domingo, 2 de abril de 2017

A ficção científica altamente precisa de Encontro com Rama


O sci fi fascina não exatamente pela fantasia, mas pelo o jeito com que o inevitável é retratado - quase sempre é uma resposta a nossa realidade. Seguindo essa premissa, Encontro com Rama é uma visão extremamente realista do que aconteceria caso seres exóticos, vulgo alienígenas, nos visitassem. Ainda que o enredo seja um hard sci fi, se passando em um ano longínquo, 2130, tudo o que é descrito é bastante humano, com cada detalhe servindo para criar uma atmosfera imersiva. 
Para quem não está familiarizado com os termos, soft sci fi se trata de histórias de ficção científica não tão detalhistas, tecnicamente, sobre o seu "problema" em questão, focando mais no desenvolvimento das personagens e nas problemáticas sociais (O Homem do Castelo Alto é um bom exemplo). Já o hard sci fi, se trata de um exercício extremamente inventivo de uma nova realidade/problema, seguindo as regras da física - claro, sempre levando ao extremo. É de se admirar que Encontro com Rama faça parte do segundo tipo, um hard sci fi mais hard que o hard, com uma precisão absurda, mas que ao mesmo tempo seja uma "crônica" tocante sobre o simples encontro da humanidade com os resquícios de uma civilização. Não importa se o ano é 1972, 2017 ou 2130, este livro continuará sendo atual por lidar puramente com a descoberta; o choque do comum com o desconhecido. 

Na trama, um cometa, batizado de Rama, é identificado e sua rota traçada - 2130 será o ano em que ele passará próximo o bastante para que os cientistas possam averiguar se vale ou não a pena um estudo mais detalhado. Pois, para a surpresa de todos, é descoberto que Rama não é um cometa, mas uma singular nave. Seria esse finalmente o primeiro contato dos humanos com outra espécie? A nave Endevour é então enviada, cabendo ao comandante Nolan e sua equipe realizarem o primeiro contato.


Se você está acostumado com a ficção científica cinematográfica, simplesmente exclua da sua cabeça o que viu até agora - o livro de Clarke busca desde o começo ser extremamente preciso e crível, construindo a história com parcimônia. Situações megalomaníacas, que pendem mais para a fantasia e ação, simplesmente não existem. Porém, o grande trunfo dele é justamente o fato de ser comum e mesmo assim excitante.  Apesar de curto, em cada linha pode-se extrair muita informação, mas sem a necessidade de ficar horas decifrando significados.
Entenda, para uma pessoa sem muito estudo, a matemática, a física e a biologia, podem parecer amontados de problemas complexos sem sentido; mas geralmente, para quem ama essas ciências, é como o universo fala. E é exatamente essa paixão que Clarke transparece em cada descrição, arrebatando até o leitor mais ignorante por conta de sua didática. Se não entendemos determinada situação, acredite, é normal, pois as próprias personagens não compreendem exatamente o que está acontecendo.

Mas como Clarke consegue construir um enredo com tamanha precisão? A resposta é clara: ele se apoia na própria história humana. Depois de tanto tempo, já é possível prever as ações e reações. Adentrar uma arca de noé alienígena não é diferente de encontrar a tumba de um importante Faraó. Encontro com Rama não é apenas uma ficção científica qualquer, mas uma inteligente experiência, que une crença, essência humana, ciência e o desconhecido, para criar uma história sem estrutura exata. Veja bem, geralmente as narrativas tem uma cota definida de reviravoltas, que levam ao começo, meio e fim. Aqui, a narrativa soa mais como o diário real de um capitão (aliás, James Cook é bastante referenciado), com as reviravoltas sendo os próprias detalhes e pequenas nuances das descobertas.


O único "defeito" fica para a construção das personagens. Os que tem foco principal são bem interessantes, mas são tantas coisas acontecendo que não há tempo para sabermos mais de seus objetivos pessoais. Clarke, dentro do possível, tenta nos imersar nas diferentes perspectivas e de fato, consegue realizar uma conexão natural, porém ir a fundo nisso não é o seu forte e nem acho que deveria. Tanto que esse defeito vem com aspas, pois na verdade apenas acrescento que senti falta de visualizar melhor quem são esses tripulantes. Em muitos momentos eles até se parecem, com diálogos semelhantes. Mesmo assim, isso é diminuído por conta da interessante trama que os envolve.


Encontro com Rama é um livro curtinho, mas que merece ser degustado com calma. Cada linha é muito bem construída, com uma narrativa bastante 'clean', totalmente objetiva, e ainda sim profunda em tudo o que se propõe. É uma obra que serve tanto para crianças, quanto para adultos, exalando a paixão pelo universo. A maior comparação que eu faria seria com um filme, livro, série ou anime sobre esporte. "Como assim?" Uma produção sobre esporte tem que cumprir uma única exigência: fazer o leitor querer jogar determinado jogo, colocando-o na pele dos jogadores. Sendo assim, esse livro não é diferente - ficamos fascinados pelo desconhecido e entramos de cabeça na pele das personagens. Vale a pena se perder nessa singular aventura e visualizar, por conta das descrições precisas, cada pedacinho da nave dos Ramanianos, para no final sermos presentados com um singelo sorriso. O final é sutil, irônico e nenhum pouco intenso, mas extremamente impactante. Apenas uma questão paira no ar e ficamos perdidos nela: será que estamos sozinhos?

El Psy Congroo.

Nome: Encontro com Rama (Rendezvous with Rama)

Autor: Arthur C. Clarke

Ano: 1972

Gênero: ficção científica

Páginas: 288

Editora: Aleph

Nota: ★ ★ ★  ★ (100/100)


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