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[Album Review] Love Yourself, de Chainsmokers à Banda Uó, BTS está mais pop do que nunca

Veremos se esse mini é incrível como as armys estão dizendo

Rainbow é o mais subestimado e ao mesmo tempo o melhor álbum da carreira da Kesha

E até aqui, o melhor álbum pop do ano

Pode não parecer (talvez não para quem me conheceu de 2015 pra cá), mas eu gosto de pop. Ao contrário dos meus amigos rockeiros pseudointelectuais indies, gosto de ouvir uma boa farofa e não acho que a música está perdida; ao contrário disso, temos visto ao longo dos anos surgirem coisas interessantes, no mesmo nível ou até melhor que os anos 80.

Daí que nesta minha empreitada auditiva no mundo de sintetizadores, autotunes e clipes nonsense, Kesha nunca parou no meu radar. Quando eu digo “parar no meu radar”, quero dizer me cativar ao ponto de me fazer querer entender o que determinado álbum tem a contar; de fato, ouvi-lo e apreciá-lo. Não que a obra da cantora fosse ruim, longe disso, mas nunca me senti envolvido por sua postura excessivamente festeira... Não havia sinceridade em sua produção.

Sendo assim, depois de Animal e Warrior, eu não estava disposto a dar uma chance para ela. Mesmo com toda a treta envolvendo o tal Dr. Luke, eu ainda não tinha confiança, ou melhor, se quer interesse em sua produção. Mas aí, indo contra o meu preconceito, um professor meu, graduado em Madonna e pós-graduado em Avril Lavigne, me recomendou fortemente Rainbow. Como bom INTJ, encarei a recomendação com bastante precaução, mas, vinda de alguém que eu confiava, acabei dando uma chance. Foi uma ótima decisão.

Análise Geral

Rainbow de longe é o melhor álbum da carreira de Kesha. Fica nítido como em sua música, anteriormente, haviam amarras que a moldavam em determinado formato. Essas amarras parecem não existir mais e o foco do disco é justamente ser um objeto de catarse da cantora, que canta sobre tudo o que passou e não só isso, aquilo o que verdadeiramente pensa do mundo. Claro, isso aqui ainda é pop, então não há grandes metáforas líricas, porém, o grande charme é como tudo se encaixa bem em uma produção diversa, que não atira para todos os lados, mas mostra a versatilidade da artista. Há ali, estampado em cada som, referências e mais referências, sem parecer um plágio total; apenas uma porção de canções diretamente da alma não mais da garota, mas da mulher.

A produção é o grande destaque, sendo bastante minuciosa em tudo o que se propõe. Se o gênero escolhido é "rock", teremos uma sonoridade mais orgânica, com de fato guitarras e baterias; se o gênero é house music/EDM, teremos os famosos sintetizadores. E o melhor é que há uma coesão certeira - óbvio, Kesha sabe bem se aliar aos produtores certos, mas dessa vez, não é como se eles mandassem nela - ao contrário disso - é como se ela soubesse extrair em cada proposta aquilo que deseja.

Para muitos, a mudança de perfil e sonoridade pode ser brusca, entretanto, não é artificial; há uma entrega não escrita, mas visível em cada sonoridade, da cantora para com a própria carreira. É perceptível que ela quer fazer mais do que músicas de sucesso, feito Tik Tok; portanto, há uma criatividade em composição e conceito, de alguém que realmente sabe o que está fazendo. Kesha não só demonstra que sabe como construir um hit, seguindo as tais estruturas do sucesso, mas inclusive brinca com isso. Enquanto, por exemplo, Taylor Swift faz indiretas diretas sobre a própria vida, Kesha deixa essas indiretas subliminares, abrindo o seu som para que qualquer pessoa se identifique. Pois veja bem, certas músicas de sucesso atualmente dependem que você acompanhe toda uma treta surreal de famosos para entender aquele conteúdo; no caso da Kesha, isso não é necessário. Você não precisa saber tudo o que ela passou para entender que Rainbow é um disco de força e maturidade, que dialoga com os sentimentos de qualquer um.

Faixa a Faixa


O disco abre com Bastards, uma potente balada folk que une o ritmo calmo com a rebeldia raivosa. De cara podemos notar os vocais da cantora, que estão mais crus e, pelo menos ao meu ver, mais bonitos. O importante aqui é a letra, feita para trazer força para quem quer que ouça; quase como se anunciasse, "somos eu e você contra o mundo". A influência do country também fica nítida e a união com os sintetizadores é natural, crescendo a dramaticidade de forma teatral e envolvente.

"Don't let the bastards get you down, oh no
Don't let the assholes wear you out
Don't let the mean girls take the crown
Don't let the scumbags screw you 'round
Don't let the bastards take you down"
(Não deixe que os bastardos te entristeçam, oh não
Não deixe que os idiotas o desgastem
Não deixe que as garotas malas tomem a coroa
Não deixe que os imprestáveis o atormentem
Não deixe os bastardos te entristecerem)

Let 'Em Talk é uma junção ótima entre o pop e o garage rock, com a participação do Eagles of Death Metal, remetendo à época áurea de Avril Lavigne, mas apenas como referência mesmo; Kesha tem sua própria identidade, continuando no clima rebelde e empoderador. Não no sentido justiceiro social, mas de cuidado com o ouvinte, para abraça-lo e, como dito, combater as ameaças do mundo. Isso pode até soar infantil, mas não é. O "combate" se volta para a falsidade da realidade adulta e pressão social; algo de fato importante e não meramente um grito badass qualquer.

Woman é uma das melhores músicas do disco e uma ótima escolha de single. A vibe feminista não é impressão, ela realmente existe e Woman é a amostra disso, onde a cantora fala sem papas na língua

"I'm a motherfucking woman, baby, that's right"
(Eu sou um mulherão da porra, baby, é isso aí)

Em tempos onde o hip-hop ganha a atenção do mainstreim mas ainda tem em seu dna discursos extremamente machistas, um som com uma pegada jazz e justamente hip-hop de uma mulher decidida, mostrando ser bem resolvida acima de qualquer estereótipo, é revigorante. Além de que, não ficamos presos na "mensagem importante" a ser dita; o som é realmente divertido, além de oldschool.
"Don't buy me a drink, I make my money
Don't touch my weave, don't call me honey
I run this shit, baby, I run this shit
'Cause I run this shit, baby, I run this shit"
(Não me compre uma bebida, não faça meu dinheiro
Não encoste no meu cabelo, não me chame de docinho
Eu que mando nas minhas coisas, meu bem, eu que mando
Porque eu que mando nas minhas coisas, meu bem, eu que mando)


Hymn envereda de vez para o hip-hop, deixando de lado os instrumentos para dar a lugar às batidas artificiais e voz autotunada. Dentro desse contexto, essa escolha é ótima, pois mostra a versatilidade da cantora, que não declina de vez para o brega ou clichê, usando pontualmente as inserções necessárias. Por exemplo, Kesha é uma cantora, mas sabe bem quando colocar o rap em foco, sem perder de vista o pop como linha melódica.


Praying é uma emocionante balada, mas diferente de Bastard, não tem o clima folk. Se o básico da primeira faixa era voz e violão, aqui é voz e piano. Sinto aqui uma aura mais melancólica, apesar de continuar com o sentimento revigorante e empoderador (tanto sonoramente quanto na letra). Esse "empoderamento" tem mais como aparência a tristeza; as cicatrizes deixadas pelos problemas que todos nós temos - os nossos monstros debaixo da cama. Percebe a diferença? Bastards é um ataque àqueles que causaram o mal, enquanto Praying é um hino para quem passou ou está passando por estes problemas, tendo mais um aspecto reflexivo de contato direto com o ouvinte a respeito das emoções.
Não sou lá adepto das gírias exageradas do mundo pop, mas aqui devo dizer: é um pisão com classe.

"I'm proud of who I am
No more monsters, I can breathe again
And you said that I was done
Well, you were wrong and now the best is yet to come"
(Eu me orgulho de quem eu sou
Sem mais monstros, posso respirar novamente
E você disse que eu estava acabada
Bem, você estava errado e agora o melhor ainda está por vir)


Learn to Let Go já busca unir o rock com o eletrônico/pop, soando perfeitamente como um single do Imagine Dragons na bela voz de Kesha. Na letra, o tom feminista empoderador é deixado um pouco de lado para florescer uma perspectiva mais poética. No geral, não só aqui mas em toda a produção, é como se a cantora sentasse em um muro, observando tudo o que transcorreu em sua vida, para voltar-se ao ouvinte e contar a sua história, sem necessariamente contar, mas aconselhar e levar maturidade.

"Had a boogieman under my bed
Putting crazy thoughts inside my head
Always whispering: It's all your fault
He was telling me: No, you're not that strong

I know I'm always like
Telling everybody: You don't have to be a victim
Life ain't always fair, but hell is living in resentment
Choose redemption, your happy ending's up to you"

(Eu tinha um monstro embaixo da minha cama
Colocando pensamentos sem sentido na minha cabeça
Sempre sussurrando: É tudo culpa sua
E ele ficava me dizendo: Não, você não é tão forte assim

Eu sei que estou sempre
Dizendo a todos: Você não deve ser uma vítima
A vida nem sempre é justa, mas o inferno é viver com mágoa
Escolha a redenção, seu final feliz só depende de você)


Finding You é a junção do country/rock com o eletrônico/pop de forma natural. Temos então de um lado canções puramente pops, outras puramente country/rock e outras que são o hibrido dessas duas, que, acredito eu, são os gêneros que mais influenciam a artista. Nem preciso dizer que essa concepção de "junção" cria uma obra única, bastante criativa, com ideias que só a Kesha poderia desenvolver. Não são só os conceitos das músicas que são bons, mas os seus desenvolvimentos, com os vai e vens, altos e baixos, luz e sombra, típicos de uma boa produção - algo que tem se perdido com os sucessos mais horizontais, sem tantas mudanças na sonoridade para captar o ouvinte. Despacito pode tocar por 2 horas que todos vão dançar sem dar tempo para outros sentimentos. Kesha dá tempo para tudo, impactando, como dito, de um modo dramático.

Rainbow é outra balada, dessa vez ao melhor estilo Disney. Interessante notar como Kesha trabalha bem o mesmo "gênero". Lembro de ler uma entrevista em que ela fala da vontade de poder cantar baladas - essa vontade fica nítida no disco inteiro, que como vocês podem ver, é notável pelas baladas, mas sem ser repetitivo; todas se apresentam de formas diferentes e únicas.

"I used to live in the darkness
Dress in black, act so heartless
But now I see that colors are everything
Got kaleidoscopes in my hairdo
Got back the stars in my eyes, too
Yeah, now I see the magic inside of me"
(Eu costumava viver na escuridão
Vestida de preto, agindo de forma tão cruel
Mas agora eu vejo que as cores são tudo
Tenho caleidoscópios no meu penteado
Tenho de volta o brilho nos meus olhos
Sim, agora eu vejo a mágica dentro de mim)


Hunt You Down assume de vez o lado country da cantora, voltando-se claramente para as referências dela. Não tenho muito o que falar já que não sou fã de country e nem tenho conhecimentos suficientes nesse gênero, apenas posso dizer que como ouvinte comum, soou como uma música boa, talvez específica demais, e uma mudança um tanto quanto brusca no conceito geral, mas sem denegrir a qualidade. Há também uma aura jocosa, que eu gosto muito. Enfim, se você não gosta de country nenhum pouco, provavelmente vai pular; mas se você não se importa, é até um som relaxante.

Boogie Feet é mais uma parceria com o Eagles of Death Metal e tem um tom adolescente, um pouco menos rock e mais pop. Eu diria que essa faixa tá mais para Girlfriend da Avril Lavigne, mas sem a pretensão de ser algo romântico; apenas divertido e dançante. Legal perceber como a Kesha trabalha bem com o rock. Por mim ela poderia fazer um disco inteiro no gênero que eu receberia muito bem.

Boots é a música mais pop e eletrizante e, para mim, talvez a melhor. Lembra bastante os tempos de Poker Face da Lady Gaga. É popzão bem feito, sem frescura nenhuma e além de tudo, atual de uma forma extremamente dançante. Até agora não sei por que ainda não saiu clipe - será que a Kesha definitivamente quer dissociar a imagem dela com a de festeira bêbada? Não acho que seria um problema focar nessa faixa. Essa é uma música perfeita para um videoclipe bem dirigido que iria, como diz a minha avó, "estourar a boca do balão".

"Never thought about that wifey life
Wedding bells just made me wanna die
But when you grab me and you spin me 'round
You really screw my head up upside-down"
(Nunca pensei naquela vidinha de esposa
Sinos de casamento só me faziam querer morrer
Mas quando você me agarra e me gira
Você realmente bagunçou minha cabeça de cabeça para baixo)

A parceria com a musa da música country, Dolly Parton, realmente vai na raiz do gênero sem a tentativa de ser pop. Mais uma vez, segue aquilo que falei em Hunt You Down: quem não gosta do gênero talvez se sinta incomodado, mas não é nada lá muito forte ao ponto de expulsar os ouvidos menos atentos. Old Flames tem uma melancolia muito boa e uma vibe aconchegante, talvez fique meio desconexo, mas Kesha, só por sua presença, encaixa tudo muito bem.

De repente, como se não houvesse diversidade suficiente, surge Godzilla, uma música folk extremamente infantil; bonitinha como há de ser. A meu ver, e não sei se estou certo, penso que é uma analogia para coisas ruins ou apenas problemas grandes em sua vida, metaforicamente transmutados no tal Godzilla. Subliminarmente, podemos até pegar uma referência à um relacionamento abusivo? Não vou arriscar, talvez eu esteja viajando demais; porém, não me surpreenderia visto o contexto do disco. Enfim, é uma música apenas boa, soando como um interlúdio.
"What do you get when you take Godzilla to meet your mom?
He rings the bell and she looks out the window, and calls the cops
I try to explain that he's mostly tame
As long as there's pizza and video games
That's what you get when you take Godzilla to meet your mom"
(O que acontece quando você leva o Godzilla para conhecer sua mãe?
Ele toca a campanhia e ela olha pela janela e chama a polícia
Eu tento explicar que ele é geralmente manso
Contanto que haja pizza e videogames
É o que acontece quando você leva o Godzilla para conhecer sua mãe)

Spaceship encerra Rainbow com um som meio acústico, meio country, meio gospel. Gosto dessa música e da sua temática maluca em fazer um paralelo da Kesha ser de outro mundo. Porém, não a vejo como uma boa faixa de encerramento; funcionaria melhor lá no meio e portanto, acaba por diminuir a potência musical do disco; a tal força empoderadora repetida tantas vezes. Seria melhor terminar com essa mesma força do que de um jeito mais calmo - deixaria um gosto de "quero mais". Mesmo assim, não é ruim, apenas ok. Quando mal percebemos, Rainbow acabou. Por incrível que pareça, ainda com as 14 músicas fica uma sensação de trabalho incompleto, que dava caldo para muito mais, não tendo uma unidade fechada.
Por fim, o resultado geral é um trabalho ótimo, que mais do que provou a habilidade de Kesha - se tornou um marco em sua carreira e nos presentou com uma versatilidade libertadora. Ainda acho que ela pode muito mais, só lhe falta uma noção melhor de unidade; uma coesão completa ao invés de um laboratório de experimentações. Esse disco é a abertura da gaveta onde estavam todas as músicas, agora resta deixar essa gaveta aberta e saber filtrar melhor de acordo com o conceito.

El Psy Congroo.

Ouça o álbum:


Nome: Rainbow
Artista: Kesha
Lançamento: 11 de agosto de 2017
Gênero: pop rock, country
Gravadora: Kemosabe Records/RCA
Duração: 48:39
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (80/100)

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