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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Pra quem sabe que no blog temos muitos posts criticando a postura de justiceiros sociais, saiba que nossa crítica geralmente é mais com a postura em si do que com a ideia geral. Uma pessoa tão arrogante e egocêntrica que usa sua posição como jornalista para dizer que todas as obras da atualidade são obrigadas a seguir uma cota de diversidade devido a um compromisso moral nunca assumido, é contra isso que a Divisão se opõe. Por outro lado, Steven Universo tem uma postura totalmente diferente, afinal ele não está ali pra cumprir cota, pois a questão da diversidade é o alicerce da história, é o que vai ser discutido, é a base para a construção do mundo, permitindo o desenvolvimento de mensagens sobre o tema muito mais profundas do que a abordagem superficial, que é o que geralmente vemos na grande mídia.


Esse aspecto sobre diversidade fica muito claro quando eu olho a família do Steven: ele é um meio humano meio gem criado por um pai humano e três gems, aliens de uma raça só de mulheres com super poderes. A primeira vista eu pensei que a Pérola fazia o papel de mãe, a Ametista era a irmã mais velha e a Garnet o pai, porém o pai do Steven ainda está vivo, então como fica isso? Foi nesse momento que eu percebi que colocar um padrão normal para analisar a família de Steven não funciona, e esse conceito não é simplesmente jogado de qualquer jeito, porque família é um dos temas recorrentes da obra, logo existe uma preparação enorme para entendermos porque e como essa união atípica consegue ser tão harmoniosa. Para explicar isso eu diria que ela parte de um princípio que eu vi uma vez em um filme do Jackie Chan:

"Família não é quem tem o mesmo sangue que você, é quem você ama e quem ama você"

Sinceramente eu não sei se é certo creditar ele pela frase, mas eu vi num filme dele lol

Um dos aspectos mais interessantes é que as gems em grande parte são usadas para representar coisas do nosso mundo, a sociedade delas, por exemplo, é uma espécie de ditadura super rígida onde você nasce em uma posição social e está preso a ela por toda a eternidade, afinal parece que as gems nunca envelhecem. Tendo em vista isso, a Terra representa liberdade, pois aqui as gems vivem como querem. Existe todo um contexto sobre uma guerra travada há séculos atrás contra as gems que queriam colonizar a terra, na qual a mãe de Steven se rebelou para garantir a liberdade do planeta e das gems que lutaram por ele. Eu vou ter que dar pelo menos um spoiler para falar sobre isso, então vamos lá: fiquei muito surpreso, por exemplo, ao descobrir que uma Pérola é criada para ser uma serva com um dono, ela é um ser vivo visto como objeto nessa sociedade. A revelação me surpreendeu porque toda a história de Steven é muito gradual, primeiro você conhece os personagens e lentamente aprende sobre o mundo e a Pérola é apresentada como uma mulher inteligente, responsável e dotada de vários talentos, uma mulher confiante, o que torna a revelação de que ela era originalmente um objeto nesse mundo muito mais impactante e profunda, dando uma camada nova ao personagem que surpreendentemente se encaixa muito bem com todo o contexto prévio, pois a série sempre nos lembra quão forte são as convicções da Pearl em relação a liberdade, afinal de contas ela não foi criada livre. 


Essa não é a única vez que isso acontece, os personagens são recheados desse tipo de revelações e camadas, e essa é uma das coisas que eu mais gosto em Steven Universo. Ele discute os temas propostos de forma profunda e sem pressa, diferente da abordagem panfletária de "racismo é errado" e acabou. Veja bem, racismo é errado, mas numa história se você simplesmente colocar isso e esperar que louvem sua escrita, então você vive no mundo da Lua, pois é necessário criar um contexto, um enredo e personagens que expliquem com suas próprias vivências o que você quer dizer, que mostrem na pele como esse tipo de coisa é errada de uma forma que ninguém possa negar. Se você simplesmente ficar jogando declarações assim sem preparação ou desenvolvimento elas não vão ter o mesmo peso, na verdade na maioria das vezes é capaz que nem sejam levadas a sério, pois é preciso de substância além da mensagem, principalmente em uma história para crianças, porque uma das piores coisas que você pode dizer a uma criança é para simplesmente aceitar o que lhe é imposto. A criança precisa aprender o porquê de algo ser certo ou errado, e que forma melhor de fazer isso senão fazendo algo que ela gosta? Desenhos modernos com esse tipo de mensagem estão simplesmente unindo o útil ao agradável.


Isso já me dá um gancho para falar de outra coisa: deveria um desenho para crianças tocar nesse tipo de assunto? E eu concordo com uma das mentes mais importantes por trás de Steven, Rebecca Sugar, quando ela diz que é justamente na infância que devemos começar a falar sobre essas coisas, pois é um dos melhores períodos para começarmos a desenvolver o intelecto de um indivíduo. É claro que não é como se tudo fosse liberado para crianças, quero dizer, coisas super pesadas recebem classificação indicativa de acordo com a idade por uma razão, e não é isso que eu estou questionando, afinal de contas Steven não é algo que vá além do que é permitido legalmente para uma criança assistir. É importante entender que  questões emocionais podem sim ser muito bem discutidas de forma que uma criança entenda, afinal de contas apesar de toda a sua profundidade Steven ainda se encaixa muito bem em um molde infantil. As suas nuances estão presentes sempre ao lado de várias aventuras, momentos de diversão e de risada. Eu falei no parágrafo anterior, além da mensagem é preciso de substância, e isso também está relacionado a competência de Steven como desenho infantil, e competente Steven é.


A animação no começo era um pouco inconsistente, no sentido de as vezes ser muito bem fluída e em outros mais estática e até feia, porém isso foi melhorando muito com o tempo, dando brecha até a designs mais detalhados dos personagens e cenas mais esteticamente complexas. Ele não é um Star Vs na qualidade visual, porém de maneira alguma está abaixo do que é considerado bom. Eu gosto bastante da forma que as cores são usadas - não de uma forma que só quem estuda simbologia iria entender, mas de uma forma que complemente o contexto. Histórias pesadas acontecem em lugares mais escuros, histórias felizes tem muitas luzes em lugares coloridos. Isso fica muito claro quase toda vez que falam da mãe do Steven, ela é vista como uma figura majestosa e benevolente, porém quando um aspecto sombrio dela é revelado todo o cenário no qual isso acontece tende a mudar também. Pode parecer algo simples, mas ainda assim é um dos melhores usos que eu conheço das mídias visuais.


Outra coisa que acho importante falarmos é sobre a validade desse assunto sobre a diversidade, porque existe uma crítica dizendo que falar disso é sempre perda de tempo. A resposta apressada que eu daria a isso é: qualquer tema é válido, sou contra restrições, não quer dizer que eu vá gostar de tudo, o que eu gosto é do principio de que temos liberdade para falar do que quisermos. A resposta complexa seria que esse tema envolve muitas coisas interessantes relacionadas a própria essência do ser humano. Por exemplo, se você é introvertido tenho quase certeza que algumas ou várias vezes na sua vida você já se sentiu excluído em algum grupo, e esse não é um sentimento fácil de explicar, de descrever, agora imagine quando te excluem pela cor da sua pele, pela sua altura, pelo seu status social, a situação se torna muito mais angustiante e complexa, o que acaba gerando histórias complexas e interessantes, além, é claro, do papel educativo que esse tipo de história pode ter ao mostrar como isso é errado. Diversidade como tema possui uma ótima base para desenvolver uma história e pode ter também um papel social. Tendo em vista isso, o que a Divisão se opõe é quando tratam diversidade como obrigação, o que acaba indo contra o primeiro principio mencionado ali em cima, o da liberdade - se eu tenho liberdade para escolher do que falar, quer dizer que tudo que eu fizer tem que falar sobre causas sociais? Mas é claro que não, porém isso não invalida quando uma obra se dispõe a discutir sobre o assunto, e da forma como foi feita em Steven achei simplesmente sensacional.


A única coisa que eu reclamaria é que no começo Steven não mostra todo o seu potencial. O início é mais preparação, porém logo na metade da segunda temporada praticamente tudo que eu falei já se manifesta, e foi ali que eu comecei a ficar vidrado nesse desenho. Mesmo se você não gostar muito desse assunto por quaisquer razões, ainda recomendo que você assista Steven, a liberdade dos autores permite que eles criem histórias muito diversas uma das outras, logo acho uma pena alguém ficar limitado só a algumas coisas, pois conhecer coisas diferentes do que você está acostumado pode ser muito proveitoso e fascinante, afinal é algo novo para você.

Obs: eu pensei em falar sobre as músicas, que são sensacionais, mas elas são tão ligadas ao enredo que é difícil analisar ou mostrar uma aqui sem dar spoiler.

Only Darkness Will Remain.

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