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Black Mirror: 4ª temporada esquece o espelho e ao invés de "negra", é mais Yellow do que nunca

A ficção científica mais importante dos últimos anos tem dificuldades ao lidar com a repetição e a criatividade. Confira a análise dos episódios:

Black Mirror está de volta! Chegou a quarta temporada desta série maravilhosa que divide opiniões entre "episódios geniais" e "hmmm, isso é um episódio mesmo?". Por isso, para avaliar em que espectro essa season está, vou escrever sobre cada capítulo, analisando profundamente o roteiro e dando uns pitacos na parte cinematográfica. As análises foram escritas conforme eu fui assistindo, então a minha visão aqui está bem fresca e direta, talvez sem tantas ressalvas e meio-termo. Obviamente, está tudo dividido de acordo com os episódios, então se acomode, pega um café bem quentinho e vem comigo analisar com calma. Recomendo que, caso a leitura para você pareça muito cansativa e extensa, leia por partes, sem tanta pressa, episódio por episódio.

Bom, vamos lá, começando com... Uma paródia de Star Trek?

Black Mirror: S4E01 USS Callister

Quem assistiu os trailers ou viu as fotos desse episódio já devia ter em mente que nada é o que parece. Se não me engano, esse é o segundo com temática de game, sendo o primeiro o horrível Playtest. Entretanto, diferente do outro episódio, esse aqui acerta a mão na temática, com um enredo redondinho e muito bem executado

Na trama, o capitão Daly comanda a USS Callister, uma espaçonave que faz referência total a Star Trek. Porém, na verdade se trata de um jogo, Infinity, no qual Daly é o criador e por isso tem uma versão própria personalizada com a sua série favorita. Até aí tudo bem, mas o tão esperado WTF tecnológico surge por conta dos tripulantes deste game: insatisfeito com a vida real, Daly "clona" as pessoas a qual ele sente raiva para serem suas subordinadas. O problema é que, teoricamente, elas realmente existem ali: não só é uma cópia inofensiva, mas pelo fato de terem suas mentes inseridas neste universo, elas sentem como se de fato fossem as originais (inclusive inicialmente pensam que são).


A grande sacada em si, pelo menos por boa parte do enredo, é retratar Daly como uma vítima. Por mais que você não vá muito com a cara do sujeito, o sentimento de injustiça para com ele é inevitável. Entretanto, isso vai sendo desconstruído no mundo virtual, aos poucos clareando uma faceta perturbadora do protagonista (que na verdade não é o protagonista. Também temos uma mudança com isso). Está aí o "espelho negro": não é difícil nos identificarmos com Daly e até nos colocarmos em sua situação. Nossas representações virtuais saturam em excesso aspectos de nossas personalidades, que podem tanto ser boas quanto más. Qual o limite da loucura? Será que você não faria o mesmo que o personagem?

A fotografia e os efeitos estão excelentes, e o final, por mais que seja anticlimático por não ter uma reviravolta especial, consegue encerrar "ok". Black Mirror é uma série com a veia pessimista e por isso, quando envereda pela otimismo, o resultado pode não soar tão convincente. Aqui, no máximo do possível, a história é convincente sim, mas não tem uma densidade maior. Acima de tudo, serve como um bom entretenimento e vai além só das críticas, funcionando como uma história própria de ação.





Em suma: como Black Mirror, é um episódio ok, muito bem dirigido. Como uma história única, sem ser Black Mirror, é uma ótima aventura (que inclusive poderia ter o seu próprio universo).
Para quem gosta dos finais mirabolantes e pesados característicos da produção, pode se decepcionar um pouquinho, mas diferente de San Junípero, antes o único episódio com final feliz, há um encerramento digno para não denegrir a proposta. Quando Daly começa a passar de um personagem cinza para um vilãozinho caricato, a trama termina dando o que os espectadores tanto esperavam.

Nota: ★ ★ ★  ★ (70/100)

Black Mirror: S4E02 Arkangel

Gosto bastante como a série abre o leque para uma temática que inicialmente seria restrita. Falar sobre alienação tecnológica é algo que facilmente se esgotaria logo no inicio, mas nesta temporada parece que estamos diante de uma expansão do conceito. Venhamos e convenhamos, não é fácil surpreender sempre - cair em uma fórmula quadrada pode ser inevitável. Por sorte, ainda não chegou nisso (apesar da série sempre quase estar lá, se posicionando entre a criatividade e repetição).

Em comparação com o episódio anterior, Arkangel é mais próximo do que podemos chamar de "similar às características do seriado", mas ainda é diferente do próprio jeito. De novo, há menos densidade e uma proposta mais diáfana, praticamente cotidiana, para reflexão. O tom crítico não mais é personagem principal - antigamente o roteiro e suas reviravoltas serviam para complementar a acidez mórbida. Essa acidez existe no conceito, mas não no desenvolvimento e nem conclusão, que preferem construir os caminhos das personagens de forma independente.


Neste capítulo, Marie é uma mãe preocupada que recorre a um dispositivo de proteção para monitorar a filha. Obviamente tudo vai por água a baixo e até chegarmos no final, a "estranheza" irá crescer gradualmente: okay, já sabemos disso, é Black Mirror. Mas o interessante mesmo é como essa tragédia ou o que seja, irá acontecer. Sendo assim, é perceptível que não só os roteiristas, mas a diretora (a magnífica Jodie Foster) sabem desse detalhe e por isso, preferem desenvolver as personagens com parcimônia. O núcleo, nesse caso, é a mãe e a filha. Somente as duas e nada mais.

Arkangel tem como temática um ponto específico - aquele momento de mudanças, a passagem da infância para a adolescência e da adolescência para vida adulta. O ponto positivo do episódio é justamente como ele se atém a essa temática, usando de elementos do dia-a-dia das personagens para simbolizar as mudanças. Ora, por mais que o caminho da vida seja complicado, tudo piora nos momentos de transição - e, portanto, esses momentos de transição são potencializados pela tecnologia. Sarah, a filha, enquanto criança normal sendo monitorada, não reage de forma alguma. É no momento das novas descobertas, aí sim, que o enredo se complica, terminando esta fase de forma ligeiramente perturbadora.
Agora perceba: a vida de Sarah no momento que se estabelece, volta para o comum; apenas outra adolescente e suas loucuras. É quando está em outra transição que as coisas se complicam: tanto pessoalmente quanto para sua mãe, que claramente não sabe lidar com mudanças.


O ponto negativo do roteiro fica então para o medo ou a contensão. Quando a moça é criança, a trama parece indicar que algo mais intenso poderá acontecer, mas por fim somos apenas recebidos com uma trama familiar comum. Não é necessário um grande plot twist, mas poderiam tratar dessas transformações de Sarah de forma mais brusca. Ainda bem que a direção é extremamente competente, dando fluidez a uma história que facilmente ficaria entediante e com certeza não compensaria a monotonia no final. Quando o enredo realmente está crescendo, ele é encerrado, com uma junção de fatos que não são corridos, mas renderiam uma problemática muito melhor.
No geral, é um bom episódio, mas que passa batido em uma avaliação geral. Eu não diria chato, apenas insosso demais.


Por fim, quero enfatizar como o tom cinza, de novo, deixa de se apresentar na superfície. Como assim? Bom, a maioria dos finais de Black Mirror sempre foram fortemente duais. Entretanto, nesses dois episódios, vemos apenas uma construção dual que no final acaba por aparentemente escolher um lado. Se Daly soa como um vilãozão cartunesco, Marie soa como uma mãe paranóica que está errada em restringir a liberdade da filha. Entretanto, se analisarmos com cuidado, além do tom superficial, veremos outra coisa: a mãe impediu que sua filha se tornasse uma viciada e tivesse uma criança indesejável. Se não fosse a descoberta coincidente do final, será que a vigilância seria uma atitude tão ruim assim? Acima da moral, ainda teve um resultado satisfatório.


Esse é o outro lado que poderia ficar claro para causar uma maior reflexão no espectador, mas que não fica, pois, como dito, o tom crítico é contido em prol do drama pessoal de cada um (e da tentativa óbvia de não se autoplagiar). O episódio ganha de um lado e perde do outro se anulando e criando a tal qualidade insossa. Nem extremamente ruim, nem extremamente bom, apenas ok.

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (60/100)

Black Mirror: S4E03 Crocodile

Acabarei por ser redundante, mas quero enfatizar de novo a forma como o roteiro muda de perspectiva da crítica para um entretenimento emocional. Se no inicio Black Mirror era um espelho negro tecnológico, aqui a tecnologia se torna um mero adereço que complica a situação das personagens. 
Na trama, uma arquiteta se vê envolta de um grande problema quando seu amigo volta para visitá-la e a lembra de um crime que cometeram há 15 anos atrás. A proposta do episódio em si, portanto, seria refletir sobre os limites morais que ao serem ultrapassados, gradualmente nos transformam em monstros: a ruptura começa com o acidente, mas não necessariamente o problema é o acontecimento, mas a decisão tomada pelos amigos de esconder, ou seja, não arcar com as consequências. Nesse primeiro ato, a protagonista é só uma vítima, entretanto, exponencialmente a situação irá se inverter.


Está aí o lado positivo do capítulo: naturalmente vemos o desenvolvimento de uma assassina, que até o minuto final friamente tomará decisões escabrosas. Porém, quando o debate moral sobre a maldade humana atinge o seu ápice, ao invés de optar pela dualidade, o enredo decide mais uma vez ir por um caminho certeiro. Ao nos depararmos com o conflito sobre matar ou não uma criança, o qual seria o final perfeito para ocasionar reflexão, o enredo decide mostrar mais. Esse mais torna de vez a mulher em uma "vilã" calculista que, obviamente, cometeu um erro em seus atos. Sendo assim, a trama prefere sair do debate moral para apostar na reviravolta. Essa reviravolta é sim impactante e tem grande valor por ter sido pensada desde o começo, mas parece desvirtuar o conceito em si, nos fazendo questionar: por quê assistimos isso? Se você tira as críticas ácidas, Black Mirror se torna apenas uma sucessão de crônicas violentas e visualmente bonitas.

Para completar, a protagonista é bidimensional. Vemos alguns de seus conflitos, mas não compreendemos o que a motiva a proteger tanto a integridade. Filho? Marido? Carreira? Não há estabelecimento de relação com esses três objetos para que seja plausível a loucura que transforma uma pessoa comum em "monstro".




E por fim, além de colocar uma reviravolta puramente estilística (não sei se estou sendo claro, mas eu quero dizer, ao classificar como estilística que é uma mudança que corta a reflexão, adicionando  impacto emotivo), o episódio continua para um fatídico fim anticlimático, que apenas atesta o óbvio. Além de recortar a reflexão em prol da dramaticidade, a trama corta também a dramaticidade para dar um fim conclusivo demais.
Outra vez, o resultado é insosso. Diáfano em excesso para ser representativo, ainda que tenha impactos macabros.

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (55/100)

Black Mirror: S4E04 Hang The DJ

Não é a primeira vez que a série aborda relacionamentos. Na verdade, eu diria que é um tema bastante recorrente. Neste episódio, em um mundo controlado por um tipo de dispositivo que não só encontra o par ideal mas avalia quanto tempo terminam os relacionamentos, um casal decide se rebelar contra esse sistema e ir em frente além do tempo estimado.

Hang The DJ enquanto exercício de direção é um ótimo trabalho, com planos simbólicos que lembram uma mistura de Her com Laranja Mecânica. Não é fácil retratar a solidão enquanto demonstra diversas interações sociais: no caso, o caminho escolhido é o excesso que ocasiona saturação. São tantos homens que Amy dorme que é quase impossível estabelecer alguma singularidade entre eles. Já Frank, surge como oposto do padrão que a menina parece "gostar": desengonçado, bobo, comum; o casal se complementa.




O maior paralelo teórico que consigo estabelecer aqui é a modernidade líquida, clássico livro de Zygmunt Bauman que fala sobre como as relações se tornam cada vez mais diluídas, e a gamificação das relações interpessoais, um conceito recente ainda em desenvolvimento que analisa como o visual e as dinâmicas dos games são aplicados no cotidiano real dos seres humanos. Essa mistura de teorias está presente em grande parte da trama, mas, de novo, o final dilui-se para ter um impacto visualmente interessante.

Enquanto ficção científica, diria que Hang The DJ é o melhor até aqui: as personagens são bem desenvolvidas e exploradas, há uma química enorme entre os atores, o visual é excelente e a direção tem autonomia suficiente para ser autoral. O problema, sendo redundante sobre a redundância, é que não parece Black Mirror: existem sutis retratos críticos em que podemos nos identificar, mas tudo é levado para um final em que justamente a tecnologia é a salvadora dos problemas.


O aspecto assustador fica para especulação; na tela, vemos uma conclusão totalmente alegre. Comparando com outro episódio feliz, San Junípero, percebe-se uma diferença: não há nuance ácida para ser debatida em camadas, apenas uma conclusão comum com uma reviravolta interessante. Obviamente, esse episódio é muito melhor que San Junípero, mas veja: mesmo a trama das duas amigas que se amam tendo uma porção de erros, há uma alegria meio duvidosa quando vemos que elas não passam de dados. Será que a imortalidade é tão boa? Esse questionamento fica implícito. Em Hang The DJ não há questionamentos implícitos no final, apenas no desenvolvimento da história e mesmo assim, o encerramento nos encaminha para contradizer-se e demonstrar que a tecnologia é a heroína.

Não estou dizendo que seria melhor um final PESSIMISTA (apesar de que estou sentindo falta, a série pode até mudar o nome para Yellow Mirror), mas seria melhor um final que pode sim ser alegre, entretanto, com nuances reflexivas e mordazmente irônicas.


Mesmo assim, é o episódio mais completo em todos os sentidos. O problema parece ser da direção da série como um todo, não dos episódios isolados. Se Crocodile me fez questionar "por quê assisti isso?", Hang The DJ pelo menos, de forma única, proporciona uma narrativa satisfatória, ainda que acabe por ser comum. Seu grande charme está na execução.

Nota: ★ ★ ★  ★ (80/100)

Black Mirror: S4E05 Metalhead

Até aqui você deve ter percebido a minha avaliação a respeito da tentativa da série não se repetir: ao mesmo tempo que isso traz aspectos muito estranhos para as histórias, admiro bastante o trabalho de criatividade. Infelizmente, Metalhead é tanto estranho quanto não tem criatividade, sendo claramente uma ideia boa que provavelmente não saiu como o esperado - e se saiu, deve ter perspectivas muito ocultas do roteirista e do diretor ao ponto de não ficarem expostas de forma adequada na tela.

Na trama, acompanhamos a perseguição de um "cão tecnológico" a uma mulher aparentemente em um mundo apocalíptico e... É só isso mesmo. POR 40 MINUTOS.

O episódio simplesmente não funciona. Tanto que não sei listar exatamente os aspectos bons dele. Por isso, ao invés de discorrer normalmente fazendo um levantamento dos prós e contras, vou colocar em tópicos quais os motivos que fazem este o pior episódio da temporada (quiçá da série inteira). Se ele é ruim, pelo menos servirá para entendermos um pouco de como uma história pode se tornar entediante.


1- Enredo:  por mais que uma história escolha ser puramente visual, ou seja, com poucos diálogos, ela deve apresentar elementos que situem o espectador naquele universo. Acima de tudo, ainda há algo a ser contado. O erro de Metalhead já começa por não ter elementos suficientes que contem a sua trama. Acompanhamos apenas uma perseguição, mas ela não tem impacto. Isso quer dizer que uma perseguição não pode ser trama principal de uma história? Longe disso. Quer dizer que essa perseguição deve servir para descobrirmos quem são as personagens e aquilo que está ao redor delas. Claro, nada necessita ser claro, não precisamos ter uma trama mastigada, mas é preciso desenvolvimento. O que nos leva ao próximo tópico.


2- Personagens: o enredo geral prefere não se revelar, mas pior ainda é não entendermos quem é a personagem principal. Por quê a perseguição não têm impacto se muitas vezes pode ser aflitivo demais ver uma cena de corrida? Pois não conhecemos a personagem. Não sabemos quem é, seus pensamentos, o que tanto protege. Esses elementos explicativos que constituem um ser humano são essenciais para as cenas de atrito terem valor. Do contrário será apenas um cachorro perseguindo uma pessoa. O espectador não se conecta com ninguém.

Ora bolas, é uma ficção e o consumidor SABE disso. Por mais que possa haver alguma reação automática de nojo ao presenciar um robô trucidando um corpo, o horror logo passa e não mais significará algo. Se tornará apenas um grande estilo visual, pois as personagens não existem. É como um boneco qualquer sendo perseguido.


3- Luz & Sombra: tendo isso em mente, é perceptível que não há oscilações na história. Como assim? Qualquer obra de arte de qualidade usa essencialmente a luz e a sombra de forma harmoniosa de acordo com a proposta. Um quadro é uma junção de cores, algumas mais claras outras mais escuras. Uma música tem seus momentos de animação e seus momentos de calma. Uma história é a mesma coisa. Deve ter o momento de impacto e o momento de sutileza; geralmente é nesses momentos de parcimônia que há o desenvolvimento das personagens. Em Metalhead não há oscilações. A história é plana demais, sendo puramente uma aflitiva perseguição. As oscilações já são essenciais em qualquer história, no terror e no suspense mais ainda, pois é preciso valorizar os momentos de calma para que os momentos de susto ou atrito tenham impacto.


4- Direção: entendo o conceito principal, que seria o de mesclar o tom apocalíptico tecnológico de Black Mirror com as clássicas produções de terror/sci-fi (Hitchcock seria talvez a maior referência). Só que além do enredo, como já dito, ser excessivamente plano optando por retratar apenas um momento em especial, esse momento é colocado de forma muito crua em tela. Não há um cuidado maior na execução: os planos são muito simples, constituindo o filme de apenas cortes e planos parados. Os melhores momentos são das paisagens, que nos mostram uma beleza exuberante - mas este não é o foco da história. De novo, entendo que o conceito talvez tenha sido referenciar as produções mais antigas, só que nesse caso diminuíram o movimento em uma história que já não tem. E por movimento eu digo criatividade/criação, oscilações, contrastes, não puramente corridas (por que isso é o que mais tem).

Muitas das cenas poderiam ser enxutas, pois no final não levam a nada. Não digo que TUDO deve ter um propósito, mas o diretor deve ter como horizonte dar alguma função pros elementos que aparecem em tela. Acompanhar, por exemplo, por quinze minutos a personagem principal em uma árvore, deve no mínimo levar alguma informação; algum conhecimento. Mas não é isso o que acontece. No final, a cena não serve para conhecermos sobre o que estamos assistindo e nem pelo menos para ser um exercício visual.

Os ursinhos que provavelmente são seres humanos. Mas um bom episódio tem que falar por si só, não pode ser feito apenas de easter eggs e teorias malandras, né mores?

5- Trilha sonora:
por fim, mas não menos importante, a trilha sonora. Vamos recapitular: não há enredo, não há oscilações/contrastes, as personagens não são desenvolvidas e a direção é simplista em excesso. Okay, até aqui já podemos classificar o episódio como ruim. Mas a pá de cal é a trilha sonora.

Uma trilha sonora bem feita no universo audiovisual é essencial. Uma música pode delimitar quais vão ser as emoções das cenas. Só que, como se já não estivesse ruim, a trama em Metalhead é do gênero suspense/thriller. Nesse gênero, o bom uso da música se torna PRIMORDIAL pois temos muitos momentos em silêncio, apenas de perseguição; sendo assim, o espectador precisa ter delimitado o que está acontecendo para que certos momentos tenham um impacto maior.
Neste episódio, a soundtrack é extremamente mal usada. Em momentos mais amenos temos músicas de suspense (que não levam a nada) e momentos de atrito/thriller simplesmente não têm som ou algo relevante que torne aquilo impactante. Pior são os anticlímaxes.


Um clímax é construído pelo inevitável; aumentar a expectativa pelo que está por vir. O anticlímax é consciente do clímax e por isso, sabendo que o espectador espera algo, o surpreende com absolutamente nada. Digamos que uma personagem está em uma casa mal assombrada, ela vai virar o corredor. Você espera que surja um monstro, mas na verdade surge um amigo dela. Isso foi um anticlímax. Ele abaixa a sua expectativa, mas na hora que surgir o suspense de novo, o hype voltará em dobro.

Aqui, como já dito, o suspense não leva a nada, e vai alimentando esse clímax que nunca se completa. É broxante. O anticlímax tem que ser bem usado, por que em excesso ele simplesmente faz o espectador perder o interesse por algo que nunca vem.
A história não sabe usar o suspense. Os momentos em que o cachorro aparece são diretos, sem expectativa. Quando a expectativa é construída, termina no vazio.

Em resumo, Metalhead é um grande trabalho de fotografia em movimento. Parece quase um trabalho de conclusão de curso ou concorrente na categoria curta-metragem de algum festival pequeno. Ou nem isso, já que produções indies tendem a ter uma identidade marcante.

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (30/100)

Black Mirror: S4E06 Black Museum

E com muito sufoco, muita procrastinação, muita força de vontade, chegamos no último episódio. Será que a série de redimiu?
Resposta: Não. Mas deu um belo gostinho do que tanto gostamos em Black Mirror. Até a metade do episódio eu já estava classificando como o melhor da temporada, mas aí o final... Ah, sempre o final, meio que desnivela tudo.


Neste enredo, a personagem principal se depara com um museu cheio de objetos raros do mundo do crime - o Black Museum. Charlie Brooke, roteirista e criador da série, não perde a chance e faz do local um reduto de metalinguagem, tendo como referência direta San Junípero.

Mas falamos tanto de como a produção está perdendo a sua identidade, mas afinal, qual é a identidade da série? Uma resposta profunda poderia levar páginas e mais páginas, então sendo simples vou usar uma resposta que Charlie e Annabel Jones, produtora principal, deram ao serem questionados de como surgem os episódios: basicamente, é quando Charlie tem uma ideia morbidamente irônica que o faz rir e essa mesma ideia faz Annabel chorar/ficar aterrorizada, é que eles sabem quando têm algo de qualidade. Está aí, o que não temos ao longo dessa temporada.

Sendo assim, Black Museum pode não ser um episódio impecável, mas é quem carrega a identidade do seriado nas costas por meio de suas crônicas. Cada uma delas tem um humor doentio que te faz gargalhar e ao mesmo tempo traz aflição. Somente a primeira crônica, sobre os limites do "prazer" (o que é prazer?), é ácida ao extremo instigando um debate surrealista. Tudo fica melhor então pelo modo como o proprietário do local conta cada causo, uma mistura de charlatão de circo com uma figura genuinamente simpática.




O final é apressado, com uma dramaticidade forçada e uma seriedade que não casa bem. Apesar da reviravolta ter sido planejada, fica meio confusa; não parece se encaixar, e o tom, novamente, extremamente positivo, diminui pela metade a crítica construída. Em outra temporada, provavelmente seria apenas um episódio mediano, mas aqui, depois de acompanharmos tantas histórias sem a identidade da série, é um respiro enorme que traz alegria.
Charlie ainda sabe escrever Black Mirror, resta vontade e abraçar de vez a estrutura que ele mesmo criou.
A direção é incrível, tendo autoria própria, sabendo organizar cada sentimento visual de acordo com a proposta. São histórias diferentes, é preciso uma construção diferente. Em suma, temos contraste na tela, algo que faltava no episódio anterior.

Nota: ★ ★ ★  ★ 75/100

Conclusão

Com Black Museum, Black Mirror fica em um tom agridoce, muito mais pro azedo, mas sem ser totalmente intragável. O visual e a direção dos episódios (tirando Metalhead) cresceram enormemente e isso fica perceptível; há um cuidado especial em cada cena, cada ação. O problema está no roteiro. Com uma descaracterização estranha, vemos uma série excessivamente otimista que em prol do drama, opta pelo comum diminuindo a densidade. Na maior parte não há ironia, não há críticas, não há reviravoltas surreais, não há bizarrices, há só a tecnologia. E tecnologia por tecnologia ocasiona apenas uma história vazia, repleta de adereços.

Cheia de altos e baixos, de longe essa é a pior temporada. Há sim pontos positivos, mas eles sempre estão ofuscados, dando um sentimento de irrelevância; as histórias não se conectam conosco tanto quanto deveriam. A alegria e o otimismo, ainda que sejam caminhos aceitáveis a serem seguidos, soam como grandes piadas sem punchline. Quando vislumbramos a beleza, automaticamente esperamos o seu outro lado, a feiura. Mas e se ela não vem? Resta apenas um turbilhão de expectativas não atendidas e sátiras irrealizadas, que nos levam sempre à mesma pergunta: "é a mesma série?".

El Psy Congroo.

Nome: Black Mirror (temporada 4)
Ano: 2017
Criador: Charlie Brooker
Gênero: ficção científica, drama, thriller, sátira
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (60/100)
Trailer:


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