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Em crescimento, mercado ainda não cativou a atenção do público e carece de profissionalismo

Apesar da literatura sempre bater de frente com o analfabetismo durante a história brasileira, o mundo das ilustrações se firmou como um meio para alcançar o grande público. A ideia, de usar desenhos para cativar as classes populares, remonta ao século 19 quando as charges eram usadas como crítica política e social do segundo império e inicio da primeira república. Angelo Agostini, italiano radicado no Brasil, foi o percursor por essas bandas: a charge já era moda em vários países, mas o conceito de criar uma história por meio de imagens sequenciais ainda estava se desenvolvendo. Deste modo, como a maioria das inovações na história humana, tivemos diversas pessoas com a mesma ideia no mesmo período: em 1895 surgia o Yellow Kid, HQ de Richard Outcalt, considerada a primeira história em quadrinho moderna. Angelo se adiantou um pouco antes – em 1869 lançou As Aventuras de Nhô Quim na revista Vida Fluminense, narrando as aventuras de um caipira na cidade grande. Claro, Yellow Kid tem seu crédito por motivos justos: de acordo com o jornalista e historiador Álvaro Moya, ela foi responsável por introduzir a ação fragmentada em quadros e os famosos balões de texto. Entretanto, ainda que a importância de Agostini não seja tanto quanto a de Outcalt, o ítalo-brasileiro nem é creditado no panteão dos percursores.



Andréia Fernandes, 25, escolheu produção editorial. O sentido dessa escolha não é simplesmente pelo fato de ter passado em uma das melhores universidades do país, a UFRJ, mas de colocar de lado parte de sua vida para viver o sonho de trabalhar com histórias em quadrinhos. Natural de Francisco de Morato, zona norte na região metropolitana de São Paulo, por dois anos cursou administração na universidade Mackenzie até perceber que não era isso o que queria. O sonho, de levar a sério aquele hobbie que tanto amava, sempre permaneceu escondido no aspecto de brincadeira, até crescer e virar um desejo de estilo de vida. Mesmo diante da realidade brasileira, onde 8% da população ainda é analfabeta e apenas 8% consegue compreender e se expressar plenamente, abandonou a vida em São Paulo para se aventurar na metrópole carioca e entender de perto como funciona a editoração. Foi uma loucura, ela mesma sabe disso; poderia ter uma vida normal em algum escritório e ganhar muito dinheiro para, quem sabe, ajudar a família. Mas, ainda assim, escolheu o colorido mundo dos gibis, classificado muitas vezes como um lugar de histórias infantis, até inferiores. Andréia não é a única. 

Não diferente, são os diversos artistas brasileiros que escolheram produzir um conteúdo relevante, em um mercado que tem crescido bastante ao longo dos anos, mas ainda carece de investimento, profissionalismo e, acredite se quiser, atenção do público.

“O Brasil é um país com poucos leitores, por vários fatores culturais e políticos. O mercado de quadrinhos não tem como crescer se o número de leitores não crescer. Daí ainda temos que disputar espaço com obras de outros países, onde o maior número de leitores permite que o mercado se expanda, gerando obras mais bem desenvolvidas e autores mais experientes”, afirma Talles Rodrigues, desenhista da HQ Mayara & Annabelle, projeto em parceria com o roteirista Pablo Casado, que conseguiu ser desenvolvida por meio do site de financiamento Catarse e atualmente se encontra no volume 4. Talles e Pablo são exemplos de como a internet proporcionou uma nova perspectiva para quem apenas sonhava entrar no mundo dos quadrinhos. Porém, mesmo com uma nova vitrine aquém das editoras tradicionais, o mercado ainda é pequeno e caminha entre o profissionalismo e o inevitável amadorismo.

“O amadorismo e a profissionalização andam de mãos dadas no momento. Temos melhorado em diversos aspectos, mas outros continuam mambembes, afinal, nosso alcance em termos de público é restrito”, complementa Pablo.

Volume 4 da HQ Mayara & Annabelle

Marcelo Bolshaw Gomes
, doutor em Ciências Sociais pela Universidade do Rio Grande do Norte e autor de diversos artigos sobre o estudo acadêmico das histórias em quadrinhos, aponta o investimento como um dos grandes problemas:

“No Japão, 60% do trabalho editorial é em quadrinhos: manuais, livros didáticos. Somos uma cultura oral e acho que os quadrinhos são subutilizados não apenas como arte, mas como meio de informação mesmo.”

A ironia principal é justamente o fato da ilustração estar presente quase que de forma natural durante a história humana e a banda desenhada ter sido classificada por muito tempo como um entretenimento inferior para o “povão”; mas justamente esse “povão” é quem simplesmente não se importa, renegando o mercado ao ostracismo. Para complementar a falta de interesse popular, que fica nítida mesmo em um lugar acessível como o mundo digital, na parte física os problemas ficam maiores: nosso sistema rodoviário tem graves problemas para um país tão grande, contribuindo para a concentração de publicações no sudeste. Não coincidentemente, o norte e o nordeste têm o maior índice de analfabetismo, 16,6% contra 4,6% do sudeste, mostrando como a relação entre estrutura e educação culminam no desinteresse popular – isso, para os autores de HQ’s, é o público perdido.

Só para meninos?
No centro, Andreia Fernandes durante a Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ

Se atualmente o mercado é complicado em todos os sentidos, quando falamos de presença feminina, a coisa se complica. O machismo ainda é muito presente no meio "nerd" como um todo, culminando muitas vezes em atitudes sexistas. Andreia decidiu embarcar nesse meio há três anos e já ajudou a organizar duas edições da Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ, estagiou na Balão editorial e atualmente é editora assistente na Pagu Comics. Com todo esse repertório, ela discorre sobre o assunto: "(...) o machismo no mercado editorial acontece das formas mais bizarras possíveis. Exclusão das autoras do catálogo da maioria das editoras. Críticas que se baseiam no suposto “feminino” dos quadrinhos feitos por mulheres. Leitores que simplesmente não compram quadrinhos das autoras por acharem que o conteúdo é “feminino”. Assédio em eventos, assédio de autoras feito por editores. Mansplaning, maninterruption, e outras práticas machistas quando se tenta conversar sério sobre quadrinhos com homens".

Indo na contramão desse cenário, está Gabriela Masson, mais conhecida como LoveLove6, autora da webcomic Garota Siririca, produção que fala abertamente sobre masturbação feminina. A autora afirma que se sentia pouco representada nas hq's nacionais e ao começar a se descobrir a respeito da sexualidade, percebeu que havia pouco conteúdo sobre masturbação para mulheres. Por isso decidiu ela mesma criar um conteúdo ficcional, mas baseado em suas próprias experiências, que não só entretesse e conversasse com as leitoras, mas fosse didático no sentido de desmistificar mitos.


Mariamma Fonseca também percebeu o mesmo problema de ausência feminina, mas acabou se voltando para a união entre as quadrinistas brasileiras. A jornalista e estudante de artes visuais desde criança sempre amou histórias em quadrinhos, mas ao tentar criar o próprio conteúdo, percebeu a falta de produções feitas por mulheres. Será que as mulheres não gostavam de histórias em quadrinhos? Por isso criou o Ladys Comics, um site que busca unir diversas amantes da nona arte - e foi nesse empreitada que ela viu que na verdade o que faltava era organização. Havia diversas autoras por todo o país, entretanto, assim como ela, achavam que estavam sozinhas em um mercado majoritariamente masculino. Atualmente, contando a própria criadora, 20 artistas participam do projeto.

No final, mesmo com iniciativas interessantes, fica a dúvida: será que os quadrinhos nacionais podem de fato se tornarem um mercado concreto? Será que há como crescer com qualidade, resolvendo problemas como o machismo e a falta de representatividade feminina? Será que o público pode se interessar mesmo com um alto índice de analfabetismo funcional? Será?
Muitas perguntas, poucas respostas. Apenas o futuro pode nos dizer o que irá acontecer. Entretanto, por mais que a história seja repleta de ciclos, esperamos que o enredo de Agostini não se repita.

El Psy Congroo.

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