quinta-feira, 13 de abril de 2017

Beck, o melhor mangá sobre música

E rock and roll

Foi mais ou menos em 2010 que eu conheci Beck. Na época, eu estava no auge da minha pretensiosidade otaku, conhecendo grandes clássicos e olhando com olhos tortos qualquer pessoa que chamasse anime de desenho. Ao mesmo tempo, mas não menos importante, eu conhecia grandes bandas de rock, tais como Rage Against The Machine, Nirvana, Led Zeppelin, Beatles, Legião Urbana, Oasis, entre outras. Sabe aquele momento de descoberta adolescente sobre si mesmo, em que tudo é chato e de repente você passa a odiar a normalidade? Então, era esse o momento. Agora, imagine o impacto que Beck teve em mim, um rapazote metido a otaku rockeiro poeta, que de repente viu ali, na sua frente, o melhor de dois mundos? Mangá e música, unidos de forma única e incrível.
Eu poderia dizer que Beck teve impacto e tanta qualidade por conta da época, mas seria um erro. De lá pra cá li o mangá diversas vezes e em todas eu percebia algo novo que tornava a experiência melhor ainda. Beck não é só um amontoado de referências; Beck tem qualidade por si só.


Bom, caso você esteja perdido, vamos lá pois irei apresentá-lo a esta maravilhosa obra-prima.  
Beck é um mangá (e anime, mas segura aí que logo vamos falar dele), criado por Harold Sakuichi e lançado em 1999 na Shonen Magazine. Na trama, conhecemos Yukio Tanaka (apelidado de Koyuki), um tímido garoto japonês de 14 anos que simplesmente vive uma vida monótona. Tudo muda quando ele salva Beck, o cachorro de Ryuusuke "Ray" Minami, um guitarrista que viveu boa parte da vida nos Estados Unidos. É a partir desse contato que Koyuki vira amigo de Ray e consequentemente se apaixona pelo o rock.

Saiba que o mangá é grande, mas ao mesmo tempo curto. "Como assim?" - o ritmo dele é tão envolvente, que te faz devorá-lo. Você quer saber cada vez mais e por mim, as aventuras do Koyuki e sua turma durariam para sempre. É interessante notar esse envolvimento que a obra tem com o leitor, pois ela é extremamente simples. Geralmente, ao ler qualquer gibi, eu o classifico em um dos dois tipos: obra em que o roteiro é mais importante e as ilustrações personificam a história (exemplo: Watchmen, V de Vingança, Naruto); e obra em que o roteiro serve como mero condutor e o principal é a arte gráfica. Beck está no segundo tipo, sendo este um tipo mais artístico, que prefere mostrar como as coisas acontecem do que exatamente por quê. Analisando friamente, o enredo não tem grandes atrativos; algumas vezes soa até mesmo como uma novela mexicana cheia de coincidências. Mas a sua mágica não está aí.


Um mangá de esporte tem como principal elemento o movimento. É a representação verossímil que vai fazer o leitor reconhecer determinada ação e montá-la na cabeça, como se fosse um filme. Eis então que surge a questão: como fazer o mesmo em um quadrinho de música? Harold Sakuichi opta por focar então nas expressões das personagens, no simbolismo e nos movimentos. Os movimentos por si só não diriam nada, já que acabam por excluir o elemento auditivo. Okay, naturalmente ele já está excluso, mas existem formas de representá-lo e, portanto, focar apenas na ação em si, a representação gráfica pura pendendo para o realismo, provavelmente não teria impacto. Agora, ao colocar atenção especial nas expressões, o autor eleva a obra a outro nível. Essa atenção não está apenas nos momentos musicais, mas em todos, pois é preciso ter um contexto para haver relevância do singular. Se as expressões e simbolismos existissem apenas nos shows, não teríamos referências para entender o que as personagens estão sentindo. Por isso, as atitudes e ações se mesclam com o traço realista, que dá lugar à caricatura e símbolos perspicazmente inseridos para causar determinados efeitos. Pense bem: se você vê uma imagem que aparenta sujeira, a reação natural é repugnância. Sendo assim, se você vê uma imagem que representa alguém tocando uma nota de guitarra e sorrindo, a reação natural é imaginar que esse alguém esteja tocando uma música harmoniosa, talvez alegre. Amplie essa perspectiva ao máximo - isso é Beck. Um mangá que consegue te fazer escutar.
O resultado é interessante. Até hoje, Beck teve um anime e uma adaptação live-action - nenhum deles conseguiu transmitir metade da emoção e muito menos a qualidade musical do mangá. Bizarro, não é mesmo? A resposta é simples: ao transmitir sentimentos, Sakuichi nos faz imaginar o som do nosso jeito. Sabemos qual o conceito da música, mas claro, não a estamos ouvindo, portanto, tratamos de criá-la em nossas mentes. Consequentemente, a experiência é fantástica.


Deste modo, com a incrível habilidade do autor em retratar emoções, o enredo, que isoladamente eu disse ser "fraco", torna-se bastante complexo. Uma novela mexicana tende a causar riso por conta das situações extremas, mas uma boa novela mexicana, aquela que não precisa apelar para o galhofa, envolve até o mais racional dos indivíduos. Quando Nina, em Avenida Brasil, é enterrada e posteriormente consegue fugir de sua cova, não importa o quanto você odeie novelas, a aflição percorre em todos. Beck, ainda que não seja uma novela, tem o mesmos elementos narrativos por se tratar do comum. É aí que tudo se complementa: a carga dramática inserida em determinada situação, como, por exemplo, Koyuki sofrer bullying, explode nos momentos musicais e de ação. Todo o arco do Greatful Sound, um festival que os garotos querem tocar, é extremamente memorável por lidar com os conflitos comuns de banda, que aqui ganham dimensões ampliadas e têm o desenvolvimento extremamente envolvente.


Portanto, se fosse para dizer quem é o protagonista de Beck, eu diria que são os conflitos. Apesar de ser interessante "escutar" as personagens tocando, são os conflitos que tornam tudo especial. Assim, não só os shows ganham um tempero único, mas as próprias relações e apresentações das personagens. Chiba, o vocalista, se questiona a todo o momento qual o seu lugar na música. Koyuki ama o rock, mas muitas vezes não consegue exprimir sua própria identidade. Ray se perde em todo o seu ego de formar a banda perfeita e esquece por que realmente quer tocar rock. Maho se apaixona por Koyuki, mas ao mesmo tempo quer seguir uma carreira que envolve o contato com pessoas importantes. Percebe? Até as personagens secundárias tem algum conflito dentro de si, resultando em um encontro de universos diferentes. A atuação da banda Beck em um lugar que eles são obrigados a tocar é uma, a atuação da banda Beck em um lugar que eles sempre sonharam estar é outra. Não menos importante, é quando outras personagens, que tocam estilos diferentes, se chocam com os principais e percebemos diversas nuances que delimitam as singularidades e semelhanças. 
Quando é para ser cômico, Beck sabe ser. Quando é para ser dramático, ele também sabe ser. Mas a vida não é constituída de zonas divididas por temas, não é mesmo? Por isso, em um mesmo capítulo você pode cair na gargalhada e ficar extremamente emotivo com o rumo da história.

Sobre o anime

Olha, eu gosto muito da Madhouse, mas Beck não é uma boa produção. Talvez essa percepção venha por conta da  comparação com as produções atuais? Provavelmente, pois avaliando criticamente, o visual de Beck é datado (em comparação, Animatrix é anterior e é muito melhor). Claro, como é a Madhouse, continua sendo uma produção interessante, mas não a melhor da empresa e nem a que Beck merecia. As diferenças já começam por conta do traço: no anime temos um visual mais simples e até colorido. As misturas com o 3D são meio estranhas, não passando tanta fluidez como deveria. Mesmo assim, dentro do possível, a adaptação cumpre o seu propósito - o problema é ter como fonte um material tão profundo e envolvente. Quem leu antes o mangá, sabe como a animação tira parte da magia. Tem obras que só funcionam totalmente em sua mídia original; por enquanto Beck é uma delas.
A trilha sonora é ótima! Óbvio, não tem como comparar com as "músicas" criadas com o poder da mente, mas elas conseguem sim equivaler às expressões das personagens (seria galhofa na história todos ficarem maravilhados com determinada música e na hora da representação do anime ser algo "ruim"). 
Como sempre, a Madhouse não tem compromisso com a finalização e por isso, Beck termina abruptamente. Sim, é um defeito - não exatamente por terminar antes do que deveria, mas por claramente aparentar ter mais. Existe certa fidelidade em demasia, que faz com que o final seja um corte desconexo. Não a toa, muito do público do mangá surgiu após as pessoas assistirem o anime e perceberem a falta de algo mais.


Beck é uma deliciosa obra-prima que exala a paixão pelo o rock, seja pelas suas referências ou pelo arco dramático de cada personagem. O visual é lindo, exprimindo emoções indescritíveis, que só uma mídia como o gibi poderia passar. Talvez, pelo o tema, passe batido por grande parte dos amantes da cultura japonesa, mas garanto: vale a pena dar uma chance. Inicialmente, a história pode parecer monótona e até simples demais - mas não se engane, tem muito mais a ser descoberto nas próximas páginas. E como se não bastasse tantos elogios, o final é emblemático e deveras satisfatório, resultando em uma alta coerência narrativa cíclica. Quando terminamos, a reação instintiva é querer ler de novo.    

El Psy Congroo.

Nome: Beck

Autor: Harold Sakuishi

Ano de lançamento: 1999

Publicação: Shonen Magazine

Gênero: musical, slice of life, comédia, drama, shounen

Status: finalizado (34 volumes)

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