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Destaques

Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

A distopia do passado de O Homem do Castelo Alto

O que aconteceria se os nazistas tivessem ganhado a segunda guerra mundial?

Não é todo dia que vemos uma produção de ficção científica sendo realizada fora dos filmes e dos livros. Ainda que o gênero tenha alcançado um patamar superior na literatura e certa relevância em hollywood, em seriados é mais difícil encontrar alguma coisa decente (antes parecia ter um a cada década). O problema segue sempre o mesmo: ficções científicas geralmente tem enredos complexos, necessitando de atenção especial, e seu visual está ligado aos efeitos especiais. Então ver uma obra como O Homem do Castelo Alto, que vem junto dessa nova leva de obras de ficção científica (Westworld, Black Mirror, Stranger Things), já desperta a atenção dos mais atentos, principalmente quando se lê a sinopse. Quem nunca refletiu sobre o que aconteceria se os Aliados tivessem perdido a segunda guerra mundial?

E como se não bastasse ter em mãos um conceito deveras instigante, a produção decide enveredar por campos além da especulação, abordando múltiplas linhas temporais. Mas não se engane: esse mérito é mais do próprio autor da obra original, Philip K. Dick (o mesmo de Blade Runner), do que exatamente da série. Ela é ruim? Não. Todavia, precisamos conversar um pouco sobre desenvolvimento de personagem e como encheção de linguiça pode prejudicar um bom enredo.

Ps.: Não li o livro ao qual foi baseada a série, mas dei uma pesquisada  e percebi ideias deveras divergentes as quais irei comparar. Se alguém leu o livro, por favor me corrija.

Um Mundo Novo


The Man in The High Castle começa nos apresentando a uma nova realidade. Claro, nada é explícito, o que é ótimo, já que vamos descobrindo aos poucos o que aconteceu com o mundo. O deslumbramento dos momentos iniciais é justamente com esse conceito de "e se..." altamente plausível, criando desde já uma história única. O primeiro episódio, visto sob o aspecto geral, tem um ritmo diferente; típico da televisão. A trama tem começo, meio e fim e uma necessidade de usar um cliffhanger. Não sei exatamente qual foi o processo para a criação da série, mas eu diria que esse episódio foi produzido primeiro (um piloto), aprovado e depois o resto surgiu (diferente da Netflix que aprova o roteiro e daí por diante toda a temporada é criada). Sendo assim, o ritmo é destoante: se aqui temos uma trama simples, mas eletrizante, nos episódios seguintes a série vai prezar por acalmar as coisas, mesmo nos clímaxes. Em certos momentos isso é bom, pois dá uma representação crível dos acontecimentos, sem um drama em demasia, entretanto, deixa tudo meio opaco; uma lentidão desnecessária que poderia ser resolvida facilmente. Os diálogos não são tão interessantes e as personagens menos ainda - para completar, a direção não é criativa. Então ficamos ali, presos em uma normalidade de uma história que não conseguimos nos importar totalmente.


Juliana Crain toma o papel de protagonista. Pelo o pouco que eu li, o livro não tem um personagem principal, abordando várias perspectivas ao mesmo tempo. Aqui até existe essa noção de diferentes estradas percorridas que consequentemente culminarão em uma só, mas ela não é tão bem desenvolvida, havendo uma preferência pelo comum e fácil: criar uma heroína ingênua. Quando me deparei com a senhorita Crain até fiquei feliz - não é sempre que temos uma mulher como ponto determinante (some isso ao fato da história se passar nos anos 60). Mas essa felicidade acabou por aí - Juliana não é uma mulher forte e muito se deve a dois problemas: moldá-la sob o aspecto de heroína, ou seja, a típica jornada do herói que não cabe em uma história como essa, e tratá-la como sexo frágil. Logo no começo, sabemos que a moça adora cultura japonesa e pratica arduamente Aikido. Obviamente todo esse conhecimento serve para a personagem se sobressair - errado. Essa informação não acrescenta em nada à personagem, que a todo momento se vê refém de terceiros. É quase ridícula a sua devoção ao personagem Joe Blake, um sujeito que se fosse colocado como personagem principal, talvez rendesse um fetiche de rapazes que adoram enredos onde mocinhas se apaixonam facilmente por cafajestes.
Mas Blake é também um personagem ruim? Não, muito pelo contrário. Eu apenas diria que ele é pouco explorado. Temos ótimos momentos em que sua dualidade é colocada a prova e ele precisa escolher um lado. Entretanto, temos uma direção chapada que não se importa em ser criativa (pelo menos antes do episódio 8), dando um tom inexpressivo. O ator de Joe Blake não é lá essas coisas, soando como um bonitão teen qualquer, mas é perceptível que o sujeito é capaz de fazer mais - e esse mais não existe. Então não sabemos exatamente qual a sua conduta - o que deveria ser bom, porém, se torna ruim pelo fato dos conflitos não ficarem claros. 


Para completar essa triângulo amoroso temos Frank Frink, talvez o melhor personagem. Ele acaba ganhando mais destaque na metade e sinceramente não tem tanto tempo quanto eu gostaria - toda vez que sua trama é abordada, um sopro de renovação acontece. Eu poderia fazer uma lista de reações e decisões incoerentes de Juliana que são claramente uma forçação de barra do roteiro (Juliana como personagem não existe. Ela é um objeto para levar a trama adiante), enquanto Frank é o ponto humano interessante. Produto de seu próprio contexto, ele reluta em fazer parte dos rebeldes e ao mesmo tempo reluta em aceitar a realidade em que vive. Ele sabe que ambos os lados se utilizam de meios inapropriados para se beneficiarem. Para completar, é ele quem verdadeiramente é desenvolvido - Juliana fica durante os dez episódios em um festival infantil de indecisões, enquanto Frank sofre fisicamente e mentalmente. Crain não representa nada, mas Frink traz a tona um dos momentos mais tocantes da série, resultando em uma conexão emotiva com o passado.

Tudo e nada acontecem


Pode parecer paradoxalmente destoante, mas em TMITHC as vezes parece que mil informações estão sendo reveladas e ao mesmo tempo a trama não anda. Para ser sincero não há nem tantos diálogos; o problema é a direção e o tempo gasto em certos enredos. Por exemplo, a trama da Zona Neutra, onde Juliana conhece Joe, poderia ser encurtada. Qual é exatamente a importância dela? Tem tantos pontos desinteressantes que ficam vagando em si mesmos, que cheguei a cochilar. Só não dormi por que de repente, do nada mesmo, surge uma ideia muito interessante que atiça a percepção. Pena que logo essa ideia se esgota, ficando nesse ciclo. Talvez essa parte me soe fraca por que aparenta ser muito mais um drama romântico do que uma história de conspiração. Repito mais uma vez: Juliana é o ponto ruim dessa história. Joe poderia ser um personagem melhor (veja os momentos dele junto do Obergruppenführer Smith), mas é subaproveitado para combinar com a heroína. O mesmo acontece com Tagomi, o ministro do comércio, que decide contratar Crain (a necessidade também de encaixar a moça em todos os pontos é surreal) pois ele "sentiu isso dentro de si". Claro, não vou ignorar a ideia de múltiplas linhas temporais e como isso é importante - Tagomi acaba por ser no final o ponto de encontro dessa surrealidade - mas mesmo assim, não faz sentido nenhum a sua confiança em Juliana. Os roteiristas muitas vezes parecem presos num "beaba" típico de quem não sabe nem usar cliffhanger. 

A série brilha mesmo quando a protagonista é deixada de lado e o enredo foca principalmente nas conspirações. Nessa realidade, Adolf Hitler está paranoico com filmes, criados por um tal de Homem do Castelo Alto, que mostram como seria o mundo se os Estados Unidos tivessem ganhado a guerra (o nosso mundo) e outras coisas mais. Essa ideia, por si só, é uma ótima adaptação: no livro, as personagens encontram também um livro que conta o que aconteceu. Já que aqui estamos lidando com movimento, nada melhor que videos. Poucas vezes vemos o que são esses filmes, mas em todas é extremamente impactante. O conceito fica melhor ainda quando misturado aos conflitos, ou melhor pré-conflitos (praticamente uma panela de pressão), que envolve o Japão, a Alemanha, rebeldes e traidores do próprio Reich nazista. O plot em torno do Obergruppenführer John Smith é um dos melhores, que tem tudo para crescer e tomar o holofote da história.

Direção e atuações


No geral as atuações são boas, indo desde o mediano ao ótimo. Incrível mesmo acho que não tem, mas também não há nada ruim. Para mim os destaques ficam para: Rupert Evans (Frank Frink), Rufus Sewell (John Smith), Carsten Norgaard (Rudolph Wegener), Ray Proscla (Reinhard Heydrich) e Joel da la fuente (Chefe-inspetor Kido). 
A direção dos episódios é chapada; geralmente sem muita criatividade. Os planos são em cenários fechados, lembrando algumas vezes uma peça de teatro. Claro, obviamente isso se deve ao orçamento, que não é lá essas coisas (tanto que eu nem relevo o CG. Apenas na cena que Juliana mata um agente nazista. Aquilo foi horrível demais!), entretanto, temos momentos muito bons. Mais ou menos depois do episódio 7, a direção fica entre boa e ótima (não mais mediana).
Portanto, se analisarmos ao todo, a direção cumpre seu papel de representar, mas não empolga. Talvez isso se deve a pluralidade da produção: cada episódio é dirigido por um diretor diferente. Para completar, o mesmo acontece com o roteiro. É muita diversidade, e isso obviamente causa incoerência narrativa. Talvez seja por isso que certos momentos tudo está incrível e em outros, simplesmente chato. O episódio 9, por exemplo, é talvez o melhor episódio - ao ler a ficha técnica entendi o por quê. O diretor é Michael Slovis, o mesmo de séries renomadas como Breaking Bad e Game of Thrones. Ou seja, nas mãos certas The Man In The High Castle pode ser incrível. O mais acaba por ser então os cenários e figurino: um trabalho detalhista, altamente minucioso, que situa o espectador naquele universo por meio dos mínimos detalhes, seja os cartazes de fundo ou exibição de programas de tv.

Conclusão


O Homem do Castelo Alto é uma produção estranha, claramente uma montanha-russa, que aos poucos vai se estabilizando. É difícil até mesmo julgar os episódios, já que em um mesmo capítulo pode ter coisas incríveis e coisas totalmente mal desenvolvidas. Eu diria que o formato "Netflix" não funciona bem - é o mesmo problema de Desventuras em Série; o ritmo é meio bizarro mesmo. Se possível, assista aos poucos, pois assim será mais proveitoso.
A premissa em si consegue sustentar o enredo e consequentemente a nossa atenção. Para alguns, talvez seja difícil segurar o interesse, mas garanto, vale a pena. No final, ao se aproximar da ficção científica, vemos como a série brilha e encontra o próprio caminho. Há muito para se contado, o que pode resultar em uma boa história com começo, meio e fim. Resta saber até que ponto Juliana vai prejudicar a trama e deixará os outros personagens brilharem (ainda que eles brilhem mesmo não tendo o foco merecido).

El Psy Congroo.

Nome: The Man In The High Castle

Ano: 2015 (temp. 1)

Criado por: Frank Spotnitz

Episódios: 10

Gênero: drama, suspense, distopia, ficção científica,

Elenco: Alexa Davalos, Rupert Evans, Luke Kleitank, DJ Qualls, Joel de la Fuente, Cary Tagawa

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (60/100)

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