Pular para o conteúdo principal

Destaques

Mindhunter realiza uma análise profunda da psiquê humana e pode ser considerada uma das melhores séries do ano

Com produção de David Fincher, série mostra uma nova faceta dos serial killers e do gênero policial

Ginger & Rosa, o holocausto emocional da juventude hippie


Não sou lá muito adepto a filmes indies-hipsters. Geralmente eles são overrated, se tornando cults por conta da interpretação em demasia que as vezes nem coincide com a qualidade. Ao mesmo tempo, adoro histórias únicas que fogem do padrão e não têm vergonha de tocar em temas sensíveis. Ginger & Rosa se encontra no segundo tipo: certamente é uma produção que em um primeiro momento deve agradar os "hipsters de plantão", mas justamente por pegar os principais estereótipos do gênero e ir criando um ambiente aflitivo, é que ele se destaca, indo na contramão ao criticar a tão "glamourizada" geração hippie.

Apesar de se chamar Ginger & Rosa, o filme mesmo se trata apenas de Ginger. Na trama, a garota está no meio dos anos 60, vivendo a guerra fria e todas as consequências desse período, como as ameaças de holocausto nuclear e a revolução sexual. A produção poderia ser um enredo excessivamente moral, sobre os problemas do mundo, mas vai justamente no caminho contrário, e prefere abordar o simples e pequeno, trazendo a tona críticas sutis aos ditos "revolucionários". Veja bem, não é como se o filme fosse um tratado contra os esquerdistas da guerra fria, longe disso; apenas prefere tocar em um ponto pouco abordado: as relações humanas. O que ninguém observa é que, enquanto um pai está tentando revolucionar o mundo, os filhos dele choram nos braços da mãe - isso se ela não estiver também no meio. E se você acha que isso é coisa de filme, está completamente enganado.


Em 2015 realizei o perfil de uma mulher que cresceu e viveu boa parte da vida em Cuba, e há pouco tempo estava no Brasil. Conversamos sobre muitos assuntos, mas o principal, abordado por ela, era o quanto a sua geração foi negligenciada. A revolução cubana aconteceu em 1959 e portanto, a minha entrevistada era a segunda geração após as mudanças de Estado. As crianças foram vistas como mentes a serem moldadas para o interesse maior da nação, não como seres singulares que precisavam de carinho e atenção. É aí que Ginger justamente se encaixa.

De um lado há a sua mãe, uma mulher comum que se viu envolvida nesse meio mais pela paixão do que outra coisa. Em um protesto, há diversos perfis de pessoas, e um deles, o mais proeminente, é o do sujeito que está ali para dar sentido à sua vida. Em contraparte, há aquele que realmente acredita em cada linha do manifesto e tem todas as respostas para o mundo - este é Roland, o pai de Ginger. O problema com quem tem todas as respostas, é que estes facilmente se perdem da realidade, criando uma versão intelectualizada do mundo que só funciona em sua mente.
Sendo assim, enquanto temos problemas palpáveis e grandiosos adentrando a vida das duas garotas, temos problemas abstratos e pequenos, que já estão ali mas são desenvolvidos subliminarmente. O assunto "principal", que nos é apresentado, é o holocausto nuclear, mas a verdade é que o filme não é sobre isso: é sobre abandono e o quanto crescer pode ser difícil. Ginger então, enquanto vê a sua vida familiar desmoronar, principalmente pela negligência dos pais e divórcio deles, usa os problemas do mundo como catarse de expressão. Ela grita o quanto a humanidade é cruel, mas na verdade está gritando sobre os seus problemas dentro de casa.
Roland evoca todos os ideais intelectuais, enquanto também esconde o seu egoísmo e falta de responsabilidade. Ginger, claro, simpatiza com isso: ele é o pai bonzão, que a deixa fazer o que quer. No final, o que ela necessita é só atenção.


Ginger & Rosa tem como base uma geração que sofreu com as autoridades (o pós-guerra), indo justamente para o extremo oposto. Agora, a história é dos filhos deles, que não sabem como lidar com tanta liberdade (essa geração, ironicamente, é que gera o punk). O ideal, por exemplo, é que todos possam se relacionar e transar com quem quiserem. Mas, e se isso resultar em um relacionamento bizarro entre o seu pai e sua melhor amiga, que justamente tem a sua idade? Roland, dentro de sua visão pragmática e fantasiosa, não vê problemas, mas cada dia mais mata os sentimentos de sua família.

Para alguns, o filme pode ser tedioso, e de fato, ele não foi feito para quem está com sono, mas o grande diferencial dele é a direção. No começo temos a valorização de espaços abertos e claros, dando um ar fantasioso aventuresco. Facilmente nos identificamos com aquelas jovens, mostrando que não importa a época, ser adolescente tem semelhanças em qualquer cultura. Aos poucos, a direção vai se centrando em espaços fechados; em determinado momento a história inteira é contada dentro da casa e somente por diálogos. Aliás, diálogos estes que são ótimos, transitando entre o mundano e  o relevante. Quando finalmente volta-se para os espaços abertos, o filme usa-os para trazer aflição na personagem principal - é o caso da cena do barco, onde Ginger deveria estar feliz, mas começa a notar os problemas ao seu redor.


Outro ponto onde podemos ver o desenvolvimento da história, é nas expressões dos atores. Roland é estático, pois já está em uma mudança, mas Ginger... Ginger passa da ingenuidade e alegria para estranheza e tristeza. Ela não precisa falar nada para vermos o quão confusa sua mente está.

A fotografia é bonita, preferindo dar um aspecto clean ao subúrbio. Existe ali a sujeira, claro, mas até esta tem uma conotação bela. Filosofia, arte e política, tudo isso é colocado em pauta, então nada melhor do que uma representação que valoriza esteticamente o belo, enquanto debate a moral. Se frequentemente adolescentes são expostos a produções que nada tem a ver com suas vidas (fantasiando a realidade), eu diria que Ginger & Rosa é a melhor representação dos sentimentos juvenis, mesmo que seja sobre outra época. O fim do mundo não é nada quando não se tem ao menos alguém esperando em casa.


No final, há uma conclusão da catarse da garota, resultando em nenhuma lição de moral. A vida real é mais complexa, portanto, não há final exato para os problemas, apenas a conclusão do arco transitório. E é isso o que temos. A transição de Ginger para a idade adulta e entendimento de si mesma, para, enfim, continuar naquele ambiente. Melhor? Pior? Não sabemos se algo vai mudar, apenas que aquilo teve impacto na personagem, moldando quem ela é. E diante de tudo isso, a menina faz uma escolha: continuará sendo uma poeta. Pois ser poeta não é uma profissão, mas um estilo de vida. Ginger confirma quem quer ser, só que dessa vez com mais bagagem para observar o mundo. Os sensíveis sempre são os mais suscetíveis ao sofrimento. Ela melhor, do que ninguém, agora poderá falar disso.

El Psy Congroo.

Comentários

Postagens mais visitadas