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O vazio existencial em Blade Runner 2049

Andando calmamente pelo lugar que lhe traz memórias confusas, KD 6 – 3.7, ou como prefere ser chamado, Joe, percebe aos poucos a verdade antes escondida dentro do próprio ser. Muito além de uma problemática novelesca sobre parentesco, o policial aos poucos cresce como humano para entender que dentro de si existe mais; aliás, dentro de si existe. O encontro com um pequeno cavalo de madeira, objeto recorrente em suas memórias, é o impulsionador para a catarse que o leva à identificação. O cavalo existe, não é uma mentira e, portanto, se essa memória é real, logo o sujeito também é.

*Atenção: este post tem spoilers
O vazio, ou o nada, sempre foi debate recorrente na filosofia. A questão principal sempre surgia da seguinte proposta: se algo existe, então o nada deve existir. Mas como o nada pode ser identificado, se ele não existe? E se ele não existe, então não há o nada. Mas o nada é a ausência de algo... Enfim, o ponto é: o vazio é um debate da nossa sociedade, talvez até mesmo instintivo. Um lugar completamente vazio gera estranhamento, pois já nascemos inseridos em um mundo cheio de objetos que se interligam – e isso de forma física, na consciência também temos uma evolução constante permeada por palavras, imagens, sons e cheiros. Esse estranhamento é justamente objeto de estudo de Blade Runner 2049, mas de forma contrária. Joe é um replicante (em outras palavras, um android) que caça outros replicantes sem questionar que problemáticas isso envolve. Sua visão de mundo é puramente pragmática: androids são ferramentas (ele mesmo é uma) e os antigos devem ser aposentados para dar lugar aos novos, estes mais obedientes. Em síntese: Joe é vazio. Nesse vazio, a moral e a ética não fazem sentido – o ser humano mesmo já teorizou isso: o nilismo e o existencialismo Sartriano falam sobre como o vazio pode ser aterrador, relacionando diretamente com a forma como vemos o mundo. Quando Nietzsche sentencia “Deus está morto”, ele está demonstrando o descrédito no sobrenatural que a ciência o levou a concluir, sobrando, adivinha, o quê? O vazio. 



Sartre parte do mesmo pressuposto, argumentando que a vida é essencialmente sem sentido. Deste modo, a percepção da “verdade”, de que nós não somos nada e a existência é um caos sem sentido, é uma desconstrução filosófica que depende das nossas experiências. Joe não é diferente, mas, como dito, ele está na polaridade inversa: ele já nasceu vazio e sem sentido existencial. Aliás, todos nós nascemos assim, não havendo uma diferença entre os humanos e os replicantes (eu diria até que os replicantes são uma evolução, já que têm todas as capacidades humanas e muito mais), porém, somos criados com a concepção de sentido; de que somos tudo no universo. Joe tem consciência de que ele é um nada, apenas um repositório vazio, e o pior: uma ferramenta.

Enquanto nós passamos séculos de desconstrução filosófica para percebermos que a existência não vale tanto quanto pensamos, Joe percebe que a existência vale sim alguma coisa e buscará um sentido próprio.

Mas o que exatamente causa essa mudança? Nos posts sobre Westworld (uma série com temática bastante parecida) eu falei sobre a dissonância cognitiva – e é exatamente o que acontece aqui. Caso você não tenha assistido Westworld e/ou não tenha lido os meus posts sobre a série, a dissonância cognitiva é uma teoria que sugere que a mente modifica ou afirma as suas crenças a partir do pensamento de dois pontos contraditórios. Uma pessoa criada em uma gaiola não saberá o que é a liberdade até que surja uma ideia que a faça questionar o mundo. Esse questionamento pode fazê-la tentar afirmar mais ainda no que ela acredita ou buscar novas respostas.



No começo do filme, Joe não questiona as suas ações, não hesitando em matar um replicante, mesmo sem nem saber exatamente o porquê. Tudo muda quando ele descobre que uma replicante, um ser vazio como ele, teve um filho. Ter um filho, nesse sentido, é muito mais do que simplesmente reprodução. Na biologia, a reprodução é o alicerce da vida – sem ela espécies inteiras jamais existiriam; aliás, praticamente nada existiria. Em termos poéticos, isso é chamado de milagre.
A reprodução é o último passo evolutivo dos replicantes: com ela, eles não mais precisam dos humanos para existirem. 

Portanto, só quando o nosso Oficial K entra em contato com essa ideia, é que ele passa a se questionar o que é a vida. Esses questionamentos ficam explícitos de forma implícita na tela. A dissonância cognitiva, como dito, dá duas possibilidades: afirmação ou desconstrução. Joe escolhe a desconstrução, passando praticamente o filme todo em busca do entendimento daquela situação, que logo se transforma no entendimento do eu.
O eu aqui vai além do físico; existe uma mensagem altruísta de amor por trás da obra. Veja: ironicamente, o ser mais expressivo e “humano” é uma Inteligência Artificial projetada para tanto. Mas oras, a sua genética e o seu contexto social estão aí para delimitar quem você será. O que o difere de Joi, a esposa “artificial” de Joe?
Eu respondo: suas experiências.



Ou melhor, não exatamente as suas experiências puras, mas aquelas que levam a questionamentos. É assim que Joi passa de uma mera produção em massa para uma verdadeira esposa que se importa e tem uma relação profunda com o seu marido – é ela a primeira a notar e aceitar o fato de que existe algo diferente no protagonista, incentivando-o a perseguir o mistério. Em determinado momento, Joe precisa colocá-la em um suporte móvel, inicialmente se recusando por medo de perdê-la (já que não estará em nenhum drive). “Você estará vulnerável, pode morrer”, no que ela rebate, “sim, como uma mulher de verdade”.

> Pistas

O interessante de Blade Runner 2049 é que essas coisas não são meras especulações, o filme delimita as pistas de sua mensagem desde o começo. Quando Joe começa a se questionar sobre a vida e expõe isso para a sua chefe, ela vai contra esses questionamentos, principalmente a ideia de alma. Ela afirma: “você está bem sem uma”. 
Mas o que é a alma?



De novo, vamos embarcar em uma questão que a humanidade se pergunta há séculos. Para Blade Runner, uma obra cyberpunk distópica, a noção de alma está intrinsecamente ligada à ideia cartesiana moderna de ser. Para Descartes, o ser se divide em dois: a coisa extensa e a coisa pensante. A coisa extensa se trata, como diz o nome, da extensão; a matéria que constitui os seres. A coisa pensante seria próprio apenas do ser humano, também conhecida como alma. Ou seja, nesse sentido, alma é igual a razão, que leva também às emoções. Então podemos afirmar que Joe tem uma alma? Ora, ele tem uma razão para entender quem é (autoconsciência) e seu relacionamento com Joi mostra claramente as suas emoções. Então por que Joshi, sua chefe, diz que ele não tem uma? Justamente pelo fato dos seres humanos verem os replicantes apenas como coisas extensas.

O cavalo de madeira, assim como o unicórnio no filme anterior, tem papel simbólico. Muito mais que uma descoberta sobre quem é, o objeto leva consigo o valor das memórias. As memórias são o alicerce do aprendizado e por isso, resultam na evolução. Sem memória não há evolução (estamos falando aqui de consciência, mas isso pode ser até aplicado à biologia. Sem as adaptações genéticas, não existiríamos).



Replicantes serem capazes de se reproduzirem, significa replicantes autossuficientes para adquirirem as próprias experiências. Para os humanos, mesmo que os androids pensem e sintam, as suas almas são falsas pois estão construídas sob memórias fabricadas. Mas, uma alma é uma alma, ora bolas. O sujeito, mesmo que tenha um passado construído por terceiros, sente assim como eu e você. Portanto, o cavalo de madeira tem papel de validação: Joe acredita que é apenas uma coisa extensa e nessa coisa extensa há uma coisa pensante não autônoma; apenas uma variação da matéria. Em suma, ele é um receptáculo vazio, onde colocaram coisas de acordo com a necessidade de uso. Quando ele percebe que as memórias são reais, a sua alma passa a existir também (pelo menos sob a sua percepção).

> Reviravolta

Diante de tamanha busca filosófica e resposta “encontrada” (entre aspas por que não existe resposta exata), logo surge uma reviravolta: quando achamos que Joe é um ser e até mesmo nós damos uma validação para a sua existência, descobrimos que... É tudo falso. Essas memórias não são dele. 
E aí, ele tem menos valor por isso? Longe disso. É por conta desse momento que o protagonista percebe que sempre teve uma alma. As suas experiências recentes lhe trouxeram uma percepção maior (dissonância cognitiva) e a sua autoconsciência lhe fez entender quem de fato é. Mas como atestar que ele é um ser? Como preencher o vazio existencial?
É aí que entra outro conceito, muito importante, que permeia a nossa sociedade em todos os sentidos: a ideologia.


Dave Bautista faz Sapper, o "rebelde" que ocasiona as mudanças em K

Joe é levado para uma base de rebeldes onde lhe é revelado a verdade da trama. Nessa mesma cena, a líder do grupo fala sobre a essência da humanidade: morrer por um ideal. Morrer por um ideal significa ter passado por uma dissonância cognitiva e ter escolhido um lado, seja para corroborar as suas crenças ou mudá-las. Em suma, significa pensar por si mesmo; existir.

Daí vem a atitude altruísta do policial no ato final. Aquilo não é meramente uma carta na manga para salvar Harrison Ford; aquilo é fruto da reflexão do protagonista durante toda a história. Ele finalmente entendeu que não é apenas uma coisa extensa, mas que o vazio existencial existe em todos: tanto nele quanto nos humanos, e para se tornar alguém, ele precisa de um ideal próprio. Esse ideal leva as suas considerações no DNA; toda a sua experiência e conclusão. Ele finalmente escolhe por si.
No final, morrer por uma causa, principalmente se você acredita que essa causa é certa, traz um sentimento de pertencimento. Joe contribuiu para algo. A sua vida influência a sociedade e mais do que nunca, ele tem noção disso. Um sublime traço no rosto, que se parece com um sorriso, inevitavelmente surge enquanto a neve branca apaga a sua curta existência. Está na hora de voltar para o vazio.

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