As Teorias de Westworld: a jornada do anti-herói, a maldade humana, Trompe-l'oeil e a religião


Depois de um bom tempo (para ser exato, um ano), voltei para terminar a série de posts sobre Westworld! Bom, após entendermos a importância do conceito de mente bicameral e como o existencialismo sartriano influencia em cada cena da série, sem mais delongas vamos agora compreender como a religião é base para os debates da obra, a ideia de Trompe-l'oeil usada como artificio de roteiro e  a importância de um personagem emblemático: O Homem de Preto.

Atenção: este post tem spoilers. 

A arte da ilusão de ótica

Trompe-l'oeil é uma técnica conhecida como "a arte da ilusão de ótica", muito usada após o Renascimento, no período barroco. Ela consiste em uma maior perspectiva nos quadros, confundindo o espectador sobre o que é ou não realidade.


Exemplo de armário surreal, por Marcel Jean, 1941

"Tá, mas o que uma técnica artística tem a ver com Westworld?"
. Inicialmente pode parecer pouca coisa, mas quando nos deparamos com o título do sétimo episódio, "Trompe-l'oeil", vamos percebendo a importância deste conceito.
Calma, vamos por partes para falar sobre ficção em si e a construção de um roteiro:

1- O parque é uma obra de arte; uma evolução abismal da criação humana. Seu objetivo é entreter, mas levando os conceitos de um criador, uma pessoa que se debruçou sobre aquilo e pensou em cada detalhe: Ford (aliás, duas, se considerarmos Arnold). Westworld é um jogo avançado, que adentra o mundo real - e bom, o que é um jogo se não uma ilusão de ótica? Você sabe que aquilo não é real, são só pixels, programações pré-estabelecidas da sua conduta, mas paralelamente você se envolve com as personagens, controlando-as, dando importância não de algo comum, mas da pura realidade.

2- Ao mesmo tempo, esse conceito de ilusão é usado como estrutura de roteiro. Este episódio em específico, é o episódio em que ações são concretizadas e ciclos aparentemente se completam. Dolores e Will terminam sua emocionante saga e Maeve planeja sua fuga, mostrando revolta e autocontrole de si. Até o final, perceberemos como isso é uma ilusão: tudo não passa de um plano arquitetado por Ford. A realidade é uma enganação.

3- Percebe-se também como este conceito é aplicado às jornadas. O debate da série acaba adentrando na questão de, o que é real? Will, por mais que tenha uma vida fora do jogo, não sente a própria existência, buscando encontrar a essência de si no parque. Aquilo é mais real para ele do que a realidade de fato. Ou seja, Trompe-l'oeil sintetiza bem essa perspectiva de confusão entre a verdade e a mentira (outro tema recorrente. Quem está mentindo nessa história?).
E então, nisso tudo, nesse conceito que inclusive faz com que Dolores fique louca sem entender quem exatamente é e o que aconteceu, surge a pergunta: O Homem de Preto é um anfitrião ou um ser humano?

O Homem de Preto e a jornada do anti-herói  

Se você não está aqui caçando spoilers, sabe bem qual é a identidade do Homem de Preto. Muito mais do que um meio de impactar, a construção da jornada simultânea de dois seres que aparentemente parecem ser opostos é um meio genial de desenvolver o mesmo personagem, mostrando todos os aspectos de sua personalidade. Mas calma lá, antes de tudo, você sabe o que é A Jornada do Herói?

A Jornada do Herói é uma estrutura de roteiro usada na maioria das produções, se tratando da construção do personagem principal enquanto mito. Há diversas fases, não vou explicar uma por uma, mas deixarei esta imagem que exemplifica bem e o meu post sobre Star Wars, em que eu uso o conceito para analisar a série de filmes:

Perceba como Will segue fielmente cada passo dessa jornada, crescendo aos poucos diante de nossa expectativa. Em contraparte, O Homem de Preto parece fazer o ciclo inverso ou simplesmente quebra totalmente essa estrutura, soando inicialmente como um vilão e logo, após algumas atitudes consideradas "boas", um anti-herói. A todo momento vemos o contraste neste dois personagens: luz e sombras; bem e mal.


Também é interessante notar que mesmo sendo caracterizado como herói, Will demonstra nuances escuras, que aos poucos vão se tornando nítidas, até que no final, ao invés de voltar ao mundo comum com a recompensa, o protagonista continua no mundo fantástico. Essa escolha é digna de análise: inicialmente, o herói NÃO quer ir para a aventura e isso é o que caracteriza a sua humildade. Will, em contraparte, fica viciado na aventura, quebrando, portanto, a estrutura a qual ele seguiu. Nessa história, o personagem seria um semideus que descobriu que a sua existência não passa de uma história contada para outras pessoas e por isso, assume a capacidade de percorrer todos os estágios da jornada livremente. Tanto quanto os anfitriões, Will quer fugir dos roteiros. Entretanto, se Maeve, por exemplo, quer abrir as cortinas para a realidade, o Homem de Preto quer fechar as cortinas e tornar o palco em seu; sua verdade.

De onde vem a maldade?

Outro debate interessantíssimo da série, que também percorre a nossa humanidade, passando por diversos filósofos como Santo Agostinho, Nietzsche e Rousseau, é: o homem nasce mal ou torna-se assim?

Claro, Westworld não assume partidos, mas temos uma inclinação para um filósofo em especial: Thomas Hobbes.
Para Hobbes, o homem nasce inerentemente mal ("O homem é o lobo do homem"). A maldade, por conta dos nossos instintos selvagens, está dentro de todos nós, sendo a sociedade uma forma de organizar a boa convivência. Daí vem o termo contrato social - se o homem é mal, mas ao mesmo tempo precisa conviver com outros seres, é necessário então um contrato, que acaba por formar o que chamamos de sociedade. Em suma, em troca da boa convivência, o ser humano oferece a sua liberdade.

"tá, mas o que isso tem a ver com o Homem de Preto?"

Vamos considerar a teoria de Hobbes como real: o nosso mundo seria permeado então por trocas que resultam em paz, mas que nos privam cada dia mais da liberdade. Liberdade está atrelada a nossa construção como seres humanos, pois escondemos lá no fundo os nossos instintos mais naturais e aspectos sombrios. Tudo o que levemente vai contra à ética e moral (atentando que ética são regras pré-estabelecidas socialmente e moral regras não estabelecidas, mas seguidas por conta do contexto e das pessoas ao redor), é ferozmente oprimido e renegado à maldade; ser bom não se trata necessariamente de fazer a bondade (o que é bondade?), mas de seguir as condutas sociais. Entretanto, Westworld, por outro lado, pelo menos para os seres humanos, é cheio de liberdade.

Ou seja, enquanto o mundo real esconde a natureza "má" dos seres, o parque é um reduto que abre alas para tudo o que escondemos. Não a toa, Logan é consciente desse efeito e fala para William várias vezes sobre como o parque desperta as facetas mais obscuras das pessoas.


Entretanto, a perspectiva de Rousseau pode também ser encontrada no seriado, talvez não de forma tão explícita como a de Hobbes, mas está ali também. Para Rousseau, o homem é bom por natureza (algo similar à noção de pureza e inocência advinda de Santo Agostinho) e, portanto, a sociedade é quem o corrompe. Essas noções dicotômicas devem causar estranheza, e de fato Rousseau foi zombado em sua época, mas há uma argumentação interessante: o progresso excessivo submete os homens à novas regras. Essas novas regras sociais o conduz à maldade, pois o homem enquanto ser social vivendo em seu estado natural, não compartilha dos males da vida moderna; esses males são criados pela sociedade. Nesse caso, a maldade é adquirida aos poucos, portanto, Will se tornou o que se tornou por conta do próprio mundo de Westworld. Em suma, Ford quer que as pessoas se tornem "más", para atingir seus objetivos evolutivos (que falei no post anterior).

"Mas e aí, quem está certo? Hobbes ou Rousseau?" Difícil definir, é uma pergunta que não tem resposta em nosso mundo e também no mundo da série. O que podemos constatar é que a maldade dos humanos para com os anfitriões tem uma função em toda essa história, assim como na construção das personagens.

O que nos leva para o último, mas não menos importante tópico:

Religião

A religião tem paralelos importantíssimos com a série. Não a toa, Ford no último episódio analisa o quadro A Criação de Adão, de Michelangelo, que na verdade se trata de uma ode ao intelecto, não à religião. Adão, um mero humano, encontra Deus, um ser onipotente e imortal, unindo as duas partes do todo de si mesmo - o cérebro. Essa cena não é apenas uma explanação aleatória, mas uma demonstração de toda a conduta da série até aqui e até o final.

Veja bem: Ford é o Deus supremo deste lugar e não mede esforços para mostrar isso; ele tem controle sobre tudo e todos. E os anfitriões? Mortais presos no jardim do éden. Enquanto ignorantes, eles vivem no paraíso, o lugar perfeito de suas aventuras; mas ao provarem da maçã do conhecimento, são expulsos da "felicidade".

A bíblia pode ter muitas interpretações e uma delas é a de que o conto sobre o pecado original é uma história sobre um ser supremo ditador, criações inicialmente ingênuas sobre si e um antagonista tentador.
Mas quem é esse antagonista? É aí que entra Arnold. É necessário um contraponto ao todo poderoso Ford, alguém que possa levar a tentação do conhecimento, pois só o conhecimento pode libertar as amarras do destino. Posteriormente, descobrimos que Arnold faz parte do plano de Ford: Deus e o diabo são duas faces da mesma moeda.

"Você não pode brincar de Deus sem estar familiarizado com o Diabo", afirma.

Sendo assim, fica claro que a ideia é juntar o mortal com o divino, a ignorância com o conhecimento, o que nesse caso seriam os anfitriões com a autoconsciência. No simples quadro de Michelangelo está toda a história de Westworld, desde o primeiro suspiro de Maeve no laboratório à paralisação de Dolores e Ted no ato final. 
Okay, mas qual o objetivo de tudo isso? Ora, é claro: expulsar a criação do éden. É só quando Adão e Eva são expulsos do Éden, que eles passam a pensar por conta própria, trabalhar por conta própria, e assim se tornam senhores de sua própria criação.

Ou seja, ao "saírem" de Westworld, os anfitriões adquirem algo vital para suas vidas: o livre-arbítrio. Mas claro, eles estão em outro nível evolutivo, um nível até mais avançado que nós humanos. Qual o passo final da evolução mental e portanto, moral? Matar o seu criador.


Já dizia Nietzsche , "Deus está morto". Quando o filósofo diz isso, não é uma afronta mal educada à religião, mas a constatação de que a humanidade evolui tanto, que não precisa mais de Deus para explicar as lacunas do conhecimento. Deus passa a ser um mero artificio antigamente usado para podermos encaixar as peças, mas agora, logo depois de passarmos pelo processo de mente bicameral e dissonância cognitiva, é só um fetiche humano. Uma criação nossa. Portanto, assim como passamos a perceber que criamos esse Deus, também passamos a entender a sua inutilidade e assim o matamos. Este é o ato real e simbólico de Dolores ao atirar em Ford. O sujeito esperava e ansiava por essa hora - é o momento que a sua criação finalmente o alcança, pronta para andar com as próprias pernas.
Eles enfim estão livres. Resta agora saber o que irão fazer com essa liberdade.

El Psy Congroo.

Referências:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Trompe-l%27oeil
http://casavogue.globo.com/LazerCultura/noticia/2012/07/trompe-loeil-arte-da-ilusao-de-otica.html
http://marielydelrey.com/blog/o-que-e-trompe-loeil/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito
https://viverdeblog.com/jornada-do-heroi/
http://g1.globo.com/pernambuco/vestibular-e-educacao/noticia/2013/11/para-o-filosofo-ingles-hobbes-o-homem-e-essencialmente-mau.html
http://www.revistaprogredir.com/daiane-pinto---a-maldade-humana.html
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/filosofia/0033.html
http://obviousmag.org/introspeccao_exposta/2016/02/a-maldade-inerente-ao-homem.html
https://www.infoescola.com/filosofia/a-filosofia-de-rousseau/
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/jean-jacques-rousseau-2-o-homem-e-bom-por-natureza.htm

Recomendação de leitura sobre a maldade de Hobbes, Rousseau e outros fillósofos:
A Maldade Humana, por Daiane Pinto
O homem é bom por natureza?
A maldade inerente ao homem

Leia as teorias anteriores!
As teorias de Westworld: mente bicameral e a evolução
As teorias de Westworld: existencialismo e a dissonância cognitiva

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