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Veremos se esse mini é incrível como as armys estão dizendo

O pessimismo divertido de Rogério (Supercombo)


Há quem diga que o rock está perdido e que a música brasileira simplesmente se resume a lixos sonoros explodindo a cada verão. Já eu tenho uma perspectiva diferente: as tecnologias e a cultura da humanidade em si se alteraram drasticamente desde o último século e por isso, o que antes vinha direto de meios estáticos, ou seja, que não têm resposta, como a TV e o rádio, surge agora de meios flexíveis, que operam principalmente por conta da interatividade: a internet. Sendo assim, tendo a convergência de mídias como plano de fundo, a escolha do que será ou não hit não mais está nas mãos de algumas poucas pessoas, mas na mão do público. Se a internet existisse nos anos 80, pode ter certeza que o povão não escolheria Legião, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Titãs e etc, como preferência nacional. 
O que eu quero dizer com isso?
Basicamente que atestar a morte do rock nacional é um erro gravíssimo de alguém que não está atento ao que acontece atualmente. Geralmente, para entender melhor essa perspectiva, eu pergunto: como seria se Renato Russo surgisse nos dias atuais? Com certeza ele seria conhecido por um nicho de pessoas, talvez os chamados hipsters, tendo principal impulso pela internet. Com as bandas atuais, e de qualidade, não é diferente. Basta saber procurar que você irá encontrar coisas boas. Duvida? A análise do álbum de hoje vai te mostrar isso.

Análise Geral

Rogério é o quarto álbum de estúdio da banda Supercombo, lançado em 2016. Tendo como conhecimento apenas algumas músicas (umas duas? Provavelmente Piloto Automático e Amianto, do álbum anterior deles), posso dizer que o contato com essa obra foi para mim uma grata surpresa. Eles já faziam sucesso há um bom tempo e inclusive participaram de um reality show da Globo, Superstar, que os catapultou ao sucesso nacional, mas eu, como sempre, sou alheio a todas essas coisas e por isso, simplesmente só os conhecia por nome. Acabou que fiz o caminho reverso, ouvindo primeiro os lançamento mais recentes e depois todos os outros álbuns. Porém, não estou aqui para fazer uma análise comparativa de cada disco (ainda não...), apenas deste último trabalho.

Rogério já se diferencia por trabalhar com um conceito. A ideia seria transformar um nome comum, como Rogério, no agregador de todas as coisas ruins. Perceba que há uma complexidade maior: não é como se Rogério fosse apenas a personificação de satã ou qualquer outra entidade maléfica, mas de fato da própria energia e momentos ruins. Aliado a isso, temos letras estritamente sobre o cotidiano, sendo crônicas banais da vida que ganham enorme atenção, como há de ser individualmente para cada um de nós.

O mais incrível é como as músicas são profundas, mas tem um tom leve, bastante agridoce, sem necessariamente serem pop's. Todos os instrumentos são "pesados", usados com grande potência (preste atenção na bateria e no baixo, por exemplo), dando até mesmo um aspecto "hardcore" no trabalho, mas envolta de melodias simples e chicletes que, pelo menos para mim, remetem imediatamente à Foo Fighters. Claro, se ficarmos caçando vamos encontrar referências diversas, porém, o som daqui me lembra muito Foo Fighters, pois há a perfeita união do pop rock sem ser necessariamente horizontal - muito pelo contrário. Eu falo horizontal no sentido de uma música industrializada e normalzinha, como qualquer outra.

Eu não classificaria Rogério como o lar de grandes experimentações, mas um tiro certeiro de uma banda experiente, que demonstra qualidade técnica em tudo. Essa qualidade técnica pode, em um primeiro momento, ofuscar a emoção ou poesia contida não só nas letras, mas na ambientalização das faixas; porém, se prestarmos atenção com cuidado, veremos que estamos retratados em cada verso, de forma muitas vezes irônica, com referências à cultura pop e atualidade, e sem sombra duvidas de modo profundo, não buscando necessariamente uma mensagem exata.

Se existe diferença no rock, eu diria que ele pode ser dividido em dois: o rock de mensagem e o rock de observação. Rogério se encaixa no segundo tipo; não que não haja mensagens importantes sendo passadas, mas o eu lírico se abstém e se coloca mais como personagem atuante ou observador de toda aquela realidade, acabando por as cenas construídas falarem por si só.
A sonoridade, mesmo seguindo por similaridades, é variada. Não ao ponto, como já dito, de ser um álbum de experimentações, mas de ressaltar as qualidades do grupo, indo para diversos lados, sem deixar de ser uma obra puramente de rock.

Faixa a Faixa


Magaiver inicia o disco com um tom bem alegre dentro de uma letra engraçada, mas já introduzindo o pessimismo. O vocal doce de Carol Navarro se contrapõe ao vocal mais forte de Léo Ramos, e impacta por explanar uma situação desesperadora de forma divertida. É quase como um sujeito olhando para si no fundo do poço e dando risada de tudo aquilo, enquanto ainda sofre. Os rapazes do Medulla, Keops e Raony, levam a música para outro lado, uma mistura que tem no dna o rap, mas que não descaracteriza e nem tira a coerência do todo. Enquanto a lírica da Supercombo é mais simples e direta, sobre aflições do dia-a-dia, a poesia do Medulla é mais abstrata e subjetiva, sobre o estado da alma - a união dos dois, então, é formidável, por serem, de cera forma, dois opostos falando sobre o mesmo tema.



A Piscina e o Karma continua a temática da música anterior, mas mudando um pouco a sonoridade para um reggae. Esse aspecto caribenho da música anterior e dessa, será presente em outros faixas e fazem uma união interessante com as guitarras pesadas. É importante notar como a banda se adequa a cada tema escolhido, alterando até mesmo a forma de cantar, mas sem nunca deixar de lado a própria identidade. Veja esta faixa: começa em um clima bem jocoso, com Léo cantando ao melhor estilo Bob Marley; entretanto, logo está mergulhando em um rock indie e profundo, a la Humbug. Emily Barreto, do Far From Alaska, tem uma participação certeira, dessa vez não sendo o oposto, como o Medulla, mas uma combinação que se destaca quase como se fizesse parte da banda.

Bonsai de cara já demonstra ser um hit pela sonoridade e letra chicletes. Apesar de termos letras engraçadas em todo o disco e um som bastante descontraído sem medo de ser divertido, Bonsai é o maior respiro em termos de profundidade. Claro, a crônica social do ser introvertido está ali, mas ela claramente não tem grandes pretensões a não ser retratar esse estado de isolamento do mundo para o nada - e isso é ótimo. Não é como se toda música precisasse ser uma grande crítica social ou qualquer coisa do tipo. E bom, esse viés combina muito bem com os versos, que explanam a falta do vazio na vida urbana.



Grão de Areia me lembra a sonoridade antiga da banda, mostrando a versatilidade do grupo. Tivemos até aqui três músicas com influências caribenhas e claramente com o clima divertido; de repente surge essa faixa, com um ambiente e temática dramáticas. O ceticismo dessa vez, ou apenas o pensamento do individuo no universo, é tema principal, colocando o ser humano apenas como mais um grão de areia que logo vai sumir. Deste modo, repito outra vez: perceba como tudo se adequa de acordo com o convidado. Gustavo Bertoni adentra a faixa com o seu vocal característico, inserindo a dramaticidade e profundidade escura da Scalene. A faixa é da Supercombo, mas podemos muito bem identificar as influências da outra banda - uma junção bastante orgânica, devo dizer.

Monstros continua a vibe mais dramática, com a adição de Mauro Henrique, do Oficina G3. A composição sai um pouco da linha direta e adentra um território mais existencial, preocupada mais em expor os sentimentos de forma pura e não necessariamente por cenas. O eu lírico vive aquilo intensamente e explana a sua revolta com os próprios sentimentos. Devo ressaltar o baixo, que está ótimo. Aliás, em todas as faixas o baixo é incrível, com um tom pesado de acordo com o pessimismo proposto.

Voltando para a sonoridade caribenha e jocosa, Embrulho é interessante por conta da transformação que a faixa tem. Se Monstros é estática com determinado ambiente sustentado até o final, essa faixa vai se modificando de acordo com a melodia, até quando mal percebermos, os vocais de fundo estão cantando "kill me" em um teclado extremamente emocional. Falando em teclado, quero ressaltar como o trabalho de Paulo Vaz é certeiro, não sendo meramente o background da música, mas uma sonoridade que delimita o tema e se mescla muito bem com a letra.



Morar soa como uma típica lovesong folk só que ao avesso e para o próprio eu lírico diante de Rogério. Uma ideia ótima de crônica, que carrega o humor característico da banda, mas sem deixar de levar aquele tom diáfano de sentimentos existenciais pós-modernos urbanos do cotidiano. Rogério não é um álbum que fala sobre grandes perdas amorosas, injustiças sociais ou qualquer outro clichê do tipo, mas meramente sobre as pessoas comuns, que vivem, sorriem e choram na cidade grande. 

Bomba-Relógio  não me agrada tanto, talvez por pender mais para o lado da Fresno, e eu não sou lá muito fã da banda. Mas isso é puramente gosto pessoal, por que a faixa é muito boa, talvez não ótima como algumas, mas tem seu valor principalmente pelo refrão e pela mudança, um pouco parecida com Embrulho, que vai tornando o som mais e mais profundo. 

Jovem é uma das minhas faixas preferidas pela vibe rock anos 2000, com uma melodia chiclete. A meu ver, há certamente uma pitada de adolescente lifestyle com Ok Go. Se Bonsai é um respiro em termos de mensagem, aqui há outro respiro, mas em termos de pessimismo. É a única faixa que é totalmente otimista, com uma perspectiva realista, porém encorajadora.



Contrapondo essa perspectiva totalmente otimista, surge Eutanásia. Para mim é a melhor música do disco e a mais forte, tanto pela sonoridade, letra e temática, além de ter uma participação de peso - Sergio Britto, do Titãs. Existe aqui a construção de cena, sem necessariamente ser explícito e direto, nos colocando em outro espectro da vida: a vontade de encontrar a morte. E não meramente como alguém depressivo suicida, mas alguém que não tem outra saída. Por mais que haja influências de outras bandas, vejo aqui mais uma influência do cinema, com uma atmosfera de filme de terror e profundidade psicológica. Vê se essa música não combina com Aurora, filme independente que fala sobre a mente de uma moça em coma? (e a qual eu já fiz análise, aqui) Certamente os estados mais instintivos da mente frente a aflição de existir são explicitados em cada verso; cada som de guitarra, bateria, baixo e teclado. 

Rogério volta para a vibe mais animada, mas dessa vez sem necessariamente ser engraçado, mas ácido, com uma crítica à hipocrisia como mensagem. Se fosse para definir, eu diria que o eu lírico se transmuta no próprio Rogério, com uma perspectiva raivosa, mas sem ser explosiva, apenas pessimista e maliciosa. A sonoridade eu definiria como um tom até doce. Docemente mal.



Lentes encerra o álbum de forma estranha. Não me levem a mal, é uma música ótima com um feat inusitado, Negra Li, que consegue criar uma sonoridade única e pop. Mas dentro do conjunto, fica deveras a parte, não se encaixando tão bem, quase como se a faixa tivesse sido colocada por uma decisão a mais; fora do projeto original. O disco se encerraria perfeitamente com Rogério, constituindo uma obra de conceito bem acertado e fechado. Lentes quebra completamente esse conceito, soando como uma faixa bônus.
Entretanto, o "dano" não é tão sério pois a faixa é ótima, isoladamente falando, com uma pegada Soul, Rock e MPB.



Rogério é uma grata surpresa para o rock nacional, mostrando a evolução da Supercombo desde Amianto e diria até na carreira inteira, já que traz a tona sonoridades antigas, mas muito bem atualizadas dentro do conceito proposto. Tecnicamente é um disco incrível e ainda que aqui e ali eu não goste tanto de algumas letras, devo admitir que elas são boas dentro da proposta e poética. 
Por fim, Rogério não se trata de um ser e nem sei se necessariamente uma energia; mas apenas a perspectiva do ser humano diante das adversidades urbanas, que não trazem nenhuma moral, apenas sentimentos de coisas que ainda estão acontecendo. 
Quem disse que o rock se perdeu não sabe onde ouvir música boa. O rock continua vivo e, quem sabe, de acordo com o tempo, produzindo clássicos. 

El Psy Congroo.

Ouça o álbum no Spotify:



Ouça o álbum no youtube:



Nome: Rogério
Artista: Supercombo
Lançamento: 2016
Gênero: alternativo, pop rock
Duração: 43:00
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (90/100)

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