sexta-feira, 3 de março de 2017

Magi, o melhor shounen dos últimos tempos


Uma história que começou humilde e ao longo do tempo se tornou um dos roteiros mais ambiciosos que eu já vi. Conheça Magi, o shounen mais surpreendente dos últimos tempos.

Do que se trata Magi? Bem, Aladdin é mandando a um mundo o qual ele não conhece para descobrir quem ele é. Em suas jornadas ele conhece Alibaba, os dois passam por problemas juntos e se tornam amigos. Alibaba tem um sonho: conquistar uma dungeon e obter os tesouros que ela oferece para que assim ele deixe de ser pobre e obtenha uma vida melhor. Aladdin concorda em ir na incursão por motivos pessoais, e é assim que tudo começa.

Em seu início, Magi usa de uma estrutura típica de mangás shounen: te apresenta a um mundo com elementos fantásticos, humor, personagens com características fortes, mistérios e motivações que envolvem conquista e superação. No começo a história funciona como um shounen normal mesmo, sem nada que realmente se destaque e dê um diferencial para a obra,  o que a primeira vista me decepcionou pois havia ouvido falar que ele era um ótimo mangá. Porém, com o tempo, ele conseguiu superar quaisquer expectativas que eu tinha.















É no arco de Balbadd que a estrutura da história muda e ganha identidade própria.  Balbadd é um país em declínio, e Alibaba tem uma relação de responsabilidade muito forte com esse país. Querendo mudar as coisas, ele tenta organizar uma espécie de resistência contra o governo atual que aos poucos está sendo dominado por forças estrangeiras, porém não através da guerra, mas da economia. Para pagar a divida externa, Balbadd começa a oferecer aos poucos sua própria soberania como moeda de troca. Apesar de falar sobre uma espécie de mundo antigo alternativo, Magi trata de temas contemporâneos a todo o momento - é surpreendente um shounen abordar esse aspecto político tão evitado, creio eu pelo medo de entendiar os leitores mais novos.

Escravidão, economia, relações internacionais, abuso, desigualdade social, guerras, e até Deus são temas centrais desse arco, o que me surpreendeu foi que nenhum desses tópicos sumiu durante todo o resto da obra, tornando Balbadd um recorte de tudo o que a autora se propõe a fazer. Como se querendo ir contra a correnteza de histórias superficiais focadas em lutas, esse mangá brande uma bandeira de reflexão e conteúdo que poucas vezes foram vistas em um shounen. 


Magi na verdade é uma gigante analogia ao mundo moderno em quase todos os seus aspectos. E mesmo com tanta bagagem intelectual, isso nunca atrapalhou a obra; ela ainda consegue ser um shounen de lutas muito competente, tendo algumas pegadas e estilo muito criativo inspirado na cultura árabe. Por exemplo, a maior fonte de poder para os personagens são os djinns, que em palavras cruas são gênios da lâmpada mesmo. Os humanos vestem o poder do djinn sobre seus corpos dando a eles novas formas a lá super sayajin, só que com muito mais criatividade porque aqui não é só o cabelo que muda. Os djinn equips são usados para a autora viajar em seu character design, mostrando facetas novas e mais detalhadas dos personagens. Magi consegue manter esse nível de competência nos aspectos mais tradicionais de um shounen porque a história não é panfletária, as mensagens existem, mas além delas houve uma preocupação em manter um enredo interessante e coerente para poder apresentá-las.


O paralelo com o mundo contemporâneo é muito forte principalmente na questão da escravidão e preconceito. Não é típico do mundo antigo questionarem essas coisas e pensarem num mundo de igualdade, mas Magi não é típico em muitas coisas. Todos esses temas poderiam vir a se tornar tediosos com o tempo, assim com o discurso de social justice warriors. A chave do sucesso aqui, além da sutileza, é honestidade em relação aos temas abordados. Digo isso pois a obra entende que seus temas são complexos e podem ser interpretados de maneiras distintas por cada pessoa, ou seja, ela tende a não dar respostas definitivas para a maioria das reflexões que propõe. Isso que deixa tudo sempre novo, pois a cada etapa do enredo temos uma análise diferente sobre os tópicos centrais. O arco de Magnostadt, por exemplo, foi uma explosão intelectual para mim, pois ele dá um exemplo de  como nasce o fascismo em uma sociedade, deixando claro que o fascista comete atos errados, mas que ele ainda é humano, mostrando um senso de empatia como nunca vi em outro anime. Acabou por lembrar-me das questões extremamente relevantes e atuais sobre direitos humanos e punição dos criminosos.


O aspecto político também não fica para trás. A pluralidade de nações e ideologias é grande, porém, novamente o mangá trata essa questão de forma honesta, sem retratar nenhum povo como o povo dos vilões e esse o dos bonzinhos; não é essa a ideia do enredo. Temos nações inspiradas no Egito, Roma, países árabes, China, Japão e algumas outras que eu não fui capaz de traçar a origem. A construção de mundo é muito rica e cheia de detalhes sobre o que forma a identidade de cada nação e o que as leva ao conflito.
É perceptível que o mangá praticamente não tem vilões também. Salvo raras exceções, as pessoas lutam por motivos diversos, não por serem malignas ou mal intencionadas. Isso é muito interessante, pois todos os grandes jogadores tem seu momento no palco para dizer porque está ali.


No fundo eu gosto de pensar em Magi como uma obra inspiradora. De onde veio isso? Bem, para abordarmos esse tema, precisamos falar de como Magi fala sobre Deus. Além de toda a bagagem que já mencionei, a questão divina é mais do que essência para o enredo, pois um dos temas é a corrupção do Rukh, que leva a destruição do mundo. O Rukh é a substância espiritual que permeia toda a vida e os fenômenos naturais. O grande caminho do Rukh leva o mundo ao progresso, aqueles que amaldiçoam o mundo e só pensam em destruição tem seu Rukh tingido de preto e caem em depravação, sendo expurgados do grande fluxo.


Como isso é inspirador? Bem, porque mesmo sendo ateu fiquei fascinando com a possibilidade de um mundo assim existir, pois sabendo ou não da existência de Deus, contanto que você faça o que é certo o mundo irá progredir. Mas tirando a minha parte pessoal, o importante é reparar como o mundo progride: o Rukh floresce quando as pessoas vivem bem, onde elas tem esperança, onde elas sentem vontade de seguir em frente, pois no final das contas, o Deus de Magi nada mais é que um fenômeno, quem faz o mundo ser o que ele é somos nós, e o boss final de todo o enredo é conseguir levar o mundo ao progresso, e para isso precisam lidar com as questões que lidamos hoje no mundo contemporâneo. Ou seja, todos os temas meio que se ligam nesse contexto que parece religioso e cientifico ao mesmo tempo, onde pessoas diferentes lutam de maneiras diferentes para construir sua visão de um mundo melhor. No final das contas, Magi diz que um mundo em que as pessoas não se entendem está fadado a ruína. Eu sei como isso parece utópico, mas o fato é que o contexto é muito bonito e recheado de reflexões pertinentes ao nosso mundo, e mais uma vez essa questão que parece absoluta, afinal é o Deus desse mundo, é tratada de forma analítica. Cair em depravação realmente é ruim? Quais são as verdadeiras propriedades do Rukh? Ele é o destino regido pelo inconsciente coletivo ou aquilo que fazemos ele ser? O que é ser Deus nesse mundo? Nenhuma resposta fácil é mandada para o leitor, tudo o que vi até agora foi conteúdo que me deu mais perguntas ainda.


A proeza intelectual de Magi para um shounen é tamanha, que o arco da Reta final no mangá em sua grande maioria quase não teve lutas, ele foi um embate de ideias num mundo em constante evolução econômica e política. Demorou para acontecer a tal da luta do capítulo e quando ela aconteceu, apesar de ser muito boa, eu ficava pensando se ele iria continuar com o enredo político no capitalismo. Sim, tem até capitalismo nessa joça. Mesmo que não seja uma análise profunda, ainda é uma visão interessante sobre ele e os perigos do livre mercado.

Vale ressaltar que a habilidade como artista visual de Shinobu Ohtaka merece elogios. Além dos designs super detalhados do djinn equips e as grandes visões de cidades enormes do mundo antigo, algo que é memorável são páginas que evidenciam emoção. É algo difícil de julgar, mas basicamente é quando a imagem representa o texto de forma filosófica. Abaixo temos uma breve amostra da habilidade que ela tem de misturar essas ideias abstratas em meio ao enredo, e isso acontece em praticamente todo grande momento da história. E mesmo quando não há ideia filosófica, ela mantém esse estilo de arte para enfatizar acontecimentos da história mesmo. Por consequência disso, esse mangá tem paginas duplas muito boas.


Sobre os personagens em si, diria que eles são muito bem representados e crescem bastante com o decorrer do enredo. Diferente da maioria dos shounens, em Magi os eventos afetam e desenvolvem os personagens e o mundo. Seria difícil uma história que propõe tantas reflexões não conseguir ter personagens bons, mas as vezes acho uma pena que alguns personagens não aparecem tanto quanto eu gostaria, e alguns aspectos em si do enredo não são tão explorados também. A obra fala bastante de condições de vida muito ruins, mas nunca se aprofunda muito nisso. Mas isso não é algo necessariamente ruim, porque ele também não trata desses assuntos de forma errônea. O fato é que há tanta coisa para o enredo desenvolver que praticamente não há tempo de falar disso - pelo menos não no mangá principal, existe um mangá spin-off chamado Magi:Sinbad no Bouken que dá alguns detalhes que muitas vezes sinto fazerem falta no mangá principal, como mais detalhes sobre a escravidão e os países do mundo.


Outro aspecto que seria mais interessante de ver é o romance. Não tem aquele vai e vem eterno e idiota de um mangá como Naruto, por exemplo, só que também não há grande profundidade quando o assunto é retratar uma relação também, e de novo, atribuo a causa disso ao fato de que há muita coisas acontecendo ao mesmo tempo. Quando ele começa a falar mais desse aspecto romântico, começa uma guerra civil e o ritmo da história muda totalmente.

E por último vale mencionar que a autora tem um senso de humor muito pastelão e viajado ao mesmo tempo - sempre que mencionam um puteiro na história é melhor se preparar para zuera. De novo, isso me surpreendeu, porque esse lado mais sexual e impulsivo do ser humano tende a ser omitido em shounens, não que em Magi ele seja profundo, mas pelo menos está presente, nem que seja de uma forma cômica. Tirando isso, há o fato do Aladdin ser um tarado por peitos que várias vezes apalpa mulheres por aí em situações cômicas, a desculpa que o enredo dá é que ele usa seu status de criança para fazer essas coisas pois o mesmo nunca acontece com um adulto. Ouvi dizer que pessoas usam isso para problematizar Magi, para essas pessoas só quero lembrar quem faz a história é uma mulher, e por causa disso praticamente todos os homens importantes da história são lindos e tem o abdômen torneado. Isso quer dizer que os homens são objetos sexuais feitos para satisfazer mulheres devassas e pervertidas? É né, mas é claro que não, então por que diabos alguém vai querer problematizar Magi por zueras ocasionais com conteúdo sexual?. Se eu fosse falar da questão de gênero diria que Magi tem valor neutro, porque em nenhum momento ele se preocupa em abordar esse tema.


Magi é realmente o melhor shounen dos últimos tempos? Talvez não, eu não li todos os shounens dos últimos tempos, mas acho difícil algo conseguir me impressionar mais que ele. A história passa fácil no teste tridimensional que o amigo Maeister desenvolveu ao falar sobre Star Wars. Além disso, queria atribuir o sucesso dessa história a algo que é pouco mencionado quando se fala de mangá: planejamento. Existe toda uma mitologia no enredo que é desenvolvida ao longo de centenas de capítulos, mas a base dele começa em Balbadd e segue a partir dali sem se desvirtuar do tema central. Elementos introduzidos no começo da história são desenvolvidos muito tempo depois como relevantes. Eu percebi algumas vezes que algumas mudanças foram feitas aqui e ali para tornar o enredo mais complexo e coerente, mas estas não eram forçadas, porque a autora fez algo muito inteligente: ela desenvolveu vários plots ao mesmo tempo, deixando alguns mais nebulosos do que outros, de forma que os plots centrais pudessem ser usados no futuro como complemento para entendermos os plots "escondidos". O que estou querendo dizer é, a ideia central de Magi parece ter sido definida bem cedo e foi seguida a risca; uma história com muito conteúdo intelectual, muitas lutas e personagens estilosos seguindo numa estrutura que ao ser desenvolvida dá uma sensação de começo, meio e fim. Diferente de sucessos da Jump, por exemplo, que vivem de enredos dispersos que muitas vezes parecem não levar a lugar nenhum.

Only Darkness Will Remain.

Nome: Magi, O Labirinto da Magia

Autora: Shinobu Ohtaka

Ano de lançamento: 2009

Publicação: Shounen Sunday/JBC

Gênero: aventura, fantasia, shounen

Status: em publicação (volume 30 no Japão e 26 no Brasil)

Classificação etária: 16 anos

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