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A figura tragicômica do palhaço como exercício de direção em Bingo


Demorei algumas horas pensando em como começar esse post e sintetizar todos os meus sentimentos a respeito desse filme. São muitas coisas a se falar de uma produção que mexe tanto com o emocional do espectador. No final, não consegui. Mesmo assim, vou tentar passar um pouco do meu turbilhão de perspectivas, nem que seja 1%, a respeito desta singular obra brasileira.

Direção e fotografia

Bingo, a primeira vista, pode parecer apenas outro filme nacional sobre biografia, mas tem em seu cerne identitário uma tentativa de ser mais do que uma representação do palhaço mais querido do Brasil; ele tem por objetivo ser uma análise psicológica de Augusto Mendes (referência direta à Arlindo Barreto, interprete do Bozo), usando símbolos audiovisuais para nos imersar em um mundo cheio de tonalidades e cores.
Portanto, partindo da perspectiva comum de obras nacionais, a produção decide transformar a si mesma em um conjunto de referências aos anos 80 com uma clara assinatura autoral. A grande crítica em torno dos filmes brasileiros, nem falo das comédias, é o quão genérico se tornam, acabando por em algum momento virarem filhos mais enxutos das novelas. Aqui isso não acontece, do começo ao fim identificamos os sentimentos do próprio diretor, Daniel Rezende, que assina a direção com uma originalidade quase literária. Literária no sentido de que percebemos facilmente a sua voz, havendo um cuidado especial com cada movimento, plano, corte e símbolo.

De cara podemos perceber as cores. Augusto (Vladimir Brichta), enquanto pai maluco beleza que luta para se destacar no mundo da atuação, é inserido em um mundo cinza, com o ar típico dos anos 80 dotado de uma parcimônia visual. A fotografia, em ambientes "reais", gira em torno dessas cores claras, sem muita vida ou apenas comuns. Há, então, uma mudança quando Augusto está junto de seu filho, Gabriel; surge um realce a essas cores, levando-as para um aspecto mais alegre; até mesmo puro.
Entretanto, contrapondo esse constituição, logo temos o contraste da luxúria, já explícito nas primeiras cenas, quando o menino vê o pai atuando em uma pornochanchada. A luxúria em si, quando pensamos nela, geralmente se caracteriza por cores fortes, principalmente em tonalidades de vermelho e preto. Esse aspecto, mais imaginativo, é contido para depois explodir descomunalmente quando surge o palhaço Bingo.
O cenário de Bingo se apresenta também com cores fortes, mas artificiais. Interessante notar como essas cores também caracterizam a devassidão de Augusto, entretanto, de outra forma. Ali, na televisão, há o Bingo, o amigo das crianças; a alegria existe em excesso comedido para trazer o sucesso da emissora TVB. Esse excesso é extravasado nas noitadas, que vão ficando mais e mais sombrias.
Não há uma moral exacerbada a respeito das drogas, e isso é ótimo. Esse aspecto é inserido de forma natural, quase como se atestasse apenas a loucura dos anos 80, para aos poucos ir se tornando mais frequente até culminar em inevitáveis tragédias.

Porém, nem só de cores é este filme. Temos uma fotografia belíssima, com planos sequência acertados e uma edição primorosa. Perceba como cada corte rapidamente leva certeiramente a outra cena, com uma precisão absurda. Pudera, Daniel antes de ser diretor era editor, e inclusive tem em sua estante um Bafta. Ou seja, fica perceptível o planejamento minucioso de cada momento pensando já no produto final. E o mais importante: nada existe a toa; tudo faz sentido, havendo um ótimo trabalho com os símbolos. É o caso, por exemplo, dos diversos momentos entre Augusto e seu filho. O simples gesto, do garoto beijar o nariz do pai, se transforma na marca do palhaço na tv, para depois se transformar em uma característica artificial que entristece o menino ao ver o mesmo homem que tanto lhe dera atenção, se relacionando com tantas crianças e lhe deixando de lado.
Nesse quesito, direção e fotografia, quero destacar duas cenas emblemáticas: a primeira, quando a luxúria vai atingindo o seu ponto máximo e culmina no fim do Bingo. Nesse momento, Augusto, calmamente anda nos bastidores enquanto as luzes se apagam. A câmera parece inclinar para um plano holandês, o sinal clássico do cinema que demonstra estranhamento; mas, ao invés de inclinar, a câmera deita de vez, nos informando que aquilo tudo já passou do estranhamento e se direcionou para o declínio.
A outra cena é o plano sequência que sai do apartamento do ator, dá uma volta por São Paulo, e volta para o mesmo sujeito, dessa vez em um quarto de hospital. Bingo, por incrível que pareça, é também um exercício imaginativo da representação da mente humana.

Roteiro e atuações

As pequenas particularidades, mesmo que essencialmente visuais, não são trunfo apenas da fotografia, mas também do roteiro, que sabe como construir bem as suas personagens em cima desses símbolos. Temos, obviamente a figura tragicômica do palhaço, que tem também como base o arquétipo do ator desgraçado; o sujeito que leva a vida como um palco.
Sendo assim, se há um exercício extraordinário de direção, a escrita se destaca nas falas. Os diálogos são naturais e ao mesmo tempo essenciais para compreendermos a psiquê de cada pessoa. A figura de Lúcia (Leandra Leal), por exemplo, tem uma postura durona desde o início, o contraponto de Augusto. Quando é revelado que ela é uma religiosa fervorosa, não há surpresa; tudo faz sentido com o que foi apresentado.
Portanto, cada um, mesmo que em doses diferentes, tem uma identidade única permeado por tonalidades cinzas. Até mesmo o filho de Augusto, uma simples criança, se vê em uma dualidade emocional entre a fama do pai e o fato de não poder contar para os colegas quem é o tal Bingo.

Neste cerne, há a figura da mãe do protagonista, Marta Mendes (Ana Lúcia Torre), uma atriz que há muito tempo fez sucesso, sendo posteriormente abandonada, por conta da idade, pela emissora Mundial (nem preciso dizer qual é a referência). Aqui, ela exerce uma influência imensa no protagonista, sendo uma figura de amor; mãe. Claro, ela mesma tem os seus conflitos, mas é de longe quem mais importa para Augusto e por isso, não a toa, é usada como trampolim de mudança de perspectiva, tornando o excesso em degradação. É um recurso de roteiro bem acertado, pois a personagem não é só um objeto de mudança, mas um ser, que existe em seus temores, constituindo-se de um grande peso no drama da história.
Pois veja bem: Bingo tem em seu dna a comédia. Esta, é muito bem dosada, acertando o núcleo daquilo que faz os brasileiros rirem. Seria um tanto quanto estranho se ao falar tanto do que atrai a atenção da audiência, o longa​ não conseguisse ter essa leveza. Por sorte, ele não só tem, como trabalha primorosamente com o politicamente incorreto sem jogar fora as palavras. Como fica explícito na perspectiva de Augusto, o Brasil não é para principiantes; o brasileiro gosta do excesso, do extremo proibido. E, sendo assim, Augusto e sua libertinagem como filosofia de vida, é a unificação deste extremo.


Porém, mesmo com o humor tão certeiro, o filme tem que continuar contando uma história, cheia de mudanças de gênero; acima de tudo, também deve emocionar. É aí que o drama entra de forma parcimoniosa, inserido entre as cenas para aumentar gradativamente. Quando ocorre a virada do roteiro, há um enorme contexto que já estamos acompanhando.
Portanto, pensando nisso tudo, a minha critica principal fica para a sequência final. Claramente enxuto para caber nos 113 minutos, Bingo decorre de uma forma rápida, não extrema, mas sem tanta atenção para os sentimentos de suas personagens. Por grande parte da história vemos a libertinagem do protagonista e por isso, a mudança brusca, ainda que tenha um contexto mínimo de perspectiva de vida, é uma virada artificial. Claro, há a tal virada dramática do roteiro, mas ela não vem munida de um tempo a mais junto do personagem para entendermos direito o que o levará ao outro lado da moeda. Fica então um gosto meio amargo de autoajuda otimista, mas que não é tão forte por conta de uma produção majoritariamente doce e pessimista.

As atuações são no ponto certo. Mesmo as personagens secundárias têm uma presença relevante. O destaque, entretanto, fica mesmo para Vladimir Brichta. Leandra Leal também se sai muito bem como coadjuvante, mas Vladimir carrega o filme nas costas com uma primazia surreal, de alguém que une certeiramente o humor caricato com o drama introspectivo. Facilmente a sua figura nos remete a tantos “palhaços” tristes, como Robin Williams, que em suas loucuras, perderam-se em diferentes caminhos. O roteiro munido da presença do sujeito constitui em uma grande força; ora, basta Augusto em meio a uma festa monótona para arrancar a gargalhada de todo o cinema. Pode parecer natural, mas fazer humor profundo não é fácil.

Conclusão

Bingo, ainda que tenha os seus erros, é uma grande obra do cinema brasileiro e uma estreia estupenda de Daniel Rezende na direção. O longa consegue trazer a nostalgia dos anos 80, contar uma história impactante, ser uma relevante produção artística e nos fazer chorar e rir; mas, acima de tudo, transforma o espectador em plateia, com as luzes no palco da vida. Se vivemos em uma peça de teatro, Deus e o diabo constantemente assumem a direção, nos levando a inusitados caminhos; hora somos o palhaço, hora somos humanos comuns sem muito a acrescentar. Em algum momento, as duas figuras se misturam, e pode ser que os personagens que tanto carregamos não mais sejam atuações. Quem sabe? Bingo não é só uma história sobre o passado, mas um enredo tão atual quanto nossos smartphones e frieza comunicacional.

El Psy Congroo.
Nome: Bingo - O Rei das Manhãs
Lançamento: 25 de agosto de 2017
Diretor: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Cauã Martins, entre outros
Duração: 113 min
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (90/100)

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