quarta-feira, 10 de maio de 2017

Por que o final de How I Met Your Mother foi ruim


Muita gente odiou, muita gente amou e um pequeno grupo simplesmente ficou indiferente quanto ao final de How I Met Your Mother. Entretanto, apesar das considerações pessoais (já que How I Met é uma série sentimental que inevitavelmente mexe com as emoções de cada um), vou tentar explanar porquê o final foi tão ruim - longe do ódio, mas também longe do amor; na verdade, apenas uma falha na construção de narrativa e expectativa em cima das personagens. Claro, não sou presunçoso ao ponto de dizer que tudo o que está escrito aqui é a verdade absoluta - aliás, dependendo da sua perspectiva, pode encontrar muitas lacunas. Portanto, leia atentamente, concorde ou discorde, mas pelo menos tenha uma nova concepção a respeito daquilo que você achava "comum". Há muito para ser analisado, então vamos lá.

Atenção: este post obviamente tem spoilers. Esteja avisado.

Problema 1: Robin e Ted

Enquanto Ted e Barney são totalmente opostos, Robin tem uma dualidade interessante. Jornalista decidida com maneirismos masculinos por conta da criação, ela tem traços que combinam tanto com Ted quanto com Barney. A alma festeira, jocoza, insensível e rebelde, se assemelha ao playboy pegador. Já o lado centrado, organizado, idealista, que sonha alto e mesmo quando diz desistir continua correndo atrás daquilo que ama, combina perfeitamente com o arquiteto . Por isso vemos a todo momento, quando em relacionamento com um desses dois, conflitos. E não são meros conflitos passageiros, são conflitos referentes a personalidade de cada um; conflitos sobre quem são.

Com Ted vimos uma extensa balbúrdia, envolvendo desde ex-namoradas a maneirismos que irritavam um ao outro. O problema do personagem sempre foi a fantasia em excesso; a busca incessante daquela tal, como diria a clássica música do Br'oz, "prometida". Por muito tempo vimos como ele tentava se distanciar de Robin, mas sempre caía na teia do amor, indo e voltando, voltando e indo. Patinando para tropeçar e cair de cara no mesmo erro.
Parecia que inicialmente a história seria sobre Ted e esse enredo meio maluco, dele contando como conheceu a mãe dos garotos. A reviravolta, planejada desde o começo, é que ele não estaria contando a história sobre a mãe, mas sim sobre a tia que ele quer pegar de novo, completando assim um ciclo sobre acertos e erros, resultando inevitavelmente no amor. As crianças chegam a falar, "essa história não é sobre a nossa mãe, mas sobre a tia Robin". Bonito, não é mesmo? Claro, muito lindo e tocante. Mas caso você tenha uma memória no mínimo boa, deve ter percebido um problema: sim, a história não é sobre a mãe, mas também não é sobre a Robin. É sobre todas as mulheres que Ted Mosby pegou.
Portanto, a afirmação das crianças não faz sentido. Aliás, faz se você relevar as primeiras temporadas, principalmente a que ele namorou Robin. Existe um problema no meio; uma extensão desnecessária que simplesmente não tem foco, a não ser contar quem é a tal mãe. Ou seja, o fio da meada, mesmo que continue fraco em alguns momentos, é a mãe e a importância da série cai sob ela. Talvez Ted estivesse a usando como pretexto? Sim, mas vocês verão como isso cria um problema de expectativa e narrativa. Não a ideia em si, mas o desenvolvimento dela.
"Ah, mas o relacionamento do Ted com a Robin sempre foi esse vai e vem", você dirá. E eu concordo. Mas é um tanto quanto estranho que ela não tenha relevância (no sentido de paixão)  em momentos posteriores (principalmente estando com Barney). Sabe por que ela não tem essa relevância? Por que os conflitos já haviam sido resolvidos.

Vou usar um exemplo de fácil entendimento para tentar explanar o que é um personagem e o que são conflitos.
João é um cavaleiro que veio de uma ilha remota para tentar matar o dragão e assim roubar o baú do tesouro, conseguindo a recompensa que tanto almeja.
Quem é o personagem principal? João. Qual o conflito? Matar o dragão.
O conflito pode ser algo longínquo, que ainda vai acontecer, e se desmembra em outros tantos. No caso de How I Met, o conflito principal é a eterna questão: quem é a mãe? Esse é o conceito da série e aquilo que não só nos fisga, mas nos mantém vidrados por nove temporadas. Nessa equação complexa (que se fôssemos adentrar profundamente ficaríamos louco), entra Robin. Ela não é o conflito principal, mas um conflito que vai e vem, hora com mais intensidade, hora com menos intensidade.
Voltando para João, digamos que esse dragão não só seja um animal qualquer, mas um ser pensante. Nisso adentram sentimentos e perspectivas quanto ao mundo. Logo, o cavaleiro encontra o dragão e o enfrenta - é o atrito, mais conhecido como embate. Existem outras possibilidades além de um lado vencer, como os dois perderem ou os dois se sentirem vitoriosos; o conflito pode acabar, resultar em outros ou se estender (o clássico vilão que sempre volta). A perspectiva do cavaleiro é a recompensa e nessa história, ele fará de tudo para tê-la.
Depois de algum tempo, o dragão volta de novo, e acontece outro épico conflito. Aparentemente o cavaleiro vence. Só que o dragão volta mais uma vez, e mais uma, e mais uma, e mais uma... Na terceira aparição, já não existe o mesmo senso de urgência.

Nesse caso, o dragão representa Robin. Ela é um conflito que surge diversas vezes ao longo da história, de forma repetitiva; quase uma equipe Rocket. O pior? É o cavaleiro, no caso Ted, escolher deliberadamente enfrentar esse dragão (para alcançar o glorioso prêmio ele nem precisa enfrentá-lo, olha só). Em certo momento da série, você provavelmente se pegou pensando: “de novo? Chega desses dois”, pois a conclusão sempre era a mesma: a personalidade deles era bem diferente.
Porém, em algum momento, o dragão deixa de ser um problema. Depois de tanto conflitos, finalmente tudo é resolvido e de uma forma bastante satisfatória. Todos amadurecem e o cavaleiro percebe que não precisava ficar enfrentando o dragão, bastava contornar a caverna.

Problema 2: Robin e Barney

Se com Ted ficava claro quais eram os conflitos, com Barney é mais complicado. Como assim? Pois mesmo que eles existam, é difícil dizer qual o sentido deles. A diferença de Robin e Barney se dá principalmente pelos sonhos: ela almeja ser maior e por isso é independente. Já o playboy, vê as mulheres como pedaços de carne e não tem grandes perspectivas para o futuro. De resto, os dois combinam muito bem, com emocionais muito parecidos e um complemento orgânico. Veja Lily e Marshall: eles são o casal que termina a frase um do outro. Barney e Robin, do seu próprio modo, também são esse tipo de casal.

Entretanto, Barney muda, suprimindo quase que totalmente o conflito de casal. Ele passa a ter uma nova perspectiva sobre o mundo e sobre si mesmo. Muita gente critica essa mudança (e isso é papo para outro post), mas eu não sou desse time. Gosto da humanização do Barney, pois dá mais dimensões do personagem sem tirar sua caracterização. Ele vira romântico, mas do próprio jeito. Existe certa forçação de barra sim, mas é no limite; no ideal para uma ficção.
Sendo assim, depois dos conflitos com Ted serem resolvidos, Robin parte para os conflitos com Barney. Vai e vem, vai e vem, vem e vai. Até que tudo é resolvido, mas diferente do arquiteto apaixonado, o fim dos problemas resulta em um recomeço e aparente felicidade. Claro, não vamos esquecer que How I Met é uma série que tem certo realismo e buscar retratar as relações amorosas com fidelidade. Obviamente conflitos sempre vão existir (como veremos depois), mas a forma como um roteirista pode oferecer o produto final tem possibilidades de alterar a forma como a série é vista.

Problema 3: o casamento

Não me importo nenhum pouco da temporada inteira ser sobre o mesmo casamento. O problema não é a ideia, mas a execução dela. Alongaram a série de forma desnecessária e essa temporada é a maior amostra disso. Precisaram de MUITA criatividade para criar os episódios, entrando em tramas aleatórias e histórias que simplesmente não importam.
Temos então os seguintes conflitos que movem a série: Marshall e Lily a respeito do casamento deles (separados desnecessariamente), Robin e Barney também a respeito do próprio casamento, e Ted com o seu encontro iminente com a mãe (nisso acabam entrando os conflitos da Tracy).

Marshall e Lily são um conflito a parte, que também têm sua própria resolução. Aliás, talvez seja a melhor parte da temporada. Sentimos um gostinho forte de como seria se os dois se separassem. Só que estamos falando do casal perfeito, e por isso esse conflito tem prazo de validade, logo acabando. Sem contar que, apesar de roubarem a cena, eles não são o plot principal.

Robin e Barney apresentam conflitos normais, alguns até genéricos, de casamento. O problema maior é de Barney consigo mesmo, resultando em uma Odisseia para este se encontrar (vide o seu sumiço); e posteriormente a própria Robin indecisa quanto a tudo. São os dois que movem todas as subtramas ao redor, sendo objetos de catarse emotiva. Aqui temos mais fortificações e resoluções do relacionamento dos dois, que praticamente afastam os problemas. Lembra que eu delimitei os pontos em comum e contrários da Robin com o Barney? Então, com a mudança deste e mais ainda, os momentos dramáticos antes do casamento, eles viraram a imagem de um casal “perfeito” (dentro do que é ser perfeito no relacionamento deles).

Mas aí, surge outro problema: Ted CONTINUA apaixonado por Robin, e a moça oferece de bom grado sua companhia. Lembra do dragão? Ele está de volta.
É como se toda a experiência e resoluções anteriores não servissem de nada. Todos os rumos indicam para a mesma coisa e de forma forçada, pois simplesmente não existe uma reaproximação romântica dos dois. Os conflitos foram resolvidos lá atrás e eles acabarem ficando como amigos – aliás, essa amizade é fortificada de várias formas. Fica claro que o relacionamento do Ted com a Robin não funciona de forma amorosa, mas enquanto amizade, encaixa perfeitamente. E para ser sincero, eles nem são tão amigos assim, pois depois de um tempo não compartilham do mesmo universo. Arrisco a dizer que se não fosse os outros (e toda essa loucura de paixão), Robin e Ted não se sustentariam nem mesmo como colegas. Nós vemos essa clara diferença com Tracy. Ela não simplesmente gosta das mesmas coisas que Ted (a personalidade dela é diferente da dele), mas compartilha do mesmo universo e perspectiva a respeito do mundo. Os dois podem ficar horas e horas apenas conversando.

Mas okay, inseriram DE NOVO esse conflito. Agora ele será resolvido... Só que não. Tudo é apressado, Ted precisa se apaixonar pela mãe, que incrivelmente soa apenas como um prêmio de consolação, e Robin casar. A ideia de falar do mesmo casamento limita os cenários e as personagens, resultando em problemas não resolvidos.

Problema 4: o final

Então temos mil coisas acontecendo em uma temporada corrida, mas que se encerra para não ficar pior. Ted conhece a tão falada mãe e Robin e Barney se casam bastante felizes. Temos um “ponto final”. Todos os conflitos, mesmo aos trancos e barrancos, são resolvidos de forma satisfatória. Até que surge o que chamo de fanfic.
Não me importo com tramas pessimistas, aliás, eu adoro. Os contos que tendo escrever são sempre com finais tenebrosos e as minhas obras preferidas são aquelas duramente realistas. Quem me conhece, chega a reclamar da minha visão de mundo, muitas vezes nilista ao excesso. Só que o final de How I Met não me agradou nenhum pouco, não por ser “melancólico”, mas por ser didático.
Quando acaba o casamento, as resoluções ficam em aberto. Será que Robin e Barney serão felizes? Fica a cargo do espectador imaginar. Sobre a morte da Tracy, bastava inserir algumas cenas dela fazendo algum exame. Seria o bastante para deixar no ar se ela sobreviveria ou morreria. Mas não, os criadores da série não podiam deixar os personagens falarem por si só, eles precisavam dar a própria visão sobre o que aconteceria. Veja bem, existe uma clara diferença entre eu escrever o que os meus personagens são e escrever o que eu quero que eles sejam. Colocar um sujeito dito como de esquerda de repente se aliando a um partido de direita, mostra mais sobre a visão do autor, pois no mundo real um sujeito de esquerda não agiria desse jeito. Então eu não posso colocar um cara de esquerda fazendo isso? Pode, porém será necessário uma construção de conflitos para levá-lo a essa mudança. Tenho para mim que quanto maior as mudanças, mais conflitos necessitam serem trabalhados nas personagens.
O que acontece em How I Met? Uma sucessão rápida de acontecimentos que alteram drasticamente a história, mas não desenvolvem as personagens. Simplesmente vamos sabendo o que aconteceu, como se fosse uma fanfic. Fica claro que os criadores tiveram uma ideia inicial, se perderam e decidiram voltar para ela aos 45 minutos do segundo tempo.

Sim, a história ser sobre Robin coincide com, digamos, as três primeiras temporadas, mas ali no meio, há uma perdição absurda que já havia encerrado esse “caminho” de forma satisfatória. Contar tantos fatos em apenas um episódio para engrenar a história na concepção inicial (ao invés de ter trabalhado isso na temporada anterior), me parece uma presunção absurda, apenas para colocar a série em um ciclo “genial” a respeito de uma poética realista idealizada anteriormente, mas que não funciona mais. Em suma, How I Met Your Mother esquece de ouvir as próprias personagens para no final seguir os planos megalomaníacos pré-estabelecidos, mas sem se importar em trabalhar nada disso. Em um piscar de olhos Tracy morre e acaba o casamento de Barney e Robin. Essas são lacunas que agora abordadas, deveriam levar a respostas, pois do contrário são furos do roteiro. É fácil jogar as respostas para a imprevisibilidade humana. “Ah, mas a relação da Robin com o Barney sempre foi complicada”, sim, e tivemos dezenas de episódios trabalhando isso profundamente para levar ao aparente "final feliz"; não foi algo dado de bandeja. Não basta uma discussão qualquer dos dois ali, dizendo que não está dando certo, para falar que acabou. Se fosse para ser realista, seguindo tudo o que foi apresentado, de modo nenhum o final seria aquele.

Sendo assim, eis aqui o erro final de How I Met: ao invés de mostrar, a série resolve contar. O pior erro da cinematografia, que não cabia em uma série tão profunda quanto essa.

Conclusão

Se você chegou até aqui e ainda não entendeu o que eu quis dizer com todo esse papo sobre personagem, conflitos e desenvolvimento, é a sua última chance. Essencialmente eu estou falando de amadurecimento. HIMYM começou como uma série despretensiosa de comédia, para virar uma crônica sobre as mudanças da vida adulta. É o caminho do Ted, aos trancos e barrancos, não para encontrar a mulher perfeita, mas para ser uma pessoa melhor. Entende? A figura de Robin se trata de um conflito já resolvido, de outro Ted. E mesmo com a sua volta, na última temporada, temos a (brega) analogia do garoto com o balão. Robin e Ted provavelmente não dariam certo visto todos os problemas passados, mas Ted continua insistindo não por que a amava, mas por que ele era fissurado em tê-la (isso nem é interpretação. Robin literalmente sai voando da vida dele).
Repito mais uma vez: não há problema nenhum em ele ficar com ela - assim como o Barney ter uma filha. O problema é contarem isso em um episódio, contrariando tudo o que foi construído para dar lugar a uma ideia antiga, que não cabia mais na trama que foi desenvolvida.

El Psy Congroo.

Recomendação de leitura: post ótimo do site Judão sobre quase tudo o que eu falei aqui, mas como uma visão diferente (apesar da conclusão ser igual) - O último episódio de How I Met Your Mother não foi a única decepção da série

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