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Castlevania da Netflix - Não é o jogo que os fãs queriam, mas uma animação mais do que à altura da franquia


Castlevania dispensa apresentações, e apesar de ser uma franquia tão amada infelizmente parece que vai cair no limbo infame da Konami, sendo reduzida à maquinas de pachinko e coisas do tipo. Entretanto, parece que alguém ainda está interessado em fazer algo de qualidade com a franquia, pode não ser um novo jogo, porém esta produção da Netflix é ao mesmo tempo um tributo ao legado de Castlevania e uma animação que superou todas as minhas expectativas.


Fazer uma animação de Castlevania III, um jogo de NES, é uma decisão estranha. O nome da franquia pode valer ouro, mas o foco dos jogos raramente foi a história, salvo alguns dos títulos mais novos. A franquia possui uma variedade grande de conceitos, porém eles são só isso - conceitos, o enredo sempre foi extremamente superficial, sendo uma desculpa para podermos visitar ambientes góticos lotados de criaturas mitológicas. A Netflix resolveu esse problema de uma forma muito engenhosa: tudo que os jogos construíram ao longo de tantos anos se tornou a base da história, enquanto essa em si é algo novo e bem diferente do que estamos acostumados a ver num Castlevania.

Por exemplo, vejamos o Drácula da série - essa é a versão mais humanizada dele em toda a franquia, porém ele não difere tanto assim do que nos foi mostrado nos jogos, a abordagem do personagem pode ser superficial, entretanto o conceito do Drácula na franquia sempre retinha algumas características notáveis - ele é alguém que despreza a humanidade, um homem culto, calmo e diria até cansado do mundo. A partir dessa ideia que somos apresentados a um Drácula muito mais simpático, porque finalmente conseguimos entender com mais clareza o lado dele, um Drácula que ama uma mulher e teve um filho com ela, e a presença do romance dele é muito importante para entendermos um pouco como essa animação está sendo feita; veja bem, a esposa de Drácula até onde eu sei nem era mencionada nos primeiros jogos, só fomos ver e entender ela melhor anos depois em Symphony of the Night. É importante reparar nisso porque apesar de Castlevania III ser o foco, por meio dessa abordagem elementos de outros jogos estão sendo integrados ao enredo, e isso é ótimo, pois o Alucard por exemplo ganhou muito mais conteúdo a ser desenvolvida, afinal seu conflito com o pai já era coisa velha, entretanto a presença da mãe no centro de tudo é coisa de Symphony e é justamente lá que as desavenças dos dois são mais interessantes. Essa mistura de conceitos fica ainda mais clara quando percebemos que o visual dos personagens é muito mais inspirado nas ilustrações de Ayami Kojima do que em suas versões originais do NES, aposto que pouca gente sabia que o Alucard naquela época parecia um Belo Lugosi genérico,


Olhando essa reverência ao legado da franquia acho difícil dizer que essa animação não é um tributo, até onde pude ver ela não descarta nada para construir sua história original, em vez disso conceitos já conhecidos são expandidos e aprofundados como nunca antes vistos em Castlevania. E isso não se aplica só ao Drácula, gostei muito do que fizeram com o Trevor Belmont também, um personagem que era definido somente por duas características passou a ser muito mais, essas sendo: ele é um caçador de monstros e um excluído da sociedade, pois começaram a temer os Belmont por causa de seu "poder". Transformaram ele em um bêbado desmotivado, uma alma torturada e também um odiador das políticas da igreja, sem descartar sua habilidades como lutador. A tendência é pegarem personagens conceituais e humanizá-los, afinal é assim que se cria personagens interessantes, dando a eles conflitos e tempo para mostrarem ao telespectador quem são eles e como eles lidam com o mundo.

[Indies que você tem que jogar] Odallus e seu ambiente sombrio


Alguns temas tendem a se repetir durante os jogos, sendo eles: violência, estilo gótico e monstros horrorosos. Felizmente a animação parece entender os três muito bem, fiquei impressionado com o quão bem Gesit passa aquela sensação de decadência, parecendo até um cenário retirado diretamente dos jogos, e o que mais me deixou feliz é o fato dos animadores não pouparem nem uma gota de sangue, o marketing foi feito em cima da violência e no final eles entregaram o que prometeram. E já que estamos aqui vamos falar sobre a animação e já vou te adiantar algo: ela está excelente. Pode-se dizer que em alguns momentos ela sofre com aquela crise de tela estática comum em animes, onde o personagem fica parado falando e na verdade nada está sendo animado, mas isso não diminui a qualidade quando há ação, não economizaram nas cenas que necessitam desse tipo de cuidado, e não tem como falar da animação sem mencionar o estilo artístico que parece um anime super sombrio. Ayami Kojima com seu estilo melancólico e sombrio provavelmente foi a melhor artista visual de toda a franquia, e fico feliz em ver que a animação lembra mais ela do que as ilustrações estilo Conan da época do NES.
Assistam a abertura da série e me digam se o negócio não está foda.

Outra surpresa foi o mundo ao redor do castelo também ser importante, coisa que não é inédita mas que geralmente não acontece nos jogos, entretanto a maior surpresa foi ver que durante a maior parte do tempo Trevor está envolvido em conflitos com humanos em vez de estar matando monstros adoidado como acontece nos jogos, isso demonstra o quanto a série foca no desenvolvimento de seus personagens em vez de nos encher com milhares de lutas, que é como os jogos funcionam, as coisas não são apressadas em prol de uma luta climax clichê com algum grande inimigo. Não me entenda mal, essa abordagem lotada de luta funciona muito bem para um jogo e talvez não tão bem para uma história. Vale ressaltar que até as lutas tem um quê inesperado, porque o Trevor não é tão overpower quanto se espera de um Belmont, ele luta com inteligência, usando da astúcia, agilidade e armas diferentes, em vez de simplesmente sair por aí descendo o chicote em tudo que se move.

De tantos jogos por que escolheram Castlevania III? Por que não o Symphony of the Night que é o favorito dos fãs? Ou Lords of Shadow que é a entrada mais recente na série? É porque Castlevania III possui uma ferramenta distinta que os roteiristas podem fazer uso, ele possui a presença de um grupo de protagonistas em vez de um herói solitário, e um desses protagonistas convenientemente é o Alucard, talvez o personagem mais famoso de toda a série. Ou seja, de um ponto de vista prático e de marketing essa decisão era a melhor, com ela é possível construírem dinâmica na interação entre os personagens, o que seria uma tarefa difícil em uma adaptação do Symphony porque o protagonista está sozinho quase o jogo todo, além de assim poderem incluir um personagem muito amado pelos fãs.


Sinceramente eu não esperava nada dessa animação, Castlevania é uma franquia em decadência, então quando vi o primeiro episódio fiquei extremamente animado de encontrar uma experiência nova. Talvez isso seja um bom sinal, talvez essa animação ajude a Konami a ser menos intratável com suas franquias mais famosas se o feedback for positivo, aliás está sendo muito positivo, eles jogaram muito seguro fazendo só 4 episódios, levando em conta o histórico recente de cancelamentos da Netflix faz sentido, porém no segundo dia já confirmaram uma segunda temporada. Especular o efeito a longo prazo é muito difícil, mas o que eu posso dizer da primeira temporada é que tudo foi muito bem executado e que há muito potencial pela frente, se você é fã da série e estava em duvida, ouça a mim, outro fã, dizendo o quanto gostou, e se você não é um fã da série também vale a pena, não há nada ali que precise de conhecimento prévio para ser compreendido, pois como eu disse muito cuidado é tomado na hora de mostrar a história.

Hora do capitão referência, repare como poster da Netflix no começo do meu post é "uma miserável pequena pilha de referências", como diria o Drácula.

Only Darkness Will Remain.















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