Erased da Netflix: a melhor adaptação de anime?

Diferente da obra original, produção não se perde na própria narrativa, mas ainda leva consigo o drama desnecessário envolta de um visual chamativo e emocionante

Live-actions geralmente são vistos com maus olhos, não só pelo fato de geralmente não respeitarem o material original, mas por deixarem claro como certas coisas não funcionam fora dos desenhos - o formato "anime" tem sua própria expressão, seja nos olhos grandes ou trejeitos caricatos das personagens, e, portanto, passar isso para as telas usando pessoas reais é sempre um desafio entre a atuação exagerada ou extremamente contida. E venhamos e convenhamos, o cinema japonês, em um sentido geral (obviamente sempre há exceções), causa estranheza justamente pela falta de naturalidade. Erased vai na contramão e mesmo que não seja perfeito, por incrível que pareça consegue equilibrar os dois lados, entregando uma ótima adaptação que, infelizmente, leva consigo os erros do material fonte.


Boke Dake Ga Inai Machi foi um dos animes mais comentados de 2016 e eu, um ávido amante de obras de suspense, corri para conferir. O resultado? Você pode ver de perto no post que fiz na época, mas em resumo: decepção. Decepção não por Boku Dake ser uma obra ruim, longe disso, mas por ser uma obra boa, oscilando entre o mediano e o incrível, que termina de forma horrível. Pior do que algo inteiramente ruim, é algo parcialmente bom que leva consigo o potencial para ser mais. Por isso, a produção da Netflix trouxe sentimentos destoantes em mim ao ser analisada sob dois aspectos: adaptação e história.

Adaptação

Em um resumo básico, a trama de Boku Dake se trata sobre Satoru Fujinuma, um entregador de pizzas de 29 anos, aspirante à mangaká, que tem o que chama de "revivência". "Revivência" se trata de uma pequena viagem no tempo que o "destino" ocasiona nele ao presenciar eventos perigosos, associados à morte de alguém. Tudo se complica quando ao encontrar a mãe assassinada, o protagonista acaba voltando 15 anos no passado, só que desta vez com uma missão: impedir um misterioso assassino, que provavelmente tem relação com a morte de sua mãe no futuro.

Aqui já podemos delimitar dois pontos essenciais para a adaptação acontecer de forma fluída: Satoru, tanto como personagem em termos de roteiro, quanto de atuação em termos visuais, e o núcleo infantil. O protagonista é quem guiará a história e, portanto, a sua caracterização devida é essencial - e bom, está tudo lá: a voz monótona embriagada pelo tédio da vida adulta, junto da falta de expressão; as divagações filosóficas em meio a espontaneidade do desespero para salvar os amigos ("eu falei isso em voz alta"); e, claro, o mesmo exagerado senso de justiça japonês (que iremos falar no tópico "História"). 


Em paralelo, o núcleo infantil tem que além de trabalhar coerentemente com o núcleo adulto, conseguir trazer a emoção legítima de união. Aqui, logo de cara, já fiquei com medo: há diversos problemas na atuação japonesa, será que crianças conseguiram levar tanta expressividade? Pois veja bem: Kayo sofre um drama familiar pesado e Satoru não é só uma criança, mas um adulto no corpo de uma. Existe uma complexidade enorme - encontrar atores que consigam trabalhar com uma trama dessas é um achado especial. Então, tendo isso em mente, grande foi a minha surpresa ao constatar que o núcleo infantil é incrível!

O diretor, Ten Shimoyama, merece seu mérito, pois somente com uma boa direção crianças conseguem soar convincentes em papéis tão maduros (aliás, isso vale para adultos também, mas em crianças isso fica mais nítido). Mas, além do diretor, cada ator, cada pequeno que teve seu momento, leva consigo expressividade própria: o destaque fica, obviamente, para o casal Satoru e Kayo. 






Kayo não só emula de forma assustadoramente similar a sua versão em anime, como a atriz parece estar confortável no papel, demonstrando apenas com expressões os sentimentos da personagem, seja estranhamento, tristeza ou alegria por algo completamente novo em sua vida. Já Satoru, consegue convencer como um adulto de 29 anos no corpo de uma criança, não só pela maturidade na voz e trejeitos, mas também pelo olhar incisivo. A primeira cena da viagem para o longínquo passado, quando Satoru está de volta em sua antiga sala de aula, é clara em si mesma: não precisa de nenhuma narração para percebermos o espanto do homem criança. 

Sendo assim, enquanto temos um núcleo infantil ótimo (melhor até que o adulto), há uma emulação visualmente linda dos momentos importantes do anime. Está lá, a cor saturada da roupa de Kayo, que a identifica como destoante dos outros alunos, principalmente quando na neve. A relação fantástica do comum com a infância, com a icônica cena do casal frente a uma árvore sem folhas. E os momentos e lugares de alegria aconchegante, como o ônibus onde a garota fica escondida, o esconderijo dos meninos e o aniversário duplo. A semelhança chega a causar espanto, mas sempre com um toque único: não é só uma emulação, existem sentimentos do próprio diretor ali, que coloca o seu toque pessoal na forma como essas emoções são passadas. É identificável a grande semelhança dos signos visuais, mas também fica perceptível que é outra mídia que está dialogando com a própria voz, usando ao máximo os seus recursos. Se o anime impacta pelo drama em uma animação parcimoniosa em equilibrar o momento mágico da infância e o entediante mundo adulto, a série vai impactar pela estonteante fotografia, que dá contornos fantásticos para as cenas mais importantes, juntando as cores com o slow motion dramático.






No aspecto direção geral Boku Dake aposta no certo, com planos comuns e cortes competentes, digamos até previsíveis. Em determinados momentos, além do roteiro nos levar a isso, me senti assistindo a um dorama, com as cenas pensadas para emocionar em excesso o espectador. Ao mesmo tempo, há essa fotografia parcimoniosa, que busca estabelecer signos visuais em momentos importantes: quando Satoru recebe luvas de aniversário, por exemplo, essas luvas têm atenção especial. Basta uma cena do menino e da menina de mãos dadas na neve, com um trabalho de pós-produção sensacional, para percebermos como a relação deles é profunda. No final, temos então um material que pode ser classificado como novela e ao mesmo tempo, um deleite visual conceitual digno de uma produção indie.

História

De original, Boku Dake leva só a premissa. Mas se formos julgar por originalidade, nada se salva no mundo do entretenimento. Então, o problema não é ser mais uma história sobre o poder da amizade, mas no exagero contido no drama. Não vou discorrer mais sobre, pois essencialmente, tirando uma mudança aqui ou ali até a parte onde Satoru acorda, é o mesmo enredo do anime. Se quiser entender mais sobre o quanto o dramatismo exagerado influencia a obra, leia a minha review.
Então o que muda? Vamos falar agora de background das personagens e do final, claramente diferente.

atenção: este trecho tem spoilers. Se quiser, pode pular para a conclusão

Apesar de ser uma adaptação extremamente fiel, Erased não deixa de ser também uma série. Séries têm seu próprio formato e por isso, por mais que o tempo de tela seja comprimido em 30 minutos (varia. O primeiro episódio por exemplo tem 25 minutos), é necessário acrescentar coisas. Essas coisas tanto podem existir para o bem quanto para o mal - nesse caso é para o bem, pois os roteiristas decidem dar mais sustância para as personagens, acrescentando tempo de interação entre elas. O exemplo principal é o diretor Yashiro: aqui, indo além de sua filosofia exposta, vemos como o "monstro" surgiu. Obras japonesas por vezes ao levarem ao extremo a filosofia de justiça humilde, criam vilões simplesmente "pretos", sem nuances cinzas. Yashiro obviamente é um vilão, mas em sua história há nuances que mostram um ser que não entende a sociedade e que, acredite se quiser, nos faz até questionar o que é bondade. Claro, o foco da produção não é esse (não estamos falando de Mindhunter), mas há pinceladas nesse quesito, construindo um psicopata verossímil, além do simples "matar". Some isso a ótima atuação de Shigeyuki Totsugi, que consegue demonstrar expressões solenemente bondosas e posteriormente mudá-las para solenemente macabras.






Por fim, o outro acréscimo nítido é o final. Enquanto na trama original temos apenas um episódio para resolver todas as pontas soltas, aqui há uma construção mais detalhada e inteligente. No anime Yashiro é pego por causa de um Deux Ex Machina fajuto, na série há uma preocupação com o sentido lógico das coisas: é preciso, por exemplo, estabelecer a relação de Kenya com o jornalista Sawada, para depois juntar a motivação dele com a do protagonista (que por sua vez está ligado com uma garotinha com câncer que irá levá-lo à um festival que, vejam só, é administrado por Yashiro). Consequentemente, Kenya como personagem cresce muito, mas infelizmente, por não ser o foco, o desenvolvimento de suas relações não é profundo (seria muito bem vindo entender com calma como ele e Sawada chegaram no culpado). 

Mas e aí, essa trama lógica é melhor que o outro final? Isso é relativo. Se por um lado há mais sustância e tentativa de sentido lógico (veja bem, não estou dizendo que é um GRANDE final, mas comparado ao final original que não se preocupou em construção para tanto, é alguma coisa), do outro ele perde em simbolismos. Na animação há mais drama e filosofias colocadas em exposição, criando um disfarce para o Deux Ex Machina. Esse simbolismo é bonito e tem seu valor, por isso a série perde ao abrir mão dele. O diretor tenta criar a própria linha de simbolismo, mas é deveras sutil, com pouca expressividade. No final, a história volta a se igualar ao anime, com um término inexpressivo e de pouco impacto. Isso já é problema da obra original, mas já que mudaram tanto, poderiam ter se arriscado e corrigido. Bom, acima de tudo, para o bem e para o mal, a produção respeita em demasia a sua fonte.

Conclusão

Erased da Netflix é uma ótima adaptação e uma história mediana. Leva consigo os defeitos da obra a qual adapta, mas se arrisca em vários pontos e dá mais corpo para as personagens. O seu maior destaque fica para o visual, que não só adapta, mas cria de forma exuberantemente linda - quando toca em pontos sombrios, é uma produção incrível; mas quando se foca demais no típico dramatismo japonês, é apenas uma jornada do herói que usa e abusa da viagem no tempo como bem entende. O gosto final é de uma história ok, com personagens extremamente carismáticos e muito bem dirigida. Automaticamente, por mais que você não seja "otaku", te faz imaginar que outros mangás e animes poderiam ser adaptados. Não mais colocar desenhos em tela com gente real é uma tentativa de atrair um novo público: Erased mostra a importância de se respeitar os personagens como eles são, porém, sem medo de arriscar; de mudar - além de tudo, mostra que anime pode ser coerente em outras formas, até mesmo no "mundo 3D".

El Psy Congroo.

Nome: ERASED

Ano: 2017

Produção: Netflix

Gênero: suspense, drama, fantasia

Baseado: anime/mangá

Direção: Ten Shimoyama

Roteiro: Tomomi Okubo


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