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A gigantesca, filosófica, simbólica e surreal barba do mal


A Gigantesca Barba do Mal, graphic novel best-seller do New York Times de autoria de Stephen Collins, pode em um primeiro momento parecer uma história infantil e, até certo ponto, se levarmos em conta sua simplicidade, de fato é. Entretanto, essa tal simplicidade não existe para nos trazer uma história mastigável e fácil de ser digerida, muito pelo contrário, é um enredo totalmente complexo de ser absorvido.

Na trama, conhecemos Dave, um assalariado solitário que vive sua vida de forma regrada, assim como todos os habitantes de Aqui (no original em inglês, “Here”). Aqui é onde a vida parece perfeita, sem caos ou desordem; até as árvores são perfeitamente podadas para não ocasionarem nenhum problema para as pessoas, seja no visual da cidade ou como empecilho no caminho. Já Lá (There), é o desconhecido, onde poucas pessoas se atreveram a desbravar e as que tiveram a coragem, nunca mais voltaram. Sendo assim, para entendermos o problema principal de A Gigantesca Barba do Mal, é preciso ter em mente um conceito importante sobre liberdade: só sabe o que é ela quem teve um vislumbre de perto, por isso, um pássaro criado em uma gaiola não sabe o que é o céu – para ele, aquela gaiola é tudo o que existe.


Portanto, não é de se admirar a surpresa que ocasiona o crescimento da barba de Dave. Num dia qualquer, depois de um problema cotidiano, começa a crescer no rosto do homem uma barba que logo se torna gigantesca, aparentemente sem fim, chegando ao ponto de ameaçar a segurança da cidade; talvez da humanidade. Se superficialmente temos uma trama meio maluca, com começo, meio e fim exatos, profundamente temos uma história existencial que questiona, como já dito, a liberdade, a felicidade e as convenções sociais. Todo esse processo de transformação está estampado não só no personagem, que passa a ter outra visão sobre as pessoas ao seu redor, ou nas palavras que vão saltando para fora dos desenhos, mas também nos próprios quadros. É interessante a forma como Collins constrói a obra – o texto é sim importante, mas é econômico, muito bem dosado, enquanto o tema em si se mistura indescritivelmente com as ilustrações. No início os quadros são perfeitamente alinhados, contidos e as páginas bastante limpas, as vezes com um excesso de claridade. Até o final, a barba traz um caos não só para cidade, mas para o próprio gibi, que não se contém mais, explodindo em uma loucura ordenada dentro dos balões e quadros perfeitos.


Se observamos com cuidado, Dave sempre foi um sujeito solitário, soando até um pouco triste. Mas essa tristeza ou vazio, não era clara para ele, pois não havia referência para tanto. A barba é produto direto do lado de Lá, fruto do desconhecido e do questionamento; da consciência do ser humano a respeito de si mesmo. Só esse conceito, tão profundo, seria o bastante para termos uma ótima história, mas Stephen Collins vai mais a fundo e nos mostra, de forma cínica e até irônica, como a sociedade lida com esses questionamentos. Em suma, é só uma barba, o que há de mais? A importância não está na coisa em si, mas no valor que lhe é dado como símbolo – e é nisso que Dave se torna, um símbolo. Existe até uma certa ousadia em A Gigantesca Barba do Mal de representar a história da humanidade; ainda que não saia dos arredores de Aqui, o gibi mostra o processo de desenvolvimento humano, que passa sempre pela ignorância e mudanças radicais, para voltar de novo ao conformismo. Claro, essas críticas ou percepções não são claras, dependendo do leitor para se fazerem presentes. Uma criança pode olhar aquele barbudo estranho e achar engraçado, assim como um adulto pode achar desolador. E isso, é o que torna a obra genial. Há temas muito importantes sendo tratados, mas sem nenhuma planfetagem ou exposição em demasia; a história existe por si só e está ali por inteira, em cada página, de forma minuciosa nos pequenos movimentos dos habitantes de Aqui.  

Como se não bastasse ter tanta densidade subliminar, há ainda espaço para falar de forma natural sobre a mídia, exposição e indústria. Cabe aqui uma crítica à sociedade capitalista atual, mas sem parecer uma crítica, apenas uma demonstração da realidade: em tempos onde as curtidas no Instagram valem mais do que o elogio de um amigo, fica nítido o pouco valor dado a Dave, o homem, e não a barba.


Por fim, a editora Nemo nos presenteia com uma ótima edição. Em seu tamanho 24 x 17 x 1,8 cm, A Gigantesca Barba do Mal tem um cuidado especial, nítido na tradução (que não precisa ficar enchendo notas de rodapés, mas também não deixa trocadilhos importantes sem entendimento) e um acabamento brochura bastante resistente, porém maleável, que torna as 240 páginas em algo leve de ser carregado. Ainda que seja em preto em branco, existe um cuidado especial no tom das cores, pois é preciso deixar nítido o aspecto autoral do traço, quase rabisco. E bom, temos isso: um acabamento interessante, que consegue se equivaler à edição original por imprimir de forma orgânica o modo caricato, até infantil, que o autor cria o próprio mundo, mas ainda sim meio sujo, todo rabiscado. Uma dualidade entre claridade e escuridão que não poderia ser negligenciada (veja como o tom da barba é mais escuro e forte, diferente, por exemplo, das próprias pessoas).


Sendo assim, temos em mãos uma obra que é uma crônica dos novos tempos, com aspectos de fábula fantasiosa, mas que trata estritamente do comum; o simples, tudo aquilo que nos rodeia. Os desenhos complementam esse enredo de forma intuitiva e inteligente, formando uma narrativa bastante simbólica, entretanto, totalmente clara, sem ser demasiadamente pós-moderna: você precisa refletir para apreciar o conteúdo, porém não é algo jogado à interpretação. Existe uma mensagem a ser passada, cheia de suas ironias e dualidades, que fica nítida em cada acabamento gráfico, página, palavra e pelo. 

El Psy Congroo.

Nome: A Gigantesca Barba do Mal
Autor: Stephen Collins
Ano: 2013; edição brasileira de 2016
Editora: Nemo
Encardenação: brochura
Tamanho: 24 cm x 17 cm x 1, 8 cm

Número de páginas: 240

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