Pular para o conteúdo principal

Destaques

Mindhunter realiza uma análise profunda da psiquê humana e pode ser considerada uma das melhores séries do ano

Com produção de David Fincher, série mostra uma nova faceta dos serial killers e do gênero policial

Aprenda como não escrever um roteiro com Death Note (2017)


Fui uma das pessoas que defendeu com veemência o direito de Death Note não ser julgado antes da hora. Sabe aquele papo de Voltaire sobre, posso não concordar com o que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer?
Eu se quer tinha grandes expectativas, apenas esperava um filme mediano, que poderia dar uma viajada, mas conseguiria dentro do possível cumprir aquilo que se propôs. 
Porém, nem em meus pesadelos mais medonhos eu imaginei que seria uma produção tão ruim. Sim, passada toda a polêmica dos bastidores e agora, com o produto real em mãos, podemos afirmar: é horrível.
Mesmo assim, diante de tamanha revolta que deve surgir nos otacos de plantão, sou daquelas pessoas que consegue tirar conhecimento de qualquer experiência. Portanto, não vou fazer uma análise geral do filme, mas irei falar apenas de roteiro. Se esse filme serve para alguma coisa, além de desendeusar a santa Netflix, é para mostrar como um roteirista não deve escrever - e nesse aspecto, Death Note tem coisas bastante interessantes que podemos observar.

Death Note, tutorial de como não fazer um roteiro


O filme começa mostrando diversas cenas da escola e claro, o nosso protagonista. Esse pequeno comecinho é bastante interessante, pois temos a inserção de elementos dramáticos. Em qualquer história, o que é explicitado não deve ser a toa, deve servir para determinado fim. Ou seja, quando temos cenas do cotidiano dos adolescentes, mas de modo lento e até analítico, a função é logo no começo nos dar pistas sobre o que aquela história será e qual o ambiente/emocional dela. Pistas, quando falamos de cinema, não se restringem à apenas dicas de algo que vai acontecer, como por exemplo um crime, mas se trata também do uso subjetivo do audiovisual para nos levar a uma atmosfera.
Pois bem, nesse mesmo momento, conhecemos o protagonista. É interessante como fica claro que ele é um nerd, mas ao mesmo tempo, pelo menos aparentemente, não um nerd tão "certinho". Light (Nat Wolff) está vendendo as suas atividades para outros. Com um olhar você sabe que ele é inteligente e que, ao mesmo tempo, parece não ligar tanto para as convenções sociais.
Mia Sutton (Margaret Qualley) também tem certo enfoque. Esse enfoque é coisa básica de roteiro: além do protagonista, acaba-se jogando um olhar para outros personagens importantes, pois assim, quando algum fato acontecer, o espectador pode dizer: “Ah, esse é o fulano”. Geralmente esses personagens têm que ter características marcantes que os diferenciem. Aqui temos Mia,  que já revela um pequeno interesse em Light, e Kenny, o típico valentão de escola.



Light apanha, é pego pelo diretor da escola e vai para a detenção. Até aí tudo bem. Quem é mais hardcore, só aqui já deve estar apontando as diferenças com o material original, mas vamos falar melhor disso no tópico “Adaptação”, lá embaixo. Olhando isoladamente, só o filme até esses poucos minutos, há um bom potencial de ideias. Uma retratação diferente, que parece, só pelas pequenas pistas de inicio, saber o que está fazendo. Ledo engano.
Na cena seguinte, temos o garoto finalmente abrindo o Death Note. Aqui, já surge  o primeiro problema. Não sabemos quem é esse Light e por isso, não há nenhuma expectativa sobre o que ele irá fazer com o caderno. Saber quem ele é, não necessariamente implica em texto expositivo. Em suma, a interação do garoto com o caderno é importante para delimitarmos quem ele é e o que pretende fazer.  Obviamente essa relação de homem-objeto leva certo tempo e exige momentos mais amenos para retratar o autodescobrimento do personagem e as regras do Death Note (que depois são jogadas à torto e a direita sem muita preocupação). Entretanto, isso aqui não é uma série, não há tanto tempo para explanar os anseios e temores de Turner. O que fazer? É aí que Ryuuku entra. Ele não é um personagem, mas estritamente um combustível de impulso para as ações. Por mais que fique explícito a tentativa de tornar Death Note mais “humano” ou próximo de nós, a relação do protagonista com o shinigami é inverossímil principalmente por que o Deus da Morte não é um personagem. Ele não existe.



Quando eu falo de existência do personagem, eu falo da tridimensionalidade dele. Caso você não saiba, tridimensionalidade do personagem se refere à: contexto, psicológico e relacionamento. Ryuuku não atende a nenhum dos três, se restringindo muito apenas ao relacionamento, que não faz nenhum sentido sem pelo menos o psicológico ou contexto (o ideal é ter os dois).

Conhece a ideia de Deus Ex Machina? Eu falo muito sobre nas minhas análises, e provavelmente você já deve ter ouvido falar por aí. Deus Ex é uma ideia da Grécia antiga, de um Deus que surgia no final das peças para dar sentido e amarrar todas as pontas soltas do enredo. Ao longo do tempo, dentro do conceito de narrativa, esse termo ganhou um viés negativo, mas ele não se trata apenas de um defeito. Deus Ex Machina, se bem usado, pode resultar em histórias sensacionais que impactam com reviravoltas (o famoso plot twist).
Nesse caso, Ryuuku e o próprio Death Note são Deus Ex Machinas ambulantes; cartas na manga jogadas para levar ao que os roteiristas querem e agilizar a história. Um defeito gravíssimo, que já em proporções menores, causa um grande estrago; usado de forma abusiva, denigre qualquer qualidade.



Imagine a cena: um homem quer comer uma maçã, mas a maçã está no alto de uma árvore e ele não sabe escalar. Acompanhamos as suas tentativas de pegar a fruta, mas ele não consegue. De repente, ele pega uma tesoura grande e com o tamanho dela, consegue completar o pouco que faltava e corta o caule da fruta. O que essa cena te diz? Nada. Ela não tem impacto por que não temos contexto, muito menos psicológico nenhum, somente a ação.
Qual o Deus Ex Mchina? A tesoura, que saiu do nada, complementando a cena e desvalidando toda a aflição anterior do sujeito. Agora, adicione a ideia de que essa tesoura é sobrenatural e pode cortar qualquer maçã do mundo a qualquer distância. Sem o devido cuidado, isso se tornará apenas uma história de demonstração de poderes, ao bel prazer de quem escreve.
Daí vemos então que, essencialmente, a ideia de Death Note funciona por regras verossímeis que obrigam os personagens a jogarem um jogo mental. A existência do caderno resultaria em uma trama que terminaria em poucos minutos (como de fato acontece por aqui, necessitando adições de momentos desnecessários). Porém, a existência do caderno com dois personagens que sabem usá-lo, resultaria em uma trama de dedução. E isso é o que não temos. E veja bem, essa dedução deveria existir não por que é característica principal da obra original, mas por que o conceito exige. Existem diferentes formas para usar essa dedução, podendo até mesmo reinventar o que já conhecemos. Mas usar o Death Note para criar apenas um enredo de ação, sem o elemento dedutivo, cria uma história insossa, chata e forçada por não ter grandes motivações.



Logo também conhecemos o pai de Light (que eu nem sei o nome na adaptação americana), o típico pai autoritário e policial casca grossa. Mais uma vez, não sabemos quem é o personagem além da sua interação com o protagonista. Temos até resquícios disso, como quando ele conversa com o filho sobre o que acha do Kira, mas é só isso: resquícios. Fragmentos aleatórios, que são diminuídos para dar lugar a momentos visualmente chamativos e “excitantes”.
Como se não bastasse o filme não conseguir definir quem são os seus personagens, o que sentem e o que querem, temos a adição de Mia Sutton. Não preciso dizer que a personagem não é tridimensional. Porém, o problema maior é seu relacionamento com Light, que não faz sentido nenhum ou não temos material para acreditar em tamanho amor. O pior? O caderno entra ATÉ AQUI para dar sentido à esse romance. Daí temos uma mistura bizarra de romance colegial e assassinatos.

Tom de gênero


Em uma história, o clima (ou tom de gênero) é extremamente importante. Digamos que esteja decorrendo uma situação séria de um filme policial, você não pode enfiar uma piada ali, a não ser que seja algo intencional e construído para tanto. Mexer com diferentes tons de gênero exige uma grande habilidade da escrita, pois a tendência é ser algo forçado e bastante aleatório, com o perigo de desvalidar o que havia sido construído no tom anterior. E é exatamente isso o que acontece.
Por que o romance de Light e Mia é tão bizarro? Pois se calca em um objeto dito até aqui como macabro e que causa certos problemas, inclusive para os próprios personagens. Não há em nenhum dos dois uma perspectiva psicopata ou calculista (resultado de não haver o elemento da dedução), apenas ideias puramente emocionais de dois adolescentes. Colocar a matança de pessoas e um namoro como algo natural, além de ser extremamente bizarro, traz a tona o elemento comédia (tanto pela intenção do roteirista, quanto por ser galhofa mesmo).  

L, de longe, é o melhor personagem, talvez por causa do mistério envolta. Quando Watari surge, já ficamos impactados, pois esperamos que uma contraposição decente se dará à Kira, finalmente inserindo o elemento dedução. Mas veja só, nem um detetive renomado consegue inserir dedução nessa história. Fica tudo no disse me disse, eu acho isso ou aquilo, sem a construção dos planos. Em suma, o roteiro de Death Note é burro e totalmente pretensioso. Ele tem a pretensão de ser algo, mas não desenvolve-se. L, sem as suas deduções, não é ninguém.
Para completar, temos a adição da transformação do personagem, que tem todo o ar calculista (apenas o ar mesmo), se apresentando no final como alguém emocional. Não sabemos direito quem ele é, além das explicações breves. A sua dor não faz sentido para o espectador e sua reação exagerada não coincide nenhum pouco com a tal fama que lhe precede.



A cena em que ele entra na sala de estar dos Turner, absolutamente do nada, e começa a conversar, é simplesmente bizarra. Como o personagem conseguiu um mandato? Quais as intenções dele ali? Death Note não se preocupa com detalhes, aliás, além do clima da história (coisa que parece estar sempre como ponto principal; um exercício de diferentes gêneros), o filme não se preocupa com qualquer coisa, fomentando ações baratas.
O pior? É que há ideias interessantes. A trama de Watari não é de todo ruim e o momento que Mia se revela como calculista tem certo valor. Mas fica tudo nisso: ideias mal desenvolvidas. Se era óbvio que o filme poderia ter no máximo 2 horas, por que inserir tantos conceitos? (chupados não do mangá, nem do anime, mas da trilogia de filmes oriental). Resta então uma produção que atira para todos os lados sem acertar nenhum. Temos romance, temos comédia, temos terror, temos ação, temos “investigação” (sem dedução), mas nenhuma dessas coisas é bem desenvolvida, resultando em momentos, de novo, extremamente bizarros. A indecisão de Mia, na roda gigante, exemplifica bem: primeiro ela se revela uma psicopata calculista, depois volta atrás, age impulsivamente, para ser no final apenas uma garota qualquer. Existia ali um resquício de algo novo e impactante – e se ela fosse o verdadeiro Kira e estivesse apenas usando o Light? Pena que nada disso é levado adiante. O impulso de Turner para matar bandidos ser um relacionamento mal desenvolvido e não a sua tentativa moralmente questionável de ser o Deus do novo mundo, é o maior erro.
Ainda assim, o personagem ganha contornos interessantes no final, quando revela o seu grande plano para o pai. É uma dedução barata, mas depois de acompanharmos tanta coisa, fica até como um respiro. O melhor do filme de Death Note é o pior do anime.
A ideia final deveria ser o começo, que se fosse desenvolvida ao longo dos 100 minutos, seria muito melhor. Então, o grande clímax se resume em uma parte isolada, a do baile, não no filme todo, desvalidando grande parte do enredo anterior.  

Adaptação


Realizar uma adaptação de um material tão famoso e “renomado” (entre aspas por que tenho lá as minhas críticas ao mangá de Death Note) é complicado. Existem diversos elementos que uma produção dessas deve lidar. Alguns deles são:

1 – Memória afetiva: Death Note é uma obra recente, não tão antiga, que tem um público fiel que se lembra detalhe por detalhe. Isso influencia em como esse público verá essa nova versão.

2- Público geral: um filme tem que funcionar por si só. Death Note é um anime, o equivalente dele em live-action seria uma série. Um filme tem que ser redondo e escolher sobre o que irá focar.

3- Recorte: sendo assim, não tem como adaptar tudo, então obviamente o filme terá que fazer um recorte ou adaptar o que achar necessário. Fazer um recorte é muito melhor, pois há a possibilidade de desenvolver um tema decentemente. Agora, escolher o que achar necessário é mais perigoso, pois pode-se estar deixando de lado tramas relevantes.

Então, o que o filme faz? Nada. Não há relação com a memória afetiva dos fãs (apenas alguns momentos, que são sim bacanas, mas que por conta do desenvolvimento ruim, se tornam mais odiosos), não há uma história coerente para o público geral e nem um recorte. É uma porção de momentos aleatórios que os roteiristas acharam interessantes, que não adaptam e nem fazem sentido como obra isolada.
Somado a isso, há o quarto elemento, que considero crucial: identidade. Death Note, da Netflix, não tem identidade e o pior, deturpa a identidade da sua fonte original (quer dizer, a qual ele se referencia. Não tem como alterar o original, ele sempre estará lá). Se eu te perguntar, o que caracteriza Death Note, o que você me responderia? O caderno da morte? Debate moral? Ryuuku?
Eu diria que é a dedução. O caderno é só um objeto sobrenatural para inserir o que realmente importa: uma trama policial extremamente inteligente. Aliado a essa trama, tem a guerra entre os dois lados do espectro punitivo: Raito e L. No filme não há dedução e nem a preocupação de ser um filme policial investigativo. Eu poderia apontar diversos problemas de adaptação, mas o principal é a inteligência.
A busca de dar sentido em demasia para Light causa diversos problemas. Em uma ficção, sempre terá o elemento surreal que traz a tona problemáticas. O elemento surreal não é o Death Note, mas o caderno cair justamente nas mãos de um psicopata e surgir em contraponto a ele um detetive mega inteligente. Qual a graça de ler Sherlock Holmes? Vê-lo pegar Moriarty e lutar? Não! Vê-lo expor toda a sua dedução.
Por fim, outro elemento que anda lado a lado à dedução, é o debate moral. Não acho que ele seja o principal da identidade da obra, mas se torna o grande chamativo e tempero. Quem está certo? Não existe nada disso aqui, nenhum debate ético e moral, muito menos filosófico. De novo, há um certo resquício ali, quando Raito observa que os estudantes/pessoas comuns precisam de um Deus, mas é só isso. Um pequeno momento frente a obra original que é inteiramente assim, e mesmo nos momentos em que esquece disso, ainda há a dedução como suporte.

Conclusão


Eu chamo essa coisa de preguiça. Obviamente nenhum dos roteiristas tiveram a decência de pelo menos olhar o material original e provavelmente se apoiaram nas bizarras adaptações japonesas. Isso é desculpa? Muito pelo contrário! Ainda assim, sem nem ter lido Death Note, era possível criar um filme coerente, mesmo que fugisse totalmente do que é a obra original. Não seria Death Note, mas poderia ser uma visão interessante do uso do caderno. Nem isso temos.
Sinceramente? Não sei como a Netflix, que é tão atenta à roteiros, deixou passar algo do tipo. Parece que foi escrito por um roteirista adolescente amador, preso em visões estereotipadas, sem nenhuma noção de estrutura narrativa, muito menos adaptação. Pelo menos serviu como exercício de análise para percebermos o que não deve ser feito. Então, da próxima vez que falarem "o filme de Death Note não serve para nada", diga que você pelo menos aprendeu como a não escrever um roteiro. 

El Psy Congroo.

Nos siga nas redes sociais! Facebook e Twitter

Comentários

Postagens mais visitadas