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BTS: por que Love Yourself é tão importante?

Entenda a importância da nova série de álbuns do grupo e a inusitada relação com Arctic Monkeys

Quando falamos de artistas estamos falando de pessoas com capacidades únicas para criarem, obviamente, obras de artes. Nesse quesito, por mais que o BTS seja repleto de funcionários no backstage responsáveis pela criação desde o conceito dos videoclipes até o instrumental das faixas, os sete garotos estão envolvidos diretamente com tudo aquilo que lançam. Ou seja, não é apenas a construção de um produto milimetricamente pensado por uma empresa, mas também um conteúdo singular feito além das concepções daquilo que faz ou não sucesso. É a expressão de sonhos, sentimentos, devaneios, anseios e qualquer experiência que couber numa letra de música.  É a expressão do ser, ainda que de forma empacotada.
E aí eu ressalto algo que pode se perder na apresentação massiva da obra desses sete rapazes: são pessoas. Pessoas com sensibilidade e noções diferentes de música, mas ainda assim seres humanos, da mesma espécie que eu e você.

Então o que define o ser humano? Muitas coisas e há diferentes perspectivas, mas para esse artigo quero falar de algo extremamente comum, mas ainda extremamente único, constante em nossas vidas, porém visível de forma incrível no que artistas fazem: a transição. Somos seres transitórios, a todo momento nos transformando, nos adaptando, evoluindo para novas formas, que não esquecem as anteriores, mas se aprimoram ou desaprimoram, dependendo do ponto de vista. Mudar faz parte da nossa existência e acompanhar de perto um escritor, um pintor, um cantor, é fazer parte dessas mudanças. Pois ora bolas, a visão que temos de Pink Floyd hoje em dia com certeza é diferente de quem estava lá na época, reclamando da saída de Sid Barret ou o quão política a banda se tornou. Claro, estamos em outros tempos; tempos de redes sociais onde o presente se torna intenso de modo exagerado, mas essa visão cultural massiva da relação do fã com artista existe desde pelo há um século.

Talvez seja abstrato demais para algumas pessoas o que eu estou falando, algo nonsense de outro mundo, então vou usar um exemplo que eu acompanhei e que em um primeiro momento pode parecer totalmente esquisito, longe do BTS - mas calma que eu vou chegar lá. Paciência meus caros, aos poucos tudo vai se explicar.

Arctic Monkeys, uma banda de mudanças

Em 2005 o Arctic Monkeys estreou com o álbum "Whatever Pepole Say I Am, That's What I'm Not", considerado por alguns um clássico do indie rock. Foi um sucesso imediato, o álbum de estreia de uma banda que mais vendeu em toda a história das paradas britânicas. Em seguida, para "mostrar que tinham mais truques nas mangas" (palavras do próprio vocalista, Alex Turner), veio em 2006 Favourite Worst Nightmare. FWM é um aprimoramento do que foi apresentado no primeiro álbum. Enquanto em Whatever tínhamos um estilo bastante livre, em FWM o Arctic Monkeys consegue dominar melhor suas habilidades, seja de escrita, canto ou instrumental.

Nesses dois álbuns, o grupo mostrou quem era e explorou tudo o que queriam. O Arctic Monkeys poderia continuar fazendo o mesmo tipo de som? Poderia. Mas pense como se fosse você: digamos que você seja um desenhista - gostaria de ficar a vida toda desenhando o mesmo tipo de desenho? Acredito que não, por que a arte parte de todas as experiências mundanas e experiências envolvem novas perspectivas; novas habilidades; novos sonhos a serem alcançados.

Três anos foi o tempo que levou para chegar o álbum seguinte dos Monkeys, Humbug. A banda pediu ajuda para Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e se jogou no deserto (literalmente) em busca de um novo som. No disco, a pegada é totalmente diferente; algo realmente novo: temos um som menos festeiro, guitarras menos extravagantes e um clima todo místico e sombrio. Superficialmente, quase parece outra banda.
Lembro bem quando Humbug foi lançado. A reação geral foi negativa, muita gente não reconhecia mais a banda e simplesmente odiou o novo tipo de som (alguns até abandonaram o fandom). Por isso, por conta da surpresa e da reação massiva, poucas pessoas perceberam algo importante: o Arctic Monkeys estava se aprimorando. Agora Alex Turner simplesmente não ficava gritando as coisas, ele estava aprendendo a ser de fato um cantor. Outros instrumentos, como o baixo e o teclado, foram explorados de muitas formas, enquanto as já conhecidas guitarras tornaram-se certeiras na proposta que queriam passar em cada música.


Depois de Humbug veio Suck It And See, um álbum menos sombrio, mas ainda levando as características do anterior. Continuava aquele ambiente místico, mas com uma pegada rock clássico, com o som antigo dos Monkeys dosado. Para muitos, esse é o álbum mais fraco da banda - não por qualidade, mas por que ele parece meio apagado. Sabe por quê? Por que Suck It And See é um disco de transição.
O Humbug foi um pé na porta, mas um som ainda meio confuso. Já Suck It and See, foi uma tentativa de fazer ponte com o som antigo da banda e flerte com características mais pop's.
Isso nos leva então para o ponto que eu queria chegar. Em 2014 é lançado aquele que é considerado o mais bem sucedido álbum da banda: AM.

AM foi o que os fez ganhar uma fama global inimaginável, além de ser, olha só que surpresa, mais uma mudança. Mas é uma mudança de convergência: há as explosões de guitarra do começo da carreira, o clima bem construído em cada faixa e o som rock and roll pop oldschool. O que antes era só um flerte, se tornou prato principal.


O Meteoro Brasil fez um vídeo sobre os Monkeys, que eu discordo em muitas coisas, mas em um ponto eu concordo totalmente: essa mudança para o AM não foi do nada, ela foi um desenvolvimento ao longo dos álbuns. Se o Arctic Monkeys não tivesse ido para o deserto em busca de novos horizontes para gravar Humbug, AM não existiria. Entre erros e acertos, aquele que foi considerado o álbum mais estranho foi o responsável pelo álbum mais palatável e conciso do grupo. Está tudo interligado.

Arctic Monkeys foi só um exemplo que eu dei, mas você poderia pegar qualquer outro artista como exemplo: David Bowie? Michael Jackson? Madonna? Queen? Nirvana? Escolha qualquer um. Todos eles estavam fazendo arte e evoluindo junto com a sua obra, em busca de algum objetivo; algum som único. E isso se aplica totalmente à trajetória do BTS.

O que a série Love Yourself representa?

Antes, é importante deixar claro que o mercado musical coreano é diferente do ocidental. Enquanto aqui os artistas precisam lançar álbuns para se desenvolverem, ainda que tenhamos os famosos EPs, lá na Coréia é comum serem lançados mini-álbuns, um negócio que não é nem EP e nem um álbum completo. Um jeito fácil de vender algo menor, mas ainda assim relevante. É desse jeito que os artistas muitas vezes se desenvolvem para só depois chegarem no álbum completo, com um som mais maduro. Com o BTS não foi diferente.

BTS começou com 2 Cool 4 Skool, um mini-álbum voltado principalmente para o rap. Isso é resultado das influências e proposta inicial do grupo: ser uma boyband apenas de hip-hop e não de kpop.

Depois vem O!RUL8,2?, uma continuação do estilo anterior, mas com flertes com o r&b. O r&b existe apenas complemento para incluir a vocal line nos momentos certos, enquanto a rap line desenvolve a mensagem a ser passada. Para se ter ideia, Rap Monster era provavelmente quem mais tinha linhas e os outros rappers seguiam atrás. Atualmente, é difícil se quer imaginar algo assim.
Em O!RUL8,2? vemos a postura dura do rap ser quebrada aos poucos - seja por demanda do mercado ou vontade dos membros, o BTS se assume como de fato é: um grupo de garotos.


Isso nos leva para Skool Luv Affair, uma mescla entre a faceta juvenil e o rap característico. Os meninos decidem assumir que são garotos, e não rappers revolucionários, e aí a temática muda. Está ali a "mensagem social", mas agora eles se colocam de igual para igual com o público, seja por suas confusões ou paixões. Também há uma experimentação interessante do rock em meio ao hip-hop (e nesse hip-hop está incluso o r&b). A vocal line tem cada vez mais espaço e consequentemente o som se torna mais pop. O r&b ainda não é protagonista, mas já tem papel importante na construção das músicas, ainda que fortemente alicerçado no rap.

Toda essa experimentação e evolução de um grupo principalmente de rap para um grupo de hip-hop com o r&b crescendo cada vez mais, converge para finalmente o primeiro álbum: Dark & Wild. Esse disco é uma perfeita síntese dos mini-álbuns anteriores, com um som maduro e seguro de si dentro do hip-hop. Ele não tem medo de ser r&b ou rap, ele é hip-hop como um todo de uma forma única, com identidade e apelo comercial.
Eu diria que aqui o rap ainda é o "personagem" principal, mas temos músicas em que a vocal line toma o protagonismo. É uma mescla muito boa.


E eis que chegamos na famosa (e para mim clássica) série de mini-álbuns: The Most Beautiful Moment in Life. Finalmente temos a virada de mesa: o r&b que gradualmente foi crescendo vira protagonista e coloca o rap em segundo plano. Consequentemente, temos um som mais pop, focado em construções (Verso + Ponte + Refrão) e menos na mensagem em si. Quando eu falo menos na mensagem em si, não quero dizer que as letras do BTS diminuíram de qualidade (muito pelo contrário), mas se antes o falar era o ponto principal, aqui o cantar se torna o modus operandi de cada faixa. Finalmente o BTS pode se considerar kpop.

The Most Beautigul Moment in Life não surgiu do nada. Teve toda uma construção anterior de exploração dos sons para chegar aqui.
Essencialmente, os minis são um estudo do r&b e de como fazê-lo bem feito. Qualquer arte que começa de um jeito e termina igual, não é uma arte. Fazer uma obra é uma jornada de reafirmação e autodescobrimento em todos os sentidos. E bom, além do entendimento do r&b enquanto pop, o que temos como flerte? A eletrônica, em especial a EDM. É bem sutil, mas está ali, seja no break dubstep de I Need U ou nos saxofones sampleados de Dope.


Wings eu considero uma exceção nessa trajetória. É sim uma enorme evolução do BTS (ao chegar aqui, eles já sabem fazer r&b como ninguém e rap então, nem se fala), mas não vemos isso tanto enquanto grupo, pois se trata de um álbum focado em músicas individuais. Vemos uma exploração de diferentes sonoridades por meio da perspectiva de cada membro. Há o sensual r&b espelhado em Daniel Caesar de V, o rap reflexivo de RM, o pop à la Justin Bieber de Jungkook, a sensualidade dramática de Jimin (que diga-se de passagem, importa para a sua música muito do que ele é na dança contemporânea), o hip-hop animado de J-Hope, o rap, quase conversa, com toques cinematográficos de Suga e por fim, a forte emoção classuda de Jin  Cada um desenvolve-se do próprio jeito, o que por sua vez influencia a música do grupo como um todo - mas não temos a projeção do todo como álbum em si. Podemos apenas pegar partes; amostras - essas amostras são: Blood Sweat & Tears, Am I Wrong, 21 Century Girl, 2! 3! e Interlude: Wings.

Veja bem: essas 6 músicas poderiam formar um mini-álbum a parte, mas quando falo de amostra, quero dizer que elas não foram projetadas em um contexto onde o grupo é o principal. O principal aqui são os atos individuais e o conceito por trás disso que os une. Mas claro, há um gostinho do BTS do futuro.


BS&T é um pop dramático com influências latinas (reggaeton). Uma faixa triste de amor, mas com uma sonoridade que te faz dançar: basicamente uma evolução do que foi I Need U. Vemos também que há brincadeiras com a estrutura clássica do pop, mas apenas como flerte. Não vou entrar em detalhes, mas posso dizer que a questão de estrutura musical pop é também importantíssimo para Fake Love (não a toa, um single que soa como irmão de BS&T).

Am I Wrong, 21 Century Girl e 2!3! são músicas pops com elementos de eletrônica mas de forma descontraída. O caminho escolhido pelo BTS por aqui é menos dramático e mais focado no descompromisso. Perceba: nessa amostra o r&b foi renegado para segundo plano. BTS poderia continuar diretamente o que fez em The Most Beautiful Moment in Life, mas prefere percorrer novos sons, flertando fortemente com a EDM (Interlude: Wings) e elementos de gêneros musicais de outras culturas. Note também como nunca é uma mudança brusca, é sempre algo gradual - um flerte que começou lá na série de minis anterior e que vai se tornando mais e mais forte.


Eis que então chegamos na nova série de álbuns, Love Yourself. Para ser mais específico, no primeiro mini, denominado Her. É aqui que começa a ditadura do EDM (rs).
Como eu abordei na minha análise do mini, basicamente temos uma divisão: metade das faixas é eletrônica pura e a outra hip-hop, mas sempre com o tom eletrônico dominando. Até mesmo Mic Drop, uma faixa que é quase uma Cypher, não escapa (vide posteriormente a colaboração com o famoso dj Steve Aoki).

Por que esse álbum está abaixo de todos os anteriores? Pois é uma nova virada de mesa, mas não só isso, é a saída de vez do hip-hop. Sempre tivemos flertes com vários estilos, como você percebeu até aqui, mas estavam sempre no guarda-chuva que é o hip-hop - coisa que o BTS domina bem.
Portanto, temos o grupo explorando um campo realmente novo desde que eles debutaram - lembram de Humbug? Eu diria que esse é o ponto inicial de transição do BTS. Obviamente tivemos diversas transições anteriormente, mas agora é a transição para algo realmente novo e "estranho".

Por isso o som por vezes soa vazio, genérico, ruim. É a boyband emulando o que eles admiram e desenvolvendo, descobrindo, acima de tudo aprendendo. E essa evolução, claro, não pode deixar de levar a identidade do grupo - o Arctic Monkeys tentou uma missão "suicida" de apagar o som característico deles, o que os fez perceber que tinham uma identidade mais forte do que imaginavam. O BTS não se pode dar ao luxo de fazer isso por conta do mercado, mas está ali, a tentativa de ser diferente do que já foi.


Será que vai ser bom? Será que vai ser ruim? A resposta só saberemos no final dessa empreitada e lançamento do próximo álbum. Mas, posso já adiantar que a tendência é resultar em bons frutos: Love Yourself: Tear, a segunda parte dessa série, é uma enorme evolução da proposta eletrônica de Her. Ainda que confuso em termos de identidade, há faixas realmente ótimas e que por vezes mostram o BTS se encontrando perfeitamente. Esse encontro se dá muito pelo modo como o grupo decide se desenvolver: lembra do Wings, como ele evoluiu individualmente todos os membros? Agora lembra do Humbug, como foi um álbum que buscava explorar elementos pouco usados pelo Arctic Monkeys? Bom, BTS para alcançar o diferente, dá protagonismo aos membros que não tinham tanta relevância, apostando na profundidade de suas características únicas em meio a instrumentais que fogem do que o kpop tem apresentado.

Por fim, devo dizer que há um pouquinho de tudo o que o grupo já fez, mas com uma nova direção. Em suma: o BTS tem um objetivo de sonoridade e está caminhando para alcançá-la. É um momento de transição, transição dos garotos frente a fama, transição da arte para formas amadurecidas. Aos poucos, está acontecendo a união entre o antigo e o novo, assim como foi em AM. E, independente da qualidade, não poderemos negar: será algo único.

El Psy Congroo.

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