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Trilogia Thorns - Uma visão diferente sobre fantasia

Em todos esses anos eu nunca cheguei a encontrar algo semelhante à Trilogia Thorns. Suas características foram abordadas separadamente várias vezes em outros lugares, porém é a união delas de uma maneira nem um pouco convencional que torna essa série tão interessante.

Obs: para quem já é fã, eu sei que o nome original da trilogia é Broken Empire ou Império Destruído, mas até onde eu sei esse nome não é necessariamente obrigatório em português, além de eu achá-lo confuso para novos leitores.

As primeiras páginas do primeiro livro servem para mostrar muito bem como essa história é diferente e o que ela tem a nos oferecer. Sabe aquele cenário clichê dos cavaleiros malvados ou bandidos invadindo uma vila e queimando tudo, matando os homens e estuprando as mulheres? É basicamente isso que acontece, porém os bandidos são os protagonistas da história, e nosso protagonista, Jorg Ancrath, é o líder deles. No entanto, simplesmente colocar ações horrorosas em foco junto de seus perpetradores não é o suficiente, se a história tivesse só isso como base seria algo bastante superficial, é então que outra singularidade aparece, o Jorg em si. Ele é o narrador da nossa história, mas ele não é um narrador comum, isso fica claro quando ele descreve o horror e a matança como um espetáculo a ser deslumbrado. Usando uma linguagem muito acima dos seus companheiros bandidos, ele descreve a situação horrível como se fosse uma obra de arte. Logo de cara a história tenta nos vender esse personagem, e eu comprei por curiosidade.

“Guerra, meus amigos, é uma coisa bela. Aqueles que dizem o contrário não sabem o que estão perdendo”

O primeiro livro, Prince of Thorns, sabe como pegar o leitor logo no começo. Sem usar exposição ou falar demais, ele introduz o leitor em uma cena chocante que gera interesse e nos faz pensar "o que está acontecendo aqui?".

"Então Thorns é a história sobre um vilão, certo?"

Errado, os livros vão além disso, brincando constantemente com a noção de bem e mal. Construir um enredo em cima de um personagem que só machuca os outros é difícil, por isso logo em seguida começamos a ver um pouco do passado do protagonista, o que começa a dar indícios de que a identidade da obra não é tão simples quanto parece a primeira vista. Para entender melhor isso precisamos voltar ao Jorg, que era um príncipe, uma criança comum, até que um dia a carruagem em que ele, sua mãe e irmão estavam é atacada, um dos cavaleiros que os protegiam joga ele longe na floresta, onde ele acaba preso em uma planta fictícia com espinhos enormes que o prende enquanto ele assiste a um show de horrores; os assassinos batem a cabeça do irmão dele numa pedra até morrer, sua mãe é estuprada e torturada na frente dele, e em todo esse tempo ele ficou lá, sangrando e se debatendo enquanto os espinhos furavam sua carne até chegar ao ossos.

"Então quer dizer que Jorge é um anti-herói ?"

Também não, o problema é que ao longo da história eu percebi que é difícil colocar o Jorg em moldes comuns de literatura, porque ele é ao mesmo tempo um herói e um vilão, um agressor e uma vítima, um adulto e uma criança. E é justamente esse um dos aspectos mais geniais de toda a trilogia.

"É o silencio que me apavora. A pagina em branco na qual posso escrever meus medos"

E a forma engenhosa pela qual Mark Lawrence consegue construir essa identidade diversa do personagem é fazendo uma troca constante entre passado e futuro, de modo que um complemente o outro. Imagino que se Thorns seguisse uma abordagem tradicional seria uma história bem diferente. Por exemplo: geralmente acompanhamos um personagem desde a sua infância ou antes do período turbulento que causa a mudança nele, e após o ocorrido vemos ele crescer e se transformar por causa disso, ou vemos um personagem que já está daquela forma há tempos e acontece um longo flashback explicando como ele ficou assim, essas são as estruturas narrativas mais comuns, e elas tem problemas na criação de alguém como o Jorg, porque ele não é apresentado nem como estritamente bom ou mal, mas como se fosse os dois ao mesmo tempo. Se víssemos ele através da primeira abordagem a reação normal seria simpatizarmos com ele, pensar que é uma história sobre superação, ou pensar quão triste é uma criança tão inocente ter ficado dessa forma, a tendência seria pensarmos nele mais como um herói trágico; se fosse na abordagem dois a imagem do Jorg vilão seria a proeminente, lembraríamos mais das atrocidades dele primeiro e depois do passado dele, pois a primeira impressão é a que fica.


Não é algo inédito, mas Mark Lawrence realmente encarna no personagem ao contar sua história, uma tarefa que imagino ser muito mais complicada do que narrar de forma convencional, pois ele tem que ser consistente com a forma que o Jorg descreve as coisas do ponto de vista dele. Uma hora ele fala sobre o sofrimento dele, o que gera empatia, e na outra ele comete ações horrorosas narrando tudo com um senso de humor negro, como se fosse uma piada para ele, o que gerou em mim uma mistura de riso e surpresa por conta do seu desprezo pelas normas do que "é correto e esperado". Além de ser também a forma como ele consegue criar esse personagem de duas faces tão bem, porque esse contraste sempre me fez questionar quem é o verdadeiro Jorg, e para isso acontecer como explicado acima é preciso de uma estrutura narrativa não convencional, o que acaba gerando conflito na mente do leitor que não consegue entender o personagem, não por ele ser ruim ou incoerente, mas por ele ser muito complexo. Justamente por isso que eu não gosto de chamar ele de anti-herói, ou de anti-vilão ou qualquer outro termo,  pois ele muitas vezes é um vilão no sentido mais literal da palavra, e em outras ele é uma vítima fragilizada e traumatizada, ele é e não é ao mesmo tempo, vejo ele como algo que não se encaixa bem nas estruturas narrativas que conhecemos.


E vale ressaltar que nosso protagonista é um hipócrita, mentiroso e teimoso com complexos de aceitação, o que acaba afetando em diversos momentos a forma como ele conta a história, acaba por nos fazer questionar se o que ele está nos dizendo é a verdade. Não mencionei quase nada sobre esse mundo e outros personagens porque o Jorg é o verdadeiro espetáculo dessa trilogia, existe sim um mundo muito interessante e complexo, porque um contexto vazio tende a prejudicar o resto, porém o mais interessante e importante é o protagonista maligno e adorável ao mesmo tempo. Se você se ofende facilmente, não consegue ler coisas desagradáveis, esses livros com certeza não são para você, a cena da vila não é nada comparado ao que o Jorg  fez antes e depois dela, sem contar as atrocidades cometidas por outros personagens.

"Deixe um homem jogar xadrez e diga a ele que todos os peões são seus amigos. Diga que ambos os bispos são santos. Faça-o lembrar de dias felizes à sombra das torres. Deixe-o amar sua rainha. Veja-o perder tudo"

Sobre o mundo e os outros personagens em si, posso dar a impressão que eles são só ferramenta para desenvolver o protagonista, o que em muitos momentos são mesmo, porém eles possuem sim muito valor próprio, o problema é que Jorg brilha tanto que fica difícil desenvolver a quantidade enorme de personagens interessantes que aparecem, eu fico muito chateado que no grupo de bandidos mesmo só o Makin e o Nubano são personagens realmente bem desenvolvidos, sendo que ali temos um homem chamado de O Rubro, o Maical que é um doente mental inocente, o velho, o gordo e por aí vai. São personagens com arquétipos que chamam a atenção, mas só aqueles realmente próximos do Jorg conseguem espaço considerável no enredo, afinal de contas ele é o centro de tudo como narrador. Uma crítica que eu faria, que talvez não seja tão crítica assim tendo em vista a qualidade que a obra atinge, é que há personagens extremamente interessantes que mereciam mais tempo nas páginas, Mark poderia ter feito um livro inteiro só sobre eles, porém ele comenta que fez do terceiro livro o último, pois é melhor tudo terminar com a série no auge do que ela ser mantida viva por anos como um cadáver ambulante, uma atitude admirável até, mas que pode causar irritação porque havia muita coisa a ser explorada ainda. Acredito que ele tenha percebido isso porque escolhe não deixar o mundo do Império Destruído de lado e começou outra trilogia nesse mundo chamada de A Guerra da Rainha Vermelha, rainha esta que aparece nos minutos extras do segundo tempo no último livro de Thorns.


Não falei sobre o mundo até agora propositalmente, porque a forma como ele é constituído é um grande spoiler e um dos maiores atrativos. Logo de cara tudo é muito confuso, não há muita exposição sobre essa terra estranha que parece com o nosso mundo em muitos aspectos, mas em outros totalmente diferente com a adição de magia e tecnologias que não fazem sentido naquele contexto, a genialidade é que ficamos com essa impressão porque nem o próprio Jorg entende o seu mundo, mas nós temos sim material para entender o que está acontecendo, é muito difícil ao final do primeiro livro você não conseguir montar as peças, ou seja, o mundo requer atenção do leitor para ser decifrado. Quando eu finalmente entendi as coisas houve uma quebra de expectativa e tudo que eu havia visto até então necessitou de uma reconstrução na minha mente. Não sei se consigo descrever para vocês o quão sensacional isso foi para mim, porque até aquele momento eu nunca senti esse nível de descoberta com qualquer mundo fantástico. Eu chegaria ao ponto de dizer que o primeiro livro, responsável por esse "fenômeno", merece até ser estudado como uma das obras que melhor faz uso da mídia escrita, porque não consigo imaginar como conseguiriam construir esse tipo de reviravolta se pudéssemos realmente ver o mundo em vez de ler sobre ele da perspectiva de um nativo. Só de mencionar esse ponto forte já posso ter estragado ele para um novo leitor, porém a construção do mundo apesar de não ser o prato principal, é um acompanhamento extremamente competente e único que merece menção.


A edição da DarkSide está de parabéns. Capa dura e muito cuidado com praticamente tudo. Eles tiveram o trabalho até de usar tinta vermelha para as paginas iniciais e as finais, sem falar da quantidade de tinta preta que usaram. Existem páginas inteiramente pretas com letra branca, que geralmente servem como troca de capítulo ou para contar algo distante do que está acontecendo ali. Tudo isso importa, pois nos dias de hoje, com a pirataria e ebooks, são coisas como essas que incentivam leitores a continuar comprando cópias físicas.

 Há tantas paginas pretas que vendo o livro de lado ele fica lotado dessas linhas escuras.

Se você está cansado dos moldes comuns em histórias de fantasia, porém ainda tem um amor pelo gênero, então A Trilogia Thorns é obrigatória para você. Raramente encontro um livro que consegue ser tantas coisas ao mesmo tempo e ser ótimo em todas elas. Desde a estrutura narrativa até os personagens são interessantes, malucos, virtuosos e horrorosos. É difícil definir essa trilogia porque sua identidade multifacetada torna tudo muito imprevisível, o que cria sempre uma expectativa sobre o que vai acontecer a seguir. É um trabalho de arte que entende as vantagens de sua mídia e as usa ao máximo.

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