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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

Steins;Gate tem furos de roteiro? [Respondendo Leitores #1]


Está começando o primeiro post da coluna [Respondendo Leitores]! Obviamente, a função disso será responder as dúvidas mais interessantes dos nossos queridos leitores, porém, como quase ninguém lê a gente (somos tão hipsters mas tão hipsters, que até os hipsters não nos conhecem), não esperem nenhuma periodicidade. Se você quiser nos enviar alguma dúvida, pode nos contatar pelo email: contatodivisaoparalela@gmail.com, pelo Twitter, pelo Facebook e na caixa de comentários mesmo. O que acharmos relevantes (e se der caldo para tanto), vai entrar aqui.

Bom, parece que querem saber sobre Steins;Gate. Let’s go ver o que temos para hoje.

O leitor Sephiroth (belo nickname cara) enviou a seguinte dúvida: 

“Olá, assisti o anime Steins;Gate e achei algumas coisas que não entendi, e achei legal se falasse sobre isso no blog pois não achei em nenhum lugar.

Durante o anime, há um momento onde o Okarin fica refletindo e vemos a Mayuri falando que estava esperando ele a 70 milhões de anos atrás (ou algo assim), e que toda vez aparece um novo Okarin mas não é o original e sempre eles morrem, ela também fala sobre eles do futuro, então fiquei achando que alguma hora no anime ela também viajaria e se perderia no tempo procurando por ele mas não acontece, então fiquei  querendo saber se isso era algo mais da mente e poético ou seria algum furo, podemos até notar algumas vezes no anime, como se a Mayuri notasse que ele estava viajando pra salva-la, tanto que ela fala -já estou bem, pode chorar agora. No ultimo episodio (ao chegar no Beta)

Se estiver Lendo agadeço pela atenção (sei que ja faz tempo que o anime foi lançado mas assisti esses dois dias)

Até mais :) ''Tutuyu!"”

Ótima pergunta Sephs. Bom, caso você não saiba, há um post muito antigo (aliás, é o primeiro post deste blog) que aborda Steins;Gate e a teoria do paradoxo. Recomendo que todos leiam, mas mesmo assim, vou repetir algumas ideias que abordei lá para chegar no principal: a narrativa de S;G.


Antes de tudo, o anime é uma ficção científica precisa. Em literatura, temos uma diferença entre hard sci fi e soft sci fi. O hard seria aquela ficção científica cheia de termos técnicos e o soft seria aquela focada mais nos problemas sociais e políticos. Eu diria que Steins está no meio termo, e por isso é tão genial. Como a própria Kurisu diz: “O tempo passou tão rápido. Sinto vontade de reclamar com Einstein. O tempo ser devagar ou rápido depende de sua percepção. A teoria da relatividade é muito romântica, mas muito triste”. Percebe? Temos o lógico-científico (nesse exemplo seria a teoria da relatividade), mesclado com a interpretação romântica quase pessimista. 

Veja: ao invés de usar a teoria do paradoxo, Steins;Gate usa da teoria Everett-Wheeler-Graham, ou teoria dos múltiplos mundos, que anula qualquer paradoxo do avô. O paradoxo do avô seria o clássico: se eu me encontrar haverá uma contraposição lógica, pois, como posso estar comigo mesmo no passado e não influenciar o futuro? Se eu influenciar o futuro, o eu que voltou para o passado não existe, e aí, como fica? Ninguém sabe exatamente o que poderia acontecer, mas mexer com o tempo não é algo legal.


Por isso, contrapondo grande parte dos filmes e séries, Steins vem com outro princípio: esse tal paradoxo não existe. O que acontece então? Como vemos nas explicações de Suzuha, toda vez que uma ação importante que abre margem para dualidades é tomada, uma nova linha temporal é estabelecida. Deste modo, conforme Okarin salta no tempo, diversas linhas temporais vão sendo formadas e por sua vez, talvez, dentro dessas linhas, estejam sendo formadas outras. Isso resulta em várias versões de uma mesma pessoa. É o que a própria Kurisu chega a explicar para o Okarin para amenizar o fato de que vai morrer: se ele parar para pensar, existe em alguma linha temporal uma Kurisu vivinha da silva. Nesse ponto, então, entra a ideia romântica: e se a Kurisu de uma linha temporal souber o que aconteceu na outra? Cientificamente essa parte não é certa, mas fica explícito que romanticamente ela existe (pelo menos como suposição). Pelo fato de ser a mesma pessoa, esta de algum jeito poderia sentir ou recuperar as memórias de sua outra versão.

Confuso? Para ficar mais fácil, pense nos seres humanos como softwares, para ser mais exato um programa da Adobe (Adobe paga noix!). Em uma linha você é o Photoshop, na outra você é o Indesign. Existe uma barreira que separa a definição: este é um programa de imagens e este é um programa de edição de revistas/livros. Entretanto, há semelhanças inegáveis entre os dois softwares, podendo até ser usados para o mesmo propósito. E se você conseguisse ultrapassar essa barreira de definição e, por meio das semelhanças, ou seja, essência, percebesse que na outra linha temporal você foi apenas Photoshop? Ou quem sabe até mesmo apenas uma versão anterior do próprio Indesign?

É o que acontece quando Okabe se relaciona com Rukako e Fairis. O único jeito de desfazer os d-mails é fazê-las perceber quem foram anteriormente. O que acontece exatamente não é explicado, mas fica explícito que as pessoas levam consigo certa sensibilidade e por isso, se ocorrer algum impacto que remonte a outra linha temporal, elas irão se lembrar (a reação varia de cada pessoa).
Tendo esse conceito em mente, podemos perceber que desde o começo Mayuri é apresentada como alguém sensível. Em certo ponto, mais uma vez, Kurisu fala para Okarin como ela tem uma visão aguçada, até mais certeira que a deles. Pelo fato de Mayuri ser simples e sensível, ela parece deixar de lado a razão e abraça apenas o emocional. Ao fazer isso, não é difícil para ela sentir que algo está acontecendo e as coisas estão mudando. Isso também fica explícito quando ela revela, diante do túmulo da avó, os sonhos que vem tendo. Os sonhos, obviamente, são memórias das outras linhas temporais.


No final, quando Mayuri fala para o Okarin: “já estou bem, pode chorar agora”, não quer dizer que ela SABE de algo mais, mas que ela SENTE. Ela é justamente o contraponto de Kurisu, que sente pouco e sabe muito. Mais uma vez, não sabemos exatamente o que houve na mente dela, mas fica implícito que ela rapidamente aceitou parte das memórias e sentimentos das outras linhas temporais e entendeu aquele momento como o de paz. Na verdade, seria mais como uma reação, como quando Rukako deixa escapar que foi salva por Okarin. Em um segundo, parece que ela está 100% consciente, mas depois se questiona e fica confusa. Mayuri não se questiona, apenas vive as emoções.

Mas e esse troço de 70 milhões de anos atrás?


Primeiro devemos entender que acima de qualquer coisa, Steins;Gate é uma anime: uma história com começo, meio e fim. Portanto, podemos perceber como desde o começo a trama é bem arquitetada com pistas sobre tudo o que vai acontecer (se você assistiu apenas uma vez, assista de novo para notar essas nuances). Então, respondendo logo de cara: sim, é licença poética. Porém, não, não é apenas licença poética. Há ali uma preparação de tudo o que está por vir, de todas as mortes de Mayuri. E não só isso, uma construção da garota enquanto personagem e não apenas objeto de impacto. Se Mayuri apenas morresse, a história até poderia perder parte da força, mas ela sente as mortes e assim como Okarin, percebe o que houve nas outras linhas temporais. Kurisu chega até a sugerir que ela talvez tenha também o Reading Steiner, mas Okabe imediatamente rejeita a ideia. Na verdade, seria como se todos pudessem ter acesso a “essas memórias” e ela, por ser sensível, chegasse mais fácil a isso. Então ali, ao mostrar a situação inversa, dela esperando e procurando ele, vemos o que deve acontecer em toda a sua angústia interna ao esperar o amigo para tentar salvá-la de novo e de novo.
Essa parte são apenas suposições minhas, já que dentro da licença poética, o espectador pode interpretar como quiser. Mas, visto tudo o que é apresentado, não acho que seja de graça. Há uma base lógica. Aquilo seria a representação das viagens no tempo, da futura perdição de Okarin e o sofrimento de Mayuri. Cada vez que ela vê Okarin, ele mudou mais um pouco, sendo, portanto, outra versão. Talvez, indo um pouco longe, aquilo seria o extremo oposto do equilíbrio; uma linha do tempo onde Okabe continua a voltar em busca de Mayuri até 70 milhões de anos atrás. Ou, ele volta tanto no tempo, que a sensação é que se passou 70 milhões de anos. Não sei, fica a seu critério interpretar essa parte. Só quero deixar claro que isso não é furo de roteiro ou poesia gratuita: esse momento firma certeiramente os sentimentos de tudo o que vai acontecer, sendo uma inversão de perspectiva para entendermos justamente o que a garota sente.


Enfim, acho que expliquei mais ou menos tudo. Espero que tenha gostado. 
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El Psy Congroo.

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