Doctor Who especial de natal: era uma vez uma série genial...

Mais uma vez estamos diante de um episódio que leva nas costas um fardo grande por não só ser outro tradicional especial de natal, mas o fim de uma era e indicação para o futuro

Nunca achei que fosse me apegar tanto a uma série como me apeguei a Doctor Who. Comecei a assistir descompromissadamente as aventuras deste estranho ser e logo me vi fascinado por um incrível,e bizarro, universo ficcional. Sendo assim, a série marcou a minha inserção na ficção científica - eu já conhecia algumas obras, mas nunca havia abraçado de fato o gênero - enquanto o meu senso crítico vertiginosamente crescia. Doctor Who não só te ensina valores importantes, mas também mostra como identificar aquilo que constrói a qualidade de uma obra audiovisual, seja para o bem ou para mal. Por quê para o bem e para o mal? Pois para quem acompanhou tantas regenerações e tantos arcos dramáticos, fica nítido quando um roteiro é bem construído, inteligente e impactante. Infelizmente, esse não é o caso de Twice Upon a Time.


Na trama, o décimo segundo doutor, o nosso querido Capaldão, encontra a sua primeira versão, representada por David Bradley. Esse encontro faz não só o Doutor ter que lidar com um novo "inimigo", mas a encarar o passado e consequentemente o futuro. 

Atenção: este post tem spoilers

Eu poderia começar essa análise com, "é com pesar que...", mas não tem pesar pois não houve surpresa. Sim, eu sabia que seria um episódio importante e o fato de assistir no cinema trouxe mais emoção ainda, porém, eu também estou ciente do desgaste da série ao longo dos anos e do quanto o nosso querido Steven Moffat tem se perdido nas próprias ideias malucas (alô, Sherlock mandou um abraço). Portanto, minhas expectativas estavam lá embaixo, o que contribuiu para que eu fosse agraciado com diversos momentos interessantes, ainda que isso não diminua os defeitos.
Então o episódio foi ruim? Será que estou sendo um fã chato? Vamos analisar os pontos negativos e positivos e no final, tento fazer a clássica conclusão meio-termo.

O que foi bom?

Em síntese, a relação do décimo segundo Doutor com o primeiro. Colocar dois extremos lado a lado foi uma ideia genial e muito bem executada. O Doctor de Hartnell é muito bem retratado ( (David Bradley é incrível), sem concessões por estar em outra época. Muito pelo contrário, o pensamento conservador é colocado como objeto de conflito e humor, demonstrando de forma natural o quanto o nosso querido personagem mudou ao longo do tempo. Ter isso em mente é importante, pois agora há mais uma mudança, dessa vez drástica, que marcará a todos. 
Bill, ainda que surja como um fanservice barato, nos proporciona também um vislumbre não só de uma visão externa ao Doutor, mas também de como seria se houvesse continuidade de suas aventuras. Fica nítido como Capaldi e Pearl poderiam render muito mais. Pena surgirem no timing errado, no final de um ciclo que já se desgastou.
Sendo assim, podemos colocar como a maior qualidade do episódio as relações das personagens e os diálogos derivados disso, sustentando a qualidade geral. Sempre que algo pode pender para a qualdiade duvidosa, a relação de alguma personagem com outra nos imersa na história e floreia o que poderia ser apenas ruim.


Por fim, mas não menos importante, é o crescimento emocional do Doutor do Capaldi. Entre erros e acertos, vimos um protagonista inicialmente confuso sobre a própria moral, para depois encontrá-la e se afirmar mais uma vez como herói. Essa transformação fica nítida frente ao primeiro Doutor e assim, temos um arco de redenção e autoaceitação que é emocionalmente coerente. Sim, existem lá as forçações de barra, floreios desnecessários e exposição exagerada de sentimentos que deveriam falar por si, mas no final, a decisão de seguir em frente e o modo como ela é mostrada casa bem com essa proposta mais reflexiva e sombria.


É então, finalmente, quando Moffat para de expor e simplesmente mostra, onde há o maior brilho da série: a transformação. Obviamente visualmente é uma referência à partida de David Tennant e chegada de Matt Smith (que iniciou a jornada de Steven como showrunner), mas há sua própria sutileza. Nesse aspecto, da nova era, gosto da forma como as regenerações servem como mudança emocional, não uma mudança aleatória que se encaixa depois. Eccleston era um doutor marcado profundamente pela guerra do tempo com medo de demonstrar as emoções, mas também profundamente apaixonado pelo universo. Tennant continua a ser marcado pela guerra, porém não teme as emoções, muito pelo contrário; ele é excessivamente amoroso e energético. Quando Matt Smith surge, é um remédio necessário para o ser depressivo que o Doutor se tornou, trazendo a tona uma aura infantil. Essa aura ao longo dos episódios vai se perdendo até quando o próprio Smith não mais faz piadas e já se veste como Capaldi. Agora, com o surgimento de Jodie, há um ponto final às reflexões morais e ciclo masculino. Ora, bem ali está uma versão do mesmo ser que vê apenas as mulheres como sexo frágil, e agora, este mesmo ser, depois de mudar tanto as suas concepções, também se tornará uma mulher. 
Para trás ficam os arrependimentos.

O que foi ruim?

O enredo. Pode parecer estranho os diálogos funcionarem tão bem e o enredo nenhum pouco, pois teoricamente a história em si, a tal aventura, é a base para que tudo se saia bem. Só que o que temos é uma mistura entre momentos estrategicamente pensados para gerarem boas relações entre as personagens e a história em si, que é preguiçosa e artificialmente emotiva. 
Moffat cria uma inteligência artifical para poder usar como Deux Ex Machina como bem entende, e assim trazer os fanservices mais queridos dos fãs.  Superficialmente funciona, mas quando colocado sob análise, vemos o quanto a série está gasta e aquela que foi uma das mentes mais criativas da tv britânica, não consegue mais criar nada sem se autoplagiar ou apelar para saídas pouco lógicas. Ou seja, o enredo é só uma desculpa para unir os dois doutores e não de fato uma aventuras deles. Talvez pudesse ser melhor desenvolvido, mas perto do final há um corte brusco para encerrar e dar um tom excessivamente tocante.


Qualquer semelhança com alguma outra análise minha de DW ou Sherlock não é mera coincidência - parece que os mesmos erros voltam a tona, demonstrando o cansaço dos idealizadores (não só o Moffat, mas toda a equipe criativa). Não há preparo para nenhum dos momentos e o que "emociona" é exposto de forma exaustiva. Diferente do momento solene que foi a transformação (cheguei até a me arrepiar), o armísticio de natal, por exemplo, são sentimentos colocados em esteroides. A direção ajuda muito, mas não consegue salvar da breguice emotiva - e o problema nem é ser brega, mas não haver jornada para tanto. Os momentos não casam bem, soando como um amontoado de referências para impactar os fanboys.




Falando em referências, já que estamos aqui vamos falar também do pacote completo. A sessão, talvez para justificar o preço, veio com dois "making-ofs". O primeiro, sem spoilers, fala da importância do programa e o segundo, mais específico e com spoilers, fala... Também da importância do programa. A análise em si é do episódio apenas, mas não pude deixar de notar o quanto isso transforma a experiência. Qual a necessidade de dois makings ofs, um no começo e outro no final, para falarem a mesma coisa? Quando o episódio se iniciou, já haviam mastigado para nós parte do enredo e quando terminou, mastigaram mais ainda. Claro, ao mesmo tempo serviu para aumentar o hype e criar uma conexão "genuína" com os fãs. Funcionou: ao meu lado pessoas choravam com cada pequena fala, sem perceber o quanto aquilo estava artificialmente produzido. Diferente de An Adventure in Space and Time que MOSTRA como Doctor Who nasceu e consequentemente a sua importância; aqui tudo é falado, falado e falado, e se você cansou, será falado mais uma vez. Um recurso de exagero que pode funcionar com muitos whovians, mas no geral apenas cansa a experiência.

Conclusão

Twice Upon a Time não é um bom especial de natal, não é nem um bom episódio, mas acredite se quiser ele tem pontos de roteiro brilhantes e uma direção que se sobressai, escondendo parte dos defeitos. Com o fandom deve conversar bem, mas com o público em geral simplesmente não dialoga. Isso é ruim, pois além de uma série com fãs fiéis, Doctor Who é uma série sobre aventuras imprevisíveis. Chega de se autoreferenciar, chega de se reciclar, chega de usar a emoção como recurso para esconder a lógica defeituosa do roteiro. Só chega. 
Infelizmente, adeus Capaldi e Bill.
Em tempo, adeus Steven Moffat
E seja muito bem vinda Jodie (e Chris)
Por mais que haja defeitos, Doctor Who demonstra que ainda está longe de se esgotar.


El Psy Congroo.

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