sábado, 18 de março de 2017

Machismo nos Games: a desonestidade intelectual da BBC

Matéria recente tem causado debate nas redes sociais. Será que o meio gamer é mesmo um covil permeado por trolls machistas? 

Tendo em vista uma reportagem recente da BBC Brasil, o Maeister me chamou para falar desse assunto porque eu sou meio que um "especialista" nisso aqui do blog. Já fiz uma série de posts sobre justiceiros sociais, mas infelizmente os mesmos conseguem ter uma gama tão grande de temas que não deu pra cobrir tudo. Só dando um aviso que não somos a favor de nenhum tipo de assédio aqui no blog, nosso ponto é que esse tipo de post tende a servir mais como propaganda ideológica com dados questionáveis do que uma visão holística da situação, ou muitas vezes são artigos que não se preocupam em fazer uma pesquisa boa, promovendo ideias erradas sobre o contexto em questão. Primeiro vou falar de estatística, em outro post vou falar da Anita Sarkeesian, mencionada no post como uma revolucionária "coitada" que sofre assédio exagerado.

Parece que essa notícia sofreu copy/paste em tudo que é canal jornalístico

Primeiramente, a BBC começa usando a carta armadilha "As mulheres são maioria no publico gamer, logo esse contexto não faz sentido", mas para esse argumento existe a carta de defesa "manipular estatística é fácil pra caralho". O fato é, sempre que usam essa estatística eles pegam o resultado generalizado, e não o especifico, gerando o problema em que no generalizado a sua tia que só joga Candy Crush no ônibus é parte dessa maioria gamer mulher. Não quero entrar nessa viagem de "vocês estão usando o rótulo gamer errado!" porque ele é algo superficial, mas existe uma diferença clara entre jogar seriamente e jogar como passatempo. A pessoa que só joga coisas free no celular está muito distante da pessoa que gasta milhares de reais num PC ou num console, mas esse tipo de estatística coloca todo mundo junto e devido a isso nasce essa bagunça da mídia com esse tipo de pesquisa.

Vocês não precisam confiar em mim, vou fazer algo que esse artigo da BBC não fez e colocar uma link para que vocês baixem a versão resumida da pesquisa, e vamos juntos analisar se estou falando bobagem.

 https://www.pesquisagamebrasil.com.br/pesquisa-2016



Esse é o perfil da maioria que joga no celular. Repare que mais da metade nunca compram jogos, ou seja, não estão no espectro sério de gaming como hobbie. Quantos desses são homens e quantos são mulheres? Até onde vi essa distinção não é feita no estudo, ele tende a ser bastante generalista nesses aspectos mais específicos, mas isso diz uma coisa já: essa pesquisa leva em consideração muitas pessoas que, como eu disse, estão na mesma situação da sua tia que só joga Candy Crush e jogos gratuitos semelhantes.


Outro aspecto muito interessante: só uma décimo de uma amostragem contendo dois mil e poucas pessoas se consideram "gamer". Como disse, esse é um termo superficial e não vou tentar defender o valor dele, entretanto, a pesquisa pouco se importa em definir do que se trata ser gamer, então vou interpretar como levar jogo como um hobbie sério, ou seja, 11% é o povo que gasta bastante dinheiro com isso. Quantos são homens e quantos são mulheres? A pesquisa não diz, até onde vi ela vem falhando bastante em explicar a distinção de hábitos entre homens e mulheres, tendo em vista esses gráficos só a estatística geral não basta mais. Mexer com estatística sempre leva a esse tipo de questionamento, logo é fácil ver que esse estudo não representa bem o publico que leva jogos a sério no Brasil.

 Quando se fala em "gamer" são esses jogos que aparecem na cabeça das pessoas, não Candy Crush

Por quê isso é um problema? Não me leve a mal, não estou dizendo que mulheres não devem jogar nem nada do tipo, o fato é que no nível sério de jogo homens ainda são maioria , porém a mídia usa estatísticas como essas para atacar esses jogos sérios dizendo que não representam bem o seu publico que é majoritariamente feminino, sendo que na verdade é exatamente o oposto. Por exemplo, no texto tem essa parte que fala sobre a Anita Sarkeesian.

"Em uma série de vídeos em que comenta o assunto, ela diz que, na maioria dos jogos, as mulheres não passam de prêmios, vítimas ou objetos sexuais. Em um de seus vídeos mais famosos, Anita detona o mais recorrente dos clichês das narrativas digitais: o da donzela em perigo."

Isso é uma mentira absurda. Não nego que aconteça, mas a avaliação quantitativa dessa declaração é surreal, a "maioria dos jogos" pra Anita não é nem 10% da indústria, não vou me estender muito nisso aqui pois a Anita é o tema do próximo texto, porém quem quiser saber do que estou falando veja este vídeo.


Cristina Sommers, ou melhor, doutora Cristina Sommers, a quem considero uma feminista séria até onde pude ver seus posicionamentos, diz em um vídeo sobre o sexismo nos jogos que ele é mal interpretado pela mídia. Ninguém releva o fato de que uma indústria que serve gostos masculinos tem em grande maioria publico masculino. Usando o exemplo dela para mostrar como isso é idiota, seria a mesma coisa se homens reclamassem do programa Oprah por privilegiar uma visão feminina das coisas.

Eu não estou dizendo pros jogos não serem inclusivos, mas nenhum jogo tem esse dever em primeiro lugar, assim como programas totalmente focados em mulheres também não. Mas as pessoas não entendem isso, porque estamos num momento de extremos, onde o importante no debate é vencer e não elucidar, onde mentalidade de torcida permeia todo o meio intelectual, onde se eu sou X e você é Y tudo que Y diz é automaticamente ruim. E o mesmo acontece com justiceiros sociais, que reclamam do fanservice totalmente focado em homens de jogos como Dead or Alive, mas nunca vi eles por aí reclamando do foco em mulheres em revistas de moda, programas televisivos ou quando aparecem homens sensualizados numa obra.


Inclusividade é legal, mas nem todo jogo é feito pensando nisso, e nem deve. Ficar forçando esse tipo de censura nos desenvolvedores é inflar o seu ego num nível absurdo. Então porque tem tanto foco no publico homem e não tem fanservice pra mulher? Na verdade tem, mas jogos específicos focados em homem são mais desenvolvidos porque ao que parece o publico masculino consome mais esse tipo de jogo sensualizado. Mas não é como se não existisse em nenhum lugar, o Japão tem um gênero chamado otome game em que uma protagonista feminina se envolve em histórias com homens lindos de diversos tamanhos, idades e tipos físicos ao agrado dela, muitos desses que vem sendo lançados no ocidente recentemente. Eles são jogos sexistas que menosprezam o homem, feitos para servir os desejos sexuais de mulheres? A segunda parte eles são, mas qual o problema? Mulher não pode ter produto sexual para ela? São santos que não sentem tesão com nada?.


Esse é meu maior problema nesse assunto, sempre batem na tecla errada. O problema não é sensualizarem a mulher, é se, existindo um publico feminino considerável em jogos hardcore, ainda assim não fazerem fanservice pra ela. E não levo isso a um extremo de "todo jogo tem que ter fanservice igual", não, esse é um assunto recente que vem crescendo conforme cresce a participação das mulheres no publico. Mas por favor, reconheçam que o mercado oferta o que está em demanda, se sensualizam mais a mulher não é nenhuma injustiça com o publico majoritário do produto.

Vamos conferir outra pesquisa:


Para terminar o papo das estatísticas, vamos falar de uma pesquisa americana feita pelo Pew Research Center, que provém muito detalhes que faltaram na pesquisa brasileira. O Pew se preocupou em distinguir entre os sexos quem joga de forma casual e quem leva jogo a sério. Repare que nas estatísticas gerais homens são um pouco mais que o dobro, enquanto acima dos 18 aos 29 eles são mais que o triplo do publico que se considera gamer.

A situação é a mesma no Brasil? Não temos certeza, mas nada indica que seria muito diferente também. Falta honestidade da mídia quando citam estatística, sempre duvidem quando usarem elas como argumento definitivo para justificar qualquer tipo de ideologia, e se possível tentem dar uma lida na pesquisa original. Vocês acham que a reportagem da BBC ainda é 100% coerente tendo em vista as imagens que eu mostrei?

 http://www.pewinternet.org/2015/12/15/who-plays-video-games-and-identifies-as-a-gamer/

 Vídeos Relevantes:


Conheci o estudo do Pew através desse canal. O foco desse canal é discutir questões polêmicas envolvendo jogos derrubando ideias exageradas e simplesmente erradas.


Sinceramente, não conheço muito bem o trabalho extenso da Cristina Summers, porém é importante vídeos assim serem lembrados, pois eles mostram que o feminismo não é uma entidade única e homogênea, existe coisa boa ali no meio, pessoas que analisam as coisas com honestidade e calma, bem diferente dos gritos e chiliques que hoje em dia são atribuídos ao movimento.


Esse é o melhor vídeo sobre fanservice que eu já vi. Ele propõe uma discussão interessante sobre a sexualidade masculina e como a indústria ainda evita esse tipo de coisa até certo ponto, mesmo que não tenham nenhum problema em sexualizar mulheres.

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