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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

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Daytripper, uma crônica sobre a vida contada pela morte


A morte é uma preocupação que aflige a humanidade desde que somos conscientes. Por sorte ou azar, somos os únicos seres com capacidade de perceber que estamos definhando aos poucos, podendo a qualquer momento termos nossas vidas encerradas (você vive para morrer ou morre por que viveu?). Este tema, tão profundo, não é nenhum pouco novo. Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das obras-primas de Machado de Assis lançada há 137 anos, já tinha como protagonista um morto escritor (não um escritor morto), que resolveu escrever sobre a própria vida. A abordagem, claro, era única, mas Machado, mesmo em sua época, não era totalmente original (ele mesmo se apoia em diversas referências que são citadas ao longo do livro) e sendo assim, Daytripper não é diferente. O tema até pode ser batido, mas o desenvolvimento da HQ é conceitualmente único, resultando em uma crônica poética sobre a vida contada pela morte, extremamente intimista em cada representação verossímil da cultura brasileira e, portanto, do ser humano.


Lançada em 2010 pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, Daytripper conta a história de Brás de Oliva Domingos, um jornalista que escreve obituários e tem a cada capítulo sua vida encerrada de forma diferente. Acusações de plágio a parte, percebemos já nessa pequena sinopse como o enredo é permeado por ironias: Brás escreve obituários enquanto morre em todo capítulo (aliás, temos sempre no final um obituário); seu nome, obviamente, remete à Memórias Póstumas de Brás Cubas; e por mais que a morte seja "personagem principal", é ela quem exibe a vida do rapaz, mesmo não sendo um ser (é apenas um fenômeno). Acompanhamos então todas as fases da vida de um ser humano e vemos diferentes perspectivas; caminhos que resultam nisso ou naquilo - o clássico "... e se?" que qualquer um já imaginou. 

Ao início, a morte serve apenas como elemento de punch line existencial. Enquanto Brás divaga sobre questões simples do cotidiano, de repente somos surpreendidos por um acidente, assalto ou qualquer coincidência plausível. O fato é: uma piada não tem a mesma graça quando contada várias vezes. Daí é que surge a genialidade de Daytripper - o conceito inventivo, que tem impacto pela surpresa, se transforma em uma forma de representar todas as fases da vida. Antes da metade do gibi já sabemos qual vai ser o derradeiro final e sendo assim, não existe mais reviravolta. O que interessa mesmo é como vai acontecer, e os irmãos Moon e Bá tem consciência disso, tanto que preferem tratar mais do íntimo; o comum, do que sustentar uma trama megalomaníaca. Não é de todo errado dizer que a premissa de Daytripper se sustenta por poucos capítulos, sendo apenas o chamariz da história - sua verdadeira consistência (e genialidade) se estabelece depois, podendo existir independentemente ao conceito inicial. Claro, seria outra história e teria outro viés, mas o que faz Daytripper ser Daytripper é o fato de nos conectar com o comum; uma crônica sobre a infância, vida adulta e morte.




O paralelo com Machado de Assis é explícito (os dois Brás são de família abastada, classe média alta e convivem com a "elite") e inclusive rende uma citação. Mas a semelhanças param por aí: o Brás da HQ é muito mais "plano", por assim dizer, com menos personalidade. Em determinadas obras, um protagonista "vazio" (releve bem as aspas) pode danificar o desenvolvimento, mas nesse caso é extremamente benéfico. Claro, Brás tem sim uma personalidade e seus próprios conflitos, que ganham força quando em contato com o pai, mas ele é simples demais para dizer que é um personagem tridimensional. Só que aí é que surge o grande trunfo - é justamente pelo fato dele ser vazio e pacato que nos identificamos com a sua história. São as situações que falam, não o sujeito em si. Então, vemos a nós mesmos em cada ação e momentos da vida de Brás, seja no término de um relacionamento que parecia incrível ou no nascimento do primeiro filho.
Deste modo, muitas vezes pode parecer que Daytripper é didático demais - e de fato, se analisarmos por certo ângulo, é. Mas eu vejo essa didática mais como elemento de narrativa primitiva do que exatamente um texto monotonamente expositivo. A poesia está ali e é simples, mas não dita o que você deve sentir - aliás, para os desatentos, vai simplesmente passar batido. Ou seja, é possível apreciar a história como uma junção de contos sobre a morte que não dizem muita coisa - se você está neste espectro, Daytripper será uma hq apenas muito bem colorida - e também como uma crônica para todas as idades, que usa de elementos básicos de narrativa infantil (ou apenas da narrativa dos gibis mesmo) para trazer a tona sentimentos complexos calcados na nostalgia. 
Quando Fábio Moon fala que essa história é feita de momentos silenciosos, ele não está falando do que está explícito nos desenhos, mas aquilo que está implícito. Só quem tem certa sensibilidade e experiência poderá apreciar esse diálogo íntimo nostálgico. Constato isso principalmente pelo fato de ter lido Daytripper quando lançou por aqui, em 2011, e simplesmente não ter entendido grande parte da "poesia" e referências do trabalho. Agora, mais velho e experiente, pude me relacionar melhor com todo o conteúdo.


Outra coisa interessante é o modo como a cultura brasileira é retratada. Ainda que a obra tenha sido publicada como uma minissérie para o público americano, o contexto é tipicamente brasileiro, seja os cenários ou as situações. Entretanto, os autores não fazem disso algo que poderia ser compreendido apenas por um grupo de pessoas, muito pelo contrário, expandem a identificação para todos. O contexto, por exemplo, de família reunida, cheia de primos e primas, tios e tias, todos juntos comendo e conversando, deve ser estranha para muitas culturas, mas está ali, a essência de família que todos conhecem. Dito isso, mesmo com a identidade brasileira, a obra tem "adaptações" para o público americano: é o caso do acidente da TAM de 2007, retratado no capítulo 6, que ganha o tom de um 11 de setembro que não existiu por aqui na época, mas que faz todo sentido ao representar o drama das personagens.


A arte é simples, com uma representação estilizada. Apesar de ter referências reais e ser calcado nessa realidade, Daytripper representa tudo de forma artística. Em alguns momentos, a hipérbole visual é usada para trazer a tona as mais diversas emoções - em suma, temos em cada quadro uma mistura do real e das sensações do personagem principal.
Coloco aqui em contraste visual Oyasumi Punpun, mangá de autoria de Inio Asano. Punpun tem em sua maioria a arte realista, porém seu personagem principal é um símbolo caricato que interpreta a realidade de forma figurada e caótica. Essa realidade figurada e caótica existe nos desenhos, mas diferente de Punpun, Daytripper não tem compromisso com a realidade, representando de forma estilizada, algumas vezes infantil, as personagens. Sendo assim, temos uma mistura de história visualmente pacata; extremamente simples em tudo o que apresenta, mas cheia de representações dos sentimentos mundanos, atrelados, claro, à vida cotidiana.
Seguindo então esse conceito, de ser simples enquanto traz a tona sentimentos complexos, há uma disposição interessante de quadros: geralmente existem poucos na página e eles se mesclam de forma harmônica para representar uma mesma cena. A paisagem em si não é o foco, apenas a representação das personagens, mas ela é usada com cautela e força. Existem vários quadros que se focam nos rostos e objetos, junto de caixas de textos - quando surge a paisagem, ela está ali com algum propósito, seja para representar o sonho maluco de Brás ou a atmosfera de Recife.
Por fim, a colorização de Dave Stewart é um show a parte. Ela casa muito bem com os desenhos de Fábio Moon, mas não existe apenas para preencher espaços; ela também faz parte da representação visual e conta a história de uma maneira única. É possível até mesmo fazer uma análise de Daytripper apenas pela forma como as cores são usadas. Quando, por exemplo, Brás viaja com o seu amigo Jorge para Recife, as cores são mais alegres e vivas, com tonalidades claras que remetem ao deslumbramento do novo. Agora, quando Brás se apaixona no supermercado por sua futura esposa, por se tratar de um momento reflexivo na cidade, o visual é predominantemente cinza; monótono, com cores fracas. No final, quando mais uma vez o nosso protagonista morre, o cinza vira obscuro, com tons fúnebres típicos de terror.


Daytripper não é só uma HQ criada para entreter, mas uma obra de arte simples que traz a tona muito da cultura brasileira, mesclada com reflexões silenciosas sobre a vida e a morte. Usando de um punch line criativo, temos diversas crônicas sobre diversos caminhos inesperados, que poderiam acontecer com qualquer um. Junto deste poético roteiro, há um traço estilizado com uma colorização magnífica, que se adéqua a cada momento, tornando o mundano em singular. Não se trata de como Brás irá morrer, mas de jogar luz em momentos que passam despercebidos no cotidiano e têm grande impacto em nossas vidas. Pode parecer estranho, a primeira vista, uma obra com o selo Vertigo não seguir a risca a cartilha para obras adultas (sexo, drogas e sangue), pois veja bem, ainda que impactante, as mortes de Daytripper são visualmente suaves. Tudo enganação. A HQ é mais adulta que muitas histórias de terror, mas essa constatação depende não exatamente daquilo que é apresentado e sim da percepção do leitor. Eu mesmo não gosto do caminho pós-moderno atual de mostrar qualquer coisa e jogar para o público entender; porém, há aqui uma mensagem a ser passada, não apenas uma interpretação em aberto. Mexer com a nostalgia de tantas pessoas, mesmo quando fala do futuro, não é tarefa simples. Ainda bem que Daytripper não é qualquer um e de certa forma, faz história na curta jornada brasileira dentro dos quadrinhos.

El Psy Congroo.
   
Nome: Daytripper

Autores: Fábio Moon e Gabriel Bá (colorização por Dave Stewart)

Ano de lançamento: 2010

Publicação: Vertigo/Panini

Gênero: drama

Status: finalizado (1 volume)

Número de páginas: 260

Nota: ★ ★ ★  ★ (100/100)

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