron, e eles são: telecinese, telepatia, rajada de energia e hipnose (além de outros poderes que ainda não sabemos). A telepatia e a hipnose de Wanda são tão fortes que inclusive são pontos centrais como ameaça em Era de Ultron. E aí surge a pergunta, o quanto disso ela usa em Guerra Infinita? Resposta: quase nada. Ela usa apenas telecinese bem básica apenas para mover objetos. A personagem no filme não consegue derrotar nem minions insignificantes de Thanos. A situação fica pior se observarmos que em sua primeira cena de luta, a bruxa estava ao lado de outro personagem extremante forte: Visão.


Quais os poderes de Visão?
- Manipulação da densidade
- Voo
- Rajadas de energia solar
- Inteligência sobre-humana

Acredito que o caso do Visão seja um pouco pior, pois diferente de Wanda, ele não tem seus poderes diminuídos. Aliás, ele é o grande herói que salva a humanidade em Ultron.

Ao lutar contra os minions, Ultron não voa direito, quase não dá rajada solar e sua inteligência é nivelada ao ridículo. Ele simplesmente não tem ideia de como fazer nada. Entendo que é importante a humanização do personagem, mas de repente ele perde suas capacidades cognitivas. O sujeito não consegue elaborar um único plano, a não ser a atitude óbvia de que Wanda terá que matá-lo caso a coisa fique feia.

Aí você me pergunta, por que fizeram isso com esses dois?
A resposta é simples: pois temos lado a lado com eles personagens como Capitão América, Viúva Negra, Falcão e Shuri, que não têm poderes importantes neste contexto (ou não têm mesmo). Eles precisam ser relevantes de algum jeito no filme. Portanto, acho que podemos entender o sentido desse desbalanceamento; ele é um sentido até nobre: existem trocentos personagens em tela e todos eles, de algum jeito, devem ter importância. O problema é isso ridiculamente quebrar regras de estrutura do próprio mundo.


Qual é, quer dizer que o Capitão, o Falcão e a Viúva conseguem derrotar dois minions que não só derrotaram, mas humilharam personagens que têm como atributos a telepatia, rajadas de energia solar, telecinese e inteligência sobre-humana?

Mas, se você acha que acaba aí, o problema piora quando entra em cena um único personagem: Bruce Banner aka o incrível Hulk.


Primeiro vamos analisar o desbalanceamento apenas em Bruce Banner (sim, pois o desbalanceamento atinge até o Banner enquanto humano). Quais os seus poderes?
Eu poderia dizer nenhum, mas isso é errado. Banner é extremamente inteligente. Não inteligente como Visão, pois Visão está em um nível sobre-humano, mas inteligente a um nível que o torna capaz de criar coisas poderosas. Ou seja, ele mesmo não é sobre-humano (eu digo ele enquanto humano, não Hulk), mas é capaz de criar coisas sobre-humanas.

Nos filmes novamente temos sua capacidade cognitiva diminuída em muitos pontos, mas ainda assim ele sempre foi apresentado como um gênio. Na mitologia cinematográfica, ele foi um dos responsáveis por Ultron (e claro, pelo próprio Hulk). Em Guerra Infinita, o quanto vemos dessa inteligência? Eu nem diria pouco, eu diria que não vemos mesmo.

Bruce Banner é o alívio cômico do filme. Um sujeito extremamente inteligente, capaz de criar muitas estratégias e armas, é usado apenas como uma forma de ocasionar risadas. A coisa fica pior quando ele, o cara que foi um dos responsáveis pelo Visão, que sabe das Joias do Infinito e inclusive estudou uma delas de perto (o Tesseract), NÃO sabe o que fazer, tendo que pedir ajuda para uma pessoa (Shuri) de uma nação isolada do mundo que nem sabe quem é Thanos, as Joias do Infinito e muito menos o Visão.

E para completar isso, ao invés de colocarem ele pelo menos para auxiliar a moça, simplesmente o mostram lutando por aí com a Hulkbuster, uma arma que qualquer ex-agente da Shield conseguiria usar. Aí eu te pergunto, qual a importância do personagem mesmo?
Talvez ser o corpo que leva um dos seres mais fortes do universo?
Mas espera, ESTE SER NÃO APARECE DURANTE TODO O FILME.

O problema Hulk

Olha, eu sou  a favor de diminuírem a participação do Hulk no filme. Um ser tão forte traz problemas na hora de criar uma ameaça realmente efetiva. Entretanto, para poder diminuí-lo, é necessário uma situação plausível.

Em Guerra Infinita, a desculpa é que o Hulk simplesmente não quer aparecer. Fica subentendido que talvez ele tenha se cansado depois de ficar tanto tempo no controle do corpo de Banner ou simplesmente não está se dando bem com o seu "dono"; mas é isso - subentendido. E mesmo esse subentendimento, ou melhor tapa buraco por algo que não está explícito na tela de forma profunda, pode ser questionado diante de muitos fatores, como por exemplo: o Hulk inevitavelmente aparece quando o Banner está prestes a morrer, pois além da possível morte acionar uma adrenalina instintiva, significa que ele irá pro saco também; Banner perdeu o controle do monstro dentro de si em Ultron, mas isso não quer dizer que ele deveria voltar à quando ele não tinha nenhuma noção de como acionar o Hulk; e claro, o Hulk adora uma treta. Thor Ragnarok mostra claramente que o Hulk adora estar no controle; ele simplesmente não iria perder qualquer chance de voltar.

"Ué, então por que não o colocaram no filme?", pois isso é tirar tempo de tela de outros personagens mais, digamos, comuns. Em dois segundos o Hulk poderia acabar com os invasores de Wakanda e lutaria pau a pau com Thanos (se até o Capitão América conseguiu "barrar" o vilão, o Hulk não conseguiria lutar de igual para igual?).

Ou seja, usaram de uma desculpa esfarrapada qualquer para poder ter maior desenvolvimento de outros personagens, enquanto o Banner faz alívio cômico.
Poderiam ter pensado em algo MUITO melhor.


E por fim, mas não menos importante, Doutor Estranho. Por que deixei o Dr. Estranho pro final? Bem, por que a sua conduta em parte é uma incógnita. Com certeza ele tem um plano, só não sabemos se o seu plano vai tapar a sua falta de habilidade com... A MAGIA.



Okay, fica explícito no final de seu filme solo que ele não é o mesmo Doutor das HQ's, mas mesmo assim, quando o vemos em Thor Ragnarok, fica claro que ele tem a capacidade de proteger a Terra, tendo inclusive poderes parecidos com os de Wanda (até mais). Quanto desses poderes ele usa em Guerra Infinita? Agora, se adicionarmos o Olho de Agamotto nessa equação, nada faz sentido. Doutor Estranho derrotou uma das criaturas mais terríveis do UNIVERSO, Dormammu, enquanto ainda era um mago iniciante. Em Guerra Infinita, ele já tem alto controle de seus poderes e do próprio Olho de Agamotto. O que acontece? Ele é humilhado por outro minion do Thanos (dessa vez um minion mais importante), estando a beira de ser morto se não fosse o Homem de Ferro e o Homem-Aranha.

Mas vamos dar uma "passada de pano" para ele não é mesmo? Já que não sabemos o que virá em Vingadores 4. Porém, por mais otimista que eu possa ser, tenho certa convicção que os roteiristas não vão se importar com esses detalhes (seria ótimo se a Marvel calasse a minha boca com um plot twist incrível do Doutor Estranho dando uma de Sherlock e mostrando como quase tudo foi planejado, mas... Sabemos que não vai acontecer).

"Mas e aí, nesse lance de balanceamento tem algo que eles fizeram de bom?"

Eu diria que o Thor, justamente por que temos uma jornada de humanização do personagem desde o seu terceiro filme solo. Quer dizer, todos os filmes do Thor precisam humanizar o personagem por que ele é um fucking Deus, não existe conflito para um ser tão poderoso, mas em seu terceiro filme, o vemos perdendo o seu precioso martelo e tendo que usar mais estratégias e menos força para conseguir vencer. Isso se liga diretamente com o começo de Guerra Infinita, com o personagem extremamente vulnerável em uma nave cheia de sobreviventes de Asgard. Sendo assim, ao longo do filme vemos uma mini jornada sua, continuação direta de seus problemas anteriores, em busca de um novo martelo para poder salvar o universo (pois se ele já estivesse com o martelo na mão, obviamente não teria filme). E então surgem vários empecilhos nessa jornada, empecilhos palpáveis, que o atrasam até ele chegar em Thanos, logo após o vilão conseguir todas as Joias do Infinito.
Tem aquele lance de "coincidência narrativa", mas foi tudo bem construído na trama. Pena que esse cuidado não se aplica aos outros heróis citados. Bom, resta esperar a continuação e ver se estarei errado nessa minha análise. Espero que sim.

El Psy Congroo.

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