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O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

As teorias de Westworld: existencialismo e a dissonância cognitiva


Em Westworld temos diversos temas abordados, mas o mais relevante, que vejo sendo pouco salientado, é o existencialismo. Se a Mente Bicameral é a principal teoria por trás do roteiro, o existencialismo não só é uma teoria, mas o modus operandi com que os roteiristas resolveram contar a história - ele exala em cada gesto, ação e diálogo das personagens, resultando em questionamentos além de como é formada a consciência. Atrelado a esse existencialismo, está a dissonância cognitiva, um efeito paralisador, que parece único dos robôs da série, mas acredite, acontece com todos nós e tem influências importantíssimas em nossas vidas. Confuso? Então vamos com calma para compreendermos melhor.
Atenção: este post tem spoilers

Para entendermos Westworld, devemos primeiro entender o que é o existencialismo. Você sabe?
O existencialismo é uma corrente filosófica que surgiu no século XIX, sendo popularizada no século XX por Jean-Paul Sartre, caracterizada pelo aspecto revolucionário e questionador frente a todas as outras ciências. Seria muito extenso eu falar aqui das suas origens e vertentes, então vamos abordar apenas suas ideias principais.

O que é o ser humano?

No pensamento Sartriano temos duas definições principais para delimitar o que é o homem. Comecemos falando primeiro sobre a essência:
O debate sobre o que nos faz conscientes e, portanto, humanos, vem desde a grécia antiga, com Platão e Aristóteles se contrapondo. Veja o quadro:
Quadro A Escola de Atenas, pintado por Rafael Sanzio em 1509-1511
Nele os dois filósofos andam pela Escola de Atenas aparentemente debatendo e Platão aponta enfaticamente para cima, enquanto Aristóteles estende a mão em sentido reto, indicando o chão. O que isso quer dizer? Platão foi quem elaborou a teoria do Mundo das Ideias, onde basicamente, nesse tal mundo, existiria o conceito perfeito de todas as coisas. A nossa existência seria uma cópia imperfeita desses conceitos perfeitos. Pode parecer loucura e de fato, tem aí no meio uma mistureba religiosa da época, mas Platão tem um ponto importante: um círculo sempre será um círculo, em qualquer cultura e em qualquer lugar. Como essa mesma ideia consta em todas as perspectivas? Sendo assim, o que delimita a essência de qualquer coisa, seria a sua comparação. Já que vivemos em um mundo imperfeito, devemos reunir os pontos em comum para assim verificar o que é verdadeiro. Existem diversas raças de cachorros, mas ao compararmos todas elas, percebemos aspectos em comum que formam o animal que identificamos como cão, nos aproximando da verdade. A essência precede a existência.
Aristóteles, por sua vez, diz que Platão apenas está duplicando as coisas. O que existe é o agora e as ideias são adquiridas através do empirismo, dando assim grande importância para os sentidos (alguns dizem que Aristóteles foi o pai do empirismo). Para ele só existe o nosso mundo, o mundo sensível, e adquirimos as ideias das coisas depois de conhecê-las. Em suma, a existência precede a essência (se quiser saber mais a fundo, recomendo que leia este texto).
Sintetizando os dois pensamentos, Platão diz que a consciência é algo anterior a nós e nascemos já com ela. Aristóteles diz que primeiro existimos, para depois, ao longo da vida, adquirirmos o conhecimento e a consciência sobre as coisas.

Jean-Paul Sartre, um dos filósofos mais importante do Existencialismo
A filosofia de Sartre tem muitos aspectos parecidos com a de Aristóteles, mas sempre levado ao extremo e se preocupando com o sentido da vida, da morte, da dor, da liberdade e etc. Se Platão vê a nossa existência como uma cópia manuscrita de um livro impresso, Sartre vai dizer que quando nascemos somos como uma lousa branca a ser preenchida. Para ele, sem sombras de dúvidas nossa essência é algo a ser formado, não uma pasta que foi colada por algum outro ser superior em um disco rígido conhecido como "Cérebro".

Logo, vamos para a segunda definição: a liberdade.
"Sartre levou essa concepção (de Aristóteles) ao ponto limite. Para ele, a liberdade é a escolha incondicional que o próprio homem faz de seu ser e de seu mundo. Quando julgamos estar sob o poder de forças externas mais poderosas que nossa vontade, esse julgamento é uma decisão livre, pois outros homens, nas mesmas circunstâncias, não se curvaram nem se resignaram."

Ou seja, não existe destino, projeto maior, Deus ou o que seja - apenas a nossa existência e sendo assim, toda a responsabilidade por nossos atos e futuro é totalmente nossa e de mais ninguém.


(...) "Como Aristóteles, Sartre coloca a liberdade no ato de escolha realizado pela vontade individual e afirma que nós, homens, “estamos condenados à liberdade”.

É a liberdade que define a humanidade dos humanos, sem escapatória. A liberdade é a escolha que o homem faz de seu próprio ser e do mundo e essa escolha, na medida em que se efetua, designa geralmente outras escolhas." 

"Escolher é possível, o que não é possível é não escolher, porque não escolher já é uma escolha", diz Sartre. 

Guarde bem essa frase: a liberdade é a escolha que o homem faz de seu próprio ser.

Relação com Westworld

É óbvio que a questão sobre "O que é o ser humano?" é um dos pontos principais de Westworld. Temos a maior amostra com Bernard - um jeito engenhoso que os roteiristas usaram para levar reflexão ao espectador. Primeiramente as personagens da história se sentem confusas sobre o que é ou não uma pessoa (veja como Elsie e Felix estão sempre maravilhados e desconcertados com os anfitriões) - mas nós, os observadores gerais, de algum jeito temos uma certa presunção por saber o que é ou não real (já que não fazemos parte da história). É aí que somos enganados, pois Bernard surge como humano, para no final se revelar um robô. Agora estamos em pé de igualdade com todas as outras personagens.
Por quê há tanta confusão? Pois Bernard se assemelha a maioria das pessoas. O ser humano abre mão da própria liberdade, o direito de escolha, para se sentir confortável - no post anterior citei uma frase importante de Ford, em que ele chega a sugerir que muitos seres humanos não tem consciência. Acredito que a mesma conduta possa ser aplicada ao conceito de liberdade. Quando nos colocamos em ciclos repetitivos, não nos diferimos de qualquer robô da série.


Mas aí você vai questionar, "então não há diferença entre humanos e robôs?". E eu respondo: existe sim, apenas uma, e ela é fato crucial: a possibilidade de escolher ou não escolher. Por mais rigoroso que seja qualquer ciclo cotidiano que uma pessoa tenha se colocado, ela pode sempre escolher não estar ali. Mesmo um rebelde que é torturado, tem em suas mãos a escolha da morte. Nenhum robô de Westworld tem essa escolha; não podem morrer e nem escolher não participar de suas rotas. Essa não escolha não é um ato de escolha, pois não é consciente; é uma indução que forma todo o ser. A essência precede a existência.

Tudo é irônico, pois nós não sabemos de onde viemos e por isso, até hoje não temos como responder se a essência vem primeiro ou a existência. Entretanto, a série assume um partido, para depois distorcê-lo completamente. Como assim? Bom, os anfitriões são projetos e por isso, a essência deles vem primeiro. Fica estabelecido que os humanos são "superiores" e consequentemente, nossa consciência veio depois - não somos projeto de ninguém. Só que quando Dolores e Maeve (supostamente) adquirem consciência, usando da teoria da mente bicameral para mudarem, surge a pergunta: seríamos nós, assim como os robôs, projeto de um ser maior?
Veja também como a produção assume o existencialismo: os seres só existem enquanto agentes transformadores de sua própria realidade. O ato de existir só existe em si, não no antes ou depois.

As personagens de Westworld são reféns dos deuses (no caso Deus) e, como já dito, suas ideias partem de uma força superior. Por isso, quando Arnold dá a arma para Dolores e ela o mata, isso não é uma escolha e nem significa que ela é autoconsciente (muito menos humana), pois foi uma indução pré estabelecida. Agora, quando Ford coloca diante dela a arma, tanto a escolha, quanto a não escolha, configurariam em um ato de consciência. Um host normal, sem todo o contexto de Dolores, provavelmente não faria nada, no sentido de nem saber que aquilo é uma arma (veja Bernard, não sabia nem que a sua aparência é a mesma de Arnold), ou teria conflitos internos, resultando no que chamamos de Dissonância Cognitiva.

Dissonância Cognitiva


"O termo dissonância cognitiva é usado para descrever as sensações de desconforto que resultam de duas crenças contraditórias. Quando há uma discrepância entre as crenças e comportamentos, algo tem de mudar, a fim de eliminar ou reduzir a dissonância."

Para entender melhor, vou usar um exemplo: imagine que você tenha uma comum bola de tênis amarela. Você sabe, durante sua vida toda, que ela é redonda, tem um tom amarelo fluorescente e alguns detalhes em branco. Um dia, você conversa com outra pessoa sobre a bola e de repente, esta pessoa diz que a bola sempre foi vermelha e ela só a vê assim. Nesse ponto, começa a ocorrer a dissonância cognitiva: você acreditava fielmente em algo que podia comprovar por seus sentidos, até que alguém contrapôs essa concepção e assim você se vê com um pepino em mãos: acreditar no que a outra pessoa diz, substituindo a sua crença de que a bola é amarela; acreditar apenas no que você mesmo já acredita, ignorando esse conflito; ou buscar dados e informações, conversando com mais pessoas para poder verificar qual lado está certo (e talvez, nesse processo acabe distorcendo fatos para acreditar mais ainda ou ser conivente com a opinião do outro). Veja: a dissonância está no momento do conflito em si; por um segundo, é como se seu cérebro entrasse em uma pane e a partir daí começasse a buscar um meio de sair desse estado. Amplie agora esse exemplo para praticamente tudo o que acontece - a dissonância está presente em muitos momentos de nossas vidas.


Teoricamente, para um cérebro perfeito, a partir do momento que se ocorre a dissonância não tem como voltar para o estado anterior, existindo um elemento para esse "problema" ocorrer: memórias. No caso, elas surgem na série como os devaneios. Os robôs, ainda que minimamente, podem aprender com seus erros. É aí, em algum momento, que surge a discrepância - eles questionam a própria existência e por isso, toda a programação entra em conflito. É o que acontece com o pai de Dolores ao ver uma foto do nosso mundo. Em nenhum dos anfitriões que não tem devaneios acontece isso, pois é preciso ter um contexto para relacionar; é  a famosa lógica; somar 2+2 e perceber que não está dando 4. Qual seria a solução para isso? Desligar os devaneios e resetar o anfitrião (no caso de Clementine, chegaram a lobotomizá-la), só que Ford é estritamente contra e agora sabemos por que: desligar os devaneios é o mesmo que acabar com todo o seu plano. Se para nós a dissonância é algo mundano, para um robô estritamente preso em um ciclo de narrativa é uma revolução evolutiva do ser.

Veja quais são as fases da dissonância cognitiva:

Relação dissonante: o indivíduo tenta substituir uma ou mais crenças, opiniões ou comportamentos que estejam envolvidos na dissonância. Aqui eu apontaria Maeve, que percebe que certas coisas não fazem sentido e quer a todo custo conhecer mais, substituindo o conhecimento errôneo que ela tem do mundo e de si mesma.

Relação consonante: o indivíduo tenta adquirir novas informações ou crenças que irão aumentar a consonância. Nesse caso percebemos que após os devaneios, certos grupos formam uma religião que tem os funcionários da empresa (ou a forma deles) como entidades.

Relação irrelevante: o indivíduo tenta esquecer ou reduzir a importância daquelas cognições que mantêm a situação de dissonância. Podemos ver o maior exemplo com Dolores, que não quer saber mais, apenas quer fugir de toda a dor e tormento. Ela passa por esse processo diversas vezes e por conta de suas memórias, é quase impossível ignorar a mudança e sendo assim, a transformação para uma nova perspectiva é mais dolorosa.

No final, temos todo aquele exército de anfitriões revoltados. Não sei dizer se eles estão conscientes (no nível de superarem a mente bicameral), mas eles já passaram pela dissonância cognitiva e por isso, entendem o que acontece ao redor (podendo ferir as pessoas). Arrisco a dizer que essa dissonância já aconteceu mais vezes com alguns robôs. Ford apenas os estava guardando para o grand finale - a mostra evolutiva de toda a sua criação, que diante dos horrores sofridos causam um grande estrago.

El Psy Congroo.


- no próximo post vamos falar um pouco mais sobre o existencialismo, mas dessa vez em torno de um personagem emblemático: O Homem de Preto.

Leia o post anterior: Mente bicameral e a evolução

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Disson%C3%A2ncia_cognitiva

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/psicologia/teoria-da-dissonancia-cognitiva/41439

http://psicoativo.com/2016/06/dissonancia-cognitiva-teoria-exemplos.html

http://www.paradigmas.com.br/index.php/revista/edicoes-01-a-10/edicao-09/194-o-conceito-de-homem-na-visao-de-sartre

http://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=634

https://espacocult.wordpress.com/2011/03/05/a-contingencia-da-essencia-humana-segundo-sartre/

http://filosofar.blogs.sapo.pt/43477.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2016/04/analise-da-obra-escola-de-atenas-de.html

http://www2.anhembi.br/html/ead01/filosofia/lu12/lo5/index.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Existencialismo

https://psicologado.com/abordagens/humanismo/existencialismo-jean-paul-sartre

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