sábado, 11 de março de 2017

Por que Logan não é apenas mais um filme de super-herói

Último filme do carcaju amarelo é um passo corajoso que indica o futuro dos heróis no cinema

Não sou a pessoa mais apta a falar de HQ's - quando mais novo me interessei bastante e cheguei a acompanhar algumas, entretanto, em pouco tempo desisti. Muitas linhas do tempo e histórias infinitas não me agradam nenhum pouco. Para quem viveu nos anos 80 talvez seja mais fácil entender essas histórias, mas para um rapaz fruto dos anos 90/2000, pegar uma simples hq do Wolverine é uma lambança louca de conceitos ininteligíveis. Sendo assim, me foquei só nos arcos que me interessavam e logo conheci as graphic novels. Se eu não gostei de histórias infinitas, já devem imaginar o quão maravilhado fiquei com as graphic novels. Foi como se um novo universo me tivesse sido apresentado e dessa vez bastante coerente. 

Então, entrar em contato com um filme como Logan é uma dádiva maravilhosa, não só pelo fato de ser mais uma adaptação de um enredo adulto, mas o melhor de dois mundos. Há muito tempo, no mundo das hq's, temos uma mistura coerente de tramas realistas que abordam perspectivas complexas e o típico heroísmo de collant apertado. Se fosse para mensurar, eu diria que as séries da Marvel na Netflix, apesar de significativamente menores na proporção, representam melhor os gibis do que os filmes. No arco Guerra Civil, por exemplo, temos toda uma trama política profunda coerente com a nossa realidade bipolar de atrito entre direita e esquerda - o quanto disso podemos ver na adaptação cinematográfica? Bem pouco. 

Portanto, pegar um herói estabelecido nos cinemas e além do mais, carro-chefe do próprio miniverso (X-Men até nas HQ's é meio que uma mundo a parte), foi uma decisão extremamente arriscada. Obviamente, já tivemos adaptações de graphic novels, mas nunca uma que tivesse essa proposta. Watchmen, por exemplo, já era vendida como a história sombria de heróis que é; A Liga Extraordinária, mesmo com suas indecisões de roteiro, apontava para um público adulto; V de Vingança idem. O público massivo não tem ideia de que heróis comuns são mais profundos do que aparentam e que até seus queridinhos podem ser representados de outra forma. Assim como a vida real, com o acréscimo dos super poderes, existe uma infinidade de contextos, desenvolvimento e ideias.


Dito isto, é meio irônico que a editora responsável por "humanizar" os heróis seja a dona de uma fórmula quadrada arrasta quarteirão. Os próprios X-Men's, quando surgiram em 1963, eram uma bela crítica social contra o preconceito - desde o começo tinha conflitos puramente mundanos em cada edição. Você pode odiar o Homem Aranha do Tobey Maguire, mas ele levou essa essência humana às telas. Então é destoante estarmos em pleno 2017, uma época onde é fácil fazer efeitos especiais e o público se interessa por coisas nerds, e o "herói" que mais remete às hq's é um desbocudo tagarela de segunda linha. Parece que sempre que a Marvel tenta humanizar suas histórias (Homem de Ferro 3, Thor, Doutor Estranho e etc. Só Capitão América Soldado Invernal se salva), acontece uma confusão entre a fórmula mágica e o que de fato deveria ser esses heróis. É aqui que vemos a grande importância de Logan.


O filme do carcaju amarelo, em uma aparente decisão louca, assume 100% uma postura de tentar levar para as telas o que é o Wolverine. Sem fórmulas, sem histórias megalomaníacas - apenas um grande laboratório de desenvolvimento de personagem. Tanto que sinceramente não entendo o sucesso massivo - aliás, entendo: o grande público está ligado a imagem dos X-Men's sem entender direito o que está acontecendo. A amostra disso é minha própria mãe, que me mandou mensagem perguntando quanto tempo de duração tinha o filme. Respondi despreocupado, até que veio um estalo na minha mente e imediatamente mandei em caixa alta "NÃO LEVA O DANIEL".  Logo ela questionou sem entender nada, "Por quê?". Daniel é meu irmão e ele só tem 9 anos. Seguiu-se um textão onde eu expliquei como Logan era pesado e que não era para crianças; aliás, não só pelo sangue, já que garotos de 10 anos adoram sangue e cabeças rolando (é transgressor), mas pelo formato mesmo. Percebe? Esse filme é um grande foda-se para o público em geral e um abraço nos nerds. Você pode reclamar dos filmes anteriores do Wolverine e dos X-Mens, mas eles foram necessários para que esse único filme coerente existisse. A história é tão humana, que se tirasse os super poderes facilmente funcionaria como um dramático road movie. 


Sentado na poltrona do cinema, eu abri um enorme sorriso, mas rapidamente virei a cabeça para olhar a reação dos espectadores e cheguei a uma conclusão: poucos de fato entenderiam. O filme é lento, emocionalmente complexo, dramático e nenhum pouco heróico (no final temos um resquício disso, mas enfim). Seria como se uma produção indie colidisse com James Howllet, surgindo essa simples e sincera adaptação. Claro, a crítica vai vangloriar e os fãs mais ainda (alguns por "osmose"), mas o público geral, aquele que só tem Hugh Jackman como sinônimo de Wolverine, não entende nada. Isso é bom; isso é ótimo. Assim como depois dos Vingadores os super-heróis passaram a ser protagonistas, Logan é o passo decisivo para uma maior diversidade representativa desses heróis. Veja bem, não quero que o universo colorido cheio de piadinhas acabe, mas que haja espaço para outras histórias, que acima de tudo são baseadas em gibis sim, mas para um público adulto. É tudo uma grande evolução, um processo de acertos e erros, que agora abre os olhos das pessoas para a seguinte perspectiva: as possibilidades são infinitas.
Antes zombavam dos heróis, depois passaram a amá-los e agora chegou a hora de refletir. Para quem achou que era uma moda passageira, parece que não vai acabar tão cedo.

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