O incrível paralelo entre Whiplash e La La Land

E como essas duas obras se complementam muito bem

Atenção: este post tem spoilers. Recomendo que você tenha assistido pelo menos um dos filmes para entender

Whiplash e La La Land são dois longa-metragens, na minha opinião obra-primas, escritas e dirigidas por Damien Chazelle, um dos mais promissores diretores de hollywood. Claro, além do fato de ambos terem o mesmo autor e o mesmo "tema" condutor, a música, há outras nuances interessantes que conectam as duas obras.


Antes de tudo, para entender a obra de Chazelle, é preciso ter em mente os diferentes tipos de criação. Obviamente que existem diversas classificações, mas irei dividi-las em três: criações autobiográficas, onde não necessariamente a história é uma autobiografia, mas tem uma conexão direta com as experiências de seu criador. Criações ficcionais, em que o autor se baseia em outras obras e tenta imaginar uma realidade única. E, por fim, o meio termo: criações autobiográficas ficcionais, em que o autor cria a história em uma realidade única, mas com influências do seu cotidiano, das pessoas ao seu redor, etc.
A obra de Chazelle se encaixa perfeitamente no primeiro tipo. Ainda que La La Land, por exemplo, tenha uma gama incrível de referências cinematográficas, quase indo para o segundo tipo, continua a ser uma história simples sobre os altos e baixos de um casal e as suas aspirações.


Portanto, até aqui, tudo o que o diretor criou foram catalisadores de suas próprias experiências com um toque extremamente dramático. Por quê isso é importante? Pois a vida de Damien se mistura à ficção, criando conexões únicas entre as obras. A primeira e mais importante seria... A música? Não. Ainda que a música superficialmente seja o atrativo de Whiplash e La La Land, o tema central das duas é outro: sonhos.


Whiplash poderia ser a história de um boxeador, de um jogador de futebol, de um escritor, enfim, de qualquer profissão. A música é só o meio mais sincero e plausível para desenvolver a temática sobre sonhos, já que Damien foi também estudante de bateria e adora jazz.

Qual o seu sonho? Qual o seu objetivo de vida?

Andrew e Mia, por exemplo, têm ideias bem definidas do que querem. Os dois filmes são essencialmente sobre a busca por estes objetivos, colocando as personagens inicialmente em um patamar comum, para identificação com o espectador, e aos poucos desenvolvendo-as em um tortuoso caminho. Fica claro que a visão de sonho de Chazelle passeia entre a fantasia e a dura realidade: os momentos musicais concretizam a visão fantasiosa de mundo de Mia, enquanto os objetos, seja um cartaz ou diálogos mesmo (a cena do jantar em família por exemplo), deixam expostos também os objetivos fantasiosos de Andrew. Ambos querem alcançar um patamar quase impossível, feito para poucos, com dificuldades maiores se você for um ser humano comum (e o comum aqui é no sentido de poder/dinheiro. Para o diretor, a genialidade humana é claramente calcada no trabalho duro).



Essa visão longínqua deles, de ganhar o pódio em primeiro lugar, contrasta com o mundo que os cerca, sempre se contrapondo com o necessário para conseguirem seus desejos. Conhece Fausto? A famosa lenda alemã sobre um cientista que almeja o conhecimento pleno e depois paga as consequências? Então, é mais ou menos isso o que temos aqui. A clássica troca equivalente: você só tem o que almeja se oferecer um esforço equivalente em troca, quanto maior o sonho, maior o esforço e o desgaste.


As duas histórias são sobre esse sutil e importante momento: quando definimos o nosso sonho/objetivo, passamos a ir atrás, nos decepcionamos, nos esforçamos além do necessário, chegamos a esquecer do nosso sonho, voltamos para ele e no final o realizamos. Tá aí por quê o estranhamento sobre como o romance e os sonhos são apresentados em ambas as obras.

Romance

Whiplash tem explicitamente a temática da busca pelos sonhos abordada, por isso o romance soa estranho. La La Land tem o romance superficialmente apresentado como a temática principal a ser abordada, por isso a ideia realista de sonho soa estranha. Percebemos então como o romance está presente em ambas as obras e tem extrema importância.

Qual a importância em Whiplash? 

É relevante salientar que Andrew tem apenas 19 anos e portanto, por mais que tenha uma mente um tanto quanto madura, não deixa de ser um adolescente. Relações sociais são importantes em todos os momentos de nossas vidas, mas tem um valor especial na adolescência pois é quando formamos a nossa personalidade. Deste modo, a quase namorada do protagonista serve não apenas para representar um relacionamento mal resolvido, mas tudo o que o garoto abre mão. Ali, ao terminar com ela, ele está deixando de lado suas relações sociais, sua família e acima de tudo, o amor. E por amor pode-se entender também como amor próprio, pois dali por diante Neiman dará tudo de si, não importando mais os sentimentos, para conseguir ser o melhor.

Em contraparte, são esses sentimentos tão reprimidos que o fazem finalmente explodir e colocar para fora em forma de música tudo o que passou. O fora da garota não foi um momento aleatório: ele serve para trazer um espelho realista ao protagonista; ele finalmente se dá conta do que abriu mão. Então quando ele "enlouquece" na bateria e consegue fazer o melhor solo, ele não está apenas tocando por raiva do professor Fletcher, mas por sua solidão, por ter aberto mão do amor, pelo não reconhecimento de sua família. Ele poderia investir no relacionamento com Nicole, provavelmente se dariam bem e teria uma vida razoável, mas... plenamente feliz?
Acho que isso me lembra a cena de algum outro filme:



Qual a importância em La La Land? 

Falar de romance em La La Land é um pouco redundante, já que como podemos ver, o filme pega essa parte sutil em Whiplash e a torna em principal. Entretanto, acredito ser importante delimitar qual o real papel disso na história.
La La Land não é sobre amor, mas sobre sonhos e objetivos pessoais. O amor aqui pode parecer o que une o casal, mas desde o começo eles se identificam por terem sonhos e tentarem alcançar esses sonhos. O que Andrew, em Whiplash, descarta em poucos minutos, pois sabe que vai lhe atrapalhar, em La La Land é desenvolvido, resultando em um rompimento mais abrupto. Pois nesse sentido, pelo menos para Chazelle, o amor surge como uma barreira, uma distração do real objetivo.

Veja bem: não estou dizendo que sonhos e amor por outra pessoa não podem se juntar (e aliás, muita gente encontra o próprio sonho no amor pela outra pessoa), mas se você tem um objetivo, é muito provável que em algum momento se depare com dois caminhos: o caminho onde você ama, mas deixa de lado parte de seu sonhos; e o caminho onde você não ama, mas realiza o seu sonho. Algumas pessoas podem achar essa atitude exagerada e muito preto no branco, mas só quem almejou fortemente um objetivo sabe como é: você tem que se dedicar ao máximo e em algum momento terá de fazer sacrifícios. Infelizmente, esse é o mundo real, onde é muito difícil ter tudo o que queremos. Sendo assim, é exatamente isso que Andrew percebe, decidindo abrir mão de seu futuro namoro, enquanto é exatamente isso que Mia e Sebastian não percebem, levando a um término deveras emotivo.


Por fim, nesse aspecto, quero também ressaltar como o fato do outro ter um sonho é importante. Além de saber que o relacionamento não daria certo, Andrew não se identificava com Nicole por ela não ter uma perspectiva própria. Ao inicio de um relacionamento pode parecer algo normal, mas acredite, aos poucos isso pesa muito: de um lado há a visão de alguém que sabe o quer, e de outro alguém totalmente perdido. É o que a garota deixa explícito na mesa.


Agora, o que aconteceria se Andrew encontrasse alguém que também tivesse um objetivo? Provavelmente terminaria do mesmo jeito, mas há a possibilidade dele gostar mais ainda da pessoa, dando mais valor à ela - esse é o enredo de La La Land. Por mais que Mia e Sebastian acabem o relacionamento de forma difícil, ambos se entendem.

Realização do sonho e final

"O tom dos dois filmes não poderia ser mais diferente. Mas os dois são sobre a luta de se tornar um artista, conciliando os seus sonhos com as necessidades humanas. La La Land é menos raivoso sobre isso", afirmou Damien Chazelle em entrevista à revista Entertainment Week

As semelhanças e diferenças ficam claras, pois ambos os filmes abordam o jazz, mas o jazz se apresenta de diferentes formas: em um a música chega a se tornar opressora, o instrumental envolve cenas de certo modo perturbantes da música como expressão em excesso. Enquanto no outro é exatamente o contrário, a música é o momento de expressão do excesso; uma fuga da realidade, tornando-se um alívio para as personagens.
Mas veja bem: independente das diferenças, a música é a forma de expressão de todos. E essa expressão, entre altos e baixos e o já dito contraste com a realidade, leva as personagens à realização de suas perspectivas pessoais.


Em Whiplash, Andrew mais uma vez é pressionado por Terence Fletcher, explodindo em um solo inigualável de bateria.
Em La La Land, Mia e Sebastian escolhem a realização profissional como complemento de si enquanto indivíduos, seguindo caminhos opostos. Entretanto, ao acaso, Mia acaba indo parar, com seu novo marido, exatamente no clube de Sebastian, o que ocasiona uma cena musical emocionante.


Sendo redundante, perceba: Andrew está se expressando pela música. Mia e Sebastian também. Os dois pré-finais criam uma expectativa crescente no espectador, que não sabe o que esperar na cena seguinte. Andrew conseguirá se dar bem? Mia e Sebastian vão ficar juntos?

Chazelle sabe bem o que o espectador espera, por isso ele brinca com expectativas. Em ambas as histórias o final fica totalmente em aberto (o casal de La La Land pode ter se reencontrado de novo? As possibilidades são infinitas. Andrew pode vir a se matar ou se tornar uma lenda? As possibilidades são infinitas), porém, ao mesmo tempo que o diretor joga com a nossa imaginação inevitável, ele encerra de forma sublime todos os sentimentos e problemas apresentados até aqui: com um sorriso.
O que Andrew na verdade almeja não é ser um gênio, mas a pura e simples aceitação.
O que Mia e Sebastian querem é realizarem suas fantasias pessoais, tendo a aceitação um do outro como ponto final do egoísmo.

O sorriso de Mia para Sebastian e de Sebastian para Mia é um sinal de validação de algo já realizado: ambos conseguiram o que tanto queriam e a troca de olhares é o amor mais puro advindo da identificação.
O sorriso de Andrew para Terence e de Terence para Andrew é um sinal de validação de algo se realizando naquele exato momento: ambos estão conseguindo o que tanto queriam e a troca de olhares é a catarse mais pura da constatação de que alcançaram o impossível.

A realização, de tudo o que foi almejado, tudo o que foi idealizado, tornou a vida melhor? Tornou a vida pior? A conclusão, meu querido leitor, agora fica para você.





El Psy Congroo.

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