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[Album Review] Love Yourself, de Chainsmokers à Banda Uó, BTS está mais pop do que nunca

Veremos se esse mini é incrível como as armys estão dizendo

O caos, a ordem, a construção e destruição reflexiva da vida nas periferias de Castelos & Ruínas


Não lembro exatamente como nem por quê comecei a ouvir BK, apenas sei que em um dia qualquer eu estava frente ao álbum Castelos & Ruínas pronto para dar uma chance. Sinceramente? Eu não esperava grandes coisas. Havia grandes possibilidades de ser apenas outro rapper da cena nacional buscando o seu espaço enquanto aborda temas clichês. Para completar, eu sou uma pessoa bastante chata com lírica. Fico constantemente analisando as letras de qualquer música e criticando não só as palavras, mas a forma como elas são entoadas.
Passou a primeira música, chegou a segunda, na terceira eu já estava extremamente animado com o que ouvia e já até considerei “só essas aqui já valem pelo álbum”. Castelos & Ruínas não está na minha playlist há dias, nem semanas, mas meses. E depois dessa absorção toda, de um produto, como eu disse, que eu não esperava nada, acredito que estou apto a poder falar melhor sobre o disco inteiro. Segue a agora a minha análise, quase recomendação.

Análise Geral

Há um movimento interessante no rap internacional, que eu abordei no post sobre Flower Boy, de tirar um pouco a cena do materialismo e levá-la para as introspecções pessoais. Usar o pessoal como catalisador não se trata apenas de abordar o “eu” na escrita, mas realmente fazer um mergulho de autoanálise em torno da consciência, para explanar os sentimentos, angústias e anseios. Portanto, devo dizer que ainda não havia visto algo assim no Brasil. Claro, tivemos sim produções introspectivas, mas no geral, sempre tive a impressão de que o “eu” era mais distante, usado para abordar o exterior (problemas sociais, por exemplo).

Sendo assim, injetando um novo fôlego ao rap BR, chega Castelos & Ruínas, uma produção que não tem a pretensão de apontar as mazelas sociais ou trazer conselhos importantes sobre a vida (apesar de existirem vários) – é uma autoanálise pura de BK sobre a sua trajetória e o que espera lá na frente. É ele falando sobre si, e o si falando sobre ele. Nada mais, nada menos. Por isso, a lírica acaba soando mais poética, fazendo paralelos com a MPB.
E se o autor resolve nos levar para a sua mente, a apresentação não é nenhum pouco linear. É quase como um quebra-cabeças montado por meio das referências e ironia, que se complementam organicamente com os beats. O disco inteiro é bastante coerente em sua proposta e mesmo tendo beatmakers diferentes, as músicas constituem em uma unidade única, de aspecto diáfano, cinza e parcimonioso.

Cada faixa parece levar ao ouvinte um sentimento único e diferente, não se restringindo à apenas ser uma música. É quas como estar diante de um jardim de emoções, cada qual de uma cor única, que se manifesta na atmosfera pontual criada, junto das brincadeiras líricas de BK, que de fato, nos fazem, enquanto, logo após, podem trazer certa depressão. Entretanto, acima de tudo, de qualquer beat, qualquer sentimento, qualquer rima, o que temos é um convite à reflexão.
O próprio rapper se contrapõe muitas vezes, questionando a própria moral e conduta, para depois afirmá-la. A dualidade é constante, explícita em faixas como Caminhos e Interlúdio I e II. Realmente, temos como ouvir tranquilamente cada música sem se importar tanto com a mensagem, apreciando a construção do beat e do rap. Porém, se analisarmos cada linha, podemos espremer um conteúdo imenso, dotado de mistério e questões. A melhor obra é aquela que não te diz as coisas, mas mostra – e é isso o que temos. Em nenhum momento o artista se diz angustiado, confuso, triste, reflexivo e etc, mas é o que concluímos diante das rimas naturais, que brincam com diversos conceitos, seja do cotidiano ou da história humana.

Para alguns as músicas podem não dizer nada, para outros podem dizer muito. Se eu fosse definir BK, em termos de comparação, eu o colocaria como a Clarice Lispector do rap – um título que talvez, o próprio artista deve ter consciência, criando um diálogo direto não com os seus ouvintes, mas com O seu ouvinte; assim mesmo, na forma individual e direta.

Ps: fico feliz de falar de um disco de rap brasileiro. Adoro rap americano, porém, o que eu mais amo numa música é a letra. E bom, em um rap brasileiro, por seu ser nativo, posso falar com propriedade da intenção do artista, assim como identificar melhor brincadeiras sutis com as palavras.

Faixa a Faixa


O álbum abre com Sigo na Sombra, uma autoafirmação do rapper sobre a sua vida, mas acima de tudo sobre o seu papel no rap. Eu diria que há até uma certa ostentação, mas de outro modo: por meio das palavras, que são colocadas lado a lado como armas. O tempo todo vemos BK se referindo ao cenário social brasileiro das periferias, enquanto sutilmente insere suas reflexões. Em suma, é uma mistura do real com a metafísica simbólica. E como não pode deixar de ser, a faixa está cheia de wordplays, brincadeiras com sentidos e palavras similares, que confundem o ouvinte.
Fica claro: o papel do artista não é elucidar, mas te dar um nó na cabeça. Tanto que se fôssemos falar só dessa música, daria um post gigante abordando cada linha; cada verso.

“Palavras não são roupas para ser mal usadas, falsas
Nem chegou meia noite e um monte dançou valsa
E o que me resta? Fugir do que desgasta, do que me arrasta
E o que me testa, se afasta
Voz na cabeça diz: "BK, você consegue"
Não preciso de bússola ou GPS
Sei o melhor caminho igual o Google Maps
Num rap além de caps, na era onde se impor é digitar com caps lock”

Veja, por exemplo, como caps faz uma junção de similaridade com caps lock. Para quem não sabe, caps em inglês é bonés. Ou seja, o rapper fala que seu rap vai além de bonés (ou melhor dizendo, além da ostentação) e complementa isso assumindo que ele é diferente em uma era onde se impor é digitar com caps lock; em outras palavras, ele é diferente em uma era onde se impor é apenas gritar, xingar, ser impulsivo e etc.



A música seguinte é a primeira parte do Interlúdio, e nos leva para uma atmosfera agonizante, que aparentemente se caracteriza como a mente de BK. Um personagem, talvez o próprio rapper, fala com uma voz grossa, demonstrando insegurança e tentação. Perceberemos então como a luxúria é tema recorrente, apresentada de várias formas. Aqui temos uma explanação sobre o poder. Esse poder faz paralelo com a noção clássica ou mais comum (Damócles inclusive é citado), mas essencialmente BK está falando sobre a periferia, mesclando tudo com as referências. Lado a lado, há também uma reflexão sobre o cenário do rap. Se é complicado definir se o poeta está falando da periferia ou da história humana, fica mais confuso ainda ao notarmos que tudo pode ser alegorias para a cena do rap em si, ao qual ele está inserido e luta para se destacar. Sendo assim, as figuras e símbolos dão um tom visual para os sentimentos abstratos. 




Quadros é uma poesia pura, desde o seu beat intimista, a letra que compara a realidade com um quadro. O existencialismo abstrato exala nos versos, mas não é uma concepção vazia ou meramente pós-moderna. Há sentido para tudo o que é dito, construindo uma crônica sobre as mazelas da vida urbana e periférica, quase como se BK realmente pintasse um quadro de rimas. Ashira Wolf, uma das poucas participações no disco inteiro (a outra é Luccas Carlos), agrega uma vibe mais jazz & soul, entoando versos emblemáticos. Ainda que a sua participação seja contida, a sua doce voz adiciona um tempero forte à faixa em si, pois enquanto de um lado temos BK, com a sua característica voz grossa e flow impactante, do outro há uma refrão agridoce e reflexivo. 

"Heróis vestem capas, salvam pátrias detém balas
Medalhas de prata não valem nada
Batalhas são quadros de um passado inalterado
E o que resta sempre são quadros
Os copos gelados trazem corpos gelados a tona
Dizem que a morte é o preço da honra, eu não sei
Homens seguem leis, e mesmo assim morrem por causa das leis"



O próximo som é mais animado, com a participação principal de Luccas Carlos. O Que Sobra Disso Tudo tem ecos do trap, com um beat mais potente e um flow mais agressivo. Bk cria um fantasioso jogo do rap, que demonstra o seu empenho e perspectiva em estar ali, enquanto subliminarmente parece abordar a “guerra” e os conflitos sociais nas favelas (sempre, claro, com a concepção interna da pessoa).

“É que eu to na briga, sempre na corrida, tudo ou nada
Guerras nas esquinas, castelos, ruínas
E o que sobra disso tudo?
E o que falta pra isso tudo acabar?
O que sobra disso tudo?
O que falta pra isso tudo acabar?
E o que sobra desse mundo?”

Visão Ampla ele discorre, novamente, sobre a sua visão acerca do cenário do rap (rap game parece um tema importante para o BK) e da vida em si. É interessante notar como coisas comuns da periferia, como o tráfico de drogas e assassinatos, são abordados aqui de forma poética e em aberto. Em um primeiro momento fica até difícil entende do que exatamente o cantor fala, mas com calma, vamos percebendo as noções sobre cotidiano. Sim, não há grandes mensagens sociais, mas apenas uma análise do dia-a-dia e da vida como BK conhece. Interessante notar como aqui, e também em outras músicas, a vida é comparada com uma mulher e a morte também, porém, seria uma amante que o artista não quer ter.

Caminhos é essencialmente sobre a dualidade humana. Com um beat simples, temos um ambiente que remete aos anos 80, quase como uma canção de bar. Parcimoniosamente, entra a voz de BK, abordando o existencialismo da alma, em torno da dúvida. Os dois lados, o Ying e o Yang, fazem o ser humano, mas quem de fato é você? Para completar, ele “pinta” a terra e a humanidade como um cenário desolador, onde os deuses abandonaram a todos. Caminhos é uma antítese do começo ao fim.

“Eu sou querido no céu, eu sou amado no inferno
Entre o errado e o certo eu prefiro ter os dois por perto
Eu sou a luz, sou a sombra, sou o perigo que ronda
Eu sou a arma da guerra, eu sou o mar e suas ondas
Ignorado por anjos, desabafei com demônios
Separei brigas dos 2, eu sou Deus, sou humano
Eu sou o luxo e o lixo, eu sou o limpo e o sujo
Nem duas caras, nem máscaras, nem em cima do muro
E eu nadei contra a maré, chão quente, fui a pé
Meus passos descalços, eu sou Jó, sou Tomé
Eu trago amor, trago a paz, trago milagres e júbilos
Eu sou o equilíbrio, eu mato, eu roubo, eu destruo”



Castelos & Ruínas volta a trazer energia ao disco, trazendo de novo temas já abordados, mas de uma nova forma e perspectiva. É interessante notar como o rapper fala de coisas parecidas, mas ao mesmo tempo, sempre sob uma nova ótica filosófica, trazendo a tona novas questões. Ele vai até o máximo que puder dentro do mesmo tema, e quando você acha que esgotaram-se as possibilidades musicais, ele surge com outra música diversa, ainda no mesmo tipo. Essa faixa acaba por ter o foco no dinheiro e no poder, sendo, como diz o nome, sobre os Castelos & Ruínas criados por cada um de nós. A metalinguagem continua forte, com um emaranhado de referências e linhas sobre a cena e a vida. Basicamente, na faixa, temos o momento que a pessoa está lá em cima e o momento que ela está lá embaixo.

Pirâmide tem a temática similar a Castelos & Ruínas, mas ao invés de ser sobre os momentos bons e ruins, é sobre criação e destruição, ideia que é percebida no beat esotérico e forte. O conceito já fica claro quando o rapper compara a vida com um deserto cheio de alucinações, mas ele não encontra nenhum paraíso.

"Peregrinando no deserto, tenho alucinações, vejo miragens (eu)
Não encontro nenhum oásis, em busca do novo Éden
As margens do brejo descemos o monte sagrado
TTK, Santo Amaro"

Finalmente chegamos em uma das minhas músicas preferidas: Amores, Vícios e Obsessões. Seria uma lovesong, porém, ao jeito do BK - ou seja, totalmente realista e dual, com a parte mais pura e mais suja do amor. Interessante notar como cada rima é um wordplay, uma brincadeira com o conceito anterior. E o beat? Impacta logo nos primeiros segundos, com bastante introspecção e batidas pontuais. Percebe como o beat soa desconexo? Não há ordem rítmica nas batidas. Isso é proposital, para coincidir com a ideia de confusão, desilusão amorosa, dependência e luxúria.

"E ela dava pra outro cara, deu pra mim viu que eu sou o cara
Já não pode me ver cara a cara
Ser rainha? A coroa é cara
E eu aposto no cara ou coroa, se tu ficou afunda a canoa
E eu não ligo de gastar palavra, o problema é gastar tempo à toa"
(...)
"Eu sou seu anjo, seu demônio, cê é meu pesadelo, é meu sonho
Ela me balança tipo o mar
Se sumir vou sentir falta, ela é tipo o ar
Diz que me quer, quer que eu morra
Quem vai deixar quem de castigo nessa vida gangorra?
Sua... cachorra!"



Não Me Espere se diferencia pela personificação da vida e da sorte como pessoas. Aqui, o rapper inicia um diálogo, ao mesmo tempo real e metafísico, com esses dois conceitos. Essa lírica tão inusitada, combina perfeitamente com as batidas do beat simples, mas com uma vibe classuda e dramática. Veremos esse dramatismo até o final, com uma poesia cada vez mais forte. Não que antes não houvesse poesia, muito pelo contrário, mas aqui fica de lado um pouco o retrato da periferia e apenas as questões do ser vêm a tona, de forma a se encaixar com qualquer contexto.

Um Dia de Chuva Qualquer continua a vibe anterior, seguindo a temática do disco, mas como sempre, tendo como diferença a forma como o artista explana o retrato que quer criar. As referências bíblicas são um prato cheio para quem quer analisar com mais profundida e a chuva  ao fundo, novamente, em um instrumental simplista, traz um aconchego. É uma dualidade bastante interessante, um rap, que se caracteriza pela "pancada" em forma de palavras, ser tão tranquilo, calmo e acolhedor.



"Tudo vem, tudo vai
Chuva vem chuva vai
Tudo bem, não tá mais
Eu também quero paz"

A segunda parte do interlúdio continua diretamente a anterior, mas levando nas costas a transformação que o disco teve até aqui - passamos por diversos raps de estilos diferentes, mas aos poucos vemos como a atmosfera fica introspectiva e a lírica abstrata.


Por fim, O Próximo Nascer do Sol demonstra o amadurecimento de BK em todos os sentidos, comprimindo bem a temática até aqui e continuando o conceito sem deixar de ser original. O refrão, com pegada funk, sinceramente não me agrada por não se encaixar tão bem. Achei bastante criativo, porém não ficou tão coeso, soando como uma parte desconexa que causa bastante estranhamento. Mesmo assim, a música é boa. Ponto para as rimas, que ainda que a faixa apresente um refrão estranho, conseguem captar o ouvinte e deixar o todo bom.  Enfim, fica então uma mensagem de avanço, do progresso do artista na cena. Aqui não há tantas reflexões, parece mais um aglomerado de tudo o que foi falado; uma conclusão para encerrar a temática.




Castelos & Ruínas é um álbum incrível, que por ser simples, dentro de um mesmo conceito, demonstra as habilidades puras de BK, que brinca com os nossos ouvidos a todo momento. Cada artista tem o seu estilo e pensando nisso, o rapper demonstra a intenção de abordar de forma dual assuntos comuns, com uma reflexão sem tamanho. Ora, Clarice não tinha temas muitos variados; a maioria das obras dela eram muitas vezes sobre as mesmas coisas. Porém, o que a diferenciava, era a forma com que fazia isso, trazendo uma nova perspectiva cada vez que lançava um livro. Com BK é a mesma coisa. Ele pode falar do mesmo assunto, entretanto, pode ter certeza de que em cada música haverão novas referências, sentimentos e concepções. Nos Castelos que criamos e nas Ruínas que sobram das decepções, alguém observa tudo isso e engenhosamente escreve, pontuando certeiramente cada aspecto do comum, enquanto ludibria e se diverte com o ouvinte, sem perder de vista a própria mensagem e a melancolia. 
A introspecção no rap br ganhou uma obra-prima. 


El Psy Congroo. 

Ouça o álbum completo!



Ouça no Spotify:



Nome: Castelos & Ruínas
Artista: BK
Lançamento: 21 de março de 2016
Gênero: alternativo hip-hop, rap nacional
Duração: 43:51
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (90/100)

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