sábado, 27 de maio de 2017

Ideias conflitantes em Tokyo Ghoul


Faz alguns anos que eu acompanho Tokyo Ghoul; comecei no primeiro mangá e agora acompanho os novos capítulos do segundo, chamada de Tokyo Ghoul:Re. A história é bastante conhecida hoje em dia, porém não diria que isso acontece pelos motivos certos. Muitas vezes já me falaram que TK era só "mais um shounen de luta genérico" só que com mais violência. Não me admira essa fama  espalhar-se, porque a maioria das pessoas que entraram em contato com a obra o fizeram só por meio do anime, uma adaptação mediana que não realça bem as características mais singulares do enredo, afinal esse mangá é uma das histórias de luta que mais fogem da norma de como uma história de luta deve ser. Apesar da estrutura básica de shounen estar presente em seu início, o que faz Tokyo Ghoul se destacar é a importância da abordagem psicológica dada aos personagens e como ela complementa todos os acontecimentos, principalmente as lutas.

O começo de TK é tudo que você espera de uma história do tipo: um cara normal envolve-se com algum elemento fantástico e acaba ganhando poderes, porém a forma como isso acontece é diferente do padrão e já dá indícios de algo interessante, pois essa mudança é retratada de forma realista. Perder aquilo que te torna normal na sociedade é um choque, e o contexto trata a situação como tal, postura essa que se expande para praticamente todos os confins da obra, afinal Kaneki, nosso protagonista bundão da vez, reage como uma pessoa normal às diversas bizarrices que agora são parte do seu cotidiano. Ele se sente amedrontado, cansado e impotente; e essa é justamente a característica mais interessante da obra - a abordagem psicológica, que praticamente rouba totalmente a cena após Kaneki sofrer um trauma, esse que deixou várias sequelas na mente dele, o transformando em praticamente outra pessoa. Só após isso eu diria que Tokyo Ghoul começa de verdade, o que veio antes era interessante, boas lutas, dualidade e moral cinza estavam presentes, mas o prato principal é acompanhar a história tortuosa e realista de um personagem cheio de transtornos mentais e conflitos internos enquanto ele vai se deteriorando cada vez mais. É uma pena que lembrem Tokyo Ghoul por ser uma "história de lutinha" e não por falar de personagens complexos e profundos.


Essa abordagem psicológica que tanto mencionei é realizada com muito cuidado e de forma detalhista, praticamente sendo uma jornada por dentro da mente da pessoa em questão. Durante o trauma de Kaneki, por exemplo, o autor desenhou o pensamento dele através de cenários físicos, onde ele mostrava a identidade da pessoa conhecida como Kaneki sendo destruída aos poucos para  tornar-se algo novo. A jornada começa de forma amena, mostra o passado do personagem, as concepções que ele tinha sobre a vida, e tudo isso vai por água por abaixo enquanto ele lida com a situação atual. Nessa parte do enredo outra característica recorrente da obra é apresentada: o estilo artístico sendo usado como complemento fundamental  do texto, porque durante essas viagens mentais muito simbolismo e algumas das expressões mais interessantes que já vi em um mangá são empregadas. A imagem enfatiza e dá mais peso à situação pela forma surreal como nos é apresentada, assim como num livro as palavras de um autor podem dar um tom totalmente diferente a uma cena. Ishida Sui entende como usar imagens estáticas para ilustrar bem as coisas, essa é a vantagem da mídia dos quadrinhos, como não há movimento preocupar-se com os problemas enfrentados na hora de animar é um problema que não existe também, logo é viável colocar muito mais detalhes do que uma animação geralmente coloca, assim melhorando muito a representação de uma cena como podemos ver abaixo.

Repare que além de no mangá a cena ter muito mais emoção e detalhes há uma centopeia pequena ali no cabelo dele. Pode parecer pouco, mas durante praticamente toda o primeiro mangá a centopeia era o símbolo usado para representar a deterioração mental do protagonista.

Após isso, os transtornos do Kaneki vão progredindo junto de muitas coisas no enredo, acontece um evento grandioso no final da primeira parte e ela termina. Aí que começa meu primeiro conflito, pois a segunda parte praticamente realizou um reset no enredo sendo ao mesmo tempo uma continuação do enredo anterior. Inicialmente eu odiei totalmente, pois fiquei com a impressão de que tudo que havia sido construído até aquele ponto fora jogado no lixo, e meu primeiro conflito é esse - por que diabos o autor quis resetar uma história que já estava tão bem encaminhada? Até hoje não consigo responder essa pergunta e por muito tempo não tive muita coisa além de apatia para essa nova série, porém, ao continuar acompanhando, vi que as características mais importantes da primeira série estavam presentes, e ao longo do tempo praticamente todos os elementos anteriores foram reintroduzidos ,e a história foi continuada de onde ela havia parado - só que ainda melhor, porque além de manter o que era importante, a narrativa mudou drasticamente para um modelo muito mais interessante por basear-se na pluralidade de pontos de vista. No primeiro mangá o principal era psicológico do Kaneki, acompanhado ocasionalmente da perspectiva de mundo do Amon usada para construir uma dualidade ao mostrar os dois lados da história, além de ocasionalmente mostrar o ponto de vista de algum outro personagem. Por outro lado, em Re existe uma abordagem psicológica frequente de muitos personagens, criando assim muito mais complexidade e pontos de vista em uma história que já era cinza e complexa anteriormente. Ou seja, no final das contas, da forma mais estranha que consigo conceber, o autor conseguiu melhorar muito sua história sem descartar quase nada de antes. Hoje em dia eu acho Tokyo Ghoul:Re fascinante e ainda mais imprevisível e profundo que o anterior, muito diferente da minha experiência inicial com o novo mangá.


Outro aspecto diferente de Re é que além de vários pontos de vista, muitas coisas tendem a acontecer ao mesmo tempo. As vezes tem operações que são divididas em três situações diferentes simultâneas, e nesse contexto que começa o meu segundo conflito: tem muita coisa na tela e as vezes me sinto sobrecarregado com tanta informação. Entretanto, esse tipo de abordagem narrativa permite a criação de situações muito mais profundas e interessantes do que antes. Em alguns momentos, mesmo quando eu me perdia no mar de acontecimentos, a história ainda dava um jeito de prender minha atenção introduzindo algo totalmente inesperado na situação X, enquanto algo igualmente interessante acontecia na situação Y. É uma postura ambiciosa e perigosa, mas que também trouxe coisas muito boas à mesa, apesar de em certos arcos eu frequentemente me via esquecendo o que estava acontecendo em um lado, porque era muita coisa para lembrar e acompanhar semanalmente não ajudava.


O terceiro conflito está relacionado ao ritmo da história, que agora é muito rápido. No primeiro mangá o enredo fechava-se em histórias menores de pouco alcance contadas de forma lenta, em Re é o contrário, tudo se conecta numa teia enorme de acontecimentos que desencadeiam outros acontecimentos que terminam por desencadear mais acontecimentos, tudo acontecendo ao mesmo tempo e de forma rápida, o que as vezes me dava a impressão que essa história era uma bagunça gigantesca. Por exemplo, em poucos capítulos é revelado que o personagem aleatório que não se destacava nem um pouco é o grande vilão, e que na verdade existe uma gigantesca conspiração a qual ele está por trás, e agora ele vai tomar controle da organização X e depor os líderes antigos, que também eram membros dessa conspiração. Quando eu vi isso fiquei com um grande "?" estampado na minha cara; de onde veio tudo isso? Esse autor está maluco, só pode, e é justamente nessa confusão que nasce mais um conflito, porque passados alguns capítulos, o autor foi lá, tomou uma água, acalmou o ritmo, e após isso conseguiu desenvolver cenários fascinantes e explicar melhor essas maluquices introduzidas de uma forma que parecia aleatória, ou seja, de novo, no final, o resultado foi bom, mesmo que o caminho tenha sido tortuoso e confuso. Por conta disso fico em dúvida, esse estilo singular de fazer as coisas é uma qualidade que deveria ser apreciada ou a habilidade de uma pessoa que é muito talentosa em trabalhar em cima de seus erros? Sinceramente não faço a menor ideia.


"Re" introduziu muita gente, alguns dos personagens que hoje são meus favoritos da série, porém tem tanta gente ali que eu não consigo nem decorar o nome da maioria daquele povo. Eu lembro do rosto, mas não sei o nome nem características que definem aquela pessoa. Os personagens que tem ponto de vista ficaram muito bem desenvolvidos e esses se destacam, mas a ideia de expandir se sobrepôs a ideia de criar detalhadamente, como resultado temos muitos personagens sendo introduzidos rapidamente e sem muita explicação sobre eles. O autor até que tenta desenvolve-los, e as vezes consegue ao introduzir neles alguma coisa nova, uma característica interessante que chama a atenção e te vende a ideia desse personagem de forma rápida e concisa, mas no geral isso não acontece com muitos dos personagens novos. Percebi que para Ishida Sui conseguir fazer algo bom ele precisa de algum tempo para desenvolver as coisas e mostrar os diversos monólogos internos dos personagens, pelo menos um capítulo dedicado aquele personagem muitas vezes já é o suficiente. Isso não é um problema muito grande quando consideramos que tem personagens sendo desenvolvidos muito bem, mas reforça a ideia de que Re tende a sobrecarregar o leitor com muita informação difícil de absorver.


Sobre esses personagens novos, a adição mais interessante ao elenco na minha opinião é a Mutsuki, ou o Mutsuki, vou chamar de ela porque entendi assim por enquanto. Então, ela é um personagem que exemplifica muito isso que eu disse sobre o diferencial da história ser o psicológico, pois acho que tirando o Kaneki, ela é quem passa por mais transtornos mentais, e a forma como a conhecemos não é convencional também, pois no inicio ela é a mais normal do grupo; sua transformação demora, tem muito tempo para ser desenvolvida e no final teve um resultado espetacular, criando uma personagem difícil de entender que sempre levanta questões sobre ela, sendo a própria identidade sexual uma grande incógnita. Por razões que não mencionarei, Mutsuki é uma mulher que se veste como homem e quer ser tratada como tal, porém ela não faz tratamento para trocar de sexo e ainda mantém características muito femininas, além de certos comportamento questionáveis. Então qual o sexo de Mutsuki? Ninguém sabe, acredito que o autor deixa essa incógnita de propósito justamente para quem lê refletir sobre o que sabemos da personagem. Por motivos que não mencionarei, eu direi que Mutsuki é mulher, mas você pode interpretar Mutsuki como homem sem problemas também.


Por último vale ressaltar que o mangá tem algumas incoerências no roteiro, por exemplo, o Tsukiyama foi apresentado como um psicopata que gosta de comer os olhos de pessoas por capricho. Ao entrar no grupo dos protagonistas ele inicialmente ainda mantinha uma certa dualidade tendo tendêcias boas e ruins, já no Re ele virou outra pessoa; ele começa a instigar empatia, ele tem alguns capítulos totalmente dedicados a sua perspectiva de mundo que não é tão psicótica quanto foi inicialmente nos mostrado, sendo esses alguns dos melhores capítulos do mangá. Esse padrão de incoerência tende a se repetir em alguns pontos do enredo; principalmente com conceitos introduzidos já muito tempo, o autor desenvolve esses conceitos "esquecidos" de outra muito diferente da original, entretanto, no final esse caminho incoerente que foi tomado termina em uma construção muito boa naquele momento atual, mesmo contradizendo coisas que nos foram apresentadas antes, afinal de contas a profundidade do Tsukiyama do bem nem se compara ao estereótipo de psicopata que ele era.
 

Eu diria que Tokyo Ghoul é uma das obras mais injustiçadas da atualidade. Por conta de seu sucesso, pessoas querendo pagar de pseudohipsters taxam ele de ruim, enquanto a maioria que conhece a obra viu só o anime e não sabe porque ele recebeu atenção em primeiro lugar. Este post não é bem uma análise, mas um emaranhado de reflexões que eu tive sobre essa obra que eu acho tão difícil de definir que a palavra conflito sempre vem a mente. Por conta de toda essa complexidade, acredito que as pessoas deveriam se dar ao trabalho de conhecer o mangá antes de julgá-lo como "mais um anime de lutinha".

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