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O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

178 anos de Machado de Assis: a importância da trilogia realista


Este ano é o aniversário de 178 anos de Machado de Assis e já que surgiu a oportunidade, me bateu a vontade de tirar da gaveta um post que planejava fazer há meses: analisar a trilogia realista. A ideia tem base não só por conta do aniversário do maior escritor brasileiro, mas por ao longo dos anos eu me deparar com análises, percepções e julgamentos errôneos sobre sua obra. Claro, não digo que estou 100% certo, longe disso, mas passei pelos dois espectros de leitor, aquele que odeia Machado de Assis e aquele que ama com todas as forças e por isso, posso analisar como alguém que compreende quem não compreende. Será que ao longo do tempo eu adquiri tanta bagagem intelectual ao ponto de entender a complexa escrita do século 19? Não exatamente. Veremos, por toda essa análise, um atributo repetido várias vezes e várias vezes, muito além da filosofia e ironia: a simplicidade.
Sim, Machado é extremamente simples e direto; eu diria até popular. Mas calma, que vamos chegar lá. Primeiro vou começar delimitando o contexto.

Sobre o realismo
Auto-retrato de Gustave Coubert, uma das obras icônicas do realismo
Para falar sobre realismo, primeiro devemos entender o que é.
De acordo com o Dicionário Online de Português, realismo é: "Sentido do real; apego à realidade, ao concreto; atitude prática de quem encara de frente a realidade, evitando que abstrações ou fantasias intervenham em sua conduta; senso comum, bom senso: enfrentar uma situação difícil com realismo.". Com essa ideia em mente, vamos não apenas falar de "realidade", mas de um movimento.
O realismo surge como uma oposição ao romantismo e ao neoclassicismo, principalmente na França, no século XIX. Em síntese, as concepções anteriores retratavam a realidade de forma fantasiosa, de acordo com os preceitos morais elevados. O realismo se preocupa em justamente destrinchar essa fantasia e tentar retratar a vida como de fato ela é. Claro que vai vir embutido aqui as visões dos autores, muitas vezes carregadas de humor, críticas e pessimismo. 
Machado de Assis não inventou o movimento realista, mas foi um dos mais importantes autores dele e sua trilogia um marco do movimento no Brasil. Obviamente Machado era antenado com a literatura estrangeira, principalmente a francesa, e por isso devia ser influenciado pelas mudanças culturais. Entretanto, apesar de fazer parte de um movimento estrangeiro, o que vemos em sua obra é uma literatura bastante original e totalmente brasileira, com um humor tipicamente nacional. O impacto foi imenso, pois a moda em voga anteriormente era o romantismo e o próprio Machado era conhecido por seus livros romancistas. Imagine a reação? Acostumados com um tipo de livro, de repente ao lerem Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro, a elite carioca esperava apenas outro livro bem escrito com a típica estrutura romântica, mas se depararam com uma história sem final feliz e longe daquilo que é considerado "romântico".
Assim, podemos começar a mensurar o impacto dessa trilogia. Se antes havia uma estrutura a ser seguida, Machado quebra totalmente essa estrutura, para criar obras que navegam entre o real, o imaginário e o psicológico das personagens, sendo muito denso, mas com uma escrita leve e ironia cativante.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

O marco inaugural do realismo brasileiro não poderia ser mais emblemático: a história de um morto escritor (não um escritor morto) é mórbida por si só. Já temos a quebra total com o romantismo a partir do conceito da história e também a quebra da quarta parede - Brás Cubas fala diretamente com o leitor, mesmo estando em algum lugar do pós-vida. Podemos esperar então uma história densa, diretamente de um morto? Errado. O que temos é um retrato ácido da elite carioca, escrito justamente por alguém que fez parte dela. Essa ironia ácida é tão sutil, mas tão sutil, que mesmo em sua época, onde deveria ser mais sentida, passou em grande parte batida. Elogiavam bastante a obra de Machado, mas o criticavam por não "assumir uma posição". Vale ressaltar que mesmo essa trilogia sendo parte principal do dito realismo brasileiro, muitos questionam se de fato o autor é realista. Claro, a mudança de postura, com visão pessimista, frente ao mundo é óbvia, mas enquanto o realismo (o movimento por inteiro), se preocupa em traçar razões para os motivos das personagens, Machado vai justamente pro lado contrário e não se preocupa em "construir" a realidade. Na verdade, ele quer mais é confundir.

Em Brás Cubas temos, talvez, o livro mais bem humorado de Machado. Lembro-me de, no ensino médio, encarar as primeiras páginas como um bicho de sete cabeças de uma literatura complexa. Ao rever a obra, encontrei justamente o contrário: gargalhei do inicio ao fim. Memórias Póstumas é uma ironia do inicio ao fim. Veja bem: temos um personagem da elite carioca bastante egocêntrico que revela os valores mais perturbadores da época. Por exemplo, é natural para Brás Cubas olhar para a moça, que tanto almejava, e se perguntar o clássico: "Porque coxa se bela? Porque bela se coxa?". Para o personagem é natural julgar as pessoas, e mesmo que se esconda por trás de uma falsa moral, no final ele apenas desfruta da beleza da menina de forma secreta, já que seria uma vergonha namorar uma coxa. Essas sutilezas constroem todo o livro e é preciso atenção, mas se você conseguir perceber essas nuances, com certeza verá como é um livro cômico.
Se notarmos com atenção, até a escrita muda por conta do narrador: ela é bastante simples com relampejos de profundidade excessiva por causa da pretensiosidade de Brás Cubas. Em alguns momentos, é possível perceber que o personagem não quer dizer nada. Isso mesmo! Ele apenas está se exibindo. Quando Cubas cita os versos que criou, chega até dar dó, pois são ridiculamente ruins.

Já me deparei também com muitas pessoas afirmando algo do tipo, "ah, simplesmente não acontece nada nesse livro". Concordo e discordo dessa afirmação. Primeiro: se você leva Memórias Póstumas como um denso livro sobre um morto contando as lamúrias da vida, até onde seguiu a sua leitura, você não compreendeu a proposta. Segundo: sim, em muitos momentos não acontece nada, pois essa é justamente a vida de um homem comum. Brás narra com entusiasmo tudo o que acontece, como qualquer pessoa faria ao contar sobre si mesmo; porém, fica perceptível que a sua vida é vazia e sem nenhum acontecimento. O máximo de emoção que temos é a traição com Virgília. Para corroborar mais ainda meu ponto de vista, basta ler o parágrafo final: "Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
Ou seja, se não fosse esse livro (colocando Brás Cubas como "real"), o personagem simplesmente passaria despercebido pela história humana.

Quincas Borba

Quincas Borba é um livro que agrega mais ao gênero que eu chamo de "loucura machadiana". Na obra de Machado, é perceptível a preocupação com o que é ser são e o que é ser louco. Sendo assim, temos aqui um retrato, mais uma vez, extremamente irônico sobre a elite carioca, porém, sob o olhar de um "estrangeiro". Rubião, personagem principal, é mineiro e além de tudo um "plebeu". Da noite pro dia herda a fortuna do amigo Quincas Borba e assim, decide se meter na corte do Rio de Janeiro. Ao longo do tempo, ele terá sua sanidade colocada a prova conforme fica cada dia mais pobre. Visto isso, aqui há uma visão bastante clara sobre os interesses do outro - você só interessa para a sociedade quando tem dinheiro.

Ainda que Quincas Borba tenha momentos ótimos e seja um interessa retrato da soberba humana misturada com a loucura, para mim ele é o mais fraco dos três livros. Há um exagero em demasia, injustificável por ser em terceira pessoa. Ficamos muito presos na estranha relação de Rubião com Sofia e seu marido Palha, adentrando momentos que não importam tanto. Ainda existe o humor , mas de forma muito mais leve, comparado com Brás Cubas, e claro, o psicológico bem trabalhado das personagens; entretanto, Machado me soa confuso, sem ter um ponto exato para onde levar as personagens. Então ele gasta muito tempo exibindo as relações complexas da elite carioca, mas a parte mais interessante, que é o declínio de Rubião, é rápido demais. Fica, por fim, o gosto das páginas finais, mas se analisarmos o todo, há coisas que poderiam ser enxutas.

Vale lembrar que há relação direta deste livro com Memórias Póstumas de Brás Cubas por conta de Quincas Borba, mas só isso mesmo. A história é totalmente independente.

P.S.: Quincas Borba, melhor nome de cachorro hahaha

Dom Casmurro

Em Dom Casmurro o tema loucura é explorado novamente, mas desta vez sobre o amor. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas tínhamos a visão de Brás, com a sua própria construção de mundo - Dom Casmurro não é diferente, até mais profundo, pois há uma extrema relativização da realidade. Mais uma vez, temos uma história simples: o caso de amor de Bentinho e Capitu. Interessante notar que a obra só tenha sido "entendida" recentemente: em sua época, o livro era considerado de forma literal; Capitu traiu Bentinho e pronto. Só com o movimento feminista, nos anos 70, que uma nova interpretação surgiu - e ela faz total sentido. Nessa segunda interpretação, Capitu não traiu Bentinho e tudo o que acontecia, era fruto da mente louca do marido. Alguns podem dizer que é apenas uma interpretação, mas ao analisar o livro, vemos todos os indícios ali. Isso torna essa visão certa? Não! Apenas dá mais caldo para um assunto que já era bastante discutido. Existe até uma terceira versão, que diz que Bentinho na verdade era gay (e também faz muito sentido).

Acho curioso que me deparo com mais pessoas repudiando Memórias Póstumas e amando Dom Casmurro, sendo que Dom Casmurro é mais difícil de se digerir. Memórias é uma comédia e, portanto, mais leve. Será que o começo metafísico afasta as pessoas? Não sei dizer, mas vejo Dom Casmurro como um livro mais pacato. Sim, o outro falava simplesmente sobre a vida de Brás, porém havia o humor. Aqui não há isso, ficamos capítulos e mais capítulos adentrando a visão de Bentinho, seja em casa ou no reformatório. Em um primeiro momento pode ser até tediante, e a meu ver, é necessário existir certa base de experiências no leitor. Se a pessoa que está lendo nunca passou por um profundo relacionamento amoroso, provavelmente não conseguirá chegar na segunda impressão. A segunda impressão se trata de perceber como é bem construído essa complexa relação, onde a desconfiança cresce a cada instante. Ficamos desconfiados antes de Bentinho, mas quando este fica, nos perguntamos se não é exagero da parte dele. Claro, deve ter quem leve tudo a conclusão final imediata (ele está sendo traído e pronto), mas a graça mesmo dessa leitura é ficar se perguntando o que de fato está acontecendo.

Outro ponto, que merece ser ressaltado mais uma vez, é a construção das personagens. Bento é o personagem principal, porém não é o mais simpático. Hora concordamos, hora repudiamos suas atitudes. Em muitos momentos me vi na pele dele, mas em outros simplesmente achava o personagem um idiota. É incrível essa capacidade de escrita do Machado de Assis, pois o personagem, mesmo sem uma descrição física detalhada, é humano (no melhor sentido metafísico). Para completar, Capitu, Escobar e os outros personagens, são bastante carismáticos e os conhecemos, entretanto, como é pela visão do protagonista, tudo fica aberto às suposições. Essa abertura ou ambiguidade, percorre toda a obra, atingindo o ápice nos momentos finais. Quando Bentinho conhece seu filho, ninguém sabe ao certo o que é delírio dele ou o que de fato é verdade.
Está aí, o grande realismo sem ser realista, pois, de fato, há um pessimismo direto acerca do real, mas ao mesmo tempo, a descrição e construção  das cenas é metafísica, sem uma preocupação em traçar de modo determinista o que aconteceu e como aquilo levou ao final.

Influência

É importante notar que, mesmo Machado sendo classificado em duas vertentes (a romântica e a realista), sua obra é inclassificável. Existe uma estrutura pertencente a cada uma das escolas, mas diferente da maioria dos autores, ele não escreve apenas naquilo. Veja como analisei Dom Casmurro: há o realismo, mas ao mesmo tempo foge totalmente dos preceitos principais do movimento realista.
Onde quero chegar? Machado era um escritor a frente de seu tempo. Os seus retratos sobre a mente humana e a loucura antecedem os estudos da psicologia. A sua escrita sobre a alma humana é essencialmente existencialista sem nem mesmo existir Sartre. E tudo isso sem a necessidade de usar palavras extremamente rebuscadas ou enredos complexamente construídos.

Muito mais que histórias sobre a sua época, o autor escrevia sobre condições humanas, consequentemente universais. Por isso cada dia mais Capitu, Quincas Borba, Brás Cubas e cia, continuam atuais - pois quanto mais compreendemos quem somos, mais nos identificamos com tudo aquilo escrito por Machado. A maior ironia? Tudo isso vir de um negro parente de escravos que ascendeu da pobreza. Não estou querendo colocar nenhum mérito vitimista nele, mas há de ser curioso que em meio a tantos intelectuais, o maior autor brasileiro saiu justamente do povo.
Se você odeia Machado de Assis, peço com gentileza, por favor dê mais uma chance. Isso vem de alguém que tinha certo trauma e hoje em dia simplesmente adora estudar os escritos desse mestre. Espero que esse texto tenha aberto sua mente e lhe ajudado a compreender novas coisas. Machado morreu, mas continuará vivo através dos tempos. Pessoa vem e vão, histórias ficam gravadas no nosso imaginário.

El Psy Congroo.

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