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Mindhunter realiza uma análise profunda da psiquê humana e pode ser considerada uma das melhores séries do ano

Com produção de David Fincher, série mostra uma nova faceta dos serial killers e do gênero policial

Psicopatia não é um tema novo no audiovisual. Na verdade, adentrar as loucuras da mente humana não é novidade. Entretanto, a noção de que um humano conscientemente mate outro ser, não sendo caracterizado como um louco qualquer, é relativamente nova. Basta colocar lado a lado Psicose e O Silêncio dos Inocentes: apesar do clássico de Hitchcock ser a frente de seu tempo, a caracterização do serial killer é a de alguém maluco; basicamente um individuo com distúrbios mentais que por causa de certos traumas, desenvolveu um mecanismo de defesa. Já em O Silêncio dos Inocentes, temos Hannibal Lecter, uma pessoa que adquiriu ao longo vida diversos traumas, mas não é maluco – ao contrário disso, ele tem plena consciência do que faz e por que faz. Nisso, logo surge a pergunta: o ser humano é naturalmente mal ou torna-se assim?


Mindhunter, série lançada pela Netflix em 3 de outubro de 2017, está entre o meio termo. Ela aborda justamente uma época onde a noção de criminalidade começa se alterar, colocando o FBI em uma jornada de dúvidas. Os criminosos não mais são apenas Normans Bates, mas há agora os misteriosos assassinos sequenciais, que têm a morte como prazer; praticamente um hobbie, até profissão. Claro, há uma distinção entre os tipos, mas isso é o que Holden Ford e Bill Tench irão descobrir.
Primeiro ponto a se observar: Mindhunter é uma verdadeira série policial. Se você espera alguma ação exagerada de caça entre polícia e assassino, provavelmente irá se decepcionar. Antes de tudo, a produção é um estudo profundo sobre a maldade e a mente humana em si, com os diálogos correspondendo às cenas de ação. Ao invés de criar uma simulação qualquer, a série faz o espectador imaginar como seriam os assassinatos e assim, acabamos por entrar na pele de Holden. Ali, conversando com os diversos assassinos, somos inseridos em um turbilhão de emoções, desde nojo à, acredite se quiser, simpatia.

Mais interessante ainda do que ter uma dramatização extremamente envolvente e fiel à realidade, é perceber como ela é autoconsciente e brinca com os arquétipos criados – inclusive que perduram nos dias de hoje. Ford e Tench, em um olhar superficial, são a típica dupla de tiras prontos para viverem aventuras. Em certo momento, cheguei a lembrar Supernatural, que usa e abusa desse arquétipo. Porém, essa noção de dupla clássica fica só no visual: os dois viajam o país não para combater o crime, mas para entendê-lo. As enrascadas em que se vêem se tratam basicamente do embate da realidade versus teoria e o entendimento do público sobre as novas descobertas. Aliás, por público pode-se dizer o próprio FBI: quase como se fosse filmada no Brasil, um dos grandes inimigos das personagens até o final da temporada é a burocracia.

Diferentes tipos de personalidade


Se antigamente tinha-se a noção estritamente emocional dos serial killers, atualmente a cultura pop tratou de torná-los figuras puramente racionais, quase como os deuses que pensam ser. Está aqui o diferencial de Mindhunter: o equilíbrio. Nem monstros malucos, nem párias sociais, nem psicopatas friamente calculistas, mas uma junção de todos estes, mostrando que cada caso é único e pode pender para um lado. O choque de personalidades acaba sendo, portanto, condutor principal – se não temos cenas de ação, o atrativo de movimento se faz nas diversas visões colocadas lado a lado. Essa ideia da série em si ser um meio termo, está presente no próprio personagem principal: Bill Tench faz a visão pragmática, Debbie e Wendy a visão teórica, o diretor do FBI a burocrática e Holden o analista – ele está entre a teoria pura e a prática do cotidiano. Às vezes não compreende um, em outras não compreende o outro. Acima de tudo, ele quer entender o que acontece e não consegue deixar a curiosidade de lado (e até o final da temporada terá suas concepções de mundo demolidas).
   
Para pessoas que gostam de psicologia, a produção é um prato cheio: quando analisamos a respeito da coerência psicológica, tudo faz sentido.
Existe um método psicológico de entendimento das personalidades chamado Myers-Biggs, ou MBTI, que é a classificação provavelmente mais coerente, colocando os seres humanos em diversos tipos: analista, diplomata, sentinelas e exploradores. Mindhunter parece seguir essa teoria, criando os seus personagens com bastante coerência emocional: Holden, por exemplo, é claramente um tipo introvertido/analista. Para alguns, suas ações podem ser estranhas, mas para alguém como eu, que também é analista, me vi em cada gesto, principalmente na dualidade entre a inocência e a compreensão profunda da psiquê humana. Já Bill Tench, por vezes achei confusa a sua postura exagerada sobre como lidar com os criminosos, mas... Parei para pensar com calma: ele está no espectro oposto do meu tipo de personalidade e, portanto, olhando de forma geral, suas atitudes fazem total sentido. Essa é a graça da série. Você consegue se identificar com as personagens e entender como as diferentes facetas do ser humano funcionam, para no final todas se verem horrorizadas diante do buraco negro existencial que é um psicopata.
A zona cinza também está muito presente: um estilo que tenta ser o meio termo entre o preto e o branco. As personagens têm suas qualidades e defeitos, não seguindo estereótipos. Ora, não é porque Bill tem um tipo de personalidade não analista que ele não é capaz de fazer observações teoricamente profundas; Holden a mesma coisa. Mais do que uma história sobre assassinos e uma dupla de agentes, Mindhunter é sobre a moral e como a sociedade como um todo contribui para a construção da criminalidade, com suas personagens presas num turbilhão de teorias e cotidiano amedrontador.

Por fim, eu diria que é uma daquelas obras que não veríamos em outra mídia se não o streaming. Seu ritmo é excessivamente lento, cativando a atenção do público aos poucos. Jamais isso passaria na televisão sem ter a estrutura alterada para apresentar mais “movimento”. Sendo assim, essa percepção torna a degustação da série especial, trazendo a tona um ligeiro sorriso: ainda há muito a ser feito no campo das séries e o novo método de consumo abre portas para oportunidades. Alguns até devem achar esse papo já antigo, mas ele ainda está fincado no futuro, com muito a se desenvolver. A TV surgiu nos anos 40 e não imediatamente alcançou o seu potencial  - isso demorou algumas décadas. Não sei se com a internet será a mesma coisa, mas Mindhunter me faz ver que há muito potencial para contar histórias de diferentes maneiras. O que podemos ver amanhã? Só o futuro dirá. 

El Psy Congroo.

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