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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

O Doutor é Doutora, e agora?


Sei que estou chegando atrasado no rolê, mas é que eu me segurei ao máximo para falar sobre isso. Fiquei de olhos bem atentos observando toda a discussão sobre machismo e empoderamento, concordando com certos argumentos e discordando de tantos outros (de ambos os lados). Sério, a minha mão tremeu para escrever um post, mas achei melhor esperar. Pois bem, passado o furor, agora posso fazer com calma mais um Analisando Argumentos, dessa vez sobre a polêmica transição de gênero do Doutor. Será que a decisão foi uma ideia fruto da justiça social apenas para agradar minorias? Será que quem foi contra automaticamente é machista? Vamos analisar esses discursos e desconstruí-los.

Analisando Argumentos: a mudança de sexo do Doutor

Contexto da treta: caso você viva em Marte (e mesmo assim isso não seria desculpa para não conhecer), Doctor Who é uma série sobre um sujeito que se autodenomina ‘Doutor’ e viaja o espaço-tempo com a sua nave, a TARDIS (que é uma cabine telefônica azul), ajudando quem quer que esteja no seu caminho. A grande sacada de DW, além de roteiros de ficção científica bastante inteligentes, é a regeneração. O tal Doutor não morre, mas se regenera em uma nova pessoa, abrindo alas para que um novo ator dê a sua interpretação do personagem. Porém, nesses anos todos dessa indústria vital, nunca aconteceu do Doutor virar uma Doutora; isso mesmo, se regenerar em uma mulher. Pois pasmem: parece que agora vai acontecer. E bom, como a internet é um auditório cheio de macacos prontos para jogarem bananas e gritarem, esse acontecimento gerou um ~rebuliço~ nas redes sociais. Gente defendendo, gente discordando... Sabe como é fã, ama algo e já acha que é dono. [Fim do contexto]
Quem acompanha essa coluna, já viu como eu adoro jogar frases clichês de quem defende certo ponto para ir cavando mais fundo até mostrar como aquilo não faz sentido. Entretanto, dessa vez farei diferente: eu vou defender os dois lados. Isso mesmo que você leu. Vou defender os dois, porém, indo ao máximo no que a minha razão permitir. Comecemos com o lado mais ~complicado~: o Doutor deveria ser homem.


Doctor Who é uma série com mais de 50 anos, que começou tudo com uma ideia: um velho rabugento alienígena e sua neta. A ideia inicial de DW nem era exatamente o Doutor ser o protagonista, mas o catalisador dos problemas. Porém, ao longo do tempo, ele foi se tornando um símbolo concreto; antes um senhorzinho egoísta, se tornou um fanfarrão protetor da humanidade. E esse símbolo tem importância pois gera uma dinâmica. O formato básico, aquilo que conquistou os fãs e é o core da série, é: um homem viajando com sua companion. Essa relação, aspecto masculino com jovens mulheres decididas, é a marca da série, tanto que Steven Moffat, showrunner mais recente, confessou que enquanto comandasse Doctor Who, jamais teria uma Doutora. Será que ele é machista? Acredito que não. O medo dele é mexer nessa dinâmica para estabelecer outra, que pode transmutar a série ao ponto de se tornar outra coisa.
Claro que esse elemento, O Doutor (homem) junto de mulheres, não é o único da série e dependendo da sua análise, pode até ser secundário, mas temos que nos atentar que faz parte do DNA da produção. Nesse quesito, DNA e marca, temos outros pontos a atentar: podemos dizer que o Doutor é um ser fixo. Como assim? Bom, Pernalonga nunca será uma raposa, mas um coelho (ou lebre, aí você decide), do mesmo jeito que o Doutor é conhecido por ser "ele". Você talvez ache isso machista, mas faz parte da criação do personagem.

“mas o Doutor tem que ser doutora por conta da representatividade”

A arte não deve ser censurada e portanto, ditar o que deve ou não ser é uma forma de censura. O Doutor não DEVE ser mulher ou qualquer outra coisa. E precisamos também nos atentar que o público de DW original, aquele que paga a produção por meio dos impostos, é  britânico. Por isso o Doutor é a imagem do homem inglês, com o mesmo humor e trejeitos. Esse é o público que corresponde e a BBC ser uma emissora pública, só torna essa escolha, de deixar o Doutor como homem e branco, mais coerente. Se as mentes criativas preferirem assim, qual o problema? As mulheres serão mais oprimidas se o Doutor continuar homem? Achar isso é partir do pressuposto que uma obra tem influência direta em tudo, quase como manipulação. E já falamos por aqui, neste maravilhoso blog, que uma obra é produto direto da sociedade. Existe como ela influenciar as pessoas? Sim. Mas  há mais valor no inverso - a sociedade tem mais influência naquilo que é criado. Agradar as minorias, apenas por agradar, cria um falso moralismo e não garante qualidade, que é o que realmente importa. Sem contar que a BBC tem que pagar as contas e bem... Certas atitudes podem não dar retorno. Colocar um Doutor mais velho já foi uma baita decisão que diminuiu a audiência (temos outros fatores que influenciaram, como horário de exibição, mas isso também foi importante). Antigamente, por exemplo, o Doutor era velho enquanto DW era uma série estritamente infantil, porém, atualmente alguém velho como protagonista já afasta essa parcela mais nova do público.

O que eu quero dizer com isso? Pense bem antes de achar que o Doutor DEVE ser Doutora, ou que Moffat, Russel T Davies e etc, eram machistas por não terem feito isso antes. Além de agradar as minorias, há diversos fatores a serem considerados em uma decisão dessas. Talvez Moffat tenha dito que em sua Era o Doutor não seria mulher por ele ser machista? Existe essa possibilidade, mas é mais provável que ele não estivesse confiante quanto a tomar essa decisão, visto todo o contexto de 50 anos do mesmo personagem estabelecido. Ou seria melhor agradar as minorias colocando uma trama ruim? Qualquer coisa feita por pura obrigação resulta em falha.

Agora vamos bagunçar um pouco as coisas. Hora de inverter a situação: por quê seria legal o Doutor ser mulher?


Aqui nessa parte eu vou discordar de muitas coisas que eu falei anteriormente, contrapondo a minha defesa. Fica a seu critério qual o meu real posicionamento (*lembrando que apenas estou tentando ir até onde é logicamente possível em ambos os lados).

Serei redundante: Doctor Who não DEVE ser nada. Ele não tem que colocar uma mulher como protagonista por conta da representatividade, pois, como já dito, algo apenas feito para seguir a pressão resulta em um conteúdo pior e diria que é até imoral: se a sociedade precisa fazer algo por obrigação, esse algo tem um problema maior por trás, não sendo de todo honesto essa ação. Porém, se for uma decisão criativa, é um ótimo caminho a seguir. 
Eu falei durante alguns parágrafos sobre marca e como o fato do Doutor ser homem é importante, entretanto, há muito mais em Doctor Who além disso, colocando ele "ser homem" em um plano abaixo. É uma série com mais de 50 anos marcada principalmente pelas mudanças - e mudar, obviamente com qualidade, é o que há de melhor. Sendo assim, o terreno para uma transição dessas não veio do nada, está sendo preparado há muito tempo (e quem está atento sabe disso). Missy já existe há o quê? Três temporadas? Colocar o Doutor como mulher além de revitalzar DW, abre o leque para caminhos inexplorados.

Qual é, já vimos milhões de vezes as mesmas piadinhas entre Doutor e companion; já até premeditamos algumas. Acima de tudo, o que caracteriza a série é a ficção científica tendo por carro-chefe um personagem que está em constante mutação, demonstrando uma mentalidade, como dito por Capaldi, além das nossas visões humanas comuns e preconceitos a respeito de gênero.

"Ah, mas por quê essa mudança não aconteceu antes?"

Eu citei diversos fatores, e o principal deles é a sociedade. Ainda mais se estivermos falando de um programa de tv pública, que necessita da audiência para sobreviver. A audiência MANDA? Não. Mas tem grande parte de poder nos rumos que serão tomados. E bem, só agora há uma resposta mais favorável e aberta do mundo em que vivemos. Há, claro, envolvido a decisão de cada showrunner. Como já disse, Moffat não quis fazer pois não achou legal ter uma mulher e sua ideias orbitavam no Doutor homem. Simples assim. 
Agora, sobre comentários como: "acabou totalmente com Doctor Who" ou "vão estragar a série", são extrapolações desnecessárias de algo que nem existe ainda. Como julgar algo que nem aconteceu? A ideia do Doutor ser mulher, repito, é ótima, mas como qualquer ficção, tudo depende do desenvolvimento. Como julgar por um teaser? 
Porém, se é para avaliar, eu diria que tem chances de dar certo. Chris Chibnall (novo showrunner) e Jodie Whittaker têm em seus currículos Broadchurch (que eu já analisei aqui): uma ótima série dramática, onde Jodie mostra que é uma atriz incrível. E sem contar que Chris já está envolvido há um tempo com DW por conta de Torchwood. Ou seja, a série não poderia estar em melhores mãos.
O próprio Chris admitiu que a BBC está disposta a correr riscos, então ela fez essa abertura para ver no que vai dar. Acho que nem preciso dar o meu parecer sobre o Doutor ser negro ou qualquer outra coisa, né?

De tudo isso, estranho mesmo são esses haters exagerados sobre a mudança de sexo do Doutor, pois a série sempre foi caracterizada principalmente por mudanças. Whovians  de verdade sabem disso e estão acostumados, ficando a cada regeneração orfãos e ao mesmo tempo animados pelo o que está por vir. Cada showrunner tem uma visão do programa, desenvolvendo-o do seu jeito. Essa é a ideia básica do show.
Realmente não entendo nada dessa barulheira toda. Enfim, não há como julgar o que não existe e essa atenção talvez revele que a nossa sociedade precisa ainda debater muitos temas. Resta esperar para ver o que será desse novo caminho. Confesso que imagino mil possibilidades e estou ansioso.


Qual o recado final? Decida por si com qual lado você fica, mas apenas quero dizer que se você é um hater da nova Doutora, tente se questionar um pouco mais; a série não vai acabar por conta disso e talvez você esteja precisando rever muitos episódios. E se você é alguém que clama por representatividade, sugiro tentar compreender melhor como funciona a construção de um programa de tv e a relação entre obra de arte e sociedade.
Entre um Doutor homem conservador e uma Doutora mulher revolucionária feminista, fico apenas com um personagem criativo que traz ótimas histórias além dos preconceitos dos extremos.

El Psy Congroo.


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