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Viva - A Vida é Uma Festa e as lembranças como meio de alcançar a imortalidade

Emocionante, visualmente chamativo e sincero, nova animação da Pixar aborda a importância da família sem parecer clichê em uma história para adultos e crianças

Lembro como se fosse ontem do primeiro filme que eu assisti no cinema. Em uma época onde poucos tinham acesso a internet, minha mãe simplesmente chegou em casa e mandou eu e minha irmã nos arrumarmos para irmos ao shopping. Sem trailers, sem críticas, absolutamente nada antes de conferir. Nem ela sabia o que estava por assistir, talvez pensasse que seria só um filme bobo para crianças. Ao final da sessão, tanto ela como eu e a minha irmã estávamos em prantos com Procurando Nemo. Ela, enquanto mãe, se identificou profundamente com a busca de Marlin por seu filho e nós, crianças, ficamos apreensivas ao ver de perto o sufoco de Nemo.


Viva - A Vida É Uma Festa, felizmente, está nesse lado íntimo da Pixar. Depois da junção com a Disney, tivemos algumas continuações duvidosas, produções não tão interessantes (Valente, algum dia faço um post sobre) e a reerguida com Divertida Mente. Mas desde Os Incríveis, pelo menos a meu ver, não tínhamos uma produção tão íntima e tão emocional puramente a respeito da família. Na trama, conhecemos Miguel Rivera, um garoto de 12 anos que sonha em ser músico seguindo os passos de seu ídolo, Ernesto de La Cruz. O problema é que a sua família não aceita a paixão do garoto, pois há muito tempo a matriarca foi abandonada pelo marido, tendo que criar os filhos sozinha. Dali em diante, odiar a música se tornou uma tradição entre os Rivera; uma regra extremamente levada a sério. "Os Rivera fazem sapatos e nos orgulhamos disso", repetem de modo exaustivo.


Acredito que a primeira peculiaridade a se notar na animação é o antagonismo: geralmente existe um vilão a ser desenvolvido, quase sempre de forma profunda, ao longo dos minutos. Aqui, o primeiro antagonista é a própria família de Miguel, que lhe é um forte obstáculo. Consequentemente vem a singela noção de família que nós latinos temos: claro, não vou generalizar, mas mesmo sendo um filme sobre o México e sua cultura, especificamente o Dia de Los Muertos, está ali o dna desta parte da América. Basicamente, o tradicionalismo extremamente apegado aos acentrais e seus costumes, com um sentimento caloroso de comunidade. Quem cresceu na periferia, facilmente vai se identificar logo de cara não só com o pequeno Miguel, mas com a própria paisagem e nuances dos trejeitos familiares. Está aí outro ponto a se notar: não é fácil retratar outra cultura sem cair em estereótipos (as vezes o próprio local daquela cultura cria os estereótipos), quanto mais desenvolver uma história profunda.

Enquanto Os Incríveis era um filme sobre uma família única que se mostra comum, Viva é um filme sobre uma família comum que se mostra única, com os sentimentos potencializados pelas homenagens às famosas telenovelas. Está lá a estrutura dos impactantes enredos, onde mocinho vira vilão que na verdade matou o amigo e amigo é pai do protagonista que está do lado do vilão. Uma loucura emocional, típica do nosso tal "sangue quente", mas desenvolvida com extremo cuidado - acima de tudo ainda é um filme da Pixar e tem sim a estrutura básica deles, mas há uma identidade própria por justamente buscar equilíbrio. Nem emocional demais, nem aventuresco em excesso, os dois lados se complementam muito bem, homenageando, divertindo, emocionando - contando uma história.




Em época onde as animações infantis quase sempre apelam para a identidade visual exagerada (e aqui vou parecer um tiozão saudosista falando), um filme que consegue transformar momentos tão comuns, tão cotidianos, em espetáculo sem distorcer sua essência, merece palmas. Miguel não é um garoto cool ou um extremo perdedor em busca de salvar o mundo - ele é uma criança egoísta, como a maioria de fato é nessa idade (muito mais pela falta de experiência, obviamente), que irá aprender importantes valores para toda a sua vida. Sendo assim, o filme cresce mais ainda quando analisado sob o aspecto da aprendizagem: é com cuidado que as crianças aprendem sobre outra cultura e junto disso, a clássica importância da família. Entretanto, como uma boa produção deve ser, nada nos é falado, tudo é mostrado. Há sim as muletas para gradar até os menores que possam não entender direito, mas você vê ali em tela o quanto Miguel cresce, o quanto ele entende quem é, quais as suas raízes e o que fazer com elas (tudo isso em um mundo novo extremamente colorido e alegre. Quem disse que a morte tem de ser triste?).


E obviamente, logo surge outro aspecto, dessa vez além dos pequenos: comunicação com os adultos. É lembrando da infância que consequentemente refletimos sobre a vida adulta (seja para o bem ou para o mal ). Ora, todos temos sonhos e todos tivemos que abandonar alguma coisa: o protagonista é a síntese dessa fase, quando o futuro parece incrivelmente mágico, mas aos poucos a realidade nos alcança (e o irônico é ele aprender essas coisas justamente em um mundo "fantasioso"). Desistir para estar confortável? Apostar em um sonho acima de tudo e todos? O longa, outra vez, nos MOSTRA os dois lados e não escolhe partidos: inicialmente podemos achar que será uma comovente história de autoajuda sobre buscar os seus sonhos, porém, logos somos recebidos com um balde água de fria de ideias contrárias; não pessimistas, mas realistas. Posteriormente, vamos para o extremo oposto dando valor em excesso a família, para, de novo, sermos recebidos com mais ideias diferentes. Viva é uma montanha-russa de ideias opostas bem conduzidas que formam uma trama natural e completamente cinza, sem dicotomias excessivas que tornam produções infantis chatas. Ora, Miguel aprende o valor da sua família, o valor de seu sonho e como unir os dois: sem um ao outro, o amor não existe.

Memórias

Por fim, mas não menos importante, quero falar sobre o aspecto mais tocante e o verdadeiro tema desta produção: memórias. Não que temas como os ditos valorização da família, importância do sonho e aprendizado sobre a realidade além das expectativas, não sejam importantes - são e muito - mas é que a meu ver são apenas conduções que formam uma imagem que ludibria ou constrói o caminho com cuidado para não falar explicitamente sobre imortalidade. 
"Ah, como assim imortalidade?"
Bom, um dos anseios humanos mais longínquos é o de ser imortal; a morte quase sempre é vista como um inimigo a ser derrotado. Como estar acima deste inimigo? Como continuar vivo?


Por meio de seus herdeiros, em outras palavras, por meio das lembranças. Vemos então em tela os dois lados da "imortalidade": o primeiro onde está a maior parte da população, a família. E o segundo onde entram poucos, o legado. Os Rivera obviamente escolheram a família, enquanto Miguel é o ponto fora da curva. Mas, mesmo com diferenças, todos querem existir; todos querem continuar vivos. Pois pense: por mais que você viva uma vida plena e feliz, o que sobra depois da morte? Apenas as lembranças, as lembranças são o alicerce tanto do nascimento e desenvolvimento humano (sem os erros não evoluímos), quanto da posteridade.
E é aí, portanto, que temos os momentos mais tocantes do filme, pois abordam questões profundamente humanas que permeiam a mente adulta e ao mesmo tempo, têm impacto nas crianças diante daqueles de quem se lembram. Com uma música e a simples relação entre pai e filha, a criança vê em tela alguém quem é tão importante para ela e começa a valorizar outros aspectos dessa relação; o adulto vê seu pequeno e o legado que deixará para ele, enquanto relembra aquilo que seus pais lhe deixaram. Tá aí, outro ponto interessante: um filme de lembranças que te faz lembrar, usando a morte como ponto de valorização da vivência, não da tristeza por aquilo que já foi, mas alegria por tudo aquilo que tivemos e poderemos ter.


Durante a sessão, lágrimas involuntárias caíram de meus olhos enquanto relembrava a minha vida: desde a primeira sessão com Procurando Nemo à última vez que pude me divertir com um ente querido que já se foi. O eu adulto e criança, ambos estavam ali, unidos pela emoção única que o cinema pode ocasionar. Olhei para o lado e meu choro se intensificou mais ainda ao ver meu irmão, de 9 anos, vidrado na tela também aos prantos. Duas gerações unidas pelo mesmo sentimento de pertencimento, de sonhar, de serem amados e amar. Neste singelo momento o abracei e enquanto ele sorria com o carinho, só conseguia pensar e desejar: "Lembre de mim".

El Psy Congroo.

Nome: Viva - A Vida é uma Festa (Coco)
Ano: 2017 (2018 no Brasil)
Diretor: Lee Unkrich
Roteiro: Adrian Molina; Matthew Aldrich
Gênero: aventura, fantasia, musical
Trailer:
Nota: ★ ★ ★  ★ (100/100)

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